As Diabólicas (Les Diaboliques) [1955]


Foi por um triz que os direitos cinematográficos do livro «Celle qui n'était plus» não foram vendidos a Alfred Hitchcock. Quem acabou por realizar a adaptação da história de crime e mistério foi Henri-Georges Clouzot, e a "derrota" de Hitchcock seria recompensada mais tarde (os dois autores do texto, Pierre Boileau e Thomas Narcejac, escreveriam mais tarde «D'entre Les Morts», livro especialmente dedicado ao cineasta, e que originou uma das suas maiores obras primas: «Vertigo»). Mas ao ver «Les Diaboliques», percebemos que se trata de uma trama que tem tudo o que poderia agradar à criatividade de Hitchcock. Felizmente, Clouzot conseguiu destacar-se da grande influência e referência e construiu aqui um exercício notável de manipulação emocional cinematográfica.


Inquietante e ainda extremamente provocador e algo perverso até, «Les Diaboliques» é um curioso e complexo exercício cinematográfico que explora os limites a que o espectador pode ser levado, com uma simples história de traições, paixões, chantagens e interesses egocêntricos. Quando a mulher e a amante de um homem inescrupuloso e detestável decidem aniquilá-lo, inicia-se uma série de circunstâncias misteriosas e paranormais, que nos deixam em suspenso até ao último momento da narrativa, dirigida e conduzida de forma engenhosa, aproveitando todos os momentos em que se possa agarrar o espectador pela sua ingenuidade e por não saber, ao certo, o que é que se está a passar nesta trama. As duas personagens são duvidosas e têm dúvidas em relação a todos os outros, receando que o seu plano e o crime seja descoberto. Mas a reviravolta e o "twist" final dão uma abordagem incrivelmente assustadora a uma história que parece ser corriqueira, e é nos pequenos engenhos terrivelmente eficazes que conseguimos perceber o porquê de Hitchcock querer tanto adaptar o livro. «Les Diaboliques» impressiona pela sua estética e pelo seu lado psicológico, muito bem trabalhado, e que funciona com um impacto na audiência como poucos filmes conseguiram ter na sua época e, mesmo, nas décadas posteriores. Preocupante, intrigante e sufocante, a experiência é tão forte e rica que o próprio Clouzot pede, depois do desfecho da fita, que os espectadores não contem nada do filme a quem não o tenha visto ainda. Foi o que se tentou fazer nesta pequena crítica, porque é a ver «Les Diaboliques» que se consegue perceber a dimensão de choque e de brutalidade cinematográfica que o cineasta, as suas atrizes (as maravilhosas Simone Signoret e Véra Clouzot - cuja carreira na representação cinematográfica se limitou a apenas 3 filmes feitos pelo marido) e os argumentistas, que cresce à medida que nos vamos apercebendo que, numa aparentemente simples história policial, existem muitas camadas para descobrirmos e que são necessárias para encaixar todo o intrincado puzzle. Um exemplo de suspense cinematográfico que, felizmente, ainda não conseguiu ser ultrapassado.

* * * * 1/2

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