quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Horizontes de Glória (Paths of Glory) [1957]


Se «Dr. Strangelove» é a sátira bélica por excelência, e se «Nascido para Matar» pode ser vista como uma das melhores e mais duras críticas cinematográficas à guerra do Vietname, «Horizontes de Glória» é mais um filme ímpar de Stanley "realizador dos 7 ofícios" Kubrick, por não ser nem uma coisa nem outra. Surgiu antes dessas duas outras obras primas e foi a obra que primeiramente definiu o cineasta como um dos nomes mais sonantes do panorama cinematográfico da sua época. Sendo anti-guerra, o filme não chega ao ponto de ridicularizar todo o sistema militar e político que envolve os conflitos armados e devastadores à escala mundial, como no caso do "homem que decidiu amar a bomba", nem decide atacar ferozmente todo um sistema que visa preparar soldados para uma guerra que não conseguem entender, como no caso de «Full Metal Jacket». Menos histérico e menos violento (pelo menos fisicamente), «Horizontes de Glória» torna-se aos nossos olhos num filme de guerra contra a guerra, mas que marca a sua posição de forma mais suave, utilizando uma ímpar delicadeza narrativa e uma história onde a ambição, a reputação e os interesses das elites do exército põem em causa a vida de três soldados inocentes, mas que têm como única culpa o facto de não serem os maiores adeptos da guerra em que estão a combater, e que serão injustamente acusados de covardia perante um tribunal militar para satisfazer as necessidades de um dos grandes chefes daquela área de batalha. «Horizontes de Glória» é um filme americano, sobre o lado francês na Primeira Guerra Mundial (mais precisamente, durante o ano de 1916), e que é mais um testemunho brilhante da mente tão criativa e extraordinária de um dos maiores realizadores de sempre. Kubrick soube abordar cada assunto de várias perspetivas, e aqui encontramos uma visão mais triste e profunda do que a dos seus outros filmes "bélicos", não sendo tão gráfico ou complexo. É na simplicidade de uma situação tão banal como é a relatada no filme que encontramos o pior do Homem e o destino cruel dos fracos sobre os seus superiores, que nada querem saber daqueles que estão a controlar. Mas no meio da vulgaridade, sobressai o Coronel Dax (interpretado por Kirk Douglas - que regressaria, três anos depois, às mãos imaginativas de Kubrick com o dispendioso épico «Spartacus»), que tenta mudar a situação e salvar os três homens que parecem ter os dias contados. Dax pretende defender os soldados em julgamento, o que lhe poderá arruinar toda a sua carreira no exército, por causa do General que não quer desistir do seu desejo cego e livre de preocupações cívicas e morais. Num ambiente onde um pode prejudicar milhares (utilizando o seu poder), e acompanhado por cenas extraordinárias dentro do trágico cenário do combate armado, «Horizontes de Glória» fala da capacidade que a hierarquia do poder e do status possuem para influenciar todo um sistema e as pessoas que dele dependem. Num mundo onde "os grandes comem os pequenos" (estas palavras do Padre António Vieira nunca estiveram tão atuais), haverá espaço para marcar a diferença?


Filmado num luxuoso preto e branco e construído com uma fotografia sensacional, que dá ao filme muito do seu "charme" único, «Horizontes de Glória» pode também ser visto como um filme existencial, que nos inquieta em relação às grandes questões da Humanidade (e não ao existencialismo de Sartre, Camus e companhia). É a primeira grande obra kubrickiana, onde vemos nascerem muitos dos temas e das preocupações que o realizador voltaria a filmar nas suas obras primas posteriores tão ricas e diversificadas, aqui inseridos na temática da fita com grande inteligência e originalidade. São poucos os filmes de guerra que nos podem perturbar tanto como este, que não é dos mais longos (tem pouco mais de oitenta minutos) nem dos mais "épicos" ou cinematograficamente gigantes. E tanto pode ser falado em inglês como poderia ter sido gravado noutra língua qualquer: a qualidade humana e tão universal que «Horizontes de Glória» abrange todas as culturas e estilos de vida. Quem não quer ver a injustiça ser combatida? Existe alguma alminha cinéfila que anseia por um mundo cada vez mais demagogo e "logicamente" bizarro, onde os bons não triunfam e o mal prevalece sempre? Devemos pensar que nunca haverá espaço para a inteligência tocar nalguma mente superior, fazendo com que esta se perceba que há coisas impossivelmente impossíveis de serem concretizadas, mesmo que vão contra os interesses dessa pessoa? Dax é o exemplo do homem leal a si próprio e aos seus valores, que não hesita em agir sempre que pode em prol dos que precisam dentro da hierarquia militar. Para ele, a injustiça é mais preocupante do que a submissão aos seus superiores, e a sua atitude é admirável. Kubrick filma-o não numa perspetiva de heroicidade, e coloca-o sim numa espécie de "pequenez" junto dos grandes que, no fim de contas, não possuem nenhuma grandeza (a não ser o número de "crachás" que têm estampados nas fardas oficiais). Ninguém é enaltecido em «Horizontes de Glória». Só os valores defendidos pelas personagens e a forma como a guerra estraga as vidas daquelas pessoas. O filme questiona a existência de humanidade e humildade em tempos de conflito de uma maneira fascinante, quando a justiça não abunda nos tempos mais difíceis e onde tudo parece estar na base de cumprir cegamente um conjunto de estranhas e insensatas ordens, provenientes de estrategas de guerra que mal sabem os prejuízos do seu controlo descontrolado, e é com eles que vemos o papel do poder e o que o seu uso condiciona neste clima de tensão e de constante preocupação. Sendo um filme mais experimental de Kubrick na técnica, «Horizontes de Glória» não deixa de ser uma peça cinematográfica espetacular e, por isso, é mais uma das grandes obras do cineasta, onde a crítica ao ser humano prevalece sobre a crítica à guerra através do exemplo deste coronel idealista, que ousa enfrentar o sistema que o "criou" profissionalmente. Mais do que na guerra, era essencial que esta postura humana e verdadeira se mantivesse em todos os parâmetros da vida social. 

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Majora


É uma notícia triste, esta. A Majora, uma das marcas portuguesas de brinquedos mais lendárias de sempre, vai fechar as suas portas.

Foram e continuam a ser muitas as horas investidas nos famosos jogos editados pela marca durante muitas décadas. Joguei muitas vezes ao «Sabichão» e ficava sempre espantado com o pouco que eu sabia sobre, praticamente, quase todas as matérias que o senhor sabia de trás para a frente. Disputei e ainda disputo diversas partidas de xadrez com familiares durante os períodos de férias. «Monopoly» (o original da Majora mesmo!), jogos de cartas, damas, o tão famigerado (e estranho) «Jogo da Glória»... as memórias e as brincadeiras são infindáveis.

O mercado está demasiado competitivo. E a vida passa demasiado depressa. E não pretendo ser saudosista mas... estes jogos de tabuleiro e todas as outras variantes foram muito mais divertidas para mim do que muito jogo de vídeo pode ser para os seus utilizadores. Os jogos tradicionais vivem mais de um ambiente que não quer ser o mais realista, o mais puro e o mais repleto de adrenalina. Querem apenas proporcionar um bom tempo de divertimento para todos, de forma simples e simpática. E conseguiram mesmo fazer isso. E só tenho de agradecer à Majora. 

De volta à rádio


Voltei às lides radiofónicas, desta vez pela mão dos talentosos artistas da FCSH que fazem o "Minuto Zero", programa sobre as novidades do desporto, gravado por três pessoas todas as semanas. Eu fui um dos membros do trio na emissão de ontem, e sim, é possível ouvirem-me a falar sobre desporto. Isso aconteceu. Basta ouvirem este programa e as patacoadas que lá digo pelo meio.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Obra prima na TV


Pessoas que ponderam fazer noitada de estudo hoje: deixem-se disso e vejam a obra prima que vai passar no Canal Hollywood a partir da uma de meia da manhã: ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (das raras vezes que a TV mostra uma fita espetacular). Tem mais coisas para ensinar do que muitas cadeiras juntas. E mesmo que depois as essenciais horas previstas para o estudo voem para apreciarem este grande pedaço de Cinema, vão ver que vale mesmo a pena. É daquelas experiências transcendentais que mudam uma vida. Pelo menos comigo, e com vários milhares de pessoas, foi o que se sucedeu...

sábado, 26 de outubro de 2013

Uma ajudinha para as votações dos TCN 2013

Amigas e amigos, já estão abertas as votações para esta edição dos TCN Blog Awards.

Se quiserem e considerarem justo votar na minha pessoa, basta fazerem o seguinte:

1. - ir ao site do Cinema Notebook
2. - Votar na poll "TCN 2013"(está no canto direito do blog, um pouco para baixo), na categoria "TCN 2013: Crítica TV" e escolher a opção "Sonhar Era Fácil", que é o título do meu post nomeado.

Obrigado pelo vosso apoio!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Também há falcatruas no mundo dos quadradinhos


Não bastam os lucros obtidos com os 24 álbuns originais (mais os esboços de um protótipo de um 25, o da «Alph-Art»), mais as primeiras edições das primeiras histórias do Tintin, mais todo o merchandising criado propositadamente para suportar os custos de inúmeras iniciativas culturais e/ou recreativas (canecas, t-shirts, outros livros, livros de livros e livros de livros de livros). Para a Fundação Hergé/Moulinsart, e para a Editora Casterman, nada disto chega.

Porque é que digo isto? Porque li uma notícia alarmante: contra a vontade do autor do repórter belga mais famoso da BD, a Casterman e a editora Moulinsart já planeiam lançar um novo livro do Tintin até 2053. A desculpa dada? É porque nessa altura a obra de Hergé e as suas personagens ficarão sem o domínio do copyright, e passarão para o domínio da populaça. 

E pensemos assim: Hergé deixou este mundo há exatamente 30 (trinta!) anos. Ou seja, se há alguém que não poderá lucrar mais com Tintin é o seu criador, que mencionou EXPRESSAMENTE que não queria entregar o seu mundo a outro qualquer autor de BD, pois o mesmo poderia distorcer todas as suas ideias, originais e acutilantes ainda hoje.

E qual é a solução das editoras interesseiras e sedentas? É ir contra a vontade do homem que, praticamente, lhes dá de comer, criando uma forma para ganharem mais dinheiro através dos livros originais, planeando criar uma nova história de Tintin até ao ano em que o copyright expire. Se houver alguma solução mais generosa, inteligente e humilde do que esta, gostava de tomar conhecimento da mesma.

O que mais me incomoda é a "lata" da Casterman e da Moulinsart e, mais precisamente, da viúva de Hergé. "Temos ainda muito tempo para pensar nisso", como disse ela. Então se têm, porque decidiram expor esta sua investida tão suja e malévola (ao nível cultural) em 2013? Queriam ser mesmo já descarados, ou foi tudo só para conquistar o coração de fãs ingénuos e materialistas, que ambicionam ter uma qualquer nova história do Tintin nas mãos mesmo que não seja da autoria de Hergé?

Não é só na banca nem na política nem no Estado que há sujidade de atividades. Agora, parece que o pobre Tintin vai ser vítima das atitudes financeiras das editoras que dele dependem para sobreviver (pelo menos hoje em dia - mas quem é que não nos diz que em 2053 isso já não seja assim?!). Explorem o material de Hergé até ao tutano nos próximos quarenta anos da maneira que quiserem. Criem mais linhas de roupa, calçado, sumos, iogurtes, bifes e filetes de pescada. O que quiserem. Mas fazerem isto é um atentado.

E não, isto não é só um indivíduo que está a maldizer porque cresceu a ler e a reler vezes em conta cada um dos álbuns de Tintin. Estou a falar de uma perspetiva séria e socialmente aceitável. As empresas editoriais podem ser mesmo mesquinhas e gananciosas, se quiserem, e isto é a prova. E parece-me que nenhuma das pessoazinhas que trabalha ou na Moulinsart ou na Casterman se deu ao trabalho de ler atentamente os livros de Tintin. Que eu saiba ele não é um representante dos grandes poderes económicos, nem dos interesses interesseiros de grandes marcas que se sustentam através da criatividade alheia.

Ou talvez fui eu que li mal os álbuns, não sei. Só sei é que neles não encontrei nada disso de todas as vezes em que neles peguei (e que continuo a pegar). Não encontro nas histórias fantásticas do Tintin motivos para expressar estas críticas que escrevo aqui, em relação às más atitudes de editoras de banda desenhada e quejandos de merchandising.

Se quiserem dou uma sugestão para essa vossa nova "aventura", para deixar mesmo o Hergé a dar voltas eternas na tumba: ponham o Tintin em Wall Street. E numa sequela, ele poderia vir cá a Portugal trabalhar como banqueiro. Só coisas finas e que são muito lúdicas para a pequenada.

Capitão Phillips [2013]


Se há um fator que é importante destacar em Capitão Phillips (e que é uma característica comum de outros filmes de Paul Greengrass, como é o caso de Voo 93 – as semelhanças de montagem e de enredo são notórias) é a forma como proporciona uma visão muito credível e sincera dos acontecimentos dramáticos ao espectador. E mesmo que se afaste muito da realidade dos factos, a obra proporciona uma experiência de proximidade para com o espectador, que quase se sente ali, naquele cenário marítimo em que tanta coisa acontece e onde tudo está em jogo para aquela atribulada tripulação americana.

Filmes como Capitão Phillips são feitos para agradar a um certo tipo de mercado e a um público cada vez mais exigente. Não vemos este filme a apelar à verdadeira originalidade cinematográfica, já que predomina um estilo muito televisivo (muitas cenas dos filmes de Greengrass são difíceis de distinguir de um qualquer momento de um episódio de 24 ou de Homeland) que acaba, sem querer, por se focar demasiado no lado americano da questão (e mais do que isso, nos clichés que estão associados ao patriotismo americano, tal qual nos são apresentados em muitos grandes filmes de ação de sucesso que já fazem parte da cultura popular).

Em Capitão Phillips vemos uma boa obra cinematográfica (mesmo que tenha mais TV do que Sétima Arte), que nos corta a respiração pela sua alta pressão. Encaremos a verdade: só o Cinema Americano nos consegue manipular assim, e mesmo que batam sempre na mesma tecla, eles conseguem concretizar novas maneiras de nos conseguirem agradar. É um filme cujo trailer diz tudo, ou seja, é dos poucos que não dá a entender que é diferente da obra que está a promover. Por isso já se sabe do que se pode estar à espera. Mas esta longa-metragem agradável e despretensiosa ainda nos coloca uma ou outra questão social interessante na sua génese, e por isso também vale a pena. Nem só de complexidades vive a Arte, nem de grandes obras que mudam o pensamento da Humanidade. Felizmente, há também espaço para fitas como esta. 

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

Eu nos TCN

Mais uma vez estou nomeado para os TCN Blog Awards. Não na área de Cinema, que é o que escrevo mais por aqui, mas mais uma vez na área da TV. E não é com um dos meus melhores textos. Nem sequer é razoável, diga-se. Mas o júri é que decide e estou orgulhoso de estar nomeado entre tanta boa gente mil vezes melhor que eu. Se quiserem dar uma espreitadela aos candidatos, carreguem aqui.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

5 filmes com Jesus Cristo (Antes de Diogo Morgado)


Jesus Cristo já tinha estado no grande ecrã antes da versão hot do Diogo Morgado? Claro que sim. E neste novo artigo que escrevi para o Espalha Factos sugiro cinco apostas interessantes que abordam a figura mais importante do Catolicismo. É ler, ver as fitas e partilhar, clicando aqui

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot) [1959]


Saiu antes de «O Apartamento», que tanto tem de drama como de humor ao mais alto nível, mas sucede a um dos maiores clássicos de Billy Wilder («Sunset Boulevard», que tem muito mais tristeza e profundidade) e outros grandes títulos cómicos e prestigiantes da sua carreira (como «Stalag 17», «Sabrina» e «Testemunha de Acusação»): «Quanto Mais Quente Melhor» (adaptação de um filme francês de 1935, intitulado «Fanfare D' Amour» e que, talvez, mereça ser redescoberto, pois ficou perdido devido ao muito maior sucesso da investida americana) é a comédia de enganos definitiva, com uma energia implacável, uma histeria brutal, muitos diálogos refinados e grandes quantidades de muito boa ironia. É a apoteose do humor de Wilder e do seu estilo tão cativante e sedutor, que continua a funcionar hoje e a ser tão hilariante como na sua estreia. Porque também não é por acaso que foi eleita a Melhor Comédia Americana de Todos os Tempos, numa lista de 100 títulos elaborada pelo AFI (American Film Institute). «Quanto Mais Quente Melhor» brinca com os modelos tradicionais da narrativa, e da própria comédia cinematográfica (ele faz uma autêntica revolução no humor americano e na maneira como os "states" viam o que era ou não risível, ou seja, entre o que poderia ser permitido dentro do seu elevado conservadorismo - ver que esta fita não era "adequada para menores" pode tanto causar gargalhadas como muitos dos gags do filme). Sendo uma alta comédia, onde os enganos sucedem-se atrás dos outros, e onde as piadas parecem não ter fim (e que nos são lançadas, em certos momentos do filme, como se uma "metralhadora" causadora de risos se tratasse), «Quanto Mais Quente Melhor» é uma obra onde as punchlines (mas das boas!) dominam, mesmo que algumas cenas possam ser de um gosto menos subtil e mais popular (mas que resultam excelentemente bem!) tal como a boa música e a qualidade dos seus atores, adequadíssimos às personagens que desempenham e às loucas e desvairadas situações a que estas são submetidas. Billy Wilder ficou conhecido pela sua irreverente irreverência, pela forma quase descarada, mas sempre divertida, como olhava o mundo e como mexia os "peões" do seu jogo cinematográfico. «Some Like It Hot» é o melhor exemplo disso mesmo, em que cada jogada, cada passo, cada movimento fornecido pela câmara, pelo elenco ou pelo argumento, é deliciosamente revelador de uma época e de um país que ansiava por mudanças culturais (e não se esqueçam que, em 1959, a ideia do McCarthyismo estava ainda muito presente na sociedade americana!). Ah, e também é importante não esquecer que esta fita é mais uma prova que tudo pode fazer rir, se manuseado de uma forma inteligente, perspicaz e completamente surpreendente.


É que, para muitos, talvez a posição n.º1 de «Some Like it Hot» nesse género de listas indica apenas um pretensiosismo por parte de muitos, que não querem abrir os olhos às novas tendências da comédia e, talvez, a filmes que são melhores do que este. Nada mais errado, e daí ser merecedor essa distinção: talvez esta seja uma comédia que, como poucas (as que são mesmo boas), conseguiu não perder nenhum do seu charme e do seu brilhantismo com o passar dos anos. E felizmente que isso se sucedeu, porque senão, não poderia lidar com uma história tão fascinante que, envolvendo um período negro do século XX (a Lei Seca), e que está bem presente numa das primeiras cenas que pouco tem de cómica, consegue criar, depois, pequenas e grandes piadas com tudo o que rodeia os dois protagonistas (uns músicos - Tony Curtis e Jack Lemmon, que aqui o vemos em completo estado de graça - que tocavam num bar clandestino que fechou e, depois de perderem tudo o que lhes restava numa estúpida aposta, decidem-se a fazerem-se à vida e continuarem a lucrar, candidatando-se ambos a uma banda totalmente feminina, que está de partida para breve e que, que grande coincidência!, precisa de mais dois instrumentos - e não, isto não se trata de um contrasenso por parte do autor destas linhas!) que não conseguem deixar alguém indiferente ao ambiente entusiasmante e hilariante da obra de Billy Wilder. Numa contínua guerra dos sexos (que não cai nos clichés e nos temas secantes que muita boa gente da comédia de hoje pega para abordar este infindável e inesgotável tema) que tem ainda uma Marylin Monroe deslumbrante (e que, pelo o que contou Wilder, foi uma das atrizes mais complicadas com quem já trabalhou - muitos planos e cenas foram repetidas até à exaustão pela incapacidade da atriz de conseguir, na maioria dos takes, fazer o seu papel como deve ser -, mas no final, tudo valia a pena, quando conseguiam captar os momentos que, depois, tornaram-na tão graciosa e magnífica neste e noutros filmes americanos lendários) e um espírito cómico, sensível e poético até, que nos causa ainda uma felicidade incrível, «Some Like It Hot» é uma das grandes comédias da História do Cinema, arrematada pelo desfecho mais caricato e hilariante de sempre. É um filme tão contagiante, inovador e audaz, que ainda pode ser provocador para muitos, e uma fonte de eternas gargalhadas para outros. Mas penso que, lá no fundo, Billy Wilder queria mais ver a sua plateia a rir, com todos os bons disparates que aqui deixou para a posteridade. Este filme, minhas senhoras e meus senhores, é lindo, e ponto final.

* * * * 1/2

sábado, 19 de outubro de 2013

Oldboy - Velho Amigo [2003]


Em vésperas de estrear o remake americano (assinado por Spike Lee e protagonizado por Josh Brolin), vale mesmo a pena visitar o filme original «Oldboy», porque desse não se pode ter dúvidas em relação à sua qualidade. Muito mais peculiar e sedutor do que qualquer imitação que se possa ser feita, por ser de uma cinematografia diferente e não tão sujeita a "plasticismos" como muita vezes vemos no circuito de Hollywood, «Oldboy» é uma obra vinda da Coreia do Sul e que, tendo sido feita há dez anos, continua ainda uma fita potente, aflitiva para o espectador, surpreendente e emocionante. É um thriller de cortar a respiração (e este cliché das críticas de cinema não é mencionado nesta só porque fica bem quando é relacionada com esse género cinematográfico, é porque é verdade também: «Oldboy» faz o público ficar de boca aberta e entusiasmado com cada novo passo original, brilhante e, em certos momentos, comovente, que a sua narrativa toma. A história fala de Oh Dae-Su, um homem que acorda e não sabe onde está, nem porque foi parar a um sítio desconhecido, nem como é que tudo se sucedeu. Por ali, num quarto fechado onde tem como companhia apenas uma TV, passa muito tempo (ou seja, vários e longos anos, para sua tristeza e simultânea fúria, principalmente porque, durante a sua longa estadia no dito quarto, a sua mulher morreu e a sua filha partiu para longe, e ele será acusado de um crime que não cometeu) e depois, sai de lá de repente, ainda cheio de coisas por esclarecer. E, tal como ele, nós pouco sabemos desta situação tão invulgar e que vem desprovida de qualquer explicação, e que nos faz ter tantas questões para responder, questões para as quais nunca encontramos resposta porque não encontramos os meios que precisamos para as dúvidas desaparecerem. O mistério prossegue e cada vez ficamos mais apavoradas, à medida de Oh Dae-Su descobre e nos mostra mais novos pormenores que podem esclarecer as dúvidas, conduzindo a um final que tem tanto de estimulante, como de profundamente arrebatador. No fundo, tudo foi milimetricamente bem planeado, e nada foi posto ao acaso. É tudo um plano com um certo objetivo, com o seu quê de assustador e de preverso e chocante, que faz a parte do thriller do filme tão ou mais intensa que muitas outras obras incluídas nesse género.


«Oldboy» é uma obra prima moderna, daquelas que fascina metade do mundo e que é repudiada pela outra, talvez mais ao seu estilo pouco usual, brutal, bizarro até, e aparentemente indisciplinado, muita gente tenha ficado de pé atrás, e ainda por cima, por ter sido Quentin Tarantino quem ajudou a internacionalizar o filme, algo que é usado por muitos para explicar porque não gostaram desta obra (e os seus gostos cinematográficos são muito invulgares, diga-se de passagem). Mas é um filme a que ninguém consegue ficar indiferente, ou pelo menos, não deve haver uma alminha sequer neste mundo que tenha continuado a ver da mesma maneira depois de visionar «Oldboy». E se pusermos a violência, controvérsia e o brilhantismo causado por essa violência e essa controvérsia de parte, o filme pode ser visto como uma espécie de «O Conde de Monte Cristo» moderno, mas com muito mais sangue, violência (expressa de formas tão marcadas e surpreendentemente icónicas nas cenas que envolvem um certo martelo) e reviravoltas inesperadas no argumento e nas personagens do mesmo. A vingança é um prato que se serve frio e são muitos os que querem dar esse prato para os outros provarem... com uma fascinante banda sonora e uma impecável montagem e mise-en-scène, «Oldboy» é um filme esteticamente forte e arrepiantemente construído, repleto de suspense e twists avassaladores (não só de "pressão" dramática ou emocional, como também nas pequenas atitudes que Oh Dae-Su tem no seu contacto com o quarto ou quando regressa, mais tarde, ao mundo real/exterior), sensacional pela sua expressividade e, mais importante até, pela forma inovadora que dá à sua expressão, ao seu conteúdo e ao seu estilo muito próprio e único. Depois de «Oldboy», o Cinema não pôde voltar a ser o mesmo e, com ou sem remakes e reinvenções de um conceito que surgiu originalmente num manga japonês (e de que o filme adapta) e que tão bem foi transposto para o grande ecrã, utilizando meios muito originais, é esta a obra que marcou o público e a história de obsessões, amor e família, que transporta tão eficazmente. «Oldboy» é uma fita de culto, uma obra cinematográfica aplaudida de pé por aqueles que não têm grande influência na imprensa especializada, mas que gostam de ver bons filmes. E fizeram bem.

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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Shaun of the Dead [2004]


Primeiro tomo da famosa "trilogia dos Cornettos" (cujo último filme, «The World's End», estreou este ano um pouco por todo o lado - menos em Portugal, como já se estava à espera...), «Shaun of the Dead» (o título português é demasiado mau para ser alguma vez mencionado nesta crítica) é uma interessante investida em retomar o espírito da comédia cinematográfica britânica para as tendências cinematográficas atuais e para as potencialidades criativas dos novos meios técnicos que o Cinema tem. Simon Pegg e Nick Frost, uma das duplas mais populares da comédia britânica (começaram brilhantemente no programa de sketches «Big Train» e «Spaced» foi a sitcom que deu a entender a grande química entre ambos - e este filme baseia-se em um dos seus episódios -, e que depois se estendeu a outros programas e filmes) protagoniza este filme de zombies que goza com o próprio género constantemente. Realizado por Edgar Wright (que também fez os dois outros seguintes volumes da trilogia), «Shaun of the Dead» mostrou que é ainda possível revolucionar a comédia no Cinema, e que não é ainda a televisão que domina toda a criatividade. Os três excêntricos filmes de Wright, Pegg e Frost deram uma nova frescura ao Cinema britânico e a ideias inovadoras que nunca tinham sido muito bem utilizadas para termos cómicos, mas que aqui resultam bem, e por vezes, de forma surpreendente. Numa história que se centra em dois amigos inseparáveis, Ed (Frost) e Shaun (Pegg), que danifica a sua relação amorosa por causa do espaço que dá a Ed, «Shaun of the Dead» é uma comédia romântica de zombies muito bem construída e engraçada, que depois se eleva a filme de terror pela quantidade de acontecimentos paranormais que acontecem na pequena cidade onde os dois moram, e que se torna numa pandemia mortífera que começa a afetar muitos dos que os rodeiam no quotidiano. Não sendo inovadora em cinematografia, é de louvar o esforço feito para que todos os elementos técnicos se conjuguem bem com os elevados disparates (com graça) do argumento do filme, sendo que a montagem joga admiravelmente com todo o ambiente de terror e de gargalhada proporcionado pela fita.


Se bem que a narrativa tenha uma estrutura demasiado lógica (devido à fórmula, esgotadíssima e repetidíssima, dos filmes de zombies), caindo muitas vezes numa previsibilidade excessiva (num argumento que parece querer ser a única coisa a sustentar todo o filme), «Shaun of the Dead» é uma obra que vale pelas boas piadas e pelos grandes atores que possui. É uma paródia engraçada, caricata e com alguns toques de brilhantismo e irreverência, e que, apesar da lógica, consegue brincar com os clichés dos filmes de terror, introduzindo-lhes novos elementos que os tornam mais interessantes. E por outro lado, tem clichés narrativos de que estamos à espera de ver (em todo o dramatismo que está inserido na narrativa), mas que vemos com delícia por causa das coisas boas que o filme nos proporciona. «Shaun of the Dead» é um filme onde temos de alinhar na estupidez do seu conteúdo e nos facilitismos que o mesmo nos provoca, para o podermos apreciar da melhor maneira possível. «Shaun of the Dead» é uma boa comédia, sem pretensões de ser mais do que aquilo que pode ser, aproveitando ao máximo a sua "pequenez" para criar um belo momento de entretenimento e de humor. Se fosse apenas um filme de zombies, talvez não seria sequer relevante no panorama cinematográfico, mas o toque de Wright, Pegg e Frost é que dá todo o espírito à fita que fez com que ela se tornasse muito popular (aliás, tal como os dois filmes seguintes da trilogia - pena é que por aqui as distribuidoras continuem de olhos fechados...). Repleto de dinamismo e, em parte, uma moral que parece ter sido recuperada dos filmes clássicos americanos (mas que é aqui reinventada para o século XXI), nomeadamente pelo foco na história da amizade forte entre Shaun e Ed, que nunca os poderá separar (e a amizade é também um denominador nos outros volumes da saga), «Shaun of the Dead» balanceia entre o drama, o terror e a pura comédia grotesca, "screwball" e/ou satírica (muito presente no final, que é mesmo a melhor forma de desfecho que poderia ser criada para um filme como este), e que deve ser visto com gosto e com boa disposição. E que, de tão simples, se torna uma interessante investida humorística que funciona e que é uma maravilha.

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Eu e os Filmes que Marcaram no Sala3


A convite do Tiago do blog «Sala 3», falei dos filmes que me marcaram. É uma escolha difícil, mas optei por três que, provavelmente, são os que mais me influenciaram até hoje. Podem ler o post clicando aqui. Bom proveito!

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Das votações

Depois de fechadas as urnas das "eleições" aqui do blog, vou começar a meter mãos à obra e a escrever sobre 5 dos filmes que estiveram a concurso e que foram os mais votados (houve três que mais se destacaram, e depois há uma grande discrepância de votações entre os restantes, sendo que os outros dois que vou criticar tiveram ambos dois votos). Começo amanhã com «Shaun of the Dead», o grande e não-muito surpreendente vencedor da "poll", e nos próximos dias, ao ritmo de um por cada 24 horas, serão publicados os outros. Depois, estará à disposição uma nova "poll", com mais escolhas novas e as antigas que sobraram, um dia destes. E estará tudo nas vossas mãos, e haverá uma novidade: poderão votar mais do que um! E não abusem, por favor! Dou a mão e querem logo o braço, olha-me esta...
Mas agora sou sincero, e agradeço muito às pessoas que vieram aqui votar. Foram mais do que eu esperava e encheram-me de alegria mais uma vez. Continuem por aí!

Frances Ha [2012]


Este filme foi o alvo da primeira crítica cinematográfica que escrevi para o site Espalha Factos e que foi publicada há poucos minutos nesse estaminé. Aqui deixo um excerto da mesma, mas para a poderem ler de forma mais aprofundada e vá, interessante, não deixem de espreitar o meu textinho integral, que não leva tanto tempo a ler como as críticas habituais deste blog. E não abram só o link para verem a classificação que atribuí ao filme, pode ser? Fitas como esta valem muito mais do que uma mera nota numa escala de 0 a 10 (que é a que é usada no EF). Acedam à crítica completa aqui.

Filmado a preto e branco e realizado por Noah Baumbach (responsável também por Greenberg e A Lula e a Baleia), Frances Ha é uma comédia com toques de drama que não deve tanto a Woody Allen (e ao seu mítico filme Manhattan) como alguns críticos quiseram mencionar, sendo apenas visível a referência em algumas cenas de diálogo entre as várias personagens da obra e que nos recordam muito do neurotismo que caracteriza a filmografia do comediante. 

Fabulosa obra que possui uma alegria contagiante, Frances Ha toca-nos como poucos filmes conseguem, por abordar os sonhos e as ambições dos seres humanos através de uma figura tão ingénua, mas ao mesmo tempo, tão reveladora da forma como a juventude e a idade adulta se afastam em termos de sensatez e de tudo aquilo que faz parte de nós e que queremos mostrar aos outros.

Frances Ha é um filme independente, feito fora das exigências do circuito de Hollywood, mas que é tão doce como qualquer comédia romântica produzida pela indústria norte americana, e é muito mais inteligente do que toda uma série de filmes que afirmam ter uma complexidade gigantesca. Quem não deseja ser feliz e, tal como Frances, quem não quer concretizar mesmo os sonhos que planeou para a sua vida?

Cem anos de Vinicius



Dia 19 deste mês, comemora-se o centenário do nascimento do Grande poeta e artista Vinicius de Moraes. Ele é o Brasil e o Brasil deve parte da sua identidade às suas letras e às canções que delas surgiram, que tão bem retratam a magia da alma carioca. Por aqui começou a festa uns dias antes, porque adoro Vinicius. E esta é uma das inúmeras pérolas que estão presentes no YouTube. No Brasil há muitos preparativos e eventos, que tentam fazer uma homenagem digna ao "Operário em Construção". Tal é impossível, porque a melhor homenagem que lhe pode ser feita é ao ouvir e ler a sua obra...

domingo, 13 de outubro de 2013

Inherit the Wind [1960]


Yes. The individual human mind. In a child's power to master the multiplication table, there is more sanctity than in all your shouted "amens" and "holy holies" and "hosannas." An idea is a greater monument than a cathedral. And the advance of man's knowledge is a greater miracle than all the sticks turned to snakes or the parting of the waters.

Stanley Kramer foi um realizador que quis fazer filmes que fizessem a audiência pensar: «O Julgamento de Nuremberga», sobre o caso dos oficiais nazis que cometeram crimes contra a humanidade, «Adivinha Quem Vem Jantar», envolvendo crenças familiares, e «O Mundo Maluco», que retrata diversas situações cómicas e atribuladas na sociedade contemporânea, são três exemplos dessa componente que influenciou muito a filmografia do cineasta. «Inherit the Wind» é outro desses emblemáticos casos. Pegando no famoso "Monkey Trial" de 1925 (que se tornou numa peça de teatro, que serviu de base para o filme - e o realizador fez uma estreia do filme na cidade onde ocorreu o dito "Trial"), que pôs em causa o criacionismo e o evolucionismo, e o facto das pessoas poderem ou não pensar pelas suas próprias cabeças, Kramer faz uma alusão subtil aos tempos conturbados que se viviam na época, marcados pela "caça às bruxas" do McCarthyismo. O resultado é uma obra que criou e continua a criar polémicas e que alertou consciências para a liberdade de expressão e pensamento. «Inherit the Wind» toma a posição inteligente de não tornar um dos lados da medalha certa e a outra errada, dissecando completamente as razões que levam umas pessoas a acreditarem no criacionismo, e outras pessoas a apoiarem-se na teoria da «Origem das Espécies» de Charles Darwin. A questão ainda consegue ficar mais complicada do que isso, quando se põe em causa a proibição de se ensinar essa teoria nas escolas, o que leva ao julgamento que põe em dúvida a culpabilidade ou a inocência de um professor, que arriscou, numa terra conservadora de nome Hilsboro (que prefere ficar atrasada no tempo e não evoluir, sequer, na tolerância religiosa ou de pensamento dos seus habitantes - algo que fica desde logo patente na música que abre o filme, que tem por letra: Dê-me a religião antiga, é boa o suficiente para mim), ensinar aos estudantes o evolucionismo. Como é que uma entidade pode dizer qual das teoriias está certa, quando na realidade, não temos a certeza definitiva de nenhuma delas? Talvez a resposta para a criação do Mundo esteja ainda mais longe do que pensámos, distante do que a ciência ou as crenças possam supor, e nem fanatismos de qualquer dos lados da medalha possa ter solução para isso... 


Spencer Tracy é Henry Drummond, um grande advogado que chega a Hilsboro para defender o pobre jovem professor que tem toda a aldeia contra ele, e que terá alguns momentos de grande superioridade artística neste filme. Fredrich March é Matthew Harrison Brady, o advogado da acusação, um indivíduo muito popular na aldeia e o "guru" dos fanáticos da mesma, que não olham a meios para impor a sua visão das coisas - quando chega a Hilsboro tem uma receção digna de presidente dos EUA, com toda a gente a recebê-lo, a aclamá-lo, a rir-se das suas piadas e a tratá-lo como um ser superior e divino! - e que, com Spencer Tracy, tem outros tantos momentos gigantes desta obra. E Gene Kelly (talvez a surpresa deste elenco - como é que seria possível pensar que poderíamos ver o dançarino de «Um Americano em Paris» e «Serenata à Chuva» a conseguir ser tão sério num filme assim, e a dizer frases como: A função do jornalismo é confortar os doentes e adoecer os confortados...) é um sarcástico, perspicaz e caricato jornalista que vê as situações que se desenvolvem naquela pequena aldeia com uma ironia muito aguçada, porque está desacreditado de tudo aquilo e acredita apenas no valor do Homem, fora do "rebanho" em que está inserido, e que glorifica o professor, preso e pronto a ir para tribunal, nos artigos que envia para o seu jornal. O caso movimenta muitas pessoas, opiniões e protestos (alguns de um fanatismo exageradíssimo), e o acusado, perante tantas ameaças de um povo irracional e que leva tudo até ao maior dos extremos, mantém-se firme na sua ideia e não desiste do seu objetivo para, em troca, poder ser considerado inocente. Ele ensina-nos que não devemos vender-nos perante a maioria, mesmo que isso implique grandes complicações. Conformismo nunca leva ao progresso, e se o Homem nunca quisesse sair do seu comodismo e do seu "ninho", muita coisa não teria sido alterada, para o bem ou para o mal, na Humanidade... e talvez, este filme nunca tivesse sido feito! E lá está, também foi necessária coragem do estúdio, de querer adaptar uma obra tão polémica (mas que poderia ser tão lucrativa) é também de louvar, isto se virmos mais uma vez a época de fanatismo em que «Inherit the Wind» foi lançado pela primeira vez nos EUA.


«Inherit the Wind» é uma poderosa reflexão sobre o poder da comunidade sobre o indivíduo, e pela maneira irracional com que, muitas vezes, certos grupos de pessoas se deixam guiar pelos seus líderes, nunca pensando verdadeiramente naquilo que eles acreditam ou naquilo que eles lhes levam a executar na sociedade. É um filme audaz, onde Stanley Kramer acertou muito bem naquilo que quis retirar do "Monkey Trial" e da referida peça (que, de tanto sucesso que teve - e de tanta controvérsia que continua a gerar - é ainda reposta várias vezes por diversas companhias de teatro espalhadas por toda a América do Norte). Não se debruça tanto sobre a fé, mas sim no modo em que a mesma é utilizada pelos crentes, que muitas vezes, nas "mãos erradas", pode causar ações que se contradizem completamente com os princípios de qualquer verdadeira religião: a intolerância e a falta de compreensão para com o próximo. «Inherit the Wind» não é, por isso, um filme anti-religião nem anti-darwinismo, e apenas mostra que ambas as coisas podem convergir para o mesmo lado e que não é por se acreditar mais na Evolução que se perde a crença, como apregoa Brady em várias partes da fita. «Inherit the Wind» mostra-nos o poder das influências (e, em contraste com o presente da feitura do filme, o poder dos poderosos que fizeram meio mundo americano acreditar no fanatismo de McCarthy) e a forma como uma voz inteligente e estruturada se pode distinguir no meio da multidão (os diversos discursos de Drummond nas cenas do longo e intenso julgamento são disso exemplo - e que são a parte mais conceituada do filme -, com o advogado a conseguir mexer na opinião de muitas das pessoas que assistem à sessão naquele pequeno tribunal). Esta é uma obra que "parte a loiça toda", onde vemos a verdadeira Justiça a ser e a não ser posta em prática, com as palavras sinceras do extraordinário, astuto e inteligente argumento, que nos mostram que o debate religioso (ou nem tanto) continua muito marcado nos nossos dias. Mas a crença serve para confortar e não para criar medo nas pessoas, como algumas personagens pensam acreditar. Filme ainda muito atual, carregado de uma força espantosa e de uma emoção surpreendente, «Inherit the Wind» quer ser uma obra vista por toda a gente e que, independentemente das crenças, faça os espectadores pensarem sobre várias temáticas. E consegue fazer isso de uma forma arrasadora. É uma fita sempre atual, sempre provocadora, e sempre excecional.

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sábado, 12 de outubro de 2013

O Grande Escândalo (His Girl Friday) [1940]


«His Girl Friday» é um filme sobre jornalismo e jornalistas (e que tem uma historieta de amor lá pelo meio), baseado numa peça de teatro, «The Front Page» (que teve três adaptações cinematográficas até hoje, sendo esta a segunda, e a última foi assinada por Billy Wilder, sendo uma das suas últimas obras), ambientado no "período negro" passado por essa profissão (não estará num segundo período assim, hoje em dia?), como nos alerta a sua nota introdutória. Fala-nos, mais do que tudo, dos ideais da imprensa e das pessoas que fazem a imprensa, e que, contaminados ou não pela ideia de obter lucros ou por, simplesmente, continuarem a seguir as suas vidas sem quererem saber do impacto daquilo que querem fazer no jornalismo, fazem o seu trabalho nas mais diversas áreas, e para os mais diversos públicos. Se bem que a ação se centra nas personagens interpretadas por Cary Grant e Rosalind Russell, um homem e uma mulher divorciados, mas que continuam marcados pelo seu passado e pelo caráter um do outro: Walter Burns, um viciado na Notícia e na sede de se criar a Notícia, e Hildy Johnson, uma grande jornalista desejosa de se demitir para poder livrar-se de todo o ambiente frenético e stressante da imprensa e casar-se com a pessoa que ama. Walter vai fazer tudo para reconquistar Hildy, ou pelo menos, para não a perder de uma vez para sempre, e tentará constantemente estragar a vida aos dois noivos graças a toda uma série de esquemas trapaceiros, que levam a que os planos do casal tenham de ser alterado por diversas, e divertidas, circunstâncias. E lá no fundo, nós simpatizamos com Walter Burns, apesar das suas intenções muito egoístas e caricatas... Com um humor ácido e inteligente característico das grandes "comédias sofisticadas" dos anos de ouro de Hollywood (tal como «Casamento Escandaloso», de George Cukor e que tem também Cary Grant no elenco), «His Girl Friday» prima pelo timing perfeito dos seus atores, das suas ações e dos seus diálogos, mas também pela elevada, e refinada, sátira social que está retratada nesta narrativa, sendo também uma mordaz crítica ao jornalismo e ao uso da objetividade (muitas vezes criada para fazer fações subjetivas dentro de uma Verdade e, consequentemente, uma manipulação enganosa dos acontecimentos) pelos senhores dessa profissão, tal como o sensacionalismo tão lucrativo para jornais e revistas, e que continua hoje a ser o pão nosso de cada dia da comunicação social. No filme, um grande acontecimento nacional irá suceder-se e tornar ainda mais frenético o dia destes personagens, e condicionará tudo o que irá acontecer. É o jornalismo sempre de encontro à realidade dos factos, factos esses que quer seguir segundo a segundo. 


Em «His Girl Friday», a velocidade com que as personagens falam (e que inspirou Quentin Tarantino para algumas cenas do clássico «Pulp Fiction») pode ser comparada à velocidade como o jornalismo e o palpitar dos acontecimentos noticiosos influencia o rumo das personagens. É uma característica curiosa, principalmente se se notar que este filme é de 1940, e que o cinema sonoro era ainda uma invenção muito recente. Este é daqueles filmes que aproveita a potencialidade do som ao extremo (e ainda bem!), proporcionando uma série de diálogos bastante inspirados, sempre proferidos no momento certo e que sempre encantam o espectador. Além de dissecarem a matéria noticiosa até ao mais ínfimo pormenor e de escreverem "falsas" verdades, os jornalistas do filme são vistos quase como "robots" do jornalismo, que só têm olhos para colher tudo o que possa captar os leitores e que olham, indiferentes, perante a tragédia iminente que eles próprios estão a seguir, mas as consequências para os "alvos" pouco lhes importam saber. E é curioso como um filme tão mordaz e irreverente pudesse ter sido feito assim nos anos 40! Num ritmo imparável e impagável, que proporciona a esta obra um bom punhado de cenas verdadeiramente grandiosas e inesquecíveis, onde as coisas se sucedem umas atrás das outras, «His Girl Friday» é um dos expoentes máximos da tradição americana, quando esta sabia renovar-se e não como hoje em dia, que parece que gosta de voltar sempre às mesmas fórmulas e aos mesmos "vícios" narrativos e cinematográficos. No tempo de «His Girl Friday» inventou-se de tudo com todos os meios, e felizmente, estas magníficas fitas ficaram para a posteridade. Com uma fascinante e absorvente montagem, tão bem acompanhada pelo génio de Howard Hawks e a sua habilidade com a câmara, que faz com que ela seja uma das protagonistas do filme, fazem do mesmo uma obra ímpar no Cinema americano. E no meio de interesses pessoais, prevalece uma inteligente e perspicaz forma de ver o mundo com estas personagens que tão bem representam alegorias do género humano, e que continuam extremamente atuais. É um filme que podia ser feito hoje, numa época em que o poder da novidade e do lucro da mesma é tão ou mais intenso do que nos "forties", dado que agora temos tantos meios de comunicação para explorar. 


Para uns é humor constante, o que há em «His Girl Friday», mas talvez se virmos com mais atenção, percebemos que, mais do que provocar gargalhadas, a fita de Hawks dá umas boas e constantes facadas na sociedade dos "states", onde tudo faz com que se suceda um "gran finale" que tanto tem de "happy ending", como também de final não-tão feliz ao nível social. Muitos filmes deste tempo terminavam com finais deste género, mas quantos é que nos conseguem fazer pensar sobre a maneira como tudo acabou, tal como «His Girl Friday» nos provoca? Não é algo que foi feito para dizer "OK, ficou tudo bem, fim da história, passemos ao filme seguinte"! Talvez Hawks incluiu no filme uma subtil ironia sobre a humanidade e a maneira como desistimos do que queremos verdadeiramente para a nossa vida, em função do que os outros querem, ou devido ao que o coletivo espera de nós. Talvez não haja isto em «His Girl Friday» e eu esteja só a inventar significados que não existem... ou talvez não. O que é certo, é que esta é uma grande comédia, muito virada para a sociedade e que toca a todos. E não é preciso ser-se jornalista para se apreciar esta maravilha.

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O meu primeiro artigo para o Espalha Factos

Acabou de ser publicado o meu primeiro artigo escrito para o Espalha Factos. Leiam, comentem e partilhem, porque até 'tá giro. 
http://www.espalhafactos.com/2013/10/12/rodagem-d-os-maias-de-joao-botelho-comeca-segunda-feira/

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Um Criado Ao Seu Dispor (Room Service) [1938]


Comédia esquecida e subvalorizada dentro do vasto - e riquíssimo! - espólio humorístico deixado pelos formidáveis Irmãos Marx, «Room Service» está ao nível dos melhores filmes do grupo no que diz respeito à arte da gargalhada. Aqui já não vemos o irmão Chico, o membro mais tímido e apagado dos Marx (não era ele que estava encarregue das grandes cenas cómicas destes filmes), mas a energia inigualável e indissociável do estilo perpetuado por Chico, Groucho (o impagável Groucho, sempre com resposta na ponta da língua!) e Harpo Marx continuou e perdurou, felizmente, para a memória da Comédia, e para a memória do Cinema. Em «Room Service» há espaço para se gozar com a seriedade do drama cinematográfico da época, numa história que envolve teatro e a grande organização e produção que das artes de palco, e que faz deste filme uma grande comédia de enganos altamente construída como os grandes clássicos deste género humorístico, e que muito se assemelha ao ritmo de uma peça de teatro ou, se preferirmos fazer comparações mais atuais, à estrutura de algumas boas "situation comedies" que foram exibidas nos últimos tempos. Em «Room Service», todos precisam de dinheiro porque nenhum dos "heróis" da trama o tem, e ficará carregado de sarilhos se não conseguir resolver essa questão, que faz a génese do filme, da sua história e dos rumos (alguns deles ainda muito originais hoje em dia) que esta toma. Constantemente eles pensam que conseguiram encontrar a salvação para os seus problemas, mas depois nada se conseguiu resolver, e temos apenas mais uma razão para rir a bom rir, com mais cenas e situações novas pelas quais os Marx e os restantes atores do filme (cada um com as suas particularidades cómicas) têm de "enfrentar"... sempre da forma mais engraçada possível. Nós, espectadores, sabemos sempre mais do que as personagens de «Room Service», mas é impossível não se ficar deliciado com as peripécias vividas por um tão caricato elenco, numa tão caricata narrativa.


«Room Service» foi o primeiro filme que vi dos Irmãos Marx (e este revisionamento soube ainda melhor, porque não me lembrava de tantos momentos emblemáticos desta comédia), e pode ser uma comédia pouco excêntrica e histérica (no bom sentido), se for comparada, por exemplo, a «Duck Soup», a obra maior do grupo, mas é um filme muito divertido, carregado de surpresas e mais surpresas, e que tem cenas que são verdadeiramente de antologia cómica. Se bem que possua uma história de amor mais desinteressante, esta apenas serve como paisagem e como possibilidade para os Marx explorarem as suas capacidades, numa obra que implica mais comédia linguística do que, propriamente, o humor mais físico e "slapstick". Contudo, o timing, essa ferramenta tão preciosa para o humor, está vivamente presente e é notável a forma como os Marx conseguem fazer tanto com tão pouco: para eles, qualquer movimento, qualquer forma de falar e qualquer reação pode ser usada para fazer rir, e eles fazem-no como ninguém mais soube fazer. «Room Service» é uma comédia mais certinha, medida e rigorosa do que os Marx habituaram os seus fãs em anteriores e posteriores fitas, mas há espaço para a caricatura e os exageros tão bem trabalhados pelos irmãos. Com alguns erros técnicos muito visíveis, a nível da história e da construção de uma ou outra cena, «Room Service» vale pelo poder dos Marx e pela transformação que dão a um filme que, sem eles, nunca teria passado despercebido da cena hollywoodiana. É uma fita não só aconselhável aos fãs de um dos grupos cómicos mais famosos de sempre, como também a todos os pessimistas da comédia clássica e "antiquada". Experimentem, porque talvez serão capazes de se surpreender...

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Génios e Prémios



Quando um génio dá um prémio a um génio: Jack Lemmon apresenta e entrega o Oscar Honorário atribuído a Groucho Marx, na cerimónia dos prémios da Academia de 1974. Imperdível.

Novas

Fiquei ontem felicíssimo por saber que me aceitaram para a área de Cinema do site Espalha Factos, um sítio que versa sobre as novidades da Cultura e que no qual participam muitos dos meus colegas e amigos da Faculdade. Vou começar a trabalhar já nesta sexta-feira: vou a uma antestreia. Que mais poderia querer? Muito obrigado. Isto vai ser excelente.

Mudando de assunto, entre hoje e domingo irei publicar aqui três críticas aos dois últimos filmes que vi, não só porque não os consigo colocar agora na "poll", como também porque são fitas que das quais quero escrever neste momento. Mas a votação continua a decorrer, por isso escolham já (e façam-no as vezes que quiserem, a casa agradece) o filme que gostariam de ver aqui criticado, entre os nove que pus a votação. Só quero mesmo escrever sobre estes três, sem estar sujeito à opinião do público, porque são duas fitas que anseio escrever já, antes que a vontade passe. Fiquem desse lado, eu volto já.

sábado, 5 de outubro de 2013

Um momento de interatividade entre os leitores e o garoto que escreve isto

Como referi há dois posts atrás, agora vai ser difícil vir cá todos os dias atualizar o blog. E tenho tantos filmes para criticar que, à hora em que deveria escrever, nem sei em qual deles é que devo pegar.

Por isso decidi criar a "poll" que se encontra no lado direito deste estaminé, para assim, serem vós, leitores, a escolherem os destinos cinéfilos da minha escrita. 

Votem no filme que gostariam de ver aqui criticado e escrutinado e, quando eu tiver um tempinho bom para dar asas ao teclado, irei pegar no grande vencedor. Mas a "poll" não termina e, assim, quando retirar o primeiro filme os votos continuarão, e quando vir um novo filme, colocarei o seu título na votação. 

Espero que se divirtam. Isto é, se não tiverem nada mais interessante para fazerem.

P.S - Se não conhecerem nenhum dos filmes não há problema, votem no título que vos parecer mais apelativo, giro, ou engraçado. Estou as vossas ordens! Só para isto, como é óbvio.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Bullitt [1968]


Uma lendária perseguição de carros (altamente bem montada e executada, que  ainda hoje faz roer de inveja qualquer grande cena cheia de aparatos visuais recorrentes nos múltiplos tomos de «Velocidade Furiosa» e afins), a escolha para preservação no American Film Registry (dedicado à conservação da memória dos filmes culturalmente, historicamente e esteticamente significantes) e o ator Steve McQueen: eis, de uma forma muito redutora, o que representa o filme «Bullitt», realizado por Peter Yates, para os dias de hoje. Há mais para dizer e, sobretudo, para ver nesta obra tão tipicamente americana, mas tão deliciosamente interessante. «Bullitt» foi o filme que tornou McQueen numa verdadeira estrela pop. Sim, já tinha sido feita «A Grande Evasão», e é ainda a sua fita mais celebrada e reconhecida, mas foi aqui que o ator teve a personagem mais marcante da sua filmografia (o polícia Frank Bullitt), que vive de um mais ou menos intenso "character study" ao longo da narrativa. Quer se goste ou não, é inegável que «Bullitt» é um marco do Cinema Americano e do entretenimento feito por um país que é o melhor a saber dar aos espectadores o que eles querem ver, se bem que, muitas vezes, isso aconteça de forma absolutamente inesperada e que nos faz querer visionar outras coisas (e «Bullitt» joga com essas partidas de entretenimento muito bem). É uma fita muito cool, carregada de ação e de uma história mais ou menos intrincada, que vive mais de tudo o que a rodeia: os atores (encontramos Robert Duvall num papel bastante secundário, como condutor de um táxi que poderá ser importante para o caso que Frank terá que resolver e que envolve muitos interesses económicos e judiciais), a realização, a assombrosa banda sonora de jazz... todas as partes técnicas que envolveram a produção deste filme e que estão mesmo muito bem trabalhadas. Numa história que envolve uma estranha e secreta Organização, que parece dominar todos os que nela trabalham ou que já não lhe estão nada associados, tudo se atribula com uma testemunha que quer denunciar os crimes do sistema deste grupo económico. O objetivo de Bullitt e dos seus comparsas é proteger o homem acusador até ao julgamento que se realizará dentro de dias... Será que vão conseguir?


«Bullitt» é um clássico do grande cinema de ação à americana e um exemplo brilhante da Arte da Montagem. Um filme como este pode não ser brilhante a nível cinematográfico, mas é inegável a sua qualidade técnica e a preocupação do realizador e da sua equipa em tornar a obra o mais proveitosa possível para os espectadores. As perseguições e o ritmo acelerado da história continuam imparáveis, e o mito de Steve McQueen (a sua voz, grave e aparentemente neutral ao que o rodeia, é marcante, para além do lado apático da sua personagem, para quem violência e morte são constantes do seu quotidiano profissional - e que às quais atribui pouca importância) também não fica esquecido, se se visionar «Bullitt» na atualidade, também muito por culpa da parte de poder económico e judicial que está em causa e que, "acidentalmente", nos faz refletir nos perigos da realidade em que estamos inseridos. Tem uma história de amor desnecessária? Tem. Possui alguns clichés gastos e desprezíveis? Possui. Mas é um bom filme, repleto de grandes ideias, e que continua a suscitar interesse, mais pela personagem do que pela narrativa, é certo (que serve mais de complemento à psicologia aprofundada que se faz de Frank Bullitt). «Bullitt» é um filme "pop" e um ícone da "pop" do século passado, que assenta que nem uma luva às necessidades de muita da "pop" dos nossos dias.

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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Avisozinho

Por agora vai ser assim: menos posts e menos críticas. É impressionante como grande parte do meu tempo livre foi comido não tanto pela faculdade, mas por todas as coisas que a rodeiam. E escrever não tem sido das coisas para as quais tenho tido mais capacidade nos últimos dias.

Mas não vou desaparecer nas próximas semanas. Vou continuar por aqui, mas de forma não tão frequente. Amanhã acabo de escrever uma crítica que comecei hoje, e que será o 1600.º post do blog. A cada dia me surpreendo mais pela dimensão deste meu pequeno estaminé.

Obrigado por estarem desse lado e continuem a vir para estes lados, mais obscuros e desinteressantes, da blogosfera. A porta continua aberta, eu é que não vou estar tanto tempo dentro desta casa. É a vida, são coisas que acontecem. Mas adoro vir aqui. E espero vir cá sempre que puder, ou sempre que tiver inspiração. E não tenho visto muitos filmes ultimamente, apenas dois desde a última vez que aqui escrevi sobre fitas (aquela máxima "um filme por dia não sabe o bem que lhe fazia" foi-se desde há uns tempos para cá, e ler livros que quero não tem sido muito possível), mas tenho material para ser escrito. E vou publicar por aqui. Talvez não em textos tão longos (até porque alguns dos filmes que tenho em "stock" para críticas são tão célebres, referidos e analisados, que eu nada tenho a acrescentar sobre eles), mas a paixão pelo Cinema continua. Eu sempre gostei mais de falar dos filmes do que escrever sobre eles - sinceramente, são muito raras as vezes em que consigo acertar naquilo que queria dizer pelas palavras - mas a Companhia tornou-se uma atividade muito séria para mim, graças ao apoio de muitas pessoas e ao facto de ter leitores assíduos que se interessam pelo meu miserável trabalho. Agradeço-vos a todos e não vos vou deixar ficar mal. Vou continuar a publicar deprimências por aqui.

Despeço-me com amizade, até ao próximo post.