Dois Homens e um Destino (Butch Cassidy and the Sundance Kid) [1969]


"Most of what follows is true", lemos no início de «Butch Cassidy and the Sundance Kid», após uma introdução peculiar, em que vemos um pequeno retrato dos dois lendários foras-da-lei, em tons sépia, enquanto os créditos iniciais passam. Essa "cor" manter-se-á até uma certa altura da fita, com certamente um propósito específico, e mesmo que tudo o que vejamos a partir daí não seja verdade, tal como o próprio filme nos quer provar, nunca foi esse o grande problema dos filmes western, e da forma como as lendas foram "pintadas" no ecrã pelos grandes realizadores deste género cinematográfico. É de recordar que, com «O Homem que Matou Liberty Valance», ficou imortal a frase "Quando a lenda se torna um facto, publica-se a lenda". E não são as lendas e as ficções que mais gostamos de conhecer, no Cinema e fora dele? Não é a partir das imagens irreais que criamos sobre mesmo as pessoas que mais admiramos, que nos movem e nos conduzem a certos caminhos? Pois bem, felizmente, esta película de George Roy Hill não tem como objetivo essa reflexão sobre o valor da lenda em comparação com a Verdade, porque há aqui outras coisas: este é um western feito numa época em que já não se fazem westerns - pelo menos, com a regularidade de outros tempos (e apenas um ou outro autor ainda se consegue destacar com o género - veja-se Sergio Leone, que no ano anterior concluía a obra prima «Aconteceu no Oeste».). Revivar algo como a coboiada, que a maioria quer dar como "mortas" para a eternidade, tinha de ser feita, em termos de marketing, da melhor maneira possível. E Roy Hill consegue porque aqui alia um grande argumento, que relembra uma época glorios e aventureira dos EUA pelas peripécias dos seus protagonistas, e por ter como protagonistas uma dupla de atores, cuja química, de tão cómica e singular, são a componente mais marcante de todo o filme. E a parceria entre Paul Newman e Robert Redford resultou tão bem que o realizador voltou a juntá-los, mas numa história de outras vigarices: o premiado «A Golpada».


«Butch Cassidy and the Sundance Kid» é a história de dois dos bandidos mais "temidos" do Velho Oeste, cuja audácia e cujos golpes podem fazer parte da lenda... ou não. Há tantas incertezas sobre aquela época que o que nos vale é que George Roy Hill fez um filme muito divertido, onde se satiriza a seriedade a que estamos acostumados a associar a certas situações cinematográficas, proporcionando uma nova forma de se ver o western. Tem uma ou outra cena despropositada, e que danifica em parte um certo ritmo que torna este filme tão especial (como as duas ou três sequências em que apenas ouvimos música - mais especialmente a que envolve a bicicleta, porque a última até tem algum interesse cinematográfico)? Sim, mas retirando essas pequenas coisas, é uma obra que tem muita imaginação e criatividade, que surpreende pela forma como reinventa certas convenções que podem ter feito muitos fugir dos westerns clássicos (mas que têm tanto para descobrir...), e onde visionamos magníficas sequências de vibrante montagem e deliciosos diálogos. A "páginas" tantas, o filme muda de tom, tal como a reviravolta que se dá nas vidas destes dois criminosos, que sempre se acharam invencíveis, até que o inesperado acontece. Com técnicas e características demarcadamente "60's" (os zooms são uma constante), em «Butch Cassidy and the Sundance Kid» tanto o bom humor aparece sempre e nas ocasiões menos prováveis, como o silêncio do desespero e do medo que Butch e Sundance sentem com o possível fim que podem ter as suas temíveis "carreiras". Filme reconceituadíssimo do Cinema Americano (faz parte da "National Film of Registry" e tudo), é não só uma peça de elevado e inteligentíssimo entretenimento, como um testemunho do poder de divertimento inigualável que só os EUA sabem trazer a todo o resto do mundo. E que vivam as lendas, apesar das críticas que se lhes possam ser feitas - são elas que tornam estas histórias bem mais interessantes...

* * * * 1/2

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