terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Rumo a 2014


No último dia de 2013, resta à Companhia das Amêndoas desejar a todos os seus leitores as melhores entradas para o novo ano que está aí à espreita. Vamos todos pedir coisas boas na altura de comer as passas e de saltar da cadeira com o pé direito de uma cadeira, pode ser? Sim, as coisas estão péssimas, mas é ainda giro poder ter-se uma esperança, no último dia de cada ano, de que o novo ano vai ser completamente diferente, e não só porque o calendário vai ter de ser alterado. Talvez as esperanças possam ser desta vez concretizadas... "esperançemos" por isso.

O ano foi recheado de grandes acontecimentos, mas já há publicações e sites a mais a fazerem a retrospetiva dos acontecimentos memoráveis de 2013. Por isso, apenas digo mais que a Companhia continuará a publicar coisas durante os próximos 365 dias, apesar de, como podem ter já reparado, a periodicidade ter vindo a ser mais reduzida na última temporada. É que a minha escrita é bastante monótona e repetitiva (e são cada vez menos as ocasiões em que me apetece dissertar sobre fitas com maior extensão), e o cansaço, a falta de tempo e o maior gosto por ver filmes do que de escrever sobre eles (é preciso ser-se sincero: as horas que "perco" no blog não me deixam, muitas vezes, equilibrar o pouco espaço temporal para fazer todas as coisas que o escriba gosta), não tem auxiliado a um maior investimento de posts no blog. Mas cá permaneceremos, sempre com novidades. Há que compreender: a vida, felizmente, não passa só por este estabelecimento "online". E não, a culpa não é do Espalha Factos, onde faço artigos com muito gosto e dedicação, e graças ao qual tenho assistido a diversas fitas que, de outra forma, me seria impossível de ver.

Portem-se bem, beijinhos, abraços e muitos palhaços (sim, porque o dia é para ser de folia, e por isso permite-se a palhaçada mesmo neste estaminé)!

A Companhia volta daqui a uns dias, já em 2014! ;)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Vontade Indómita (The Fountainhead) [1949]


«The Fountainhead» é um filme que nos fala de um tema que, provavelmente, é ainda mais importante hoje do que no ano do seu lançamento, em 1949: o poder do conformismo e o domínio desta forma de estar, que despreza a originalidade e a criatividade que faz sobressair certos autores de outros. É um filme essencial hoje, apesar das críticas negativas que a ele possam ser feitas (tanto como o desajuste da épica banda sonora de Max Steiner, como de uma ou outra performance, como também do argumento, escrito por Ayn Rand, a autora do livro homónimo em que se baseia, e que pode ser considerado demasiado sumptuoso e incorreto para a linguagem cinematográfica - mas ninguém pode negar a grande força de muitos dos seus diálogos), porque o seu protagonista, com uma "vontade indómita" (como nos diz - e bem! - o título português da fita) de querer ser original numa sociedade que deseja cada vez mais transformar-se num aglomerado de vulgaridade. «The Fountainhead» é um filme, mas também consegue ser um espelho da constante luta de muitos autores nos estúdios de Hollywood, onde a criatividade e as boas ideias são, não raramente, destruídas por outra "vontade indómita" - a da sede pelo lucro, da conquista de prestígio, da feroz competitividade que, ainda na atualidade, se sente entre as grandes fontes da indústria cinematográfica norte-americana. Ouvimos uma das personagens dizer a certa altura que "não há lugar para a originalidade na arquitetura", profissão em que se enquadra Howard Roark, o protagonista interpretado por Gary Cooper, e que quer ferozmente destacar-se no seu meio, onde a maioria combate a originalidade e quer apenas produzir aquilo que o público quer ver, em vez de utilizar a sua arte para poder inovar toda a conjuntura. «The Fountainhead» é, assim, uma obra invulgar no que era habitual ser produzido em Hollywood em finais dos anos 40, que, ironicamente, combate o tradicionalismo e as convenções com as ideias-chave da sua história, mas ao mesmo tempo, entra também nas convenções do Cinema americano com a sua estrutura formal a beber muito das formas clássicas (e algumas intenções visuais estão já datadas, mas são ainda deliciosas), que, felizmente, ganham um novo fôlego graças à grande invulgaridade da narrativa (apesar de alguns aspetos também muito habituais, como o romance exagerado e teatralmente expressivo entre Cooper e a personagem de Patricia Neal - e com o filme, a relação prolongou-se para lá da ficção cinematográfica) e da hipnotizante realização de King Vidor, que paira entre o melhor do expressionismo do film-noir e a grandiosidade dos épicos americanos.


Muitas foram (e continuam a ser) as personagens contestatárias do Cinema de Hollywood. Lembremo-nos de, por exemplo, a excecionalidade emotiva e argumentativa do Jefferson Smith do filme de Frank Capra «Peço a Palavra», um único homem a combater toda uma maioria corrupta e que se deixou levar pelo sistema que ele acusa e condena no seu longo e resistente discurso no capitólio. Howard Roark combate também o sistema, mas o que vigora no mundo da arquitetura e que toda a gente pretende não largar, o que lhe traz dissabores (enquanto todos os colegas sobem na carreira por se manterem na norma, a criatividade e inventividade deste arquiteto impede-o sequer de, muitas vezes, conseguir arranjar trabalho. E quando o corajoso Howard vê as oportunidades surgirem, não cede nem pela mais pequena e abusiva alteração que os seus clientes queiram executar no seu trabalho). É curiosa a sinceridade com que os "maus" do filme assumem a sua opinião que arruína tudo o que de novo pode surgir na Arte com uma grande sinceridade, dizendo todas as coisas que todos nós sabemos que são verdade, mas que não estamos acostumados a ouvirmos as pessoas falarem sobre elas (principalmente os indivíduos que, nestas questões de corrupção/censura, estão envolvidos). É a realidade que é retratada sem constrangimentos, numa película onde as personagens atacam os seus alvos sem meias medidas ou mensagens subliminares. «The Fountainhead» é o individualismo de Roark contra o "lobby" da coletividade e da standardização de ideias, que ele combate por todas e quaisquer ocasiões. Esse "lobby" ganha adeptos e a adesão das massas pela sua grande influência junto do cidadão comum, o que pode arrasar mentes brilhantes que, como Howard, se arriscam a fazer algo de original no meio de tanta "palha" igual e sem ponta de interesse. 


«The Fountainhead» é um tesouro de Hollywood que, felizmente, tem vindo a ser redescoberto e reavaliado com a chegada de novas gerações à magia da Sétima Arte. Tem erros e coisas duvidosas? Sim, como muitos outros filmes têm, e isso vê-se no facto de não ser um filme bem equilibrado, flutuando entre os mais brilhantes momentos e uma ou outra parte mais exagerada e despropositadamente sentimental. Mas é de louvar encontras fitas que consigam passar mensagens tão importantes, e de forma tão densa e complexa, como a que passa este título. Relembrando a importância a que deve ser dada a individualidade, que nunca poderá ser destruída, King Vidor filma uma história atualíssima, para a humanidade nunca esquecer como a originalidade faz sempre a diferença na maioria, uma ditadura da popularidade que impõe uma certa tendência de gostos e opiniões que querem superiorizar-se constantemente face à mui grande diversidade de coisas que temos para descobrir (e que, infelizmente, nunca conseguiremos conhecer na totalidade). «The Fountainhead» é um caso ímpar e de grande mérito no Cinema Americano, e uma autêntica lição para um mercado que, tal como qualquer outro, nunca quis sobressair dessa específica ditadura. Nem em 1949, nem muito menos neste nosso século XXI.

* * * * 1/2


Para os interessados, o filme pode ser visto na íntegra, e legendado em espanhol, no Vimeo.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Uma vitória "popular"

A Companhia das Amêndoas pode não ter ganho o TCN, mas foi mais uma vez o nomeado mais votado na sua categoria!!! 
A concorrência era muito boa para eu não poder imaginar sequer vencer o troféu (e ainda não consegui descobrir como é que aquele meu textinho foi nomeado, entre outros que enviei, mas é a vida), mas ter esta honra de ser a escolha mais votada pelo público deixa-me muito feliz!
OBRIGADO A TODOS!!! :)
Todos os dados e informações neste post do Cinema Notebook.

O Passado (Le Passé) [2013]


Do realizador de Uma Separação, vencedor do Oscar para Melhor Filme Estrangeiro, chega-nos uma história dramática que envolve duas pessoas de duas culturas distintas: Ahmad (Ali Mosaffa) sai de Teerão e volta a Paris a pedido da ex-mulher, Marie (Bérénice Bejo), quatro anos depois de se terem separado. O objetivo é que os dois finalmente formalizem a separação, para Marie poder voltar a casar (com o seu namorado SamirTahar Rahim). Contudo, há feridas do passado que ainda não foram ultrapassadas, e alguns segredos familiares e psicológicos têm ainda de ser desvendados… 

O Passado é um filme mais internacionalizado de Asghar Farhadi, o que se deve muito ao sucesso mundial de Uma Separação. Mas apesar de ser uma produção de maior escala, não deixa de ser uma obra verdadeiramente relevante no panorama cinematográfico atual, onde os dilemas familiares e os dramas interrompidos pela separação ainda se fazem sentir, e nos fazem questionar a cada momento sobre a verdadeira face de cada uma das personagens. No meio de tantas máscaras, será possível perceber o verdadeiro caráter dos protagonistas do filme, e das pessoas que são por eles condicionados? 

Farhadi vai buscar à simplicidade os maiores focos de tensão e de mais elevada psicologia cinematográfica. São nos variados e notáveis planos-sequência de O Passado que vemos o poder das excelentes interpretações do elenco, como também da reflexão feita pelo cineasta (que segura a narrativa com uma câmara firme, mas detalhada, precisa e arrasadora) sobre a grande importância que podem ter as mais pequenas coisas da existência humana na nossa forma de ser e de estar em sociedade.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Filmes em 60 segundos: A Caça (Jagten) [2012]


O Cinema sempre foi uma arte que explorou o impacto das reações de uma comunidade, ou de uma maioria, face a uma pessoa, acusada de algo por essa mesma comunidade. Há casos emblemáticos entre os clássicos, como «Johnny Guitar» e «Inherit the Wind», que exploram, embora com contornos diferentes da narrativa de «A Caça», o poder e a irracionalidade que um coletivo pode exercer, influenciando as minorias. No mais recente filme de Thomas Vinterberg, vemos as consequências de uma mentira/invenção de uma criança, que leva à falsa acusação de Lucas (Mads Mikkelsen numa excelente interpretação) e à sua exclusão do pequeno meio em que está inserido. «A Caça» é uma obra excecional que filma, com frieza e realismo, os defeitos da sociedade contemporânea, principalmente quando confrontada com temas sensíveis como a pedofilia, o “pão nosso de cada dia” dos meios de comunicação social. Um dos filmes mais surpreendentes de 2013.

★ ★ ★ ★ ★

Tal Pai, Tal Filho (Soshite Chichi ni Naru/Like Father, Like Son) [2013]


Tal Pai, Tal Filho é uma história de famílias: quando Ryoata (Masaharu Fukuyama) e a sua mulher (Machiko Ono) descobrem que o filho que educaram durante seis anos não é seu, e que foi trocado à nascença na maternidade, tudo vai mudar. Ao conhecerem a família que tem o seu filho, descobrem não só que este foi inserido num meio muito mais pobre que o deles, e que não será assim tão fácil repor a normalidade da situação. 

Mas o novo filme do inovador realizador japonês Kore-Eda Hirokazu fala ao espectador dos pequenos grandes problemas que podem surgir no seio familiar, causados ou não pelos membros desse grupo. Abordando ruturas e condições familiares (com a oposição entre a família mais abastada e a outra com menos recursos – mas que consegue ser mais feliz do que a primeira), esta narrativa retrata as novas mentalidades e as novas conceções de família, e as tradições que ainda persistem e os problemas que tanto a modernidade como a “antiguidade” no coletivo familiar ainda podem causar.

A obra liga o espectador ao mundo real que, apesar de tão simples e direto, traz experiências desconhecidas da maior parte das pessoas. Poucos lidaram com uma tragédia tão grande como a dos dois casais de Tal Pai, Tal Filho, e o filme faz-nos questionar constantemente: Se fossemos nós, o que faríamos numa situação destas? Há soluções duradouras para este tipo de problemáticas tão delicadas? Enquanto cada vez mais se nota um desgaste da criatividade cinematográfica, sabe bem regressar às origens e encontrar, na simplicidade da vida, os temas mais profundos e mais propícios para comover e encantar audiências no grande ecrã.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Filmes em 60 segundos: Lore [2012]


Uma realização convencional assente numa história invulgar, chocante e perturbadora (com um notável elenco): é o que se pode dizer de «Lore», que olha a queda dos sonhos e das falsas ambições prometidas pelo nazismo. Lore é a protagonista (palmas para a performance de Saskia Rosendhal!), filha de um oficial do regime, e apenas uma espectadora de um país que se libertará progressivamente do domínio do Führer. Assistimos, com dureza e crueldade, a um retrato desumano que desconstrói a desumanidade do nazismo, numa perspectiva não muito habitual e que abre uma nova luz sobre o pós-II Guerra Mundial, à medida que acompanhamos Lore e os seus irmãos numa luta desesperada pela sobrevivência. «Lore» é um filme corajoso que filma o despertar da (inicialmente) ingénua protagonista para a rutura com a ilusão floreada criada pelo nazismo (para esconder os horríveis crimes), e para a constatação da realidade trágica causada pela ideologia.

★ ★ ★

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Boas Festas...



... na companhia dos melhores filmes! São os votos deste escriba e para todas as vossas famílias! ;)

A Propósito de Llewyn Davis (Inside Llewyn Davis) [2013]


Como todos os grandes títulos da filmografia dos notáveis irmãos Coen, «Inside Llewyn Davis» é um filme que nos deixa um vazio profundo e impercetível na alma, devido à maneira sempre pouco usual que a dupla de cineastas utiliza para contar as suas histórias, sempre tão cativantes e diferentes de tudo o que estamos habituados. Esta é uma narrativa que acaba onde começou, e que nos interroga sobre a rotina que Llewyn Davis toma e que nos acompanhamos passo a passo, e de como, talvez, o protagonista da fita nunca conseguirá sair da sua condição e conseguir tudo aquilo que ambiciona para o futuro. Tudo se repete, apesar dos sonhos quererem dar a entender que há sempre esperança de conseguirmos mudar as coisas. Mas para isso, a alteração prática da normalidade do quotidiano é a chave essencial. Os Coen fazem aqui o retrato de uma geração, e do que é que essa geração queria fazer no mundo da música: numa era de zés-ninguém, onde talentos explodem a cada esquina, são poucos os que conseguem realmente sobreviver e impor-se na indústria discográfica. 


Estamos nos primeiros anos da década de 60 do século passado, e Llewyn Davis (uma incrível composição de Oscar Isaac) é um cantautor de folk rock, ao jeito do que tornaria Bob Dylan um ícone universal (aliás, até o podemos ver e ouvir numa pequena cena). Ele busca o êxito que nunca atingiu nem conheceu durante o seu percurso artístico até então, mas talvez Llewyn Davis nunca conseguirá alcançar o patamar da fama por causa do seu caráter. «Inside Llewyn Davis» é um filme extremamente interessante e comovente até, pegando nas coisas mais simples como só os Coen sabem fazer, adicionando o seu peculiar humor negro, sarcástico e perspicaz, e um rol de personagens deliciosas, interpretadas pelos formidáveis atores tão bem escolhidos pelos dois realizadores (desde o repetente John Goodman - o secundário mais hilariante da fita - a Justin Timberlake, passando por Carey Mulligan e Garrett Hudlund), e onde se inclui um "ator" imprevisto, um gato extremamente caricato e que compõe a narrativa com um outro espírito especial. Há ainda uma banda sonora espetacular, com temas da autoria dos Coen, Isaac e Timberlake, que se mistura perfeitamente com o drama e a comédia, conjugados para resultarem nessa mistela de sensações estranhas e fabulosas que «Inside Llewyn Davis» nos proporciona. É mais uma prova da versatilidade desta dupla de cineastas, e é mesmo um filme a não perder.

* * * * 1/2

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Ben-Hur [1959]


When the Romans were marching me to the galleys, thirst had almost killed me. A man gave me water to drink, and I went on living. I should have done better if I'd poured it into the sand!

Talvez seja o mais grandioso épico americano de todos os tempos, e a sua espetacularidade mantém-se incrivelmente sedutora: «Ben-Hur», o primeiro filme a arrecadar onze prémios da Academia (feito que só voltou a ser alcançado com o mui duvidoso «Titanic» de James Cameron) e que tem em si as componentes do género épico, reunidas aqui em todo o seu esplendor: desde a fabulosa câmara "ultra" widescreen (que dá a obra, se for vista numa televisão analógica, uma brutal pequenez, que as televisões tentaram adulterar com versões hereticamente cortadas para 4:3) ao espantoso technicolor e à grandiosa banda sonora, que começa com a portentosa overture no tema que pretende introduzir o público para o espetáculo épico que irá presenciar (uma composição verdadeiramente inspiradora de Miklós Rozsa), «Ben-Hur» é porventura o mais grandioso dos filmes de Hollywood que versam sobre temas bíblicos, e a dimensão religiosa plena de epicidade, glória e grandeza, é uma constante que pode fascinar ou repugnar espectadores (depende da tolerância de cada um), mas o que mais me interessou nesta demanda do visionamento do filme, é que ele reúne, ainda hoje, mais simpatias que inimizades, independentemente das crenças e gostos. É um feito que poucas fitas conseguem alcançar, mas o fenómeno de «Ben-Hur» é explicável: tem todas as coisas possíveis e imagináveis para agradar a qualquer pessoa (romance, moralidade, ambição, ação, vingança, poder, ah... e a corrida de quadrigas!), porque nele estão incluídas as maiores tragédias e glórias da experiência humana, com o toque da transcendentalidade da história de Cristo, que se cruza com a demanda de Judah Ben-Hur (Charlton Heston) de uma forma subtil, em certos momentos, e algo forçada, noutras alturas. Mas essa é apenas uma pequena parte de um filme glorioso e magnífico, que se rege pelo mais rígido puritanismo e conservadorismo americanos, mas que ainda é uma jóia de filme, que se superiorizou em relação a outras adaptações do livro do general Lew Wallace, que trouxe à cultura popular este herói improvável que conheceu Cristo no tempo em que reinava a cobiça e o domínio do império Romano. 


A história da feitura do livro de Wallace também merece ser descoberta: é que, tal como Judah Ben-Hur, que tantas vezes duvida e contesta o impacto da figura de Cristo, o seu autor também tinha essa postura quando começou a escrever a obra. Mas a pouco e pouco, e tal como a personagem literária e cinematográfica, a descrença desvaneceu-se e surgiu a crença no Cristianismo. Se bem que comparamos épocas distintas (a realidade em que Cristo viveu e a atualidade que Wallace presenciou), não se deixa de fazer um paralelo interessante entre o criador e a sua "criatura", que deverá ter sido mesmo condicionada pelo facto de que, quanto mais sabia o autor sobre o homem que, supostamente, queria desmascarar, menos intenções tinha, efetivamente, de proceder com o polémico retirar da máscara. É uma comparação psicológica interessante, sim, mas não nos esqueçamos do filme: a adaptação, realizada por William Wyler (que recebeu um dos onze Oscares pelo seu trabalho), tem as maiores intenções de apelar à crença, o que sai reforçado pelas interpretações muito teatrais onde, com muita pompa e circunstância, se fala sempre de Cristo com grande ênfase. E depois? O filme ganha ainda mais força, sensibilidade e beleza por essa tão óbvia pretensão. Faz parte da preparação deste grande espetáculo visual e sentimental, que vem de uma época onde, face à concorrência crescente da televisão, o Cinema teve de renovar e engrandecer os seus meios para não fazer esquecer os espectadores da maior vivacidade do grande ecrã, em comparação ao pequeno, que tanto menoriza este filme, que só visto nas maiores telas é que consegue transmitir todo o seu espírito. Mas há também aqui a rivalidade entre Ben-Hur e Messala, o servo do imperador romano que , cego com as ambições de poder que Roma lhe quer proporcionar, despreza a amizade de longa data com o judeu e com os seus familiares, danificando a sua vida e a sua posição na sociedade. Esta traição levará às intenções de vingança por parte de Judah, mas a amizade quebrada leva a que aconteça ao protagonista uma série de ocorrências que moldarão o seu espírito. E não estamos a falar apenas de Jesus Cristo, que sempre que surge (e nunca vemos o seu rosto) é como uma luz que paira sobre a perdida e irracional humanidade...


As divergências entre as culturas judaica e romana nos primeiros anos do calendário gregoriano mostram a repetição dos dramas da espécie humana: as ruturas continuam atuais, os protestos e as desigualdades entre povos e nações permanecem uma temática a ser resolvida ainda hoje. Mas talvez não seja essa metáfora que «Ben-Hur» e todo o seu tom épico pretende transmitir. Mas não há apenas (bom) entretenimento, que reside em magníficos e inigualáveis valores de produção, de realização e na belíssima e colorida fotografia. Há o classicismo no mais puro estado de clássico, que é engrandecido pela soberba mestria visual e pela qualidade do argumento. Pode ter algumas falhas e ser demasiado extenso para a atualidade, mas é um filme completamente delicioso. As cenas e os figurantes estão magnificamente planeados e executados, e as partes que não conseguimos aturar facilmente são postas de parte quando, a cada momento, nos entranhamos mais no estilo e na história de Judah Ben-Hur. Quando percebemos que este é um estilo que advém de uma certa época do Cinema, e que precisa de ser compreendido de uma maneira específica, deixamos de parte as queixinhas e aproveitamos para contemplar tudo o que a realização de Wyler tem para nos oferecer. «Ben-Hur» tem tudo o que possamos estar à espera de ver num épico: todas as convenções do género estão aqui, mas têm uma adição especial: o encanto próprio e único da fita. E também é preciso dizer que o filme conseguiu outra proeza: criar as suas próprias convenções, aqueles elementos que  fizeram o sucesso da obra e que Hollywood tentaria, sem qualquer êxito, repetir noutras luxuosas e dispendiosas tramas que, por não terem rendido tanta bilheteira como «Ben-Hur», acabaram por declarar o fim dos grandes épicos da indústria americana (o elemento fatal foi mesmo «Cleópatra», de Joseph L. Mankiewicz - e que não é uma fita assim tão má como alguns a gostam de pintar). E a originalidade inultrapassável da película está também presente nas partes que demonstram uma beleza e uma espectacularidade extrema, que são um regalo para os sentidos do espectador, que se sente tão diminuto perante tamanha grandiosidade artística.


Expoente máximo do Cinema como espetáculo (uma vertente importantíssima da Sétima Arte que não pode ser negada como parte integrante do seu valor de magnificiência), «Ben-Hur» apoia-se muito na fenomenal banda sonora, que faz com que o filme seja como que uma espécie de "mix" entre uma ópera e uma tragédia como as dos gregos, que eleva a história de amizade e vingança a um patamar majestoso. Não nos esqueçamos, também, do maravilhoso elenco, que ajuda a tornar até um pouco credível o lado mais exagerado de certas partes do argumento. E não nos devemos centrar apenas na mais famosa sequência do filme, a da corrida de quadrigas, mas é de aclamar o poder que ainda consegue ter. É um dos mais brilhantes e surpreendentes momentos da obra (e onde curiosamente a música está completamente ausente, porque aí o impacto reside pura e simplesmente na feroz concorrência daquela luta). «Ben-Hur» é uma grande lição de Cinema, de vida, de emoções, de religião, de ambições, de ideias, e das conquistas de Hollywood e da grande e intensa atividade que caracterizou esta grande indústria do Cinema, e que parece estar um pouco morta nos tempos atuais. O filme vem de uma época em que o Cinema queria mesmo impor-se como a arte superior das imagens em movimento. O espectador ganha mais ao ver, em condições apropriadas, um filme com uma alma tão gigante como «Ben-Hur», e ganha mais para a vida graças a uma experiência tão enriquecedora como esta. Talvez a contemporaneidade tenha muito para aprender com este género de Cinema, porque há que reencontrar a criatividade que houve em "tempos que já lá vão", e que parece estar cada vez mais esgotada.

* * * * 1/2

Um agradecimento

Este ano, a Companhia saiu de mãos a abanar da nomeação que conquistou na categoria de Melhor Crítica de TV. 
Resta apenas agradecer a todas as pessoas que incansavelmente leram, divulgaram e votaram no meu artigo. Mais do que o prémio, é importante realçar que a honra da nomeação já era quase uma miragem, e fico muito grato por ter sido um dos escolhidos, e pela forma como muitas pessoas acarinharam o textinho. Se bem que a televisão não seja a maior "especialidade da casa", já é estranho ver-me nomeado juntamente com outras pessoas que escrevem melhor que eu. 
Muito obrigado a todos. Até à próxima edição dos TCN! 


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Último Hurra (The Last Hurrah) [1958]


Não é um dos filmes mais prestigiados do Mestre John Ford, mas pode ser colocada junto das suas melhores obras: «O Último Hurra», provavelmente um dos filmes mais políticos da filmografia de Ford, traça um paralelo entre as campanhas do protagonista Frank Skeffington com o impacto dos meios de comunicação social. Algo que voltaria a ser repetido numa obra prima posterior do cineasta, só que noutra época e noutro contexto: «O Homem que Matou Liberty Valance». Mas a história do mayor que luta para conquistar o seu quinto mandato, e cuja campanha vai ser prejudicada pelos interesses que geram o grande jogo da vida política, é também uma obra que se empenha em retratar a sociedade americana de uma maneira acertada, sem deixar de possuir os conservadorismos do Cinema clássico. Não sempre são precisas rebeldias para se criticar um tempo e um país - a inteligência e a astúcia com que se faz a crítica, como é o caso de «O Último Hurra», é que prevalece. Protagonizado por Spencer Tracy (note-se que o ator considerava esta sua performance superior à de «O Velho e o Mar», que também tinha interpretado nesse ano de 1958, mas a Academia acabou por nomeá-lo neste papel...), e acompanhado por outros "Monstros" americanos do Cinema (como Pat O' Brien e Basil Rathbone), vemos como a luta pelo Poder motiva ódios, invejas e malícias injustas. Serve tudo isto para nos relembrar que as questões dos problemas atuais da política não são assim tão recentes, e o notável argumento de Frank S. Nugent (um dos guionistas maiores de Hollywood, que assinou o argumento de outras tantas fitas de John Ford, como «The Searchers», «The Quiet Man» e «3 Godfathers»), que tem uma sensacional qualidade de diálogos e de sensibilidade atribuída ao caráter das personagens. Parece-nos, a princípio, que algumas figuras de «O Último Hurra» são de "plástico", mas ao longo da narrativa, vamos percebendo que essa plasticidade não é acidental, ou que se deve ao hábito Hollywoodiano de criar personagens vazias e estereotipadas. Alguns secundários do filme não parecem de plástico: são mesmo assim, porque para nada servem ou porque o mundo é aparentemente "plastificado", e acabam por estragar a normalidade das coisas, e o rumo certo que o destino dos protagonistas deveria tomar em circunstâncias menos acidentadas.


«O Último Hurra» é o desfecho da vida política de Frank Skeffington: o político diz que esta é a última vez que concorre ao cargo, e convida o seu curioso e perspicaz sobrinho jornalista para acompanhar a jornada da feitura de toda a campanha. Skeffington é o político carismático com que todos gostamos de simpatizar: uma figura humana e politicamente ideal, que faz falta a toda e qualquer sociedade, que carece cada vez mais de pessoas como ele. Mas não é um ser humano perfeito: ele admite as partidas irónicas que faz aos seus adversários e os esquemas que leva a cabo para demonstrar o seu potencial junto dos poderosos que o querem espezinhar, e que põem à frente de tudo os seus interesses pessoais e os ódios de estimação que lhes dão alguma comichão na cabecinha. Frank sabe de cor e salteado todas as manobras e fintas políticas para ganhar votos, mas destaca-se dos outros por ser uma figura forte naquela pequena cidade. E não precisou de distribuir espremedores de sumo e secadores de cabelo pela população para atingir esse estatuto... 


«O Último Hurra» acaba por elevar-se ainda mais do que se estava à espera: de um fenomenal drama político passa também para um drama sentimental e filosófico sobre a condição humana, e tudo graças às grandes interpretações do elenco e das situações tão bem escritas por Nugent, filmadas de modo coerente e versátil por John Ford. A fortíssima carga emocional que o filme acarreta a dada altura (lágrimas podem estar a escorrer do rosto do espectador sem que ele dê por isso) dá uma nova perspetiva, quase divina e transcendental, à figura simpática de Frank Skeffington. E «O Último Hurra» é, no seu todo, uma obra de grande sensibilidade narrativa, interpretativa e cinematográfica, apontando todos os males da sociedade americana com os ataques mais simples, que são contudo os mais profundos e diretos. Um dos grandes filmes esquecidos de John Ford, inesquecível e fundamental, que tem tanto de amargura como de candura, ao mostrar-nos que, no meio de todos os males da Humanidade, são sempre os homens mais fortes que ficam na nossa memória. 

* * * * 1/2

Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima, Mon Amour) [1959]


É o título mais reconhecido do realizador Alain Resnais (que fez também O Último Ano em Marienbad e outras fitas francesas que se tornaram célebres) e um dos romances mais inesquecíveis e fascinantes da História do Cinema: Hiroshima, Meu Amor é a história da relação entre uma atriz francesa (onde vemos alguns mistérios em relação ao seu verdadeiro caráter), que está na cidade a participar num filme anti-guerra, e um arquiteto japonês. Em conflito neste amor cinematográfico estarão as culturas distintas, os dramas íntimos de cada um deles e a complexidade das suas vidas e das suas formas diferentes de encarar o mundo, postas à prova com as sucessivas recordações da tragédia nuclear de Hiroshima. 

Encontramos Emmanuelle Riva no papel que a celebrizou no panorama mediático do Cinema, e que, passados mais de cinquenta anos, continua a ser uma das forças maiores da obra de Resnais. Estava previsto ser um documentário sobre o legado triste e prejudicial que a bomba deixou no povo de Hiroshima, mas o cineasta quis acrescentar a parte ficcional ao realismo das imagens e das histórias de vítimas (que vemos e ouvimos em certas cenas) e, lado a lado com a tragédia, contemplamos uma intrigante e inspirada história de amor. 

Riva é acompanhada por Eiji Okada na personagem do seu amante oriental, e com eles vemos um tipo de Cinema diferente, que não arrisca em experimentar coisas novas. Estamos na época de ouro das fitas francesas, com a Nouvelle Vague a revolucionar a Arte, e nomes como Jean-Luc Godard e François Truffaut a descobrirem novos mundos para o mundo cinematográfico. E sendo diferente nas novidades técnicas e narrativas que decide explorar, Hiroshima, Meu Amor é um filme-chave desta época gloriosa para o Cinema, e que mantém ainda a frescura e a rebeldia que aquela geração de realizadores concretizou no grande ecrã.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

Biopic do atleta Jesse Owens nas mãos da Disney


Jesse Owens, o atleta negro norte-americano que conquistou os Jogos Olímpicos de 1936, desafiou o regime de Adolf Hitler e surpreendeu o mundo será objeto de uma produção cinematográfica da Disney.
Para saberem mais, leiam a notícia completa no Espalha Factos.

Filmes em 60 segundos: A Verdade e o Medo (Beyond a Reasonable Doubt) [1956]


Foi o último filme americano de Fritz Lang e é ainda uma peça singular do seu Cinema: «Beyond a Reasonable Doubt» envolve assassínios, manipulações judiciais, jornalismo e romance, numa narrativa labiríntica e desafiante inteligente e poderosa. É impossível não se adivinhar o desfecho da história, mas nem tudo aqui se faz do script: há que admirar o talento dos atores (destaque para Joan Fontaine) e o brilhantismo de Lang. É certo que não existe um grande esforço criativo – e algumas falhas técnicas são notórias -, contudo, é irresistível a construção do fio condutor que, pela câmara, o cineasta atribui a esta história peculiar e totalmente americana. Apesar das convenções nela instaladas, trata-se de uma peça singular de Cinema, que nos faz pensar sobre o que estamos a ver. E estando nós numa época em que há cada vez mais tendência para se fabricarem filmes vazios, é algo que deve ser valorizado.

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Das primeiras experiências seriamente cinematográficas


Ontem foi a minha primeira vez na Cinemateca. Já por lá passei várias tardes de deliciosa exploração deste Museu do Cinema, mas hoje finalmente fui até lá para ser espectador: fui ver «Beyond a Reasonable Doubt, em português «A Verdade e o Medo, realizado por Fritz Lang (e com a recentemente falecida Joan Fontaine). O filme é bom, mas melhor ainda foi a experiência: sentir que se está naquele espaço a visionar uma fita, ver a projeção em 35 mm (sim, porque o digital não é nada a mesma coisa) e ficar cada vez mais fascinado por este que também é o "meu" mundo... é algo de extraordinário. E para quem não acredita que a Cinemateca é um lugar de culto por onde passa muita gente, bem... a sala estava quase cheia. Felizmente, ainda existem muitos interessados em descobrir a magia do Cinema!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O grande ator que passou em Portugal


Peter O' Toole
1932 - 2013

Morreu um grande ator este fim de semana, cujo papel em «Lawrence da Arábia» basta para ser um nome imortal da Arte sétima. Mas na avalanche de notícias que saíram sobre O' Toole após a sua morte, um momento exibido nos telejornais da SIC causou-me espanto/sensação de desgosto acompanhado pelo pensamente "ainda há pessoas muito idiotas para deixarem aparecer momentos constrangedores envolvendo grandes figuras só porque lá pelo meio aparece uma carinha laroca da estação".

É que da única vez que Peter O' Toole veio mediaticamente a Portugal, apresentou um prémio nos Globos de Ouro. Foi um momento tão memorável que a apresentadora Bárbara Guimarães deu um novo nome à personagem mais famosa do ator: Lourenço of Areibia.

Felizmente, as deprimências são esquecíveis, porque os grandes talentos é que acabam por prevalecer na "persistência da memória", mesmo que não sejam recordados por tanta gente como a que sabe agora na ponta da língua todas as ilustres individualidades que deixaram o nosso mundo nos últimos dias (outra delas foi a brilhante atriz Joan Fontaine, protagonista de «Rebecca»). Porque o que interessa é que o ator deixou uma grande marca neste mundo, e explorá-la poderá ser algo de enriquecedor.

Que descanse em paz o grande Peter O' Toole, e que T. E. Lawrence viva na eternidade.

A partida de Family Guy


Sim. Como já se esperava, tudo não passou de uma manobra de diversão/marketing: a morte do cão Brian, anunciada há uns episódios atrás em «Family Guy», não passou de uma fraude. O criador, Seth MacFarlane, admitiu ter sido uma partida, que lá está, conseguiu atingir o seu objetivo (mas isto ele já não confessou): dar impacto à série, polémica e consequentemente, novos espectadores (que, furiosos com o desaparecimento da sua personagem de eleição, continuaram a seguir o facebook do programa só para mandar os seus bitaites acusadores e irracionais). 

E o Brian voltou ao «Family Guy» anteontem, e foi uma considerável surpresa: foi o primeiro episódio interessante desta temporada e valeu a pena dar-lhe uma oportunidade. Eu estava cético (porque esta season foi até este episódio muito má mesmo), mas este novo capítulo mostrou que o formato ainda sabe surpreender, na comédia e na construção narrativa. Vamos é a ver se, daqui para a frente, a série continua a seguir este (bom) caminho, ou se vai voltar ao ritmo dos banais anteriores episódios. Espero que não. Ainda gostava de poder rir com estas personagens como fiz com o episódio do passado domingo (e já não soltava gargalhadas com a série há um bom tempo...).

sábado, 14 de dezembro de 2013

O Grande Mestre (Yidai Zongshi) [2013]


São logo duas as componentes de O Grande Mestre que fascinam o espectador nos primeiros minutos do filme: a sua música envolvente e inspiradora (que vai buscar algumas composições bem conhecidas do meio cinéfilo – como a espetacular partitura de Ennio Morricone, composta originalmente para a obra prima Era Uma Vez na América, e que aqui se ouve  quase no final da trama), e a impressionante cinematografia que é um banquete para o olhar, e que tem aquela qualidade inigualável que já nos habituámos a ver em obras anteriores de Wong Kar Wai. E é mais estilo e beleza visual que encontramos nesta fita, do que tudo o resto. As sequências de luta começam por ser apelativas e estimulantes, com o seu toque muito estilizado que vai beber influências de Matrix, mas a pouco e pouco, começam a tornar-se repetitivas.

Protagonizado por Tony Leung (um ator recorrente nos filmes de Kar Wai – veja-se ou reveja-se o seu magnífico desempenho em Disponível para Amar), O Grande Mestre consegue evoluir e ultrapassar alguns dos seus defeitos ao captar o espectador com o seu lado mais lírico, filmado em contraste com as cenas de ação, e por ter um retrato histórico fiel da China dos trintas, quarentas e cinquentas, focando de forma exemplar os anos da Guerra (e as suas consequências para o povo) e o declínio momentâneo de Yip Man, ao estar no meio de uma rede de conflitos da qual não consegue escapar.

Ainda bem que Wong Kar Wai não se perdeu totalmente com esta novidade trazida pelo seu Cinema: O Grande Mestre não se resume às lutas, e é acompanhada pelo lindíssimo visual, pela impressionante estética e pelo espírito do cineasta que está tão presente em cada fotograma. Este filme acaba também por entranhar o espectador naquele mundo secreto e obscuro graças aos momentos mais altos da narrativa e de Arte cinematográfica melhor dirigida (e que não se fique só pelo regalo da vista), acabando por dar um interesse curioso ao percurso de uma arte milenar que caracteriza o seu país.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

Mais umas experiências radiofónicas


Cá estive de novo a colaborar numa divertida emissão do «Minuto Zero», programa sobre desporto e com muitas piadolas relacionadas com isso... ou nem tanto. São cerca de 28 minutos de atualidade desportiva, música e entretenimento, onde podem ouvir o Francisco Dias, o Francisco Ferreira Gomes, e este que assina estas linhas. Bom proveito!

Mandela: Longo Caminho para a Liberdade [2013]


Nelson Mandela é tão conhecido e acarinhado que seria arriscado elaborar uma obra que não soubesse homenageá-lo tal como merece. E Mandela: Longo Caminho para a Liberdade não é só uma grande homenagem à personalidade, como é também uma reflexão sobre o seu poder de liderança e do seu exemplo no povo sul-africano. Não fosse a coragem e a sensatez deste líder e das suas convicções, e o seu país teria tomado um rumo completamente diferente daquele que conhecemos hoje tão bem. 

É um filme com uma grande intenção de querer continuar a preservar o legado inspirador de Mandela, que se vê com muito interesse e que enriquece o nosso conhecimento sobre o homem, as suas amizades e a sua perspetiva das coisas, que luta contra o ódio e entra na batalha pela liberdade e igualdade na África do Sul. Toda esta história da História é ainda polvilhada por grandes momentos de banda sonora (cujo maior destaque vai para a nova música dos U2, composta propositadamente para esta película) e pelo manifesto social que nos alerta para as desigualdades e para os múltiplos problemas que, na atualidade, a Humanidade tem de enfrentar. 

Captando o mediatismo e reconhecimento do ícone, e a forma como este prestígio o ajudou, a pouco e pouco, a tornar-se um homem cujos valores e ensinamentos são seguidos e aplaudidos em todo o planeta, a obra não esconde nada desses pontos fulcrais da vida de Mandela, apelando a uma perspetiva mais humana e aprofundada do contexto e dos seus condicionalismos. É um hino a um país que terá de continuar a guiar-se pelos ensinamentos deixados pelo seu maior líder, e torna-se aos nossos olhos numa ótima e até provocadora experiência cinematográfica. Para contar a história de Mandela não se fez um filme inovador, mas um objeto revelador e uma biopic cativante e estimulante, que aborda temas não tão divulgados da sua vida e que nos faz acreditar que a passagem desta gigantesca figura não desaparecerá da memória da Humanidade. 

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O Jogador (The Player) [1992]


Foi o regresso do realizador Robert Altman à ribalta, depois de uma década de filmes menos aclamados e distribuídos no panorama cinematográfico: foi «O Jogador» que deu um novo e tão-esperado salto na carreira do cineasta, que depois não pararia de surpreender (ou de desiludir, em certos casos - mas o que interessa é que, depois deste filme, nunca mais voltou a estar "apagado" da indústria). É quase um filme autobiográfico, este que critica o feroz sistema de Hollywood, que cria e destrói tão facilmente as mentes criativas que definem a sua marca cinematográfica, que pretende regular-se mais pelo dinheiro do que pela originalidade, cada vez mais urgente. E Altman dizia até que, em comparação com a realidade, esta foi um retrato "muito suave" do que se passa na "meca" do Cinema americano. Com pequenas subtilezas de argumento e de mise-en-scène que não podem ser deixadas de parte por qualquer espectador, e que fazem a genialidade deste filme tão relevante da contemporaneidade (veja-se com atenção o plano-sequência que abre o filme: com sete minutos e quarenta e sete segundos, Altman faz uma espécie de "mosaico", algo que caracteriza muitas das suas narrativas em movimento, com várias pequenas críticas e sátiras a figuras-tipo e situações vulgares de Hollywood, aproveitando também para homenagear a famosa cena inicial de «Touch of Evil» de Orson Welles, e também a fabulosa inovação trazida por Hitchcock com as longas cenas sem cortes de câmara em «A Corda» - e mais adiante fará muitas outras referências cinéfilas). É no meio de favores, chantagens e perdições que se faz o trabalho do Cinema, e Altman ataca de forma mordaz e acutilante todas as coisas que ele próprio conheceu muito de perto, graças à sua enorme experiência nos filmes. É a história do domínio da moeda e das empresas sobre cada um de nós, de maneira abusiva e descontrolada, e que acaba por se refletir na cultura de cada país. Nos primeiros minutos de «O Jogador» ouvimos alguém dizer: "Your Hollywood is dead". E não será esse, afinal, o grande mote desta película, que fala de uma indústria que devia revitalizar-se mas que, afinal, parece que gosta de viver e lucrar a partir da sua morte decadente (se bem que haja certas exceções à regra)? 


Imparavelmente sarcástico, «O Jogador» é a implacável história de Griffin Mill (Tim Robbins numa maravilhosa performance, que se transforma em múltiplas facetas durante a fita), um senhor de Hollywood que é chantageado por um argumentista que viu um argumento seu rejeitado pelo protagonista, e que se aproveitará das fraquezas de Griffin (e do facto de ter cometido um crime) para tentar alcançar o seu objetivo. Mas qual é que será, entre tantos rejeitados? E será que o Poder tem nesta ficção o mesmo "poder" que tem na vida real? Com muita inteligência e piadas implacáveis, o filme acusa a "reciclagem" dos filmes que Hollywood faz constantemente (e que continua a passar por esse processo "criativo"), onde os pequenos recebem falsas esperanças pelos grandes chefões. E podemos encontrar vários atores e realizadores conceituados a fazerem pequenos cameos na obra de Altman, talvez para se mostrarem como iguais signatários do manifesto que o cineasta assinou com esta fita. É surpreendente, é brilhante e, em certos momentos, chega mesmo a ser chocante. A tensão e o thriller crescem, culminando numa obra feita com mestria e sabedoria, e que, de tão inteligente que é, acaba por ser uma obra que goza consigo própria e com as convenções que nela estão inseridas. Aqui tudo é alvo de crítica, desde o mais simples e corriqueiro até às características mais sombrias, negras e profundas de Hollywood, dominada pelas influências e pelos ditames do incerto e sempre inseguro "box-office". De uma pequena comédia simpática e satírica, caminhamos para um filme que nos deixa um sabor amargo na boca e que vai para além do seu próprio conteúdo, onde vemos que vender as ideias em troca de sucesso não compensa tanto quanto as manobras que Griffin Mill utiliza para manter o seu poder no estúdio. Acabamos por ter um filme dentro de um filme e uma crítica dentro de uma crítica, pelo que os minutos finais nos indiciam, que podem ser um final "feliz"... ou até macabro, que talvez nos faça pensar a grande realidade e simbolismo que esta história contém, com as coisas que nos faz perceber no seu desfecho. Se fosse mais visto hoje em dia, talvez «O Jogador» poderia ter ajudado a alterar certas mentes luminosas que povoam o mundo do Cinema gasto e reciclável, que abunda cada vez mais nas terras da senhora Holly. Para salvar Hollywood, é necessário primeiro desconstruí-la...

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Filmes em 60 segundos: Zona de Perigo (The Dead Zone) [1983]


Stephen King, Christopher Walken e David Cronenberg. A junção destes três artistas poderia ter dado outra finalidade, mas daqui saiu «Zona de Perigo», um filme onde a realidade se cruza com o sobrenatural, acompanhado pela arrepiante música de Michael Kamen. A fórmula narrativa parece banal no início, mas depois há muito para descobrir no filme, quando a anormalidade surge no desenrolar da trama. E mesmo que as performances sejam um pouco exageradas (aqui Walken é em certos momentos um notável “overactor”), e tendo diálogos e sub-plots com alguns clichés, «The Dead Zone» não consegue ser um filme banal, pela sua atmosfera e pela mística que carrega, onde o paranormal acaba por se confundir também com a política (com o grande Martin Sheen a desempenhar brilhantemente o político da fita). Um filme com muito espírito e essência pura dos anos 80, grandes doses de mistério e uma soberba realização de Cronenberg.

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P.S - devido ao nome anterior desta rubrica, «Em 150 palavras», ser acidentalmente idêntico ao de uma iniciativa do site Laboratório de Séries (como me indicou por mail o seu administrador, a quem novamente agradeço a chamada de atenção), alterei o nome destas pequenas postadas de pescada sobre Cinema. Todo o conteúdo destas mini-críticas mantém-se idêntico aos anteriores posts pertencentes a esta rubrica.

Antes da Meia-Noite (Before Midnight) [2013]


Nove anos depois de «Before Sunset», e 18 anos após o primeiro encontro em «Before Sunrise», Céline e Jesse voltaram aos Cinemas com «Before Midnight». Refletindo a crise da meia-idade e do facto das duas personagens terem já passado a barreira dos quarenta, esta dupla de personagens constitui um caso raro no Cinema contemporâneo: são poucas as histórias que conseguem captar tanto o espectador como a evolução e a comédia dramática da relação dos dois de nove em nove anos. A paixão de milhões de admiradores por esta trilogia vai para além do próprio Cinema, porque é para muitos um conjunto de obras que lhes diz muito e a que é impossível classificar. E não é preciso nada muito complexo para explicar o fenómeno de culto da saga «Before»: este terceiro capítulo mantém o espírito dos outros dois, pontuando com longas conversas (e poucas cenas, que são muito grandes em extensão e algumas delas não têm qualquer corte - veja-se com atenção o quão difícil deve ter sido preparar uma das primeiras cenas, a da viagem de carro depois de terem ido deixar o filho de Jesse, que ouvimos falar em «Before Sunset», e onde vemos apenas Céline e Jesse com as conversas banais e profundas quase em "tempo real" que, confessemos!, já tínhamos saudades de reencontrar) e com estes constantes confrontos com a nossa perspetiva das coisas. É que, tal como eles, os espectadores cresceram, ficaram mais velhos e viveram novas experiências, e continuamos desde sempre a pensar na nossa realidade. Contudo, a idade dá-nos novas opiniões e reflexões que, noutras etapas da nossa existência, não seríamos capazes de perceber. «Before Midnight» dá um salto existencial em relação aos seus antecessores (tal como «Sunset» fez com o primeiro filme - a filosofia aumenta de capítulo para capítulo), mostrando-nos como é interessante ver o que mudou e o que ficou nas personagens, no seu relacionamento (e algumas coisas são verdadeiramente insólitas) e no seu caráter. As coisas não estão na mesma, e talvez o charme deixado pelo final da segunda fita pudesse dar a entender um final eterno e onde no qual tudo era Cinema... mas esta nova sequela mostra-nos que «Before...» não quer ser uma história a que se possa chamar "uma coisa que só acontece nos filmes". Querem aproximar-se cada vez mais de nós, espectadores, com dilemas e situações cada vez mais intimistas e fascinantes. E conseguem mesmo essa aproximação!


Em «Before Midnight», Jesse e Céline têm agora duas filhas gémeas em comum e uma vida mais complicada, com problemas e dilemas ausentes dos primeiros dois filmes e do facto de ambas as personagens já não serem jovens como antes. Céline está mais cínica, e Jesse um pouco mais preocupado e sério devido às múltiplas questões familiares e sociais que tem de resolver. A mudança de tom é tão grande que até as conversas perdem algum do grande humor que as caracterizou nos outros dois filmes, e aqui ganham uma tensão e um drama que antes não iríamos associar ao "maravilhoso" mundo deste casal. Com a paternidade em grande destaque, a obra mostra como as ideias racionais e deliciosas dos dois personagens permanecem intocáveis, mas entretanto, o Amor que têm um pelo outro pode estar muito fragilizado. O poder do filme reside no poder destes seus dois protagonistas, e se bem que para uns este capítulo tornou-se uma desilusão (porque queriam que o "conto de fadas" durasse para sempre, o que, nesta visão mais realista das coisas, é quase impossível), talvez este seja a parte mais incisiva e verdadeira da trilogia. O humor tem outro papel: não o de progredir uma relação que está a crescer amorosamente, mas de a conseguir ao menos manter essa relação, que pode acabar ou partir-se ainda mais com pequenas coisinhas que prejudicam o casal. E não será isto um retrato das vivências humanas atuais, onde talvez se faça tudo para complicar e encurtar relações, sem se olhar a meios e por vezes sem se aperceber dessa intenção (e sabendo que, ainda ais, as novas formas de comunicar e de se relacionar deveriam ajudar a manter as relações - só que parecem que ajudam a destruí-las também)?  


«Before Midnight» é um filme tão bonito como os seus antecessores, e compará-los entre si é uma tarefa inglória, para não dizer injusta. Se bem que a solo não seria um filme tão singular, como é ao pertencer a esta continuidade (que, esperamos, não acabe aqui!), é mais um volume inesquecível de uma história humana que vai continuar a chamar novas gerações, independentemente das idades e feitios de cada espectador. As conversas ganham um tom com o seu quê de "seinfeldiano", e encontramos mais background e personagens secundárias do que em «Sunrise» e «Sunset». Mas o centro continuam a ser os maravilhosos Ethan Hawke e Julie Delpy, que voltam a brilhar com magníficas performances, que dão uma nova vida às suas personagens e que mostram o que é que uma figura ficcional deve ser: um trabalho em constante progresso e evolução, que é condicionada pelas constantes e velozes mudanças trazidas pelo tempo e pelo espaço. Mais uma vez, Richard Linklater transpõe, sem muito trabalho de câmara (porque aqui não é esse o ponto fulcral), o estado das suas personagens, que entram em algumas discussões agressivas e revelam sentimentos que nunca lhes conseguimos decifrar anteriormente, porque ao chegar a esta idade, eles apercebem-se, na ficção, de algo que nós também sabemos na vida real, mas que queremos esquecer, por estarmos a ver um filme: é que a existência não é feita de finais ficcionais. Com novamente as relações humanas em todo o seu esplendor, «Before Midnight» dá-lhes até um novo tom, incluindo-lhes um recheio novo, que inclui temas-chave da experiência do ser humano e que ao qual nem a criação artística pode escapar. E olhando em retrospetiva, podemos ver que os três filmes têm uma coisa em comum: a sensação poética e mágica com que nos deixam no final. Só que nos últimos momentos de «Before Midnight» encontramos uma poesia diferente, que nos pode deixar tanto tristes ou alegres, ao prevermos o que vai depois acontecer às duas personagens preferidas de meio mundo e arredores. Algum dia tudo terá de acabar... ou talvez não. É que apesar de ser uma história, com princípio, meio, e fim, sabemos que esta não deve ter um "fim" como é vulgarmente designado, nem queremos que tudo isto acabe. E, com melhores ou piores notícias para nos darem, esperamos voltar a ver o par Jesse e Céline daqui a nove anos.

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domingo, 8 de dezembro de 2013

Nos bastidores do Capitão Falcão


Graças ao Espalha Factos, tive a oportunidade de assistir a um dia de gravações do filme «Capitão Falcão», que conta as aventuras do Super Herói do Estado Novo, acompanhado pelo seu fiel parceiro, o Puto Perdiz. O texto é da minha autoria e as fotografias são da Raquel Dias da Silva.

Acedam ao artigo clicando aqui.

sábado, 7 de dezembro de 2013

O Apartamento (The Apartment) [1960]


On November 1st, 1959, the population of New York City was 8,042,783. If you laid all these people end to end, figuring an average height of five feet six and a half inches, they would reach from Times Square to the outskirts of Karachi, Pakistan. I know facts like this because I work for an insurance company - Consolidated Life of New York. We're one of the top five companies in the country. Our home office has 31,259 employees, which is more than the entire population of uhh... Natchez, Mississippi. I work on the 19th floor. Ordinary Policy Department, Premium Accounting Division, Section W, desk number 861.

Intrigas de oportunismos, negócios, vigarices e mal entendidos, «O Apartamento» é um dos melhores filmes de Billy Wilder, e sem dúvida, uma das suas obras mais refinadamente elaboradas. Foi o seu único trabalho a vencer nos Oscares (faltou apenas atribuir estatuetas ao fabuloso par de protagonistas, Jack Lemmon e Shirley MacLaine), e à época, constituiu um exemplo tanto de "choque" cultural nos EUA como de inovação no Cinema Americano. E essa controvérsia está muito bem expressa num pequeno momento de um dos primeiros episódios de «Mad Men», onde há uma pequena conversa entre duas ou três personagens sobre as suas opiniões do filme e o que este lhes faz refletir nas suas próprias vidas. O criador, Matthew Weiner, assume a grande influência que a obra de Wilder provocou nesta sua trama de publicidade, e ainda hoje (e tal como o espírito Wilderiano de outros títulos consagradíssimos nos nossos dias) continua perfeitamente provocador, esclarecedor e divertido de se ver. Tal como «Double Indemnity», ou «Sunset Boulevard» ou até mesmo «Stalag 17», «O Apartamento» conseguiu explorar e abordar temas tabu que a sociedade americana tende a esconder, mas que apesar de tudo nunca deixam de declarar a sua existência na vida quotidiana. O humor sarcástico e satírico de Billy Wilder nunca foi tão feroz como neste filme, que faz uma crítica incisiva, mordaz e construtiva aos americanos que difere muito daquilo que os espectadores se habituaram a ver no cineasta. E ainda bem, porque «O Apartamento» torna-se quase um épico das relações humanas para o nosso olhar, e um retrato da Humanidade que sempre se mantém igual nas pequenas coisinhas que tanto nos incomodam, como nos causam fascínio ao mesmo tempo. Com uma bonita banda sonora de Adolph Deutsch, no filme acompanhamos a história de C.C. Baxter (Lemmon), um trabalhador de uma das maiores companhias de seguros dos EUA insatisfeito com a sua condição, mas contente pelas "negociatas" que consegue arranjar com os seus superiores.


Baxter é matreiro e ganha uns trocos graças ao seu apartamento, onde os "big bosses" da companhia vão passar a noite com as suas amantes. E se formos a ver, a tradução brasileira do título do filme («Se Meu Apartamento Falasse») diz muito de tudo o que envolve a pequena casa de Baxter, e tudo o que ela poderia contar se tivesse esse dom humano. Muitas situações criadas por este esquema lucrativo irão causar-lhe alguns enormes sarilhos, e são elas que nos propiciam um fabuloso filme, tal como o conservadorismo "disfarçado" das personagens, a importância do "status" e a acusação das falhas do trabalho massificado e da abundância de "igualdades" nas funções que cada indivíduo desta empresa tem de cumprir. Baxter utiliza o seu apartamento para garantir a sua estabilidade, como também poder subir profissionalmente e aproveitar qualquer oportunidade dada por esta "oferta" feita aos chefes da empresa. Esperando por cunhas ou apreciações empresariais, Baxter acabará por se apaixonar por uma das suas colegas (a maravilhosa Shirley MacClaine), que tem algo a esconder. E não revelando mais nada da história, pode-se dizer que Lemon faz um trabalho genial, aproveitando a espantosa energia utilizada para os melhores gags de «Quanto Mais Quente Melhor» para dar corpo a este homem auto-depreciativo e auto-confuso. No meio das máscaras e dos segredos das pessoas, que as conseguem tornar demasiado frágeis quando revelados, «O Apartamento» é um filme de cariz insensível que fala sobre as sensibilidades e a obscuridade que a formalidade do género humano não consegue cobrir, graças à genial construção dos elementos narrativos e das piadas que polvilham até as mais pequenas e insignificantes cenas, e há tanto para rir e refletir em «O Apartamento» que é normal que se nos escapem, a um primeiro visionamento, grande parte dos apontamentos humorísticos de Billy Wilder. Humor esse que se conjuga com um drama inspirado e provocador, repleto de intensidade, acompanhado pela personagem carismática e igualmente triste de C. C. Baxter, onde Lemmon esteve mais versátil do que alguma vez foi - ele não é só o "bobo da corte", mas também um ser humano profundo e que está aflito com os que o influenciam.


«O Apartamento» filma os "desgracadinhos" da vida, que não se distinguem pelos rendimentos económicos ou pela intelectualidade da sua essência, mas pela deprimência com que levam o seu dia a dia, deixando-se ir pelas tendências ou pelas influências, reclamando depois daquilo que poderiam ter feito, mas que não quiseram levar a cabo. Mas nem tudo são interesses, e as intrigas românticas quebram as fortalezas pessoais das personagens, que se iludem por várias vezes com as suas próprias ilusões. É uma história amarga e comicamente entusiasmante sobre as tragédias humanas e as opções de vida que tomamos, que trazem uma série de consequências que, na sua maioria, não esperamos que aconteçam. E mesmo que alguns se considerem fortes dentro de um coletivo, nunca deixarão de se sentir sozinhos na sua própria solidão, como acontece com Baxter, que resiste a mudar a sua atitude para seu próprio benefício, e até mesmo com os seus "bosses" prepotentes. Um dos filmes mais complexos de Billy Wilder, que por sua vez, é um dos realizadores mais inteligentes, irónicos e filosóficos da História do Cinema, sem dar a entender que há uma grande componente de filosofia nas histórias que a sua câmara conta. Uma peça lindíssima de Cinema que merece não só Oscares, mas honras e glórias até ao fim dos tempos.

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Não acaba aqui o caminho para a liberdade


O inesperado acontece, naquele que será certamente o acontecimento fulminante deste ano de 2013. Todos sabíamos do estado cada vez mais debilitado de Nelson Mandela, mas a notícia da sua morte não deixará de surpreender o Mundo, enquanto isto for divulgado pelos quatro cantos do planeta.

Esta é uma daquelas personalidades cujo impacto justifica a divulgação da sua morte por todos os perfis do facebook, em imagens, citações, ou partilhando momentos da sua enorme experiência neste Mundo. 

Até sempre, Nelson Mandela. 

1918 - 2013

Lost Forever: The Art of Film Preservation



Cinema é Arte e tem de ser bem preservado. Neste documentário encontramos alguns dos melhores trabalhadores do restauro cinematográfico (incluindo o excecional Robert A. Harris) que falam do passado, do presente e do perigoso futuro das frágeis fitas que continuam à espera de ser bem guardadas. Encontramos também testemunhos de vários críticos e cinéfilos que nos mostram que o Mundo do restauro tem mesmo muito para se descobrir. Vale a pena!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Casablanca regressa aos Cinemas


Depois de «2001: Odisseia no Espaço», o romance intemporal de Michael Curtiz é a próxima aposta dos Cinemas UCI e das suas "Sessões Clássicas". Para mais informações, leiam este artigo que escrevi para o Espalha Factos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Filmes em 60 segundos: A Invenção da Mentira (The Invention of Lying) [2009]


De Ricky Gervais, «A Invenção da Mentira» é uma bonita e perspicaz comédia sobre as relações humanas, não neste mundo, mas noutro onde a mentira não existe nem mesmo como conceito (e essa reconstrução social do real está detalhada e bem conseguida). O filme não aborda só o lado mau da mentira e os trunfos recebidos pelo protagonista graças à sua “invenção”, como também mostra que, para o bem, a mentira é necessária: um mundo que se regule apenas pela verdade seria frio e sem muitas das características a que associamos o nosso meio. É uma comédia filosófica, que, apesar de ser algo simplista, tem um certo charme e emotividade, graças a uma premissa inteligente e uma moral interessante (que se adequa a todos os credos, mesmo que aqui se satirize o lado religioso da experiência humana), que nos faz rir, mas também reflectir sobre tudo o que nos rodeia.

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Filmes em 60 segundos: Uma Louca História do Mundo (History of the World, Part I) [1981]


Narrado por Orson Welles, «Uma Louca História do Mundo», de Mel Brooks, é uma viagem desconcertante aos grandes momentos da História Mundial, retratados com grande exagero cómico e muitas piadas forçadas, polvilhadas também por nonsense e brejeirice extremos, que se tornam difíceis de controlar e de aturar. Os sketches sucedem-se, com algumas ligações improváveis entre eles, e uns são melhores que outros (de destacar a genialidade do grande musical da Inquisição Espanhola). Abundam humor e trocadilhos mais fáceis, além de que há um grande desequilíbrio entre as histórias de cada sketch, o que impede um fio condutor que se ligue melhor aos melhores momentos de sátira (não só histórica, como também cinematográfica) engendrados por Brooks e companhia. Contudo, «Uma Louca História do Mundo» é uma interessante obra e uma peculiar investida de um dos mais geniais humoristas de sempre a territórios diferentes, pontuados por melhores e piores laivos de criatividade.

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Novidade do blog: Filmes em 60 segundos

Ao habituar-me a escrever críticas muito grandes, percebo que na maior parte dos casos fujo ao essencial e, pior ainda, retiro muito tempo que poderia investir em outras coisas (nomeadamente, a ver outros filmes). Por isso, decidi avançar com uma coisa chamada Filmes em 60 segundos. Isto consistirá em eu escrever críticas com esse número exato de palavras num só parágrafo, para não só eu poder restringir-me mais vezes ao essencial e poder dar mais uso à arte da síntese, como também será ótimo para muitos de vós, leitores, que com razão, não têm sempre paciência para ler textos gigantes sobre uma ou outra fita.

Continuarão a haver críticas mais extensas e sumarentas? Sim senhora, mas irei apenas dar espaço a essa maior extensão aos filmes que, a meu ver, têm de ter mais espaço para serem devidamente analisados. É que tenho vinte obras cinematográficas vistas que ainda não peguei para o blog, e às tantas isto começa a ser enervante, e desta maneira, poderei escrever sobre mais filmes em menos tempo. Por isso farei uma quantidade considerável de críticas pequenas daqui para a frente (o que me fará voltar aos tempos em que escrevia menos - mas tão mal como agora - e que do qual nunca mais voltei, porque comecei a escrever coisas cada vez mais longas) e deixar a "palha" apenas para certas ocasiões.

Começo esta novidade já daqui a pouco, com uma crítica a uma comédia de Mel Brooks!

EDIT (09/12/2013) - devido ao nome anterior desta rubrica, «Em 150 palavras», ser acidentalmente idêntico ao de uma iniciativa do site Laboratório de Séries (como me indicou por mail o seu administrador, a quem novamente agradeço a chamada de atenção), alterei o nome destas pequenas postadas de pescada sobre Cinema. Todo o conteúdo destas mini-críticas mantém-se idêntico aos anteriores posts pertencentes a esta rubrica.