segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Nota de agradecimento à melhor série de sempre


Depois de, há momentos, ter visto o extraordinário último episódio de Breaking Bad, A MELHOR SÉRIE DE SEMPRE!, escrevi um comentário de agradecimento à série na página criada com esse propósito pela AMC. Deixo aqui o texto, em inglês, tal como o publiquei (cheio de erros, está claro). 

I've never been so addicted by a TV american drama series like Breaking Bad. This was an all new experience that I started the past year and finished some minutes ago. This was something that many of my friends had experienced with some shows that fascinated their minds, but were always not so interesting for me. I am more a guy of movies, but Breaking Bad caught me by surprise, and changed my entire life. I never saw anything like this and, I presume, I will not see, from now on, anything that could be so good as Breaking Bad. I'm so grateful to the genious Vince Gilligan, who created a story and characters that are so human (and that is what people most like to see on TV, that's for sure) and to the great actors and technicians that made this "magnum opus" be possible. Thanks to Breaking Bad, I changed my way about drama fiction in american television business, and it make me belief that, despite the economic interests of the guys who just want to know about the damn ratings, there is always space in networks for works that are made with intelligence. Because is shows like Breaking Bad that make that history, the History of Television and the History of the creativity of the humankind and the imagination. imagination that has to be seen as an important factor for the creation of great art. Yes, because Breaking Bad is art, from beginning to end. THANK YOU GUYS! 
From a great portuguese fan, 
Rui

domingo, 29 de setembro de 2013

Às Portas do Inferno (Rashômon) [1950]


Akira Kurosawa teve em «Rashômon» (título com uma tradução portuguesa aparentemente improvável, porque o epíteto original referencia o local onde a história é contada - mas não será que a adaptação tuga tem segundas intenções, pelo menos, filosóficas? Talvez depois de se ver o filme se possa pensar melhor nesse assunto) o seu primeiro êxito internacional. Foi nomeado para um Oscar pela direção artística, tão bem executada, e recebeu ainda o primeiro prémio de Melhor Filme Estrangeiro da História da Academia de Artes e Ciências dos filmes (quando ainda não existia categoria para tal honra - daí que «Rashômon» tenha sido galardoado com um "honorary award" - a distinção só seria criada na edição do ano de 1957), além de que foi o vencedor do prestígio maior do Festival de Veneza, o Leão de Ouro. «Rashômon» é uma história que toma vários rumos e que pode abranger várias conclusões completamente distintas. Uma história bizarra e complexa vivenciada por duas personagens, que mal conseguem acreditar naquilo que viram e que irão contar a um terceiro e desconhecido interveniente, ao longo da ação do filme, revendo em flashbacks o julgamento de um assassinato (que uma das duas personagens contadoras do sucedido testemunhará em tribunal) e, em flashbacks dentro destes flashbacks, as visões dos quatro arguidos, as interpretações e perspetivas que cada um deles tem do caso, tal como se se consideram culpados ou não do terrível crime que está em discussão. Temos um homicídio, ocorrido em circunstâncias já anormais, e as histórias de cada um dos julgados ainda tornam este cenário ainda mais anormal, porque nenhum deles tem uma história que coincida com a dos outros três nem sequer em algum pequeno pormenor! Nesta sua primeira obra de renome mundial, que o elevou ao patamar dos grandes cineastas (apesar de no Japão, seu país de origem, a fita não ter sido lá muito bem recebida), Kurosawa constrói um mistério profundo e complicado, que se alimenta dos espectadores e das emoções que lhes consegue transmitir e, mais importante ainda, das ilusões em que cada um de nós cai, em cada uma das perspetivas filmadas e que, pensamos nós, a cada uma delas, que esta é que pode ser a que está mais próxima da Verdade... mas lá no fundo, todas têm fundamento para serem confiáveis, e ao mesmo tempo, são muito pouco credíveis. Há interesses pessoais em jogo e o que está em causa é que se descubra, afinal, quem é o culpado do assassínio. Será que iremos saber, nesta história tão labiríntica e tão cuidadosamente filmada e adaptada para o ecrã?


Em «Às Portas do Inferno» temos samurais, uma banda sonora majestosa, imperial e fortemente oriental (e tão bonita que é!), e códigos de honra tão rígidos e minuciosos que nos intrigam, por serem tão especialmente marcados por uma cultura que nos está tão distante, mas que sempre queremos ter a oportunidade de poder conhecer melhor. A câmara dinâmica e movimentada de Kurosawa, que sabe exatamente o que pretende de cada situação e de cada imagem que a melhor pode captar e que nos sabe, tal como Kurosawa quer, manipular (no bom sentido, porque todo o Cinema, senão toda a Arte, é o engenho de bem manipular) o espectador, fazendo-o ficar com a sensação de que quanto mais sabe, mais confuso se está a sentir em relação ao que são os "verdadeiros" factos da questão, e quais são as coisas que estão a ser facciosas em cada uma das versões contadas no julgamento. Será que duvidamos, também, da humilde testemunha que nos "faz" o favor de, por intermédio do desconhecido que chega para se abrigar da chuva e fica ao corrente desta estranha ocorrência, nos dizer tudo o que se passou, tintim por tintim, apesar de ele não ter nada a ver com o caso? «Rashômon» é por tudo isto uma obra prima com uma grande força poética e humana, que nos questiona a fé que temos nos seres humanos e na humanidade em geral. Os verdadeiros valores estão a desaparecer cada vez mais, é o que nos parece... será que ainda subsiste por aí algum indivíduo que não põe a sua proteção pessoal acima do bem comum? Existem pessoas em que ainda podemos confiar? «Rashômon» é um filme sobre a bondade e a verdade humanas que, por mais raras e aparentemente inexistentes que possam parecer, andam sempre por aí, "representadas" por pessoas que só querem o bem de todos os que os rodeiam. Mais do que uma obra prima do crime e da psicologia da mente humana, este é um conto fabuloso sobre o espírito e a alma dos homens, sempre posta à prova nos momentos mais difíceis e que aí, verdadeiramente, testamos quem é que as pessoas realmente são, porque ficam desprovidas de máscaras, personalidades ou apoios em certos grupos ou interesses egoístas. Com grandes atores que dão ao filme uma invulgar e fascinante frescura a todo o conjunto (alguns dos atores seriam "peças" frequentes dos filmes de Kurosawa, como Toshirô Mifune e Takashi Shimura - dois artistas que devem, praticamente, toda a sua fama aos personagens que interpretaram nas fitas do cineasta japonês mais conceituado no mundo inteiro) e toda uma mestria cinematográfica ímpar e que continua impossível de ser ultrapassada, «Às Portas do Inferno» alia o melhor de dois mundos: a Arte do Cinema e o Homem, que a torna possível, juntando as possibilidades da Arte com a simplicidade que faz a alma e os problemas dos seres humanos.

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P.S - Aqui podem ver o filme completo legendado em PT-BR no Youtube.

O Círculo Vermelho (Le Cercle Rouge) [1970]


Çakyamuni, o Solitário, aliás Siddhartha Gautama, o Sábio, aliás, o Buda, pegou num pedaço de giz vermelho, desenhou um círculo e disse: “Quando os homens, mesmo sem querer, acabam por se encontrar um dia, tudo pode acontecer a cada um deles e podem seguir caminhos diferentes, mas chegará inevitavelmente o dia em que se encontrarão no Círculo Vermelho.”

«O Círculo Vermelho», o penúltimo filme do realizador francês mais "noir" de sempre, Jean-Pierre Melville (que encerrou a sua obra com o não tão aclamado «Cai a Noite Sobre a Cidade»), é mais um ponto-chave da sua filmografia e uma das suas obras mais influentes e reconhecíveis, não só pelo grande elenco que possui (desde logo pela presença do "repetente" Alain Delon, aqui tão cool e brilhante como em «O Ofício de Matar», até às algo improváveis aparições de Gian Maria Volonté - que foi o vilão enfrentado por Clint Eastwood nos dois primeiros tomos da "Trilogia dos Dólares", de Sergio Leone -, Yves Montand, que aqui está verdadeiramente excecional, e André Bourvil - se tiverem visto «A Grande Paródia», a comédia que o ator protagonizou com o impagável e genial Louis de Funès e que se tornou num dos maiores sucessos de bilheteira da História do box-office e da cultura francesas, ficarão espantados com a carga do seu personagem, o polícia Mattei, neste filme de Melville), como também pelo seu elevado simbolismo (presente logo no início, tal como «Le Samourai», pela citação inicial atribuída a uma figura célebre, mas que é da autoria do cineasta) e pela inegável qualidade de diálogos e da mise-en-scène. Numa história de corrupção, assaltos e de permanentes jogos de "gato e rato", «O Círculo Vermelho» é uma "imitação" do estilo usado e abusado pelo Cinema Americano (e que tanto influenciou Melville) mas que aqui, originou algo novo, incrível e espantoso, que ajudou a criar o estilo cinematográfico que caracteriza um dos maiores nomes do Cinema francês no geral e da "Nouvelle Vague", ou pelo menos, de uma nova onda de "mexer" na câmara, em particular. 

 
«O Círculo Vermelho» é um grande filme policial pelo grande "style-director" europeu que o elaborou, que mantém, ainda hoje, o lado "cool" e fascinante das suas personagens e das suas estranhas formas de estar no mundo. Melville foi o único homem do Cinema que realizou, à letra, fitas em jeito de "film-noir" coloridos, cor essa de tonalidades frias e pouco amistosas (alguns chamam-lhes o lado "blue" do "noir"), que dão ainda uma maior potência à carga sombria de toda a obra, já para não falar da invulgar, mas exuberante, iluminação, usada com fins puramente estéticos e artísticos de forma muito inteligente a nível técnico, da montagem "agressiva" e muito bem executada (com momentos que são de pura genialidade!) e da bonita, profunda e provocante, para além de fantástica, banda sonora, resultante de uma espécie de cocktail entre dois estilos musicais - mais propriamente, o blues e o jazz mais inventivo e improvisado. «O Círculo Vermelho» é um filme inovador que continua a cativar-nos por duas coisas: enquanto cinéfilos, adoramos uma obra exímia na técnica e no espírito cinematográfico (aquela fragrância especial e única que só a Arte das Fitas consegue passar a quem as vê), e enquanto espectadores, vibramos com uma história muitíssimo bem contada como esta e com personagens tão complexos que só nos deixam ainda mais curiosos e viciados na trama e que, também, nos suscitam algumas interessantes dúvidas, como: Será que Corey, Jansen, Vogel e mesmo Mattei são "maus" (na definição de "mau" dos "film-noir" não é a mesma coisa que vilão, atenção!) por natureza ou têm, pura e simplesmente, algo a esconder, nesta obra onde ninguém sorri ou onde nenhum homem tem razão para estar contente (o único momento que me recordo de ter visto alguém sorrir na obra foi nas cenas em que Mattei, quando chega a casa, fala e dá de comer aos gatos)?


«O Círculo Vermelho» foi feito com calma e precisão, e talvez peca apenas um pouquinho por ser demasiado longo e "enche-chouriços" com certas cenas que desvanecem o espírito e o lado "cool" criado pelos melhores momentos da trama, aquela sensação de espetacularidade que um filme como «Le Samourai» me proporcionou verdadeiramente e que me deu a conhecer algo de completamente novo para a minha ainda grande ingenuidade cinéfila. Mas tudo culmina num incrível final que me fez ficar boquiaberto, ao pensar no que tinha visto até então e que, de nenhuma maneira, poderia imaginar que fosse assim que tudo pudesse terminar (pelo menos, na forma como as coisas nos são reveladas, no destino de todas as personagens principais). «O Círculo Vermelho» é uma obra onde a atmosfera é Grande e onde Melville explora ideias e conceitos versáteis que ajudaram a fazer do Cinema aquela Arte tão vasta e interessante como conhecemos hoje. E mesmo que não pareça, e ao contrário de muitos "noirs" americanos, há aqui uma grande e subtil filosofia que nos faz ligar a citação inicial, falsamente (e propositadamente) atribuída a Buda, a toda a história. Será este um filme sobre as ironias do Destino, neste grande Círculo onde muitos de nós se cruzam sem terem previsto isso antes, devido a uma série de acontecimentos que ditam o rumo do futuro e o caminho que seguiremos nas nossas vidas?

* * * * 1/2

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Bananas [1971]


«Bananas» é uma comédia anárquica de Woody Allen e um dos seus filmes mais apreciados pela classe humorística portuguesa e americana, ou pelo menos, pelas pessoas aspirantes a tal carreira profissional. Depois de «Take the Money and Run», um falso documentário sobre um assaltante que falha constantemente a cada novo plano que executa, Allen volta à realização ao enveredar por uma sátira total que, para muitos, tem algo de política, mas para o próprio autor, é apenas uma simples comédia. Há quem diga que seja uma homenagem a «Duck Soup», dos irmãos Marx, pelo completo disparate absoluto que reina na história de Allen e de Mickey Rose. Mas aqui vemos também os inícios do neurotismo e da persona cinematográfica que caracterizou o cineasta nos anos seguintes, em projetos marcantes como «Annie Hall», «Manhattan» ou «Hannah e as suas Irmãs» e que, para muita gente, é o homem que, na atualidade, refaz o mesmo gilme todos os anos (nas suas opiniões, Allen limita-se a mudar os atores e o título das fitas. De resto, tudo se mantém). E além disso, «Bananas» é ainda um filme provocante e que foca alguns temas tabus da sociedade americana/mundial. Sendo um filme improvável na forma e na sua estrutura, que possui alguns toques de puro amadorismo e experimentalismo cómicos, «Bananas» não é dos melhores filmes de Woody Allen, mas é uma peça de coleção para os fãs e um momento de surpresa para as pessoas que têm ideias erradas sobre o Woody da atualidade. Talvez agora a classificação de M/18, atribuída ao filme pela distribuidora portuguesa do mesmo, não faça sentido se fizerem o seu visionamento. Mas continua uma obra irreverente e com muito boas ideias, sempre no grande estilo de Woody Allen. A loucura chega a níveis extremos nesta comédia, que parodia televisão, sensacionalismo, relações, amores e política (é inegável dizê-lo, mesmo que não seja de uma forma tão crítica como alguns a pintam). «Bananas» é um daqueles filmes de Woody Allen onde o non-sense, em quantidades moderadas, está bastante presente, tanto na realidade da américa como no sistema totalitário em que a persona do comediante vai parar a páginas tantas da fita. Muito irónico e sarcástico, «Bananas» é uma autêntica rebaldaria cómica, com sketches atrás de sketches guiados por um fio condutor, por vezes levado a exageros "exagerados", mas que é bastante apelativa, desconcertante e imaginativa. Porque antes dos filmes mais complexos, Allen fez coisas parvas (no bom sentido) como este filme e um ou outro que se lhe seguiriam...


O que há em «Bananas» que é verdadeiramente extraordinário são as punchlines de Woody Allen que, aqui, são mais eficazes do que o habitual. Ou pelo menos, para a minha pessoa assim foram. Aqui, o amor é visto de uma forma diferente, mais explícita e distinta da psicologia que caracterizará as investidas cinematográficas posteriores de Allen (e, por consequência, os prémios que recebeu - e que continua a receber - por esse mundo fora), sem pudores ou constrangimentos, explorando o interior dos pensamentos e ideologias da personagem tão preocupante e irritante que é interpretada por Allen. Pecando mais por ter cenas inconsistentes (com gags demasiado curtos e outros que perderam a sua graça por meros erros formais - já para não falar nas demasiadamente notórias e incríveis falhas de sonoplastia), uma realização não muito segura e convicta, e por estar já muito datado visualmente (podia ter sido feito tanta coisa com menos técnicas de filmagens, neste caso específico), «Bananas» é uma reflexão sobre a frustração do ser humano no mundo, e da sua falta de adaptação a muitas situações e a muitos carácteres de outros indivíduos, de uma forma patética e hilariante. É uma farsa, é uma comédia, é uma experiência humorística boa e reveladora do génio de Woody Allen e de tudo o que ele iria fazer daí para a frente. Na política, na vida e no amor, há sempre quem nunca consiga levar a melhor e que acabe por se rir da sua própria condição existencial, ou pelo menos, fazer os outros rir com a mesma. No fim as coisas podem mudar, mas o mundo e as pessoas nunca mudarão, e para nos consolarmos temos sempre a boa e velha gargalhada. Filme satírico mordaz e irreverente, que ridiculariza o ridículo da existência humana, «Bananas» é um filme cheio de energia, que satiriza tudo e todos, da autoria de um senhor que mal sabia o que o esperava no mundo do Cinema. Nada sabia Woody Allen do que estava para vir nas décadas seguintes. Talvez ele pensasse que faria sempre filmes como este. Felizmente ele desenvolveu-se, mas ficam as memórias do passado e o espelho de uma das mais ricas etapas profissionais de um dos mais geniais comediantes da contemporaneidade, tão bem ilustradas em «Bananas». 

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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution) [1957]


«Testemunha de Acusação» é mais uma peça fundamental da filmografia do realizador Billy Wilder, que aqui, decidiu pegar numa história da Dama do Crime Agatha Christie (que passou para teatro), a criadora da Miss Marple e do detetive belga "cabeça d'ovo" Hercules Poirot, para voltar à mesma (mas nunca repetitiva) fórmula de sucesso que traduz a fama e a excelência dos seus grandes filmes: uma realização ímpar, um argumento excecional e um elenco de luxo. Não vamos estar com mais rodeios, pois são estas as três peças-chave da grandeza do génio de Billy Wilder. Esta é uma fita que não versa sobre as relações humanas, pelo menos de forma amarga, sarcástica (sarcasmo podemos só encontrar no humor inglês muito presente nos diálogos das personagens e nas ideias de Christie) e irónica, como os clássicos «Quanto Mais Quente Melhor», «O Inferno na Terra» ou «O Apartamento», e aproxima-se mais do clima negro de «Double Indemnity», mas sem ser propriamente um film-noir. É uma espécie de obra cinematográfica de crime e mistério com mais luz e, o mais importante, com uma faceta grande de "courtroom drama", o género de fitas que se passam nas barras dos tribunais. E em «Testemunha de Acusação», além de toda a sua potente história, Billy Wilder volta a reunir não só atores de topo, como também monstros sagrados da Sétima Arte que, "como de costume", brilham como ninguém nas suas personagens, preparadas à medida para os seus gigantes talentos. Charles Laughton (que dois anos antes, se estreou como realizador com «Night of the Hunter», com a mais fabulosa interpretação de Robert Mitchum), um advogado veterano, arrogante e complicado, que quer voltar aos casos criminais, mais complicados e mais problemáticos para a sua saúde, e Marlene Dietrich, uma das peças chave da trama que vai estar em jogo no filme, são magníficos, marcando mais uma vez o seu lugar maior entre as elites de Hollywood. Laughton é a personagem divertida num caso que é só aparentemente simples, que vai subindo cada vez mais de complexidade aos nossos olhos, e que não nos vai fazer acreditar em tudo o que nos dizem. Mas no final, todos vamos ser enganados.


«Testemunha de Acusação» dá-nos cada vez menos respostas e cada vez mais perguntas para as quais não encontramos solução. De um filme ligeiro nos primeiros minutos, torna-se uma obra cinematográfica intensa e um objeto raro do Cinema Americano/mundial. Billy Wilder dissecou como ninguém a vida social através da simplicidade da câmara e da complexidade do que esta filma (isto no caso das cenas do julgamento - talvez haja muito mais para filmar em quatro paredes de um tribunal do que se possa pensar à primeira vista -, que envolve um homem que se diz ser inocente mas que tem tudo contra ele - será isto óbvio, como este meu pequeno resumo parece querer mostrar?). Apesar de algo sorrateira por vezes, a câmara é sempre viva e não se limita apenas a filmar as coisas, como nos mostra, e bem, a sua visão original daquilo que está a contar, não nos impedindo de ver os factos do caso com a sua subjetividade, levando-nos por vezes a enganos e ilusões no meio das revoravoltas e mais reviravoltas que a fita nos proporciona. Não sendo só um "courtroom drama", nem tão pouco um filme agridoce sobre a sociedade inglesa, este é um filme que combina isto e muito mais, num resultado final espantosamente eficaz e dificilmente possível de ser esquecido ou de desaparecer sem mais nem menos da nossa memória. Com um argumento sólido, repleto de tensão e inteligente, «Testemunha de Acusação» mostra como os advogados têm também de ser os atores da sua própria peça, representando um papel que, muitas vezes, é muito diferente do que a sua opinião nos pode transmitir. Tal como muitas outras personagens "wilderianas", há uma parte para cumprir na trama da sociedade, e muitas vezes, essa parte não poderá ser cumprida pela perceção dessas personagens de que há algo que tem de ser mudado... ou talvez não. Ou então, há ainda certas pessoas do Cinema do realizador que tendem a agir segundo o amor ou a pessoa que se ama, e não são poucas as vezes em que isso dá mau resultado. Este não é só um grande filme pelo seu todo e pela forma como todas as peças estão brilhantemente construídas, como também pela feitura do processo de ilusão, que nos leva constantemente para caminhos incertos e para segundas ou terceiras opções ainda mais duvidosas. E com a garantia de qualidade de Billy Wilder.

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domingo, 22 de setembro de 2013

O Buraco (Le Trou) [1960]


«Le Trou» é um inigualável filme que mostra como se faz uma grande evasão da cadeia. Sendo uma obra muito conceituada entre as maiores do Cinema francês e europeu e inovador em muitos campos (inovações essas que, felizmente, parecem continuar a ser surpreendentes e cativantes para o nosso olhar), e tendo sido realizado pelo inventivo cineasta Jacques Becker (que, graças a um “meeting” com King Vidor – autor de «Morte ao Sol» e «Vontade Indómita» - ganhou um interesse maior e mais criativo pelas artes das Imagens em Movimento), «Le Trou» tem toda a sua ação localizada no interior da prisão de “La Santé” (salvo raros momentos exteriores da fita), onde convivemos com todo o dia a dia da cadeia e onde presenciamos diversas situações que lá se sucedem com alguns dos presos, que tanto nos parecem ser culpados como inocentes dos crimes pelos quais foram acusados – talvez não temos dados suficientes para avaliar a situação dos poucos secundários que preenchem, em certas cenas, algumas partes do filme. Mas depois, centramo-nos no essencial, numa cela específica onde estão lá metidos quatro condenados (Manu, Geo, Rolland e Monseigneur) e onde entra um novato (Claude Gaspard), que serão a elite de anti-heróis que protagonizará a narrativa, graças às suas andanças e planos engenhosos para fugirem daquela prisão, aparentemente tão segura, indestrutível e invencível. «Le Trou» é uma “Grande Evasão” à francesa, onde não interessa o fim mas a forma como a ele se chega (apesar do desfecho do filme não ser nada dispensável ou desinteressante). Num clima de camaradagem, que povoa as mentes dos quatro reclusos e do novo que chega e que fará parte do plano de fuga astuto e brilhante, vemos os hábitos dos presos e as maneiras que utilizam para passar o tempo, e ainda os esquemas que utilizam para conseguirem disfarçar – e bem! – qualquer indício das suas investidas de escape dos polícias vigilantes que, constantemente, invadem as celas para as inspecionarem. «Le Trou» mostra-nos também as condições de vida dos “sócios” da cadeia e a alta segurança que lá impera e que mostra ser (aparentemente) impossível conseguir fugir com êxito de todo aquele pesado (mas ao mesmo tempo, caricato e peculiar) ambiente. Claude conhece os seus novos colegas que, a princípio, lhe são um pouco hostis e desconfiam dele por várias razões. Contudo, a pouco e pouco ele integra-se no grupo e ajudará a que esta grande escapadela prisional possa ser concretizada.


Com alguns pontos de humor, e com drama muito bem polvilhado, «Le Trou» é um daqueles filmes que tem, em todos os seus elementos, algo para ser deslumbrado e maravilhado. Desde a montagem à iluminação, passando pela fotografia e pelos seus atores que, quase diria eu, estão a fazer um trabalho meio neo-realista, à moda italiana (não se pode dizer que alguns dos intérpretes têm ar de serem grandes atores profissionais – talvez são pessoas que viveram mesmo este tipo de situações na sua vida real, o que acontece pelo menos com um deles, Jean Keraudy, que faz uma pequena introdução ao filme e que esteve mesmo envolvido nesta tentativa de evasão, levada a cabo no longínquo ano de 1947), encontramos aqui a razão de ser e de existir do Cinema, que justificam a sua grandeza e a sua forma de lidar com o Mundo e com as imagens, de pontos de vista que tornem as imagens do ecrã totalmente extraordinárias – como é o caso de «Le Trou», uma história verídica, contada de uma forma próxima e palpável com a realidade dos factos, adaptada do romance de Jean Giovanni (que auxiliou, também, na escrita do argumento e da elaboração dos fabulosos diálogos do mesmo). Aqui vemos o Cinema em todas as suas potencialidades, utilizando os seus meios e todas as oportunidades que os mesmos deram para as filmagens e para os atores, que pensam verdadeiramente no que estão a fazer, que planeiam muito bem cada um dos seus movimentos e que a câmara segue, com a maior das curiosidades, a cada novo passo que dão. É curioso porque a câmara quase que fala connosco e, qual Alfred Hitchcock francês, Jacques Becker aproveita-a para surpreender e cativar o espectador com cada meticuloso pormenor da trama e do elaborado plano de fuga.


«Le Trou» é um filme engenhoso, com planos astuciosos e uma montagem altamente provocante, no bom sentido do termo, nas emoções que quer provocar nos espectadores. Repleto de brilhantismo e de originalidade, a fita não utiliza os seus meios para atingir apenas os fins, mas para alcançar todas as metas que esta história tem e as técnicas que o seu realizador quis explorar com a mesma. Pela agilidade da câmara e pelos movimentos furtivos, mas inteligentes, dos atores, tão bem “orquestrados” (que termo curioso que aqui usei, visto o filme não ter banda sonora, por outro lado) por Jacques Becker, «Le Trou» faz lembrar as proezas de Robert Bresson com os assaltos de Michel, a personagem interpretada por Martin LaSalle em «O Carteirista» («Pickpocket»), feito um ano antes do filme de Becker. Esta é uma obra onde tudo bate certo: cada cena, cada plano (de realçar aquele pequeno momento, quase no final do filme, onde uma reviravolta inesperada é revelada - talvez fosse um pouco óbvia, em termos logísticos, mas a forma diz tudo!), cada ângulo, cada frame. Talvez seja uma obra que surge graças às inovações trazidas pela Nouvelle Vague («O Acossado», o primeiro filme de Jean-Luc Godard e um dos mais influentes da sua filmografia, saiu também nesse ano de 1960) e a sua nova forma de ver e fazer Cinema, nesta excelente história de anti-heroísmo que diz muito ao mundo contemporâneo. 

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sábado, 21 de setembro de 2013

Politiquices


Já estamos mesmo muito perto das autárquicas, e isso lembra-me uma certa teoria que eu cá tenho: se os boletins de voto como este tivessem escrito, para além dos partidos candidatos, as pessoas que os representam, talvez algumas coisas mudariam nos resultados das eleições em Portugal, e provavelmente, atenuava-se um certo clubismo partidário que, com uma dimensão muito ferrenha (como se o caso fosse o do futebol), inunda muitas zonas do país, de esquerda ou de direita. Parece que o que mais importa é a marca e não quem a representa. Não seria mais importante votar no que pessoa x ou y quer fazer se for eleita, do que no partido em que sempre pusemos uma cruz só porque sim?

Mas isto sou só eu a falar...

Kill Bill - A Vingança (Volume 1) [2003]


AVISO: Esta crítica terá ainda menos qualidade do que é habitual (sim, isso é possível! Eis a prova!). Mas é que o filme em causa não me permite escrevinhar algo melhor do que estas linhas vos podem oferecer. Há milhões de análises na internet desta fita. Sigam essas, valem mais a pena.

O primeiro tomo de «Kill Bill», que narra as peripécias de "A Noiva", a personagem criada por Quentin Tarantino que reinou por dois filmes do realizador (e que ao que parece, será a protagonista de um futuro volume 3), num misto de homenagem e exagero de toda uma série de referências captadas por Tarantino nas suas aprendizagens cinéfilas, talvez seja provavelmente o seu filme mais popular, mais até do que «Pulp Fiction», a sua melhor obra: «Kill Bill» é aquele filme que toda a gente conhece e que toda a gente utiliza para se afirmar como "alguém" entre outros conhecedores de Cinema. E, como grande parte das fitas de referência para o mundo da cinefilia, «Kill Bill 1» agrada e desagrada a vários níveis em cada espectador. E em mim, há mais para criticar do que elogiar nesta obra que marcou uma reviravolta inesperada na filmografia de Tarantino: a partir daqui, ele começou a dar mais valor aos efeitos que a câmara faz (e aos extremos a que pode levar as suas ideias tão malucas e, muitas vezes, descontroladas - em «Kill Bill 1» há todo um festival de descontrolo criativo) e, de quando em vez, lembra-se de regressar com os seus excelentes diálogos, tão sedutores e "orelhudos" (isso não acontece em «Kill Bill 1» - a única coisa que tenho, de momento, na memória, que ficou aqui registada na minha cabeça após o visionamento, foi o festival apalhaçado de pancadaria, que num filme dos Monty Python seria extremamente cómico, se bem executado claro, e que aqui destoa completamente), como se sucedeu com a sua mais recente investida, «Django Libertado» que, digo eu, é uma mistura entre a ultra-parva violência da história de «A Noiva», com a densidade narrativa das aventuras dos vários personagens de «Pulp Fiction». Aqui, a violência tem um nível tão bom e com tanta qualidade como qualquer sequência de ação de um qualquer filme do Steven Seagal, Van Damme ou outros que tais, ou até - imagine-se, visto que é este o único nome, dos três que mencionei do cinema de ação, que é mesmo homenageado! - das míticas cenas de artes marciais protagonizadas por Sonny Chiba (que dá uma perninha em «Kill Bill 1»), um dos alvos desta homenagem de Tarantino, que tem tudo tão bem feito como os clássicos de ação com muita testosterona (mas com não muitos idióticos esguichos de sangue, é necessário fazer-se a devida distinção) desses veteranos do género. A vingança d' "A Noiva" é apenas mais uma entre o diverso historial de situações sangrentas, provocantes e chocantes que preenche o imaginário criado por Tarantino nos seus filmes, mas aqui, mais do que nunca, os gostos bizarros do cineasta, e as coisas que só ele (e mais meia dúzia de pessoas no mundo) conhece, são "postos à prova": «Kill Bill 1» é quase uma sucessão de sketches (onde cada um deles só me deixou mais dúvidas em relação às verdadeiras intenções de Tarantino - para quê isto? Para quê aquilo? Para quê aquela sequência animada?), todos eles com intenções de criar algo novo através) do que o realizador conhece e adora no Cinema, e que o motivou a enveredar esse caminho para a sua vida profissional. Mas para mim, não é um filme que funcione lá muito bem, como já pude dar a entender por estas notas soltas que por aqui escrevi até agora...


Não consigo escrever nada que possa ser coerente e bem estruturado sobre «Kill Bill 1». O que aliás, vai de encontro ao que achei que o filme é: incoerente e mal estruturado (não na construção narrativa - que utiliza um processo de analepses e prolepses semelhante ao de «Pulp Fiction» - mas no conteúdo desta, que não dá um balanço certo e o espaço apropriado para a trama ser o mais desenvolvida possível pelos atores e pela equipa técnica), onde alguns pormenores e momentos sobressaem pela "coolness" da heroína interpretada de forma brilhante por Uma Thurman (isso não posso mesmo negar) e por vagas de inspiração mais efusiva de Tarantino ao escrever o argumento (ou seja, naquelas cenas onde a descrição do script não é só "há sangue e cabeças a rolar por toda a parte, numa alegria igual à sensação de se estar na plateia de uma edição especial do Big Show SIC, mas violenta" - um aparte interessante: e se Quentin Tarantino fosse um fã deste programa?). A grande cinematografia desta obra, mais a realização e a montagem, também auxiliaram a que eu não tivesse ficado com uma impressão negativa da mesma, tal como aquelas pequenas subtilezas cómicas dos diálogos que, apesar de estarem mais escondidas e de serem mais raras do que as anteriores explosões cinematográficas de Tarantino, não deixam de ser uma delícia quando captadas pelos nossos ouvidos, e a banda sonora repleta de momentos "roubados", no bom sentido ou mesmo à descarada, de grandes nomes (ou não) da música para Cinema é também bastante agradável, apesar do "gore" do senhor Quentin atingir, nesta fita, níveis que vão para lá do minimamente interessante ou relevante (e que se torna bastante cansativo e repetitivo), figuradas em batalhas apalhaçadas e com algo de estúpido, que fazem de «Kill Bill 1» um filme com mais estilo (e por isso, importância para a cultura popular) que sumo. E não quero estar a ferir suscetibilidades (e os milhares de fãs da saga - uns cinco ou seis devem ler estas linhas, ou menos até), mas se a obra não fosse de Tarantino passaria despercebida como muitos filmes de ação feitos em série ou de artes marciais fáceis e mal executadas. E é tudo o que eu tenho a dizer, e peço mais uma vez desculpa por esta análise tão nefasta e repugnante. É mesmo o que o filme diz à minha alma e que a escrita tentou passar, o mais próximo possível, da realidade. «Kill Bill 1» será, para a minha pessoa, apenas um filme interessante que não me permite conseguir escrever alguma coisa de jeito sobre ele (já o vi há mais de um mês e durante muito tempo tentei escrever isto e não saía nada... nesta tentativa fica isto e não volto a tocar no assunto!), mas que me fez ficar com vontade de ver a sequela. E isso é um facto.

* * * 1/2

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Breaking Bad e Ennio Morricone



Quando uma das bandas sonoras mais épicas de todos os tempos se junta à série mais épica de todos os tempos: eis um remix com um fabuloso tema de «O Bom, o Mau e o Vilão», pelo genial Ennio Morricone, e muitos grandes momentos das primeiras quatro temporadas e meia de «Breaking Bad». É para ver, mesmo. E a versão completa, essa, só quando esta fabulosa série terminar... algo que está quase a acontecer, infelizmente...

Walter White é o "Máior". Ponto.


Vá vá, depois de meio mundo acordar para a vida e PERCEBER, de uma vez por todas, que BREAKING BAD é a melhor série dramática de sempre, quem é que vai continuar a insistir no Game of Thrones? Tenho pena é que só muita gente tenha percebido a perfeição desta obra prima televisiva AGORA, que só faltam dois episódios para terminar. Há pessoas que são demasiado exigentes e têm os seus métodos para avaliar séries/outras formas de cultura, que põem em causa o facto de algo ser "perfeito" ou não. Mas BREAKING BAD, minhas amigas e meus amigos, quer queiram quer não, É "A" SÉRIE DE TELEVISÃO. Ponham-lhe os defeitos que quiserem, nada tira a sua grandiosidade.

domingo, 15 de setembro de 2013

Manhattan [1979]


Woody Allen não ficou satisfeito com o resultado final deste seu filme, «Manhattan», e pediu até à sua distribuidora que o não lançasse. E nas suas próprias palavras, anos mais tarde, referiu-se a este filme dizendo: "eu só pensei: nesta altura da minha vida, se isto é o melhor que consigo fazer, eles não deviam dar-me dinheiro para fazer filmes". Contudo, o cineasta americano, que hoje já realizou mais de quarenta filmes, não poderia imaginar o quão popular e reconhecido seria esta sua obra, tida como uma das suas melhores. «Manhattan» é um daqueles casos felizes em que a opinião do público diverge com a opinião do artista do "produto" artístico em questão, e ainda bem. «Manhattan» constitui, além de uma belíssima ode à cidade que dá nome à fita, tão bem ambientada pelos sons da autoria de George Gershwin (regravados propositadamente para o filme, algo que não é muito comum na filmografia de Woody Allen - ele muitas vezes limita-se a ir rebuscar os clássicos sonoros que tem bem guardados nas prateleiras lá de cada), uma das obras mais duradouras e inteligentes do seu autor. "Vítima" de um culto gigante e de uma identificação constante por parte dos seus fãs (já para não falar do estatuto de ícone conquistado pela imagem que ilustra o cartaz do filme), «Manhattan» é um dos grandes tesouros de Woody Allen, e mesmo um dos seus filmes mais bem conseguidos. Mesmo que ele continue a achar o contrário. Filmado a preto e branco e, caso raro em Woody Allen, no formato "ultra widescreen" (em CinemaScope é que esta obra ficaria espantosamente deslumbrante), «Manhattan» é protagonizado por um dos mais famosos neuróticos/personas de Woody Allen (Isaac, um argumentista e escritor com demasiados problemas na sua cabeça), uma pessoa algo irresponsável (com os outros, nunca consigo mesmo - daí ser também egocêntrico), cheio de complexos sobre si e sobre tudo o que o rodeia, e que se mete e intromete numa história de amores, desamores e filosofias da vida e do próprio romantismo, com uma inspiração rara que podemos ver e encontrar no autor e no próprio Cinema Americano deste e doutro tempo. É também um retrato das relações humanas (e, se há um autor que soube mesmo tratar a realidade na Arte das Fitas, é Woody Allen, sem sombra de dúvidas - nunca os diálogos foram tão reais e tão "palpáveis" para o espectador como em muitos destes seus grandes filmes), tal como muitos outros feitos por Allen, mas é um dos seus melhores porque é um dos mais inteligentes, que não se limita a chegar a um fim depois de uma série de consequências que o fazem acontecer: «Manhattan» tem muito mais do que isso na sua parte humana, e que vai muito para além das deliciosas "quotes" proferidas pelas personagens e tão bem escritas por Allen. «Manhattan» é uma obra extremamente filosófica e profunda, que serve como um perfeito guia de estudo para diversas disciplinas académicas, para além de ser um guia para a própria existência do Homem e do seu valor no quotidiano. A peça da Vida está toda neste filme e em todos os brilhantes momentos que nela podemos contemplar.


Isaac, de quarenta e um anos, tem uma namorada, Tracy, muito mais nova que ele (17). Ele é um tipo que não sabe o que fazer e que está encurralado por todos os lados, quer profissional quer emocionalmente (porque depois ainda se apaixona pela ex-amante - Diane Keaton - do seu melhor amigo), e tudo porque deixa a Razão meter-se demasiado nos seus instintos. Será isto mesmo assim? Talvez sim, talvez não, mas «Manhattan» lida muito com a racionalidade humana e com as consequências que o seu uso excessivo e não moderado podem trazer a quem dela dependa. Porque se o ser humano vive, principalmente, de emoções, como podemos equilibrar a nossa cabeça com aquilo que sentimos verdadeiramente, criando as coisas que fazem a vida valer a pena (uma das coisas com as quais Isaac se questiona, ao longo do filme). Emoções essas que (para além do papel da cultura e da sociedade a que pertencemos) condicionam os nossos gostos pessoais (discutidos de uma maneira muito séria em alguns momentos de «Manhattan», principalmente quando as personagens de Allen e de Keaton - uma das suas mais refinadas musas cinematográficas do cineasta - se confrontam... culturalmente) e as tendências que temos para analisar, ou "preconceitualizar", certas obras ou produtos mesmo sem os conhecermos devidamente. «Manhattan» fala por isso, também da Arte e da aderência à mesma por parte das pessoas. Talvez Allen pusesse aqui em confronto os gostos dos próprios espectadores dos seus filmes e dos motivos que os levam a ver cada nova fita que realiza, e por isso este é um daqueles tesouros do realizador que têm tudo o que gostamos no génio cómico americano. A fotografia é fantástica, neste retrato sociológico da América, onde os tons escuros e "incolores" retratam de forma perfeita o aparente caos da cidade de Manhattan e do caos do ser Humano, ordens por decifrar agora e sempre, parafraseando José Saramago. Em «Manhattan» contrastam-se a beleza das imagens e da música com a rutura, ou a turbulência, das diversas relações, amorosas ou de amizade, que nos são apresentadas. Numa cidade em constantes mudanças, onde os pequenos problemas ocupam o espaço daquilo que verdadeiramente importa (na opinião de cada um, claro), «Manhattan» é uma obra muito inteligente que, a par de «Hannah e as suas Irmãs», é a melhor narrativa de Woody Allen como espelho da sociedade contemporânea, sendo um filme que deve ser visto com mais atenção na parte do "coração" e que toca ainda mais os grandes fãs do realizador. Uma das coisas que faz a vida valer a pena, é ter a oportunidade de ver obras como esta.

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O verdadeiro significado do final de The Graduate...


Num dos seus mais recentes vídeos, o "Nostalgia Critic" explica o significado, muito simbólico e filosófico, dos momentos finais de «A Primeira Noite», o filme que revelou o ator Dustin Hoffman. Vale a pena ver, para quem gosta da fita. E para isso basta clicarem aqui. E acrescento que concordo totalmente com as palavras deste internauta cinéfilo, sempre divertido e esclarecedor.

sábado, 14 de setembro de 2013

Há Festa na Aldeia (Jour de Fête) [1949]


Antes de «As Férias do Senhor Hulot», «O Meu Tio» e «Playtime - Vida Moderna» (considerado, por muitos, a obra prima do cineasta), Jacques Tati fez «Há Festa na Aldeia», um projeto ambicioso em termos cómicos, narrativos e cinematográficos, que permanece um brilhante e bonito filme, marcante na História da Sétima Arte em geral, e no cinema europeu em particular. Nomeado para o Leão de Ouro do Festival de Veneza com este seu trabalho, que saiu do certame com o prémio internacional para o Melhor Argumento, Tati já não estava longe de alcançar a fama e a reputação mundiais que se consolidaram, efetivamente, com «O Meu Tio» (e que se desvaneceram daí para a frente, principalmente com o desastre que lhe deu o fracasso de «Playtime»), que lhe valeu um Oscar para Melhor Filme Estrangeiro, mas «Há Festa na Aldeia» permanece o seu filme mais esquecido, entre os "grandes", mas também como um dos mais apreciados e acarinhados (voltou há pouco tempo aos Cinemas franceses na versão a preto e branco restaurada - a que está disponível em Portugal é a filmada a cores, restaurada de uma forma muito pouco conseguida há alguns anos, e que corresponde às intenções originais do realizador. Mas como foi executada em meios tão escassos e fracos, muito pouca da sua qualidade conseguiu ser salva, e até mete dó ver este filme nesta versão colorida. Esta "cut" é antecedida por uma introdução com pouco menos de um minuto que explica as circunstâncias históricas e das filmagens desta obra. De destacar o som do filme que, ao contrário da imagem, está absolutamente impecável), pela sua candura, pela sua (aparente) inocência, pelo seu tom irreverente e crítico que continua a fazer sentido hoje, mas talvez de um lado oposto (porque infelizmente, aldeias tão animadas e divertidas como as que François, o carteiro interpretado por Tati, percorre na sua bicicleta para entregar o correio, estão a desaparecer - e nem preciso de abordar o caso português, pois não?). Contudo, é difícil não se rir, ou pelo menos, sorrir, com as tropelias sempre acidentais do desastrado François, alvo de chacota permanente por aqueles lados da França, e ainda mais depois de ser exibido, no dia da festa da aldeia, um documentário sobre os métodos inovadores e altamente avançados que os Estados Unidos da América utilizam para dar aos seus carteiros as condições necessárias para atenderem ao rápido, estiloso e excessivo "american way of life".


Com múltiplos "gags" e piadas visuais em cada pormenor cómico (algo que Tati viria a aperfeiçoar de filme para filme, culminando nessa sucessão imparável de "desastres" provocados pelo Senhor Hulot em «Playtime»), «Há Festa na Aldeia» é a revelação em força do génio cómico de um dos maiores humoristas de todos os tempos. Comédia de costumes, tradições e mentalidades, todas elas representadas, de forma alegórica, em cada uma das pitorescas personagens que entram em cena nas peripécias de François (e no seu desejo de cumprir o seu trabalho com a rapidez e a eficácia dos americanos), desde a senhora idosa que sabe tudo de todos os habitantes daquele espaço ao feirante que faz olhinhos a uma moça da aldeia - apesar de ser casado e a sua esposa estar constantemente atenta a ele -, o filme mostra como o domínio das "forças" americanas ou, pelo menos, da cultura deste país para aquela aldeia, acaba por ter uma influência enorme na maneira, algo ingénua e distante, que algumas das pessoas têm de tudo o que lhes é exterior e desconhecido. Mais do que um filme humorístico, «Há Festa na Aldeia» é uma obra social, que ao retratar, de forma engraçada e hilariante, o dia a dia de uma aldeia francesa, acaba por ser todo um espelho do país e das consequências da II Guerra Mundial. Jacques Tati continuaria a experimentar a sua inventividade cinematográfica nos anos posteriores, e a cativar cada vez mais espectadores graças a ela, e apesar de, provavelmente, «Há Festa na Aldeia» ser o seu filme mais acessível, não deixa de ser o menos inteligente. Acompanhado por uma pitoresca (e "orelhuda") banda sonora e por uma mise-en-scène cuidada e segura, «Há Festa na Aldeia» tem, na sua parte cómica, toda uma inspiração para dezenas de filmes posteriores, mas nunca será possível de ser imitado. Afinal, esta obra vem de um tempo em que a comédia se fazia com graça e onde se preparava, com a maior das cautelas, todas as cenas e planos para atingir o espetador, ao nível "gargalhal", o maior número de vezes possível, sem se tornar maçador ou repetitivo. E ainda bem que está muito bem guardada e que "ressuscita", de quando em vez, para poder ser redescoberta por mais pessoas e cinéfilos. Antes do sucesso do Senhor Hulot, houve o carteiro François e a sua falta de capacidade em afirmar-se perante os outros habitantes desta alegre aldeia, em «Há Festa na Aldeia», um filme simpático, encantador e satírico, onde aprendemos uma lição que tarda ainda hoje a ser compreendida: nenhum país é comparável a outro. E neste caso, França não é Hollywood...

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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O jornalismo não é bem tratado por um canal de jornalismo


A SIC Notícias está a passar, às duas da manhã, um dos maiores guias de estudo do jornalismo televisivo: as entrevistas lendárias de Frost a Richard Nixon. Não poderiam, por um dia, alterar o horário da «Quadratura do Círculo» ou do «Tempo Extra» para dar, a uma hora decente, este programa que, ao contrário dos dois mencionados, tem grande qualidade? É irónico que um canal de notícias trate as suas referências desta maneira. Talvez o director de programas da SIC Notícias ache o Rui Santos ou o Pacheco Pereira os gurus e criadores do jornalismo moderno...

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A tragédia na comédia


«Blackadder» termina a sua última temporada com um momento dramático, que nos faz perceber a dimensão das personagens e o brilhantismo de uma série que se torna mais refinada e inteligente em cada nova era onde encontramos a personagem de Rowan Atkinson. É invulgar uma sitcom terminar desta maneira... mas deixa um autêntico arrepio na espinha. Isto é de génio.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Blue Jasmine [2013]


Woody Allen e toda a sua filmografia serão sempre dominados por um estigma que o público português (ou pelo menos, grande parte dos espectadores tugas) nunca se irá esquecer e nunca pararão de associar ao cineasta: é que ele foi (e ainda é) especialista em grandes comédias neuróticas, onde as pessoas gostam de se rir à gargalhada de coisas que, muitas delas, não entenderam patavina (é quase uma gargalhada de "status"). Daí que na sessão de antestreia de «Blue Jasmine», o novo filme de Allan Stewart Konigsberg, no Cinema do Campo Pequeno, onde estive presente, muita gente tenha pensado que o que estavam a ver era uma verdadeira comédia, e muitas gargalhadas despropositadas em muitas potentes cenas trágicas (se houve pessoas que se riram do final deste filme, devem talvez achar muita graça aos dramas de «A Lista de Schindler» ou de «O Padrinho» - porque é que é tão difícil perceber que nem tudo é para rir numa comédia? Para algumas pessoas o rótulo de "humor" dá-lhes permissão para se rirem de tudo e mais alguma coisa, inclusive de coisas que não têm qualquer tipo de graça?) da história protagonizada excecionalmente por Cate Blanchett (digo aqui e não mudo de opinião: ela VAI levar o Oscar para casa - e se depois a opinião da Academia não for a mesma que a minha, não vou mudar este texto!). Mas «Blue Jasmine» tem mais para chorar, ou pelo menos pensar, do que gargalhar: há grandes momentos de comédia, mas nada se compara à força do drama vivido por Jasmine e toda a crítica social que Woody Allen coloca nesta sua protagonista e anti-heroína. Num dos filmes mais aclamados de toda a carreira do comediante e realizador (com tantas marcas do seu estilo muito próprio a voltarem a deslumbrar-nos - a começar logo pelos créditos iniciais e aquele tipo de letra que diz tanto aos fãs de Woody), encontramos uma metáfora e uma história que poderia encaixar em tantas vidas, e em tantas pessoas que conhecemos no nosso dia a dia. Jasmine é uma pessoa que não quer acreditar no declínio da sua própria existência, levada a cabo por uma série de fatores e de factos que "destruíram" o seu passado milionário, luxuoso e repleto de excessos (e que nos são revelados ao longo de toda a ação e de toda a narrativa da fita, onde seguimos dois fios temporais, contados de forma intercalada, o que dá uma construção cinematográfica bastante interessante e reveladora, em que ambos os "mundos" cronológicos acabam por encaixar em certos pormenores e situações: o passado e as consequências que levaram ao fim da vida aparentemente feliz e segura de Jasmine, e o presente, onde a encontramos depressiva, reencontrada com a irmã adotada - tal como ela - e a recusar encontrar um novo caminho para si mesma - ou pelo menos, quando tenta fazer isso, nem sempre tudo acaba bem, acabando por arruinar mais um pouco todas as pessoas que a rodeiam e que a tentam levar à razão. Os dois tempos são também atravessados pela viagem por dois estratos sociais diferentes, o dos ricos e o da "vulgaridade" do povo). Quanto de Jasmine estará em cada um de nós, ou pelo menos, na perceção do mundo de cada ser humano? Algumas pessoas levam mais a sério do que outras esta história e as dúvidas que ela coloca (e sim, volto a falar das gargalhadas indesejáveis, e de pessoas que não perceberam que aquilo que se passava no ecrã é extremamente real e profundo - não estamos a visionar nenhum romance neurótico ao estilo de «Annie Hall», e ainda bem!), mas fiquei com a ideia de que estamos perante uma das melhores e mais inteligentes obras saídas da mente e criatividade de Woody Allen. E isto já é dizer muito, sobre aquele que será, efetivamente, um dos melhores filmes a estrear nas nossas salas este ano. Já para não falar que a vinda de uma nova fita de Allen é sempre alvo de um grande acontecimento e de grandes expectativas por parte de público e de crítica, que já vive sempre à espera, anualmente, de um novo bombom cinematográfico da autoria de um dos maiores mestres do Cinema Americano "livre" e tão perspicaz.


«Blue Jasmine» é um filme onde ouvimos diálogos "woodyallenianos" que já não se faziam aparecer há muito tempo (e se o cineasta recebeu o Oscar de Melhor Argumento Original com «Meia Noite em Paris», com este merecia o mesmo ou mais! Mas prefiro apostar todas as minhas certezas na Blanchett, é impossível alguém não ficar arrasado com a sua performance!), e possuindo toques de «Um Elétrico Chamado Desejo» (pelo pouco que conheço da peça de Tenessee Williams isso é notório), mas também de anteriores filmes de Allen, como «Alice» (mais uma crítica a uma elite social e a um certo modo de ser e estar para o "status") e todas as suas obras que lidam com temáticas amorosas ou de relacionamentos, constrói-se uma história tão rica em pormenores, sátira e inteligência como foram feitas poucas nos últimos tempos. É, talvez, um daqueles filmes "especiais" de Allen, onde sentimos aquele espírito que só as suas obras primas sabem transmitir a quem queira estar atento a elas. E com um fantástico elenco (não só com Blanchett a brilhar, mas também com os notáveis Peter Sarsgaard, Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Sally Hawkins e Louis C.K - sendo que, para este último, o realizador já mostrou intenções de voltar a filmar com ele, mas para um papel não tão secundário -, entre tantos outros), «Blue Jasmine» recria o drama existencial que é o de toda a Humanidade, para além da busca do nosso papel na sociedade, que constantemente fazemos e da qual nunca desistimos, ou pelo menos nunca queremos desistir. Numa brilhante alusão à riqueza, ao mundo dos ricos e a todas as suas incongruências, Woody Allen conjuga-a muito bem com a vida da classe média e de todos os pontos que sejam possíveis, ainda, espicaçar na mesma. Jasmine, qual discípula dos inúmeros convidados sorrateiros das festas de Jay Gatsby na obra de F. Scott Fitzgerald, pretende, no passado, encontrar o seu lugar na alta sociedade, e no presente, não ter de se desabituar às rotinas que o mundo dos ricaços proporcionou e não ter de pensar que os tempos luxuosos vividos com o seu ex-marido nunca poderão voltar. Mas ela não quer, pura e simplesmente, olhar para as coisas e perceber que, agora, a situação é diferente, que está falida, e que o seu "dom" de gastadora viciada não para, mesmo que já não tenha dinheiro para continuar a dar nas vistas com as suas marcas caras e estupidamente "fashion" sem qualquer razão racional. O passado e o presente contrapõem-se constantemente, com Jasmine a mudar segundo as suas necessidades (dantes nunca falava com a irmã, ou desprezava-a descaradamente, e agora que precisa dela é como se tivessem sido sempre muito íntimas uma da outra - não conhecemos tantas pessoas que são assim, minhas amigas e meus amigos?) e a perceber que o passado ainda é presente... mas nas coisas indesejáveis que ela não quer recuperar do vasto núcleo de memórias que possui da sua vida anterior, e que ainda a afetam muito na atualidade cinematográfica da sua história, querendo aparentar que nunca teve esses problemas (mas a sua saúde, e a sua doença, não vai deixar que ela esconda bem esses traumas ainda tão vivos...).


«Blue Jasmine» é um filme sobre as máscaras dos outros, sobre as nossas máscaras, e também sobre as máscaras que usamos uns com os outros. Do mundo dos apertados, rígidos e desnecessários códigos sociais (onde um pequeno e acidental movimento pode dizer, a todos os convidados de uma festa, que o seu anfitrião já não tem tantas propriedades como antes, ou que mostrar uma mala da Chanel ou uma certa maneira de falar, arrogante e superficial, caracteriza o "status monetarium" da persona em questão), Jasmine tem que se adaptar ao mundo, mais livre mas não menos apertado, da classe média e de todos os seus problemas. A história de Jasmine mostra-nos como a riqueza muda as pessoas, antes e depois de uma pessoa ter passado pelas experiências que grandes somas de dinheiro podem proporcionar, num mundo onde ninguém é de confiança e onde nos podemos destruir de um momento para o outro de uma maneira assustadora. Com, mais uma vez, uma excecional e colorida fotografia que tem caracterizado os últimos filmes de Woody Allen (de maneira mais notável, em «Meia Noite em Paris»), «Blue Jasmine» intercala simplicidades e excessos de uma forma audaz, e que muitos não estariam à espera de ver num realizador que, insistem alguns ditos "especialistas", já deu tudo o que tinha a dar. De um extremo ao outro da vida social, viajamos com Jasmine e todas as personagens secundárias que com ela convivem, conhecendo cada vez mais ao pormenor a psicologia estranha e complexa de uma das figuras mais peculiares criadas pelo cérebro e pela caneta do cineasta, e surpreendendo-nos pelas múltiplas facetas em que a mesma se desdobra e que, em certos momentos da trama, nos parecem ser inacreditáveis. Ou que, pelo menos, Woody Allen foi inspirar-se para este filme pegando no caso de um nosso vizinho ou conhecido que conhecemos bem demais. Jasmine não quer ser inferiorizada, apesar de, depois de tanta ascensão social e de todas as (injustas) vantagens que a ela trouxeram e que ela não soube partilhar com quem estava mais próximo dela, ter-se instalado o declínio na sua vida que, ao que parece, não tem motivos para continuar sempre em "ação". O argumento de Woody Allen revela um lado espirituoso e astuto que, é preciso dizer, ele já não revelava há algum tempo (talvez desde «Match Point», ou em parte, em «Meia Noite em Paris»), e que dá ao filme aquela dimensão especial que, para mim, e para além de «Blue Jasmine», só «Ana e as Suas Irmãs», «Crimes e Escapadelas» e «Match Point» conseguiram conquistar: Woody fez aqui outro filme excecional, dos poucos que nenhum pessimista pode alegar que é mais uma prova da constante "repetição" entre os filmes mais recentes, menos originais mas não menos bons, da filmografia do cineasta, que aqui decidiu regressar ao seu país de origem, depois de uma temporada pela Europa onde filmou as suas obras e as suas ideias nos últimos anos. É impossível sair da sala de Cinema e ficar-se na mesma depois de se ver «Blue Jasmine»: ou se acha que se viu uma grande comédia, comparável ao "hit" do momento, «A Gaiola Dourada» (eu sei que os tempos estão difíceis e que as pessoas precisam, mais do que nunca, de rir. Mas não confundam coisas. Há momentos para humor no filme mas não é essa a dominante, e há muito mais para pensar depois, em casa ou para a vida, do que memórias de momentos hilariantes para contar aos amigos), ou então, percebe-se que acabou de se ver uma obra preciosa e verdadeiramente inovadora, em Woody Allen e no panorama moderno das fitas Americanas.


Jasmine é uma mulher que nunca se preparou para a vida real, e numa história repleta de sarcasmo existencial e de uma credibilidade tão forte que até por vezes assusta, ela é apenas uma alegoria para todo o género humano e para a sociedade americana, tão livre numas coisas mas tão ridícula noutras (como, aliás, é o caso de qualquer outra sociedade ou país - não, não vamos falar de Portugal, pois não? Ainda bem), como também é apenas um símbolo da profunda crise que o mundo ocidental atravessa, mas que, no mundo dos ricos, é quase como nada se passasse e os excessos e as festas pudessem continuar a ser concretizadas. «Blue Jasmine» é a influência da opinião dos outros em cada um de nós, e as coisas que estamos dispostos a fazer para mantermos o nosso lugar na pirâmidade estratificada do meio a que pertencemos. Mas devemos seguir os nossos sentimentos e as nossas ambições ou deixarmo-nos levar pela ansiedade do "status" e de tudo o que o mesmo representa? E mesmo que Woody Allen volte aos mesmos temas (principalmente a uma certa crítica de «Alice», como referi anteriormente), consegue sempre surpreender e, neste caso, de uma forma ainda maior. Jasmine deixou que um mundo construído com mentiras e/ou ilusões lhe levasse, quase que se pode dizer assim, a sua alma, e as transformações que ela experimenta, na sua relação com os outros e na sua relação consigo mesma, são um espelho de toda uma classe e das outras todas também, ou pelo menos, das pessoas que só querem, desesperada e estupidamente, a ela pertencer. É um filme de referência, uma das obras maiores de Woody Allen. Já expliquei tudo o que tinha a explicar, e que anotei fervorosamente em várias folhas de um bloco de notas durante a sessão. Por isso, resta apenas que agora vão ver esta magnífica peça cinematográfica.

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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Django [1966]


Um homem segue o seu caminho, levando consigo um caixão, com um ar discreto e sem ter más intenções. É assim que começa «Django», com aquela música inicial que imortalizou este filme de Sergio Corbucci e que originou tantas sequelas não-oficiais, um segundo volume original, com o mesmo ator deste primeiro (Franco Nero) e, há pouco tempo, um "filme-homenagem" de Quentin Tarantino («Django Libertado»). Estaremos à espera de um filme épico, carregado de grandes momentos cinematográficos como, por exemplo, fizeram os famosos "western spaghetti", realizados por Sergio Leone, que tornavam cada movimento de câmara ou de qualquer um dos atores um pretexto para se criar autêntica poesia visual? Não tanto, mas temos em «Django» uma boa fita. É a única obra deste género cinematográfico que foi filmada em 4:3, ao contrário do que se poderia esperar em filmes que necessitam tanto apoio na qualidade da câmara e no que o olhar do espectador pode captar através do mesmo. Mas «Django» é o início da lenda, e de um sem-número de imitações e/ou tributos, que rondam mais de três dezenas (pelo menos, são as que se têm conhecimento hoje em dia - podem estar ainda muitas "cópias" obscuras por descobrir!), e, pelo que se tem dito na comunicação, um terceiro filme com Franco Nero (e que brilhou também num pequeno cameo no «Django» de Tarantino - e digamos, a única coisa que os dois filmes têm em comum é a larga dose de violência) que, com o passar dos anos e com uma idade mais avançada do que a que tinha em 1966, irá protagonizar Django a ajudar o Cinema a recriar as suas histórias para o ecrã. Não deixa de ser uma premissa interessante e que possa ser capaz de funcionar, mas vale a pena ver de perto o filme original e testar a imaginação de Sergio Corbucci. Se com o desenrolar das décadas, «Django» passou de filme híper-violento para filme violento (gostos e mentalidades são outras, mas mesmo assim ainda consegue ser uma fita chocante - e com partes demasiado objetivas violentamente, que retiram Hoje algum impacto), a sua história, o estilo da mesma e o carisma do seu personagem principal, que levou a que fosse tantas vezes imitado e copiado (mas, digamos, nunca ultrapassado - sobrevive o mito de Franco Nero apesar de todas as recriações, com atores completamente diferentes) continuam memoráveis, num universo onde todos os americanos falam italiano, mesmo os mexicanos (estão confusos? Pois bem, imaginem um russo que vá ver o «Dr. Jivago», de David Lean e veja todas as personagens a falarem um inglês perfeito na era do czarismo - tudo é possível no Cinema). E aconselha-se vivamente a que ouçam a versão italiana original do que a dobrada em inglês, porque não é nada credível (ao contrário do que Leone conseguiu nos seus filmes - também por ter sempre um ou outro ator americano no elenco), e o idioma italiano até tem a sua musicalidade em «Django».
 
 
Co-produção de raízes europeias, «Django» pega em dois temas delicados e aborda-os de uma maneira extremamente interessante, de duas perspetivas distintas: o machismo (logo patente numa das primeiras cenas do filme, com a tortura dos mexicanos a Maria, uma mulher que será salva, de uma maneira "incrível", por Django) e o racismo (patente nos diversos ódios, conflitos e inimizades provocadas entre os americanos do Sul e os mexicanos, que querem passar a fronteira, mas que são impedidos pelos primeiros; e ainda a disputa entre América do Norte e América do Sul, mesmo que a Guerra Civil já tivesse terminado - «Django» passa-se no pós-conflito). E Django mostra-se um implacável pistoleiro (mas, e como todos os heróis dos westerns - quer com esparguete, quer sem a presença do mesmo -, é um pistoleiro sanguinário do Bem, que protege os mais fracos... ou talvez não, mas é uma personagem com quem simpatizamos, independentemente do que decida fazer) e, com tanta pancadaria visual, personagens caricatas (como o malvado coronel Jackson e os seus divertimentos muito pouco humanos, mas muito dados à crueldade - um dos "sanguinários maus" da trama) e as dúvidas que a personagem levanta aos espectadores (Quem é Django? O que é que ele leva naquele caixão sujo?) tornam o filme ainda mais relevante, para além do contexto histórico e cinematográfico que carrega (é um dos símbolos maiores do western spaghetti - apesar de não ser tão "dirty" como outros filmes do género -, e foi feito no mesmo ano que a obra prima «O Bom, o Mau e o Vilão», de Leone - com outro "sanguinário bom", Blondie, interpretado de uma forma inesquecível por Clint Eastwood) e, claro, da cativante mise-en-scène de Sergio Corbucci, que pega no seu herói forte, decidido, corajoso e invencível (e que se está nas tintas para as opiniões sociais e políticas dos que o rodeiam) e torna-o num mito do Oeste... italiano, marcante e invulgar. Talvez Hoje seja dispensavelmente gráfico e incredível em alguma violência, e algumas técnicas excessivas e descontroladas de câmara não ajudam a uma melhor qualidade de «Django», mas está aqui uma boa obra, que mostra como os dois lados de uma mesma medalha no meio de tanta carnificina, com uma vingança como propósito final. Uma vingança emocional que transcende qualquer raça e credo... isto na opinião de Django e das suas "pistolices", no meio de tanta ação com o Rambo dos westerns (mas com apenas uma única diferença - Django sabe falar como deve ser) que proporciona alguns momentos de antologia (e apesar da sua violência ser um ícone, muitas das partes mais surpreendentes da fita não residem no uso da força), num filme que vale tanto pelo seu legado como pelo facto de ser uma boa obra, carregada de uma banda sonora épica, muito "eniomorriconinesca". Com mais fama do que qualidade, é certo, «Django» é, contudo, um filme incrível, com mensagens sociais (onde o quase-genocídio de uma cidade se faz por causa de coisas tão ridículas e inúteis - quão diferente é na atualidade? Nada!) e que todos deveriam ver, principalmente se gostaram de «Django Libertado» ou dos filmes de Sergio Leone. E a música não vos vai sair da cabeça durante algum tempo...
 
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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Johnny Guitar [1954]

 
O filme de eleição do crítico de Cinema e histórico diretor da Cinemateca Portuguesa João Bénard da Costa (cinéfilo por excelência), «Johnny Guitar» é um western inegavelmente original, marcante e pioneiro, porque não cede ao cansativo, lucrativo e gasto padrão americano da época em que foi feito, em que este género cinematográfico dominava no país e as temáticas implicavam um conservadorismo maior e uma constante repetição de histórias e situações (índios contra a cavalaria, cavalaria contra os índios... obviamente que há muitas - e boas - exceções à regra: «Rio Bravo», «O Comboio Apitou Três Vezes», «O Homem que matou Liberty Valance», «My Darling Clementine», etc). E porquê a sua originalidade? Isso deriva, desde logo, pelo facto de quem protagonizar esta "coboiada" ser uma mulher, e logo uma Grande atriz (Joan Crawford) que enche o ecrã de uma forma arrebatadora. Depois, há Nicholas Ray, o célebre e criativo cineasta que, um ano depois, realizaria o filme que tornaria James Dean num símbolo ainda maior da juventude dos anos 50 e 60 (e de muita miudagem de hoje em dia - que, propriamente, nunca viu as três fitas com este ator, mas adora-o mais pela imagem dele, propagandeada por frases nas redes sociais e montagens de e-mails), «Fúria de Viver» («Rebeld Without a Cause») e que, quatro anos antes, dava a Humphrey Bogart um dos melhores papéis da sua carreira com «Matar ou Não Matar» («In A Lonely Place»). Já estes dois títulos têm uma coisa em comum com «Johnny Guitar», e que mostra as ideias e as mensagens que Ray queria passar para os seus espectadores nos anos áureos da sua carreira: a rebeldia em relação a Hollywood, tanto no facto de, no filme com Dean, abordar a problemática "Pais e Filhos" do ponto de vista dos segundos, não idealizando uma poesia de "oh meu Deus, nos EUA tudo é perfeito", tanto na história com Humphrey Bogart, onde Ray critica Hollywood graças à história de um argumentista cinematográfico e das dificuldades impostas pelo seu trabalho e pelos seus "financiadores". E em «Johnny Guitar», Vienna (Crawford), a proprietária de um pequeno "saloon", com bebida e jogos, e que domina toda a ação do filme e todos os outros personagens (inclusivamente, aquele que dá título à fita - um ex-pistoleiro agora transformado em guitarrista, contratado por Vienna para animar o "saloon Vienna's", mas que está ligado a ela sob circunstâncias misteriosas, interpretado por Sterling Heyden, um ator sobrevalorizado mas que fez outros desempenhos memoráveis em «Dr. Strangelove» e «O Padrinho», por exemplo -, e talvez assim chegaram a esse nome para o filme por acharem que Vienna não seria um nome tão sonante para intitular esta obra prima), que dela dependem para "sobreviver"... na tela. «Johnny Guitar» é uma história de amor(es), enganos e oportunismos, onde a memória do tempo e do passado deixa uma mágoa muito grande ao presente, e acaba por influenciar muito Emma (Mercedes McCambridge), a "vilã" da trama, que pretende, sem olhar a meios, arruinar e destruir o legado de Vienna.
 
 
Com uma banda sonora fascinante (de Peggy Lee - que canta a canção do filme - e Victor Young) e uma fotografia  magnífica (da autoria da visão de Harry Stradling, que antes trabalhou em alguns clássicos iniciais de Alfred Hitchcock - dos primórdios da época de ouro de fama e glória do realizador "Mestre do Suspense" -, como «Jamaica Inn» e «O Sr. e a Sra. Smith», e depois de «Johnny Guitar, em musicais como «My Fair Lady - Minha Linda Lady» e «Hello, Dolly!», que popularizou a canção homónima e recordista de vendas cantada por Louis Armstrong), e o uso muito expressivo da cor, que Ray voltaria a por em prática, e ainda bem, noutros filmes posteriores (como «Rebeld Without a Cause»), «Johnny Guitar» é um clássico do Cinema, e um clássico dos Grandes e imortais Westerns criados por Hollywood, que ainda funciona, ainda maravilha, ainda fascina e ainda rejubila no ecrã. Os fabulosos diálogos e toda a atmosfera do final de uma era e início de outra (com a chegada do caminho de ferro, que irá mudar aquela cidade para benefício de Vienna, que deseja enriquecer com o desenvolvimento que este meio de transporte vai trazer para aquele local - e para ódio de Emma, que perde cada vez mais escrúpulos e racionalidade, à medida que a rivalidade que sente para com Vienna aumenta), tão bem filmada com o espírito épico e poético (com a câmara a apanhar viva e atentamente todos os pormenores dos cenários, das interpretações e do argumento) e a montagem excecional do filme... tudo isto faz de «Johnny Guitar» uma fita onde tudo bate certo, onde a receita final sai sensacional, onde o Cinema ganha aquela dimensão rara que poucos conseguem alcançar. Se Joan Crawford, disso não haja dúvida, é a mulher mais importante dos westerns (e a sua Vienna, uma das mais ricas personagens de toda a cinematografia norte-americana), menos prestigiado não fica todo o restante elenco (no qual, para além dos outros co-protagonistas já citados, podemos ver algumas aparições curiosas, como Ernest Borgnine - que mais tarde faria «Doze Indomáveis Patifes» e «A Quadrilha Selvagem», de Sam Peckinpah), escolhido a dedo para obter a qualidade que o filme nos proporciona de uma forma tão fantástica.
 
 
«Johnny Guitar» é o melhor exemplo do classicismo à la EUA, sem ser "clássico" no sentido do termo de "filme-velho-que-perdeu-o-interesse-e-que-só-serve-para-nostalgia". É um filme que, espero eu, se torne eterno. E se aguentou mais de meio século e continua a ser excecional, mais umas gerações deve, pelo menos, conseguir continuar a atrair. É um filme que, apesar de não ser um épico que consome grandes milhões de dólares como Hollywood fazia na altura (e que hoje continua a executar, só que agora têm efeitos especiais pelo meio), consegue sê-lo com muito pouco. Porque toda a excelência dos escassos recursos existentes possibilitou que isso acontecesse. Repleto de tensão, onde os dois lados da medalha são postos em confronto (a população e a alienação da mesma por parte de Emma, VS Vienna, Johnny Guitar e um grupo de bandidos que a ela prestam serviço), «Johnny Guitar» é um espetáculo de filme, com uma das personagens mais enigmáticas, fascinantes e inesperadas da Sétima Arte, e que tentou abrir um espaço merecido para as mulheres no mundo do Cinema, dando a Joan Crawford um papel sério, muito humano, e que poucas atrizes, na época, conseguiriam conquistar. E no meio de tantas frases emblemáticas e tantas cenas memoráveis, a duração de «Johnny Guitar» passa num instante. É pena, pois para mim, tornou-se um daqueles filmes que nunca gostaria que tivessem um fim. Ficaria a assistir a Vienna, Johnny, Emma, durante muito, muito tempo. Eis o melhor do Cinema.
 
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P.S - E há tanto mais para se falar sobre esta obra prima, em termos sociológicos e simbólicos, e as representações alegóricas de cada personagem... infelizmente não tenho jeito para isso. Ficam aqui as palavras do próprio João Bénard da Costa. Talvez serão mais esclarecedoras do que este meu artigo.


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O Homem da Maratona (Marathon Man) [1976]


«O Homem da Maratona» é um dos mais conhecidos thrillers americanos dos anos 70, e um dos poucos que põe em confronto duas realidades, e um problema, fora do seu tempo de maior "popularidade": a realidade judaica e a opinião dos nazis, e a tragédia do Holocausto. OK, esta não é a temática central da fita de John Schlesinger (que, alguns anos antes, saiu triunfante dos Oscares com outro filme, «O Cowboy da Meia Noite», também com Dustin Hoffman, acompanhado por Jon Voight), que tem diamantes e tudo, que circundam a vida de um estudante que quer ser maratonista, mas o racismo está constantemente na fita, e não sendo uma peça-chave fundamental para toda a trama, causa alguns momentos de reflexão (a cena inicial, em que um nazi e um judeu se insultam mutuamente, por exemplo): tudo o que parece ter terminado há um longo tempo atrás deixará sempre as suas marcas no futuro, quer queiramos ou não que isso aconteça. E as consequências do Holocausto estão bem presentes nos heróis e nos vilões de «O Homem da Maratona». É um bom filme, com uma banda sonora intimista e intrigante, adequada à história de conspirações e roubos (e os estranhos métodos utilizados pelos criminosos para a tortura das vítimas - sim, refiro-me à famosa cena dos dentes), com uma realização consistente, onde nos centramos em "Babe" Levy, a personagem de Hoffman, um aluno tímido e sonhador com as corridas, mas que fará, para a tese da faculdade, um trabalho sobre a tirania e centrar-se-á no McCarthyismo. Um assunto que, incidentalmente, está ligado com o passado deste estudante e, mais propriamente, do seu Pai, que ficou muito prejudicado graças aos métodos e ideias fanáticas do Senador Joseph McCarthy e da "caça às bruxas" por ele instalada. Mas acidentalmente, ele envolve-se numa rede de roubos liderada por um ex-criminoso de guerra nazi (Laurence Olivier em mais um papel emblemático), e talvez não consiga sair dela. E será que ele pode acreditar em todos os que pensa ser seus amigos? Talvez sim, talvez não. A desconfiança cresce a cada momento e Levy sentir-se-á cada vez mais encurralado... Baseado no livro homónimo de William Goldman, e adaptado para o ecrã pelo autor, «O Homem da Maratona» é um filme agitado, onde nem tudo é o que parece (ou será que é?), onde alguns dos personagens saem feridos ou mortos por danificarem os planos de alguém superior... em termos de poder. Conseguirá "Babe" sair daqui triunfante?
 
 
Para tornar o caldo ainda mais "entornável", Levy descobre coisas estranhas sobre o seu irmão e a sua namorada tem também um passado obscuro. E como se consegue perceber pelo que aqui escrevo , «O Homem da Maratona» é um filme onde a história e o argumento dominam, em grande parte, a duração da película. Mas é uma obra agradável, com um punhado de cenas que são marcantes e/ou influenciadoras para muitos realizadores e cinéfilos insaciáveis. Algumas coisas estão datadas porque este não é um filme para ficar para a História, e mesmo apesar desses pormenores que já estão ultrapassados (nomeadamente, em termos de técnicas de filmar e montagem) serem visíveis, os mesmos não estragam a experiência agradável de ver este filme, alimentada também pelas potentes interpretações (encabeçadas por Hoffman, Olivier e um interessante Roy Scheider - de «Os Incorruptíveis Contra a Droga») e muitos diálogos inspirados que dão um ritmo alucinante a esta narrativa de mistério, conspirações, política e relações sociais. Com muito suspense em estado puro, onde vemos que o facto de Levy ser um corredor imparável não é um pormenor posto para encher o guião ou para construir a personagem de uma forma mais de "encher chouriços" (até porque ele vai ter de usar muito as suas habilidades, incluindo o seu engenho e a sua astúcia, para escapar - ou pelo menos, tentar escapar - dos bandidos que o perseguem). O nazismo sobrevive, e tal como em 1976, é preocupante em 2013. Se existem, ainda, ex-amigos de Hitler a brincarem com diamantes ganhos de formas duvidosas por esse mundo fora (ou pelo menos, se ainda têm idade, ou não muitas dores nas pernas, para andarem por aí em conspirações em qualquer país do planeta), disso eu não posso ter a certeza. Mas como fita alarmante e, mesmo de uma forma não tão precisa, com uma intenção explícita de tocar em temas ainda quentes para a sociedade contemporânea, e como bom filme de entretenimento e ação, «O Homem da Maratona» funciona de uma forma reveladora, e divertida. E é engraçado ver duas lendas, de gerações distintas, confrontarem-se de uma maneira tão peculiar no ecrã. Isso fica mesmo na memória, tal como as correrias de Dustin Hoffman.
 
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Contemporâneos de regresso... em reposição



Quando passaram originalmente na RTP1, os Contemporâneos foram um fenómeno, a esperança certa para o buraco deixado pelos Gato Fedorento (que nunca voltaram a ter a mesma qualidade). Agora é delicioso rever a série e sketches hilariantes como este nas noites da RTP2. Sabe bem voltar a lembrar que houve um tempo, não muito longínquo, em que a televisão pública apostava no mais inteligente humor português. E eu tenho sempre fé que os Contemporâneos se voltem a juntar. Quem sabe...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Cerromaior: Manuel da Fonseca e o Alentejo


Do autor de «Seara de Vento» que é, provavelmente, a sua narrativa mais conhecida e estudada, «Cerromaior» é um romance rural de Manuel da Fonseca, onde várias temáticas são postas em confronto num Alentejo atrasado, conservador e onde estranhas pessoas, com vidas estranhas, deambulam pela aldeia que dá nome ao livro, e em outras que a rodeiam. Esta obra foi ainda alvo de uma adaptação cinematográfica, da autoria de Luís Filipe Rocha, estreada no ano de 1981, e que teve algum considerável sucesso. «Cerromaior» é a história de Adriano, um rapaz que vive na aldeia mas que ambiciona regressar a Lisboa para completar os seus estudos, coisa que os seus familiares e as suas obrigações patrimoniais o impedem de executar. E em Cerromaior conhecemos todo um rol de personagens que conhecem Adriano, ou trabalham para os seus primos, ou que simplesmente habitam o mesmo espaço que este moço, que deambula pelas ruas da aldeia desgostoso da sua vida. «Cerromaior» é também uma crítica política, tendo sido, por isso, um romance impiedosamente cortado pela Censura, e que o autor tentou reconstituir, na sua originalidade, nesta edição da Caminho. Uma obra interessante, com alguma chama literária e situações muito bem relatadas e escritas, mas que sabe a pouco. Mas felizmente ficamos com a memória viva destas personagens que, felizmente, estão muito bem e credivelmente construídas (não fosse este um romance neorrealista - aliás, Manuel da Fonseca é um dos nomes maiores desse género na literatura portuguesa), num ambiente tão tipicamente português, numa região do país que foi e continua a ser, de maneiras diferentes obviamente, vítima de certos atrasos que o progresso do resto da "Lusitânia" não consegue trazer para o Interior e para as zonas mais rurais...