Brutalidade (Brute Force) [1947]


When you're on the inside, even the funny things of the outside seem wonderful. Just so they happened on the outside.

Filme sobre a dureza da vida dos condenados de uma prisão e do lado obscuro da Lei que poucos querem desvendar, «Brute Force» é uma obra poderosa e sufocante que nos leva ao pior dos ambientes e à mais tensa das tensões. Jules Dassin filma um thriller e um clássico da Liberdade (ou do desejo dela) no Cinema, apresentando Burt Lancaster no papel do protagonista, Joe Collins, um dos líderes incontestáveis dos criminosos da penitenciária de Westgate, e que tenta sempre contornar ou fintar uma ditadura policial que tem a violência e o medo a incutir nos prisioneiros as principais normas em vigor. Mais do que uma grande película sobre uma fuga da prisão, «Brute Force» fala-nos do Poder, que domina os prisioneiros e os gangs internos em que se congregam, e que é exercido pelos guardas com maior força e perspicácia até do que por aqueles que lhe são superiores na estrutura hierárquica desse tipo de Poder (neste caso, o diretor do estabelecimento, que se deixa engolir pelas exigências dos seus subordinados e pelo mais desumano de todos eles - o astuto, cínico e cruel Capitão Munsey, que não olha a meios para poder derrubar o seu chefe e poder, assim, ocupar o seu "trono" no topo desta "cadeia alimentar").


Produzido por Mark Hellinger (responsável por outros clássicos que, como esta fita de Jules Dassin, revolucionaram a forma de se retratar a violência no Cinema, como «High Sierra» e «The Roaring Twenties», ambos de Raoul Walsh, e também, tendo sido este o penúltimo filme que teve a sua assinatura - o derradeiro foi a obra seguinte de Dassin, «The Naked City», de 1948) e com uma fortíssima banda sonora do lendário Miklos Rozsa, que dá um fôlego portentoso ao argumento do futuro realizador Richard Brooks, «The Naked City» mostra também o espírito de camaradagem que se cria entre os presos, unidos pelo mesmo objetivo: superar a injustiça do sistema violento dos seus opressores. Não há aqui heróis nem vilões, apenas seres humanos perdidos pela irracionalidade dos seus atos, cometidos por certas e determinadas razões - no caso dos guardas, e principalmente Munsey, porque veem na violência uma maneira mais eficaz de perpetuarem a Lei; e no caso dos detidos, vemos as razões criminosas que levaram alguns deles a chegarem àquele sítio, por meio de flashbacks que nos fazem até ter pena do triste destino que as suas intenções pouco egocêntricas lhes trouxeram. Ao conhecer o íntimo dos condenados, acabamos por ficar ainda mais do lado deles, devido à parte emocional das suas vidas, que nos toca e nos suscita algum descontentamento pela injustiça que reina naquelas vidas miseráveis.


Há sequências brilhantes, que saltam à vista por uma precisão exemplar, criada por Jules Dassin para aumentar o impacto e a "fúria" do espectador em relação à narrativa e às desventuras das várias personagens, que fazem uma revisão das suas vidas e uma auto-descoberta dos seus valores e dos limites que querem ultrapassar para poderem voltar ao lado de fora, o "outside" onde reina a liberdade que deixaram de conhecer há muito tempo. A brutalidade é a Rainha da dura e nada divertida festa dos guardas de Westgate (e a falta de escrúpulos de Munsey, o maior vilão de todos - cuja sede de Poder ainda gera mais violência, ódio e opressão), cuja fúria e injustiça ainda dão mais força ao sonho de liberdade dos prisioneiros. Jules Dassin filma o medo e passa-o para o público graças à atmosfera sombria e muito negra à qual ninguém pode ficar emocionalmente indiferente. É isso que vemos em «Brute Force»: emoções, e os controlos de certas emoções por outras, mais fortes e poderosas, que dominam a alma humana pelo pior e mais inconsequente que nela se pode encontrar. Um filme sobre tudo isto, e também, as prisões do ser humano, que não se limitam à definição física e real do termo, mas que abrange muito mais: as prisões que fazemos a nós próprios e que os outros nos fazem, por meio de censuras ou de limites que podem ser absurdos ou que, estando já tão presentes na sociedade, já nem damos conta da sua existência. Não é por acaso que a última frase que ouvimos ser pronunciada nesta jóia preciosa de Cinema é esta: "Nobody escapes. Nobody really escapes".

* * * * 1/2

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