A Oeste Nada de Novo - amizade e tragédia em tempo de guerra


É talvez um dos mais fortes retratos literários dos horrores da guerra e da pressão psicológica e física exercida sobre quem nelas combate, movido por ingénuas convicções pessoais, por avisos de alguém superior, ou porque vêem no conflito uma oportunidade bizarra para mudarem para melhor as suas vidas. «A Oeste Nada de Novo» é Erich Maria Remarque a contar a sua experiência na I Guerra Mundial através das suas personagens ficcionais, que se tornam mais próximas de nós do que qualquer visão histórica e factual do que acontecia nas trincheiras. É impressionante também como uma obra com tantos anos e que está situada numa época específica e num conflito específico, consiga ainda ser uma autêntica bomba, emocional e arrasadora, para os leitores da contemporaneidade. Talvez haja mais realismo em «A Oeste Nada de Novo», e nos diferentes costumes e hábitos dos seus personagens, sobre a guerra na atualidade do que qualquer livro da nossa era. Porque Remarque não escreveu um livro a criticar uma só guerra, mas a inutilidade de qualquer combate, e da perda da ingenuidade de um grupo de jovens rapazes que, de tão habituados estão aos dramas, às mortes e às tragédias que vivem nas trincheiras e noutros locais, apercebem-se que dali já fazem parte e que nunca conseguirão livrar-se daquelas marcas.

Remarque não se preocupa com censuras, nem atenua a sua linguagem e as situações que tão habilmente narra, com subtileza e, ao mesmo tempo, um choque demolidor. O autor atira todos os pormenores das tragédias dos combates ao leitor, como uma autêntica metralhadora que reage não para destruir mas, ao contrário de todas as fracas mentalidades que vêem no conflito armado a infalível solução para as diferenças da Humanidade, dar a entender que nada do que ali se passa tem qualquer coisa de agradável ou de patriótico, ou de poético, ou de refrescante. O livro foi publicado em 1929, onze anos depois do final da I Guerra Mundial. Adolf Hitler, pouco tempo depois, proibiria a sua circulação para não ser questionado em relação à ideologia que começava a impôr na Alemanha, não encontrando forças de oposição à sua política irracional e desumana. 

«A Oeste Nada de Novo» é um alerta para o passado, para o presente e para o futuro. Um livro perturbante e uma experiência aterrorizante e palpável sobre as ilusões da noção da guerra e as desilusões trazidas pela guerra real. Obra de linguagem simples, mas repleta de significado e de assombro, que joga com o leitor, que se apercebe não estar perante um simples livro de guerra como tantos outros o são. Sem prever que iria haver uma II Guerra Mundial, Erich Maria Remarque dá-nos apenas uma pequena amostra, mas absolutamente espantosa, sobre todos os males que giram à volta da destruição, do caos e da desorganização social, familiar e política trazidos pelo conflito. Nesta guerra e em todas as outras. Talvez se possam evitar mais desastres humanos como este se os grandes líderes que por aí andam pegarem neste livrinho, e deixarem-se levar pelas suas palavras, pelos sentimentos de Paul, Kat, Tjaden e companhia, e pelas memórias que Remarque reconta em livro, atribuindo um pequeno toque ficcional, obviamente, mas que não retira nenhum pingo de credibilidade, e de realidade, a esta narrativa. Um livro precioso, e um dos melhores que já li até hoje.

Comentários