Parem de criticar, e vejam os Clássicos!


Dou uma olhadela às estatísticas que o Blogger me fornece sobre os quase cinco anos de existência da Companhia. Olho para o top 10 dos posts mais lidos e apenas dois são críticas de Cinema. Uma delas é «Obrigado por Fumar», que se encontra no sexto lugar da contagem, e um pseudo-texto que escrevi sobre os dois primeiros «Balas e Bolinhos», na décima posição.

Procuro mais críticas, não as encontro neste top. Quando acabo de escrever uma nova opinação e a partilho nas redes sociais e em fóruns selecionados, espreito o impacto que a postagem tem nos leitores. Apenas as que versam sobre filmes mais recentes (até as que publico no Espalha Factos e que, aqui no blog, apenas coloco um excerto com o link para se ler o texto integral) conseguem arrecadar mais visualizações. Mesmo as dos "filmes em 60 segundos", que demoro menos de um quarto de hora a elaborar, estão entre as mais lidas, principalmente se forem filmes que toda a gente já viu, como «A Caça» e o segundo «Senhor dos Anéis». Podem nem ser sobre grandes fitas - há apenas um fator dominante, o fator-tempo. Mais arrepiante é que não se trata do tempo propriamente dito, mas tal como as notícias, apenas interessa a muitos leitores saber dos filmes que estão na berra naquele preciso momento, e que são esquecidos meia hora depois de estrearem. 

Porque é que as pessoas continuam a desprezar os filmes clássicos, ou até, obras que têm pouco menos de dez anos de idade (sim, porque nesses casos já estamos a falar de verdadeiras "antiguidades arqueológicas")? Qual é o medo dos espectadores em relação ao preto e branco, aos novos horizontes que os autores clássicos trouxeram e que continuam novos mesmo que se façam mil e uma renovações na atualidade?

Não venham com questões de educação, de tolerância, de que "A culpa disto tudo é o sistema". Em parte é, é verdade, mas a culpa disto é das pessoas que, tal como desprezam as pessoas mais idosas e tal como espezinham tudo o que não seja do seu tempo como "isto não vale a pena porque não se adequa à modernidade", destroem o Cinema clássico com preconceitos, ideias erradas e falsos testemunhos. Em vez de usarem a sua liberdade para reconstruirem o seu pensamento, continuam com ideias feitas.

Não tenho dúvidas em afirmar que os filmes que me dão mais prazer em visionar são os do "arco da velha", que grande parte dos mortais não se dá ao trabalho de conhecer, porque tem sempre mais que fazer. E eu nem me quero referir a certas correntes do Cinema mais intelectuais e difíceis para alguns espectadores. Falo mesmo do Cinema Americano, da forma como se esquece o trabalho dos grandes autores da melhor era que Hollywood viveu desde a sua origem até à atualidade. Não só a "Idade do Ouro", como também as grandes invenções (e que conseguem ser artísticas e comerciais ao mesmo tempo - algo que certos criticozinhos ainda não perceberam que é possível!) que se fizeram até ao tempo imediatamente antes do que as massas consideram como os filmes fixes de hoje em dia. Sim, há grandes filmes atuais (e que são mesmo clássicos contemporâneos)... mas que as pessoas não tenham medo da palavra "clássico" no puro sentido do termo!

Mas a Era Doirada foi uma era que não levou com remakes, reboots, spin-offs e outras decisões massivas e aparvalhadas. Uma era que não precisou de grandes efeitos especiais, mas de grandes artistas cheios de criatividade, e que conseguiram fazer muito com quase nada. E não é curioso que, apesar da maioria das pessoas rejeitar a antiguidade, vibra com estas reformulações da própria antiguidade?

Uma era em que apareceu Billy Wilder, Ernst Lubitsch, Michael Curtiz, Raoul Walsh, Charles Chaplin, Buster Keaton, bolas! São tantos que enumerá-los a todos seria uma tarefa muito difícil!

Nem quero falar dos anos 70 e 80, e mesmo dos 90, que muitos já consideram de uma distância brutal de tempo e de mentalidades. Não! Tal como os bons livros e os bons vinhos, os bons filmes ficam melhores com o tempo. É difícil perceber isso? É árduo para uma pessoa que passe nos quatro canais, ficar por mais de dez segundos a ver «O Bom, o Mau e o Vilão» na RTP1, em vez de mudar logo para a Casa dos Segredos?

Desculpem, sei que estou com um discurso praticamente utópico. Mas o meu individualismo tinha de deitar cá para fora mais uma série de tópicos desordenados e confusos que o começam a irritar severamente.

Nunca tive jeito para fazer textinhos bonitos onde toda a argumentação é exposta de maneira correta, e onde o leitor pode tirar as suas conclusões e dizer se concorda ou não concorda. Apenas uma coisa me aflige, caros amigos e amigas, e que é o meu objetivo com este post: é difícil as pessoas verem filmes "antigos"? É difícil as pessoas perceberem que os filmes dos anos 10, 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80 e 90 podem ter uma complexidade maior do que muita fita de hoje em dia? Que na atualidade o Cinema é mais Televisão do que propriamente Cinema (e nem quero falar da mudança para o digital)? Que o Cinema é uma Arte como qualquer outra, e que tem de ser respeitada?

Calo-me por aqui. Já nem sei o que dizer mais, e não quero reler o que escrevi até agora. Não me apetece. Fica tudo assim como está. Cada um tira as suas conclusões, e espero que uma delas seja: vejam Cinema. Todo e qualquer tipo de Cinema. Não liguem a pontuações do IMDb, a expectativas, aos filmes mais fixes do momento e àquilo que vos possa tornar socialmente aceites. Vejam o que querem ver, sem medos, sem perturbações. 

Não sejam 11 dos «12 homens em fúria», que se influenciam mutuamente para tomar uma decisão. Sejam o 12.º homem que tem uma opinião contrária e não receia em expô-la! Nada vai mudar com este meu post, mas precisava de desabafar este manancial de coisas que começam a atafulhar o meu cérebro, de cada vez que exploro a internet.

Há um mundo para descobrir, e que a atualidade não consegue suportar. Esse mundo está no Cinema clássico, americano e não só. 

Comentários

  1. É árduo para uma pessoa que passe nos quatro canais, ficar por mais de dez segundos a ver «O Bom, o Mau e o Vilão» na RTP1, em vez de mudar logo para a Casa dos Segredos?

    Aqui tocaste no busílis da questão. O problema é que grande parte das pessoas são mesmo assim, na hora de tomar a decisão do que vão ver no pequeno ecrã.

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    1. Pois... é uma utopia querer mudar a cabeça das massas, mas irrita-me tanto esta mania de não se ter gosto em descobrir coisas novas... :(

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  2. Anónimo1/2/14 01:34

    Tenho amigos que dizem "se fores a ver, o matrix já é buéda velho" e eu respondo "então tu já es pré histórico, visto q nasceste 4 anos antes do filme". É claro que ficam logo sem resposta, e que voltam a conversa como se nada fosse. Se soubessem o que era Chaplin ou Murnau, aposto que desfaziam-se como os Nazis no filme do Indiana Jones e a arca perdida xp

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