domingo, 30 de junho de 2013

O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel [2001]


A trilogia de «O Senhor dos Anéis», juntamente com o franchise de Harry Potter e, ainda mais recentemente, as reinvenções complexas de Batman pela mão de Christopher Nolan, é um dos maiores marcos cinematográficos da minha geração. É impressionante a quantidade de gente que adora estes filmes e que os revê vezes sem conta, como se a sua vida dependesse daquelas histórias, daquelas personagens, daquelas ficções. Infelizmente, (ainda) não conheço, totalmente, nenhum dos três, para poder justificar, a meu ver, se o culto que geraram estes três mundos cinéfilos é merecido. Mas uma coisa é certa: têm de ter qualquer coisa de especial, para conseguirem mover tanta gente, tantas paixões culturais, e, sejamos sinceros, tanto dinheiro. São cultos que passaram pela minha "meninice" e que perpetuam agora, e que persisto em pôr de lado. Do Harry Potter conheço alguns filmes (apaixonei-me pela série em pequeno, quando vi o primeiro filme no Cinema - percebi medianamente as legendas, estava a aprender a ler nessa altura - e a minha "obsessão" continuou com a sequela, de um universo que me interessava mas que não compreendia perfeitamente. Depois, a "paixão" desapareceu, vi os quarto e quinto filmes, e o último no grande ecrã na estreia, e achei até uma conclusão satisfatória, mesmo não estando a par de tudo o que ficara para trás com o desenvolvimento das aventuras do feiticeiro caixa d'óculos), e de Nolan conheço apenas a segunda fita da trilogia do Cavaleiro das Trevas. Faltava-me conhecer, pelo menos um pouco, da história de «O Senhor dos Anéis». Vi «A Irmandade do Anel» há dois dias, numa fantástica edição em blu-ray (a primeira vez que vi um filme nesse formato) noutra casa que não a minha, e fiquei surpreendido. Há pessoas que verão mais qualidade neste filme do que aquilo que eu pude percecionar, com o meu olhar crítico e mais virado para outras tendências (incluindo as duas pessoas com quem estive a ver a obra), mas no fim de contas, fiquei a conhecer algo que não estava mesmo nada à espera de encontrar: um Grande épico, que pegou no universo mítico criado por Tolkien, e que conseguiu fazer um filme que não só agradou aos "tolkienianos" como também a pessoas que (tal como eu) nunca pegaram nos livros originais da história de Frodo, Samwise, Gandalf e companhia. É claro que todo o cinema mais "comercial" pode ser criticado (mesmo que, muitas vezes, as críticas de muito crítico especializado rondem tudo o que é exterior a um dado filme), mas penso que existem dois tipos de "blockbusters": os que são feitos quase de uma maneira estandardizada e em série, e os que são milimetricamente pensados e adaptados para as audiências que gostam de pipocas, mas também de ver um grande filme que lhes fique na memória, que lhes apeteça discutir e que queiram rever muitas vezes. Nesta segunda secção, encaixaria este primeiro tomo da trilogia de «O Senhor dos Anéis», realizado por Peter Jackson (sinceramente, seria muito difícil, naquele "tão longínquo" ano de 2001, pensar que o autor de filmes algo... duvidosos, como «Bad Taste» e «Agarrem-me Esses Fantasmas», conseguisse fazer algo com uma qualidade e uma espectacularidade tão grande. E, para bem de muita gente (e nisto, digo os milhões de fãs de Tolkien, ou só dos filmes, que estão espalhados por esse mundo fora), ele conseguiu atingir esse objetivo.

Frodo descobre o poder do Anel, numa altura em que os sarilhos apertam.
Não conseguindo ser tão preciso quanto aos locais, às personagens e à cronologia de «A Irmandade do Anel», e impedindo que algum fanático, com uma tocha e uma forquilha nas mãos, me tente encontrar se eu cometer alguma heresia acidental, apenas posso dizer, em relação ao seu conteúdo (e meu Deus, já se escreveu tanto sobre o mesmo que estar a "engonhar" sobre o assunto seria totalmente desnecessário - apesar de que a arte do engonhanço, por si mesma, já é totalmente inútil), que se trata do início de uma jornada longínqua, por causa de um anel "precioso" com inúmeros poderes e que, se cair em mãos erradas...é capaz de dar sarilho. Por variadas coisas que me são impossíveis de contar por escrito, Frodo Baggins, cujo Tio, Bilbo, era proprietário dessa peça de bijuteria desde há umas boas décadas, decide levá-lo até a um lugar seguro, impedindo que os maus da fita o apanhem e consigam concretizar os seus desejos de malvadezas. E para não cometer mais nenhum pecado sobre a história de Tolkien, apenas posso comentar os aspetos cinematográficos de «A Irmandade do Anel»: acima de tudo, é importante destacar os maravilhosos efeitos visuais do filme, que dão uma magia absoluta à obra de Peter Jackson. É uma oportunidade única tomar-se contacto com imagens tão espantosas, tão belas e tão bem filmadas e construídas como têm as deste filme, para cuja "epicidade" contribui, também, a fantástica banda sonora de Howard Shore (que também deu o seu auxílio musical para outros filmes como «A Mosca» de Cronenberg», «O Silêncio dos Inocentes» de Jonathan Demme e «Ed Wood» de Tim Burton). É um autêntico espetáculo visual, musical e narrativo (se bem que, neste último, para mim - e por favor, não voltem a acender as tochas depois de eu proferir isto - não esteja assim tão perfeito), empolgante, e que me fez ficar interessado por um género cinematográfico (a Fantasia) que nem costuma ser um dos que visualizo com mais frequência. Tem um mundo muito próprio, cujos paralelismos entre a "realidade" e a ficção quase são invisíveis, e onde tudo só faz sentido ali (como aquelas pequenas particularidades da história que me explicaram, e que, noutra situação, não poderiam servir para nada), e por isso, temos de entrar neste universo e estarmos disponíveis a entendê-lo e a, assim, conseguir gostar dele e a admirá-lo. A imaginação de Tolkien era imparável e pormenorizada, e Peter Jackson conseguiu fazer um filme muito bem feito a partir da criatividade do autor. E num século onde o género épico é quase inexistente (ou que, quando reaparece, dá poucos ares disso mesmo), é impressionante notar como, com «A Irmandade do Anel», se conseguiu renovar esse tipo de Cinema e mesmo a própria arte cinematográfica. Sim, grande parte dos filmes de hoje em dia são elaborados com muitos efeitos especiais. Mas poucos (mesmo muito poucos) conseguem ser tão esplendorosos, mágicos e tão bem pensados (nada é posto por acaso, e não se fazem as coisas para os estúdios ganhar o máximo dinheiro no "box-office" possível, sem se pensar no que está a ser feito) como este primeiro capítulo de «O Senhor dos Anéis». E talvez ainda me impressione mais com o que aí vem a seguir. Pelo menos, é o que me estão sempre a dizer...

* * * *

sábado, 29 de junho de 2013

L.A. Confidencial [1997]


«L.A. Confidencial» tem um início repleto de ironia, um retrato da cidade de Los Angeles, de todo o misticismo que a rodeia e das verdades incómodas que esconde, que será uma chave essencial para se compreender toda a ação que se seguirá, com as peripécias vividas pelos três polícias protagonistas da narrativa, baseada no livro homónimo de James Ellroy (que, felizmente, se torna mais interessante graças ao ritmo dado à adaptação cinematográfica realizada por Curtis Hanson). Bud White (Russel Crowe), Ed Exley (Guy Pierce) e Jack Vincennes (Kevin Spacey) acabam por se envolver num esquema que tem poucas respostas para lhe dar, e só os faz questionar ainda mais sobre todas as coisas que o rodeiam na cidade do jogo, do álcool e da droga (um mundo "fofocamente" investigado pelo jornalista da revista de escândalos "Hush-Hush", Sid Hudgens - Danny DeVito), onde se movem estrelas de cinema e de televisão (que, à época do filme - o princípio dos anos 50 - estava a dar os primeiros passos) que auxiliam, através dos filmes e das séries em que participam, a transmitir essa imagem paradisíaca e de sonho a que muita gente associa Los Angeles. Mas nunca se deve julgar o livro pela capa, e «L.A. Confidencial» é um perfeito exemplo disso mesmo, acentuando-se mais o lado obscuro da cidade e as múltiplas verdades que a publicidade não pretende divulgar para o seu próprio bem. E tudo isto mostrado num filme com um ritmo imparável e que filma a época retratada de uma forma pormenorizada e meticulosa e que não perde um único frame com inutilidades narrativas (ao contrário do livro...). Esta fita conseguiu "ressuscitar" o género policial e, em parte, o "film noir" tão exemplar e único dos anos 40 e 50, trazendo algumas características que, noutras épocas, tornaram os filmes deste tipo tão interessantes e originais, adaptando-os a um Cinema mais moderno mas que não peca por falta de inteligência cinematográfica, apesar de tantas "tecnologias", sendo um perfeito exemplo de que os americanos ainda têm muito para dar e para executar grandes filmes de crime como só esse país sabe fazer.


Os três polícias de «L.A. Confidencial» são completamente distintos (Ed é um lambe-botas que só pretende subir de posto à custa da denúncia dos seus colegas, Jack é um pseudo-herói polícia para a empresa, uma imagem de lenda construída pelas reportagens de Sid Hudgens, e Bud é um agente obcecado com casos de violência doméstica devido a traumas do passado), mas acabam por complementar-se e a colocarem as divergências de parte para conseguirem por os pratos limpos em relação a um estranho caso que envolveu um massacre num café, onde um dos seus colegas da polícia foi abatido impiedosamente (e tinha acabado de sair do seu cargo, devido a um mau "comportamento" ao longo dos últimos tempos em que esteve na profissão). A pouco e pouco, perceberão que tudo aquilo tem mais do que se lhe diga, e que as conclusões que foram tiradas e que levaram a que o caso fosse arquivado não conseguiram dar uma resposta totalmente clara dos acontecimentos. Droga, prostituição e corrupção acabam por ser alguns dos ingredientes da investigação de Bud, Jack e Vincennes, e no final tudo se resolverá. Mas as dúvidas em relação a Los Angeles e a visão paradisíaca da cidade, perpetuada pelos media, é que não irão dissipar-se tão facilmente... «L.A. Confidencial» é um grande filme, irónico, sarcástico consigo próprio (algo que os estúdios americanos nunca gostaram muito de apostar, nos filmes que produzem), repleto de grandes cenas, de grandes diálogos e de grandes atores, onde os equívocos e a complexidade do mundo da polícia e da investigação é retratado de uma forma fiel e arrebatadora, num estilo que, em parte, me fez recordar o genial «Tudo Bons Rapazes», a máfia vista pela visão de Martin Scorsese. De uma forma constante, faz-se uma antítese entre o aparente glamour de Los Angeles e de toda a violência que cerca a cidade (violência essa que, em alguns casos, é causada para a criação desse dito glamour). Aqui se faz um retrato da América de fachada, terra dos sonhos que, apesar de ter muitos defeitos, não conseguimos deixar de associar à ideia de "sonhos concretizados", onde achamos que tudo é possível e onde podemos ser uma estrela de um momento para o outro (mas muitas vezes, a escalada para a fama é feita através de processos muito duvidosos, como o filme nos mostra em determinados momentos). O filme vira do avesso toda essa ideia bonita que temos de L.A. e da própria América, acabando por tornar-se num retrato auto-crítico da própria América e das diversas incongruências e injustiças que "fazem parte" do país. Com muita tensão (em parte, proporcionada pela "hiperatividade" da câmara) e repleto de suspense, «L.A. Confidencial» lança várias questões, sendo que duas delas, as que me interessou mais, foram: Devemos ou não ceder ao "sistema"? Será que se deve manter limpinha uma imagem de perfeição, embora isso possa trazer muitas coisas tão más ou piores do que se essa imagem fosse apagada? Este é cinema totalmente comercial, obviamente, mas não é por ter de viver do "box-office" que um filme perca a sua qualidade e a sua excelência. E no caso de «L.A. Confidencial», isso são coisas que não lhe faltam.

* * * * *

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Tarde Demais [2000]


Baseado em (passe-se a redundância) "factos verídicos", o filme «Tarde Demais», realizado por José Nascimento, constitui uma surpresa muito interessante no Cinema Português contemporâneo. Não se trata de um filme "pipoqueiro", mas também não ultrapassa a barreira da "intelectualidade" de alguns realizadores lusos: é uma obra sobre uma realidade portuguesa, que se restringe à realidade e a aproveita para fazer, do seu conteúdo, um filme muito bem executado, sem a presença regular de clichés e com uma forma de filmar pouco usual e pouco "correta": não há planos fixos, a câmara está sempre em movimento e, por vezes, fica-se com a sensação que estamos a assistir a um documentário. E talvez seja esse o objetivo da história, escrita por Nascimento e por outro cineasta português, João Canijo (que recentemente obteve o elogio da crítica e do público internacional com «Sangue do Meu Sangue»): dar-nos uma sensação de que o que estamos a ver é a própria vida, e é como se «Tarde Demais» não fosse uma ficcionalização da história verídica, mas a exata realidade dos factos. É um drama que se passa num ambiente isolado (o rio Tejo), representado por cores frias e, muitas vezes, quase inexpressivas, na fotografia do filme. É neste contexto que encontramos os quatro pescadores protagonistas do filme, que tentam salvar as suas vidas depois da canoa que estavam a utilizar ter começado a afundar-se. Somos logo confrontados, com o início da fita, com esta problemática, que abarcará toda a restante duração da mesma. Sem mais demoras, atiram-nos com o problema à cara e com as diversas maneiras que Zé (Vítor Norte), Manuel (Adriano Luz), Joaquim (Nuno Melo) e António (Carlos Santos) tentam utilizar para concretizarem o seu desejo de regressarem a terra, para junto das suas famílias e amigos, e saírem dali o mais depressa possível, antes que o frio das águas do Tejo consuma as suas vidas. E em «Tarde Demais» assistimos também aos confrontos que se realizam entre as personagens, uns, causados pelo pânico da situação e pela vontade de um ou outro querer denunciar quem é que causou tudo aquilo, outros, porque não conseguem engendrar uma solução totalmente fiável para o problema que têm em mãos. E disto se faz um filme relevante, uma história de simplicidade(s) e uma incrível lição de coragem. Porque às vezes esquecemos que as coisas mais simples da vida se encontram naquilo que rodeia o nosso quotidiano e que, por tantas vezes que costumam suceder-se, deixámos de lhes dar qualquer significado ou importância.


De entre os quatro pescadores, um destaca-se mais, pela sua vivacidade e persistência em querer salvar os seus companheiros, que já não possuem tantas forças, como ele, para continuarem a caminhar para a salvação que, ao mesmo tempo que parece estar perto, parece também que se afasta cada vez mais daquele quarteto. Esse pescador é Zé, que proporciona a Vítor Norte uma excelente interpretação (o Globo de Ouro foi totalmente merecido!), e que acaba por ser o representante de um tipo de homens que não são muito comuns na sociedade - aqueles que ainda têm respeito pelas pessoas que o rodeiam e que não pensa só no seu próprio umbigo. E isto não nos é mostrado com sentimentalismos desnecessários, nem "manipulações" excessivas como naqueles filmes de puxar a lágrima ao canto do olho de forma propositada. Nós ficamos a saber isso vendo as ações deste personagem, e isso apenas basta para tirar-se essa conclusão. Não é preciso "heroicizar" ninguém nem pôr Zé num pedestal divino, com "Herói" estampado na testa. E ele e os seus colegas não podem desistir e não podem parar, e Zé tenta, com o máximo das suas forças, que todos cheguem ao fim, depois de todo o martírio, sãos e salvos a suas casas. Mas «Tarde Demais» não se centra "apenas" na situação dos pescadores, acabando por, a partir de uma determinada altura, mostrar duas cenas: a do desenrolar do dramatismo na canoa que a pouco e pouco se vai afundando, e por outro lado, as reações e os comportamentos do filho de Zé e da filha de Manuel, que tentarão, por todos os meios, encontrar os quatro pescadores, antes que seja demasiado tarde, apesar da burocracia e da falta de percepção de algumas autoridades que contactam só ajude a que tenham mais dificuldades nesse processo. Assim tomamos contacto com um mundo pequeno e perigoso, e que foi retratado de uma forma muito interessante em «Tarde Demais». O filme vive principalmente do grande e complexo trabalho dos seus atores, auxiliando à narrativa uma análise psicológica profunda das mesmas e dos comportamentos que as levam a agir de determinadas maneiras, acompanhando uma banda sonora quase "invisível", mas que de certo modo, preenche o peso dramático que o filme carrega, tal como o facto das imagens não terem um aspeto "limpinho", não são trabalhadas para parecerem muito coloridas e bonitas, dando ainda uma maior noção de realidade, "sem corantes ou conservantes". É por estas razões (e talvez outras que me podem ter escapado durante a escrita desta análise e que não apontei durante o visionamento do filme) que gostei muito de «Tarde Demais». O Cinema Português tem muitas pérolas escondidas... o que é pena é que não são tão divulgadas quanto merecem...

* * * * 1/2

Timão de Atenas: mais Shakespeare no D. Maria II


"Quando há dinheiro, há amigos". Este provérbio surgiu-me várias vezes no pensamento quando, ontem à noite, estive a assistir a mais uma magnífica peça que está em cena no Teatro Nacional D. Maria II: «Timão de Atenas», e que é mais uma obra genial do eterno William Shakespeare (que dispensa qualquer apresentação) e que, não sendo das mais celebrizadas, não deixa de ser uma obra fundamental da História do Teatro e deste seu dramaturgo. E essa é apenas uma das muitas lições de moral que o espectador pode retirar das desventuras de Timão, um homem rico que, de um momento para o outro, perde tudo o que tem e aí percebe o verdadeiro valor que lhe dão as pessoas que o rodeavam nos tempos dos excessos e do luxo. Totalmente diferente de «À Vossa Vontade» (que esteve em cena há pouco tempo e que também tive oportunidade de ver "no melhor ecrã HD alguma vez construído", o do palco), que se tratava de uma comédia em estado puro, cheia de excentricidades e de grandes momentos de comédia, «Timão de Atenas» é uma peça dramática em todo o seu esplendor (se bem que tenha alguns atores que, pelo menos na televisão, estivemos habituados a fazerem papéis cómicos - como é o caso de três dos atores, que fizeram parte de projetos como o exuberante e delirantemente parvo programa «Duarte e Companhia» -, mas que no drama saem muito bem), provocadora para a sua época e provocadora ainda hoje em dia. William Shakespeare volta a dar umas alfinetadas na sociedade do seu tempo e nas ridicularidades e nos defeitos que a mesma possui, dando-nos o retrato de um homem que, por ser tão bondoso com os outros, acaba sem nada e sem nenhum dos seus "protegidos" a retribuir a ajuda e as ofertas que Timão lhes atribuira antes, nos grandes banquetes que proporcionava em sua casa.

«Timão de Atenas» é uma peça para deixar qualquer pessoa arrepiada, tanto pela vivacidade das interpretações do excecional elenco, como pela encenação do falecido Joaquim Benite (esta foi a última peça que o encenador fez ainda em vida, o que faz com que este seja o seu "testamento") que, apesar de um ou outro pormenor menos feliz, não deixa de surpreender pela forma como nos cativa. A partir de todo o dramatismo, cria-se toda uma espectacularidade que se adequa perfeitamente à ação da peça e às suas personagens, que deambulam pelo palco, falam connosco e umas com as outras e assumem os seus pensamentos e as suas convicções (que variam tanto ao longo de toda a história) e que não podem mesmo deixar ninguém indiferente. Mais do que uma história, «Timão de Atenas» é um "character study", pelo génio que só Shakespeare soube dar ao Mundo: seguimos com atenção a mudança de personalidade de Timão, dos oportunistas que o rodeavam e que só querem andar atrás do ouro que ele possuía, e compreendemos como, tal no século XVI, o Homem é um indivíduo muito relativo, que varia segundo as circunstâncias em que se envolve e pelos condicionalismos que influenciam o seu estado de espírito e a sua maneira de ser. «Timão de Atenas» é por isso, e tal como toda a obra de Shakespeare, mais do que um documento histórico para ser analisado por ratos de biblioteca: é uma peça viva, com muito para nos dizer e com muito para ensinar ainda hoje aos espectadores. Apesar de tanto teatro recente e bom estar a surgir cada vez mais na cultura portuguesa, vale sempre a pena voltar aos clássicos. E com a qualidade desta co-produção da Companhia de Teatro de Almada e o D. Maria II e com a capacidade de ser fiel ao texto sem deixar de ter criatividade própria e de conseguir ainda criar uma magia superior no Teatro a um texto do calibre de «Timão de Atenas», encontram-se muito poucas. E por isso aconselho vivamente esta magnífica encenação, que estará nos palcos do Teatro Nacional até ao dia 30 de junho!

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Cinco Dias, Cinco Noites [1996]


Adaptação do romance homónimo da autoria de Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal, o líder histórico do Partido Comunista Português), «Cinco Dias, Cinco Noites» é uma história social passada no tempo do Estado Novo (mais precisamente, no ano de 1949, no Norte de Portugal) e que, apesar das conotações políticas do seu criador, não chega a tornar-se "politizada" e adequada apenas a uma facção do parlamento. A obra fala, muito resumidamente, da forma como André (Paulo Pires), um indivíduo que fugiu da prisão e que é por isso procurado, de forma incansável, pela PIDE, é conduzido por Lambaça (Vítor Norte), um fulano da pior espécie e criminoso profissional (e que tem um sotaque bastante peculiar), para a fronteira de Espanha, de maneira a conseguir despistar os seus perseguidores e a ter uma oportunidade para continuar a sua vida noutro país e com outro passaporte (e, por isso, com outra identidade). Trata-se de um dos maiores sucessos do Cinema Português, realizado por José Fonseca e Costa (o cineasta de, por exemplo, «Kilas, o Mau da Fita» e da adaptação do romance de José Cardoso Pires «Balada da Praia dos Cães», protagonizada pelo magnífico e icónico Raul Solnado) e que foi muito apreciado pelo Mestre (para muitos) Manoel Oliveira, que destacou a simplicidade e a candura raras que o filme possui. Com uma brilhante banda sonora de António Pinho Vargas e um sólido argumento (é também digna de nota a forma como o som foi tratado - todas as falas das personagens são percetíveis ao ouvido humano), «Cinco Dias, Cinco Noites» não é um caso raro no Cinema Português pela temática que aborda (filmes sobre o Estado Novo, a Censura e a repressão são incontáveis), mas tem alguma "especificidade" pela forma como o tema é tratado, de uma maneira muito realista, apesar de grande parte de toda a história ser ficcional. De destacar, além disto, é o retrato da época, que é feito com elevado número de detalhes, fisicos e sociais, mostrando como os hábitos e costumes da população portuguesa de 1949 eram ainda muito atrasados e tradicionais, tal como queria António de Oliveira Salazar, mas não se cai, apesar disso, nalgum exagero político: os contras do Estado Novo estão lá, tal qual como a realidade os mostrava, num país pequeno e que, perante o Mundo, proclamava, com toda a convicção (ou pelo menos, o seu líder) estar "orgulhosamente só".


Em «Cinco Dias, Cinco Noites» são confrontadas essas duas personagens tão distintas, que protagonizam a narrativa. São muitos os conflitos que André e Lambaça têm um com o outro, em relação à viagem e ao tempo que esta está a demorar,  mas a pouco e pouco, no meio das inúmeras discussões (que revelam, por vezes, uma grande hostilidade e desconfiança por parte de André, impaciente para chegar à fronteira), estabelece-se entre os dois homens uma relação de amizade (algo que a publicidade ao filme pretendeu sublinhar com mais ênfase - faz com que o mesmo se pareça com um melodrama típico do Cinema Americano -, apesar desse não ser o aspeto central da fita, porque a  relação não é aprofundada, nem tem de ser, porque não é isso o essencial) que ultrapassará as barreiras da política e da clandestinidade (ai que bonito cliché!). E assim se resume, em poucas palavras, o que é «Cinco Noites, Cinco Filmes», um filme agradável, correto e nada pretensioso, que se limita a expor aquilo que tem de filmar, sem caminhar por rodeios e ideias que possam quebrar o ritmo da narrativa. Com uma bela fotografia, propícia a captar da melhor forma as bonitas paisagens e ambientes por onde os dois passam, captam-se os pormenores que rodeiam a dupla de viajantes e que fazem um dos pontos de maior interesse de «Cinco Dias, Cinco Noites». Vítor Norte tem aqui uma boa interpretação (ao lado de um interessante Paulo Pires - na sua estreia no grande ecrã), mas destacam-se também os inúmeros atores secundários que, na sua maioria, tiveram aqui fortes performances em momentos cinematográficos memoráveis. O exemplo maior que eu posso dar é o do Grande Canto e Castro, que tem um dos melhores momentos de acting do filme, e mesmo sendo uma das muitas personagens pequenas, com pouca duração na obra, não deixa de ser bastante interessante e simbólico de toda uma época, representada por diversas personagens com hábitos e costumes distintos umas das outras. É preciso também dizer que neste filme não existem, contudo, personagens caricaturais, não há os bons nem os maus, como costuma acontecer em ficções mais enfabuladas sobre o Estado Novo («Capitães de Abril» de Maria de Medeiros é disso exemplo), querendo José Fonseca e Costa, através da ficção criada por Cunhal, dar uma perspetiva abrangente e mais realista do tempo do Estado Novo, sem fazer com que a obra perca alguma da sua grande simplicidade, e que a torna ainda mais atrativa. Não se tratando de uma obra de maior destaque no Cinema Português, «Cinco Dias, Cinco Noites» é o exemplo de como com pouco se pode fazer bom Cinema, aproveitando todos os recursos disponíveis e não querendo alcançar feitos impossíveis e que destoam completamente com a narrativa que está a ser trabalhada. E com este filme, e com as personagens de André e Lambaça, ganha-se alguma esperança, no sentido de que o Cinema ainda gosta de retratar a humanidade das suas personagens...

* * * *

Um Adeus Português [1986]


Tempo de Guerra e Tempo de Paz: eis as duas épocas que se cruzam e se confrontam em «Um Adeus Português», uma interessante obra de João Botelho que critica não só a inutilidade de um conflito armado (neste caso específico, a Guerra Colonial), como também a forma como a mesma influencia, para sempre e de uma forma dramática, um grupo de pessoas que só estão ligadas à mesma pelo facto de um familiar ter participado na mesma e de lá ter perdido a sua vida. Em «Um Adeus Português», Botelho faz uma constante (e metafórica) oposição entre as duas eras, o passado e o presente do filme, mostrando um retrato da guerra, intimista, tenso e a preto e branco, ao lado dos "coloridos" anos 80 (a primeira cena passada nessa época abre com o plano de um bonito arco-íris a surgir no céu - apenas uma de muitas mensagens simbólicas?), mas que, com tanta "cor", não deixa de pairar a tristeza nos Pais, no irmão e na viúva do soldado morto em combate no Ultramar, que nunca deixaram de passar, doze anos depois, pela dor e pelas consequências que aquele trágico acontecimento trouxe às suas vidas. Os tempos mudam, as vontades também, mas há ainda uma parte do passado que continua a estar muito presente e viva em cada uma destas quatro personagens, difícil de ultrapassar e de esquecer, e que, quer eles queiram ou não admitir, mudou os seus percursos de uma maneira incrivelmente trágica. Nunca mais voltaram a ser os mesmos depois daquela tragédia, o que nos mostra como «Um Adeus Português» é um forte filme em termos de mensagens sociais, sendo um conto sobre a passagem do tempo e a maneira como a mudança política (e as particularidades do antigo regime) alterou Portugal e os Portugueses. Tenho pena é que, com tantas boas intenções e ideias, o apenas razoável conteúdo não consiga fazer justiça à forma e às ideias algo inspiradas de Botelho, com alguns pormenores e situações a serem introduzidos de maneira forçada e inconsequente (como por exemplo, na cena que se passa no metro)...


Em «Um Adeus Português», todas as personagens do presente são "obrigadas" a regressar ao passado e à dita tragédia quando se reencontram, ou seja, quando os Pais do falecido decidem partir para Lisboa ver a nora e o filho, que já não os vê há mais de um ou dois anos (ele já nem sabe bem a quantas anda...). A viúva tem, nessa altura, um novo namorado (um indivíduo que, numa palavra, posso qualificar de "sacana", mas isto sou só eu), e o filho escreve histórias obscenas para uma editora manhosa. E sem precisarem de tocar muito no assunto que acaba por os voltar a reunir todos, percebe-se como todo o ambiente se torna mais pesado quando se dá o reencontro e quando voltamos a vê-los nas cenas seguintes de 1985. O Pai (Ruy Furtado) não queria voltar a suportar o trauma e, antes da viagem, tinha tentado convencer a mulher para que não saíssem do seu lar. Mas depois da ida para Lisboa e de voltar a ver a viúva, ele volta também a pensar no passado e no dramático destino do seu filho. E ao mesmo tempo, são-nos mostradas imagens da guerra e da tensão que a rodeia, ilustrando perturbantes acontecimentos que perfazem alguns dos perigos que os conflitos armados propiciam a quem neles participa. Contudo, filmam-se também os hábitos dos soldados, as particularidades de alguns deles e a indiferença que muitos têm perante a tristeza do ambiente e das situações de que são testemunhas. Porque são eles que têm de sobreviver no meio daquele pandemónio, e por vezes não têm, sequer, tempo para pensar no que estão a fazer, em detrimento da sua auto-salvação. É claro que os Pais, o irmão e a viúva não estão a par de todos os pormenores do infeliz caminho que o soldado percorreu e os motivos que levaram ao seu trágico fim de vida (numa das - poucas - sequências do filme que revela uma grande mestria cinematográfica). Mas não precisam: sabemos que apenas a dor do seu desaparecimento é suficiente para lhes causar uma mágoa que irá durar para o resto das suas vidas, e tudo por causa de uma Guerra sem algum sentido aparente. E, no presente, sente-se também, na figura da Mãe, uma necessidade de se encontrar com a Fé para ter forças para continuar, abordando bem a religião e a sua relação com o ser humano (numa cena muito bonita - outra das ditas poucas). No final, todos percebem como as feridas do passado são impossíveis de sarar, e que, por mais que queiram e façam, a memória não lhes vai permitir pôr de parte a lembrança do soldado, aquilo que ele foi e, se não tivesse morrido, aquilo que poderia ter sido ou onde poderia ter chegado.


Com muitos planos demasiado supérfluos e desnecessários, alguns atores bons e outros não tanto, e um argumento interessante mas com algumas incongruências e desnecessidades, se fez «Um Adeus Português». É um filme com muitas boas intenções, mas com muito poucas concretizações a partir dessas intenções. Foi um filme que marcou a época da sua estreia, pelo seu tema, pela sua abordagem, num Portugal onde a democracia até há bem pouco tempo tinha acabado totalmente de ser construída. Mas com o passar dos anos, pode-se hoje fazer uma distinção entre preocupações políticas e Cinema de uma forma mais objetiva: não há dúvida que João Botelho quis passar uma história sobre a sociedade portuguesa de uma maneira diferente e pouco vista na cinematografia nacional (aliás, muitos dos seus filmes são exemplo disso mesmo, como se sucede com «Filme do Desassossego»), mas infelizmente, a meu ver, com o passar do tempo (não sei se, na época, teria a mesma opinião - estou a escrever segundo o visionamento que fiz há uns dias, e não nos anos 80), «Um Adeus Português» deixou apenas uma marca de curiosidade e de um quase-documento pseudo histórico passados tantos anos. Mas não deixa, por isso, de ser uma obra com interesse e com coisas para serem exploradas. Coisas essas que poderão tocar mais a uns do que a outros, dependendo das opiniões e dos gostos cinéfilos - só espero é que ninguém me queime em hasta pública por esta crítica! No fundo, é um filme que se destaca ainda por alguns aspetos, mas que se torna um pouco dispensável por não cumprir da melhor forma as metas que pretendia atingir. Mas a intenção e a boa elaboração de algumas partes dá esse interesse adicional a «Um Adeus Português», uma obra sobre acontecimentos e políticas que marcaram, de uma forma indelével, toda a existência do País.

* * * 1/2

terça-feira, 25 de junho de 2013

Freedom!


25 de junho - o dia da liberdade. Ou pelo menos da minha, em relação aos exames. Foi a última vez que pus os pés no Rainha. Ou pelo menos, que entrei numa sala de aula para fazer coisas. O verdadeiro momento do "final" do ano não é, no 12.º ano, o último dia de aulas, ou o baile de finalistas. Mas o momento em que os meus colegas deixaram de ser colegas, e que nos despedimos todos como se nos fôssemos voltar a ver amanhã, como se ainda tivéssemos mais matéria para dar. Infelizmente, isso já não vai acontecer. Mas acaba um ciclo, e começa outro. Vamos ver o que é que o próximo irá trazer...

P.S - Sim, como prometido (e finalmente!), a Companhia das Amêndoas está de volta ao ativo. Tenho muito trabalho atrasado e é melhor começar já. E não, não vi ainda o «Braveheart». Mas quando saí do exame, foi impossível não pensar nesta citação quando percebi o alívio que era ter acabado o exame. Nos próximos dias vão ter aqui algumas críticas cinematográficas (vi uns seis ou sete filmes enquanto o blog esteve parado), porque eu também preciso de voltar àquilo que gosto mais de fazer. E de sentir, assim, o sabor da liberdade.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Em pausa, por causa dos exames


O período de exames (e toda a turbulência que os está a envolver, nomeadamente a quase-guerrilha entre sindicatos e governo) está aí. E por isso não tenho tido muito tempo, ou cabeça, para escrevinhar coisas aqui no blog, apesar de ter temas suficientes para tal. Tive, há pouco, tempo para fazer duas pequenas crítícas literárias (que podem ler por baixo deste textito) e, agora, para publicar esta nota de despedida temporária, mas como tenho de ocupar a mente com outras coisas, não vou poder concentrar-me muito mais nisto, nos próximos dias. Provavelmente também será melhor assim. Deixar isto descansar, e depois chegar refrescado, quando fizer os meus dois exames e ver, então, o que vou fazer do meu futuro. Por isso, a Companhia das Amêndoas vai estar "de férias" até ao dia 25 de junho. Se por acaso me vir apetecer escrever aqui qualquer coisa, para sair da seca do estudo (apesar de nunca estar muito concentrado no mesmo - é um dos meus muitos defeitos), avisarei. Mas acho que é pouco provável. Levo algum precioso tempo a escrever aquelas críticas, e não tendo muita possibilidade, nos próximos dias, para aceder a computadores mais rápidos como este onde escrevi este post (na biblioteca), em casa não vou estar a investir tempo no computador doméstico, mais lento, e onde os meus Pais e a minha irmã têm coisas mais importantes para fazer.

Por isso, obrigado pela vossa atenção, boas férias para quem já está (ou vai) desfrutá-las - como eu vos invejo... - e até dia 25! 

Cafuné: tropelias do secretário da amiga da aia da rainha


Mário Zambujal não se pode livrar da «Crónica dos Bons Malandros». Foi o primeiro romance que escreveu e é, entre os que li, o que mais aprecio («Dama de Espadas» está muito perto da excelência, ficando em honroso segundo lugar), e mesmo na apresentação de «Cafuné», o seu novo livro e que, desta vez, mete alguns factos históricos lá pelo meio (se bem que, em dois ou três casos, parecem ser inseridos de uma maneira um pouco forçada), é referido que Rodrigo Favinhas Mendes, o protagonista da narrativa passada durante os problemáticos anos da Revolução Francesa e da fuga da Corte Portuguesa para Terras de Vera Cruz, é "um bom malandro". É este o fado de Zambujal: não se conseguir livrar dos seus Malandros. E que ele lhes agradeça muito bem, porque é a essa magnífica história que deve muito do seu reconhecimento literário nacional (e que, digamos, é bem merecido).

Em «Cafuné», li uma história menor da autoria de Zambujal, que sai beneficiada pelo tom muito irónico e hilariante que o autor utiliza para descrever as situações que Rodrigo e o frei Urbino (ou melhor, ex-frei Urbino), o seu fiel companheiro,  vivem nas ruas de Lisboa (e não só!), comparando, em alguns pormenores, com a atualidade da escrita do livro (algo que já tinha também notado muito em «Uma Noite Não São Dias», uma narrativa algo futurista, passada no "esquisito ano de 2044"). No fundo, a história de «Cafuné» fala das deambulações amorosas de Rodrigo e das notas que Urbino aponta, todos os dias, no seu diário. Contudo, a história não é muito original nem surpreendente, não conseguindo ser mais do que um simples romance de cordel, salpicado com momentos (relevantes) a nível histórico e os tais apontamentos cómicos e sarcásticos do autor, que, ao que parece, foi afinando o seu humor com a idade. É um livro que se lê muito bem, embora não seja isso que torne um livro bom ou mau. Mas no caso de «Cafuné», isso pode ser reconsiderado, pelo simples facto que, apesar de ter uma história tão simples e que poderia ser reduzida a muito menos, Mário Zambujal consegue a proeza de ir enchendo chouriços sem nos entediar e descobrindo pequenos pormenores e ridicularidades de cada episódios das desventuras deste duo, e também de outras personagens, mais secundárias.

Vale a pena ler «Cafuné» para quem, como eu, devore todo o livro o que tenha Mário Zambujal na capa. Pequeno em qualidade mas relevante em termos de humor e de ironia (e tanto que nós, portugueses, nos precisamos de rir neste momento), este livro pode não ser tão original, em termos criativos, do que outras obras do autor, mas vale também por Zambujal ter decidido pegar num período tão decisivo da nossa História e ter sabido retratá-lo tão bem, com muita documentação detalhada que torna os factos descritos menos "fictícios", e que é tão bem misturada com a menor ficção e com as interessantes personagens criadas pela mente deste "bom malandro". Vale a pena.

Persépolis: a história de uma infância e a história de um regresso


Uma das últimas leituras que fiz (agora estou a ler dois outros livros, ao mesmo tempo) chama-se «Persépolis». É a célebre novela gráfica de Marjane Satrapi, uma autobiografia da artista sobre si própria, sobre o país onde nasceu e sobre o impacto que a fuga do mesmo para a Europa teve na sua vida, e que, há bem pouco tempo, gerou uma muito boa adaptação cinematográfica, que segue o mesmo tipo de desenho desta banda desenhada. «Persépolis» é dividido em dois livros, juntos num só nesta edição portuguesa excelente da editora Contraponto: A História de uma Infância, onde Marjane conta como vivia em Teerão e quais eram os pensamentos que tinha sobre o país, as ideologias fanáticas do mesmo (impostas após a queda do Xá da Pérsia, que, pelo que ela nos diz, também não tinha feito nada de bom para o Irão) e o que ela ambicionava para o seu próprio futuro, enquanto o passar dos anos a fez crescer, fisica e mentalmente; e A História de um Regresso, que mostra todas as atribulações que Marjane viveu quando emigrou para a Europa e como, com o regresso ao seu país de origem, conseguiu aperceber-se das grandes diferenças que, ainda hoje, persistem no Irão, ainda muito marcado pelo fanatismo e irracionalidade de alguns dos seus cidadãos. Mais do que um relato histórico, muito bem fundamentado e interessante, «Persépolis» é uma obra sobre a vida de uma rapariga que quis mostrar aos ocidentais as coisas boas e más do seu país, enquanto que a comunicação social insiste em, apenas, a passar as más (e a do Irão também, em relação ao "nefasto" Ocidente). Um ato de coragem, de inteligência e de alguma genialidade, é o que se pode encontrar em «Persépolis», uma das obras da nona arte que mais prestígio angariou na atualidade (e que, juntamente com «Maus», de Art Spiegelman, e «Adolf», de Osamu Tezuka, é uma das minhas "graphic novels" de eleição) e que mostra aos (ainda) céticos como a banda desenhada não é uma arte menor do que as outras. A arte dos quadradinhos têm mesmo muito que se lhe diga...

terça-feira, 11 de junho de 2013

Um Coração Selvagem (Wild at Heart)

 
A cinefilia tem destas coisas estranhas: tanto se pontapeiam desalmadamente filmes cuja temática deveria ter sido melhor explorada pelos espectadores, como depois se aclamam fitas que causam um estranho impacto em meio mundo por terem, como realizador, um indivíduo que gosta de utilizar um "estilo diferente" em algumas das suas obras, mas que, se tivessem sido realizadas por uma pessoa completamente distinta, seriam consideradas sacrilégios cinematográficos. Foi essa a principal ideia que retirei de «Um Coração Selvagem», uma constante divagação em forma de filme desalmadamente inconsequente, sem muitas pontas por onde se lhe possa pegar. Mas lá está, este é daqueles filmes que fazem parte daquela "secção" especial com o título de "ou se odeia ou se ama". Mas como eu não gosto de extremos (e também porque, no fundo, e apesar das coisas que não gostei em «Um Coração Selvagem», existem algumas outras coisas boas que não me dão justificação para odiar esta película), fico pela mediania. Este filme é um romance que, autenticamente, faz juz ao adjetivo do seu título: é totalmente selvagem, descontrolado e, mais do que tudo, muito estranho e descabido. David Lynch decidiu, aqui, pegar em mais uma das muitas malucas ideias que o seu cérebro anda a matutar no dia a dia (ideias bizarras que ocorrem a todos nós mas que, na maioria das vezes, preferimos guardar na gaveta - e bem, porque ainda podem pensar que sofremos de algum problema mental), e não querendo fazer comparações com algum dos outros filmes do realizador que são bastante aclamados (e nisto refiro aos seus trabalhos mais complexos e controversos, como «No Céu Tudo é Perfeito», «Veludo Azul», «Estrada Perdida», «Mulholland Drive» e «Inland Empire») porque ainda não vi nenhum deles, posso apenas dizer que, ao contrário dessas fitas, que são famosas pelo seu teor psicológico e mental muito elevado, em «Um Coração Selvagem» não há complicações narrativas, nem grandes ousadias cinematográficas e estilísticas: temos uma história de amor insípida, pouco original (mas que, para muitos, está repleta de originalidade - talvez mais pelo estilo bizarro de David Lynch do que por outra coisa qualquer...), repleta de personagens caricaturais e cuja composição deve tanta inteligência como às bandas desenhadas que este escriba elaborou, durante anos, no ensino básico, e que, para mim, tem apenas um lado mais interessante, e divertido, no humor muito negro e excêntrico com que são polvilhados os diálogos das personagens, a bizarria/loucura da sua maneira de ser e os seus estados de espírito (como a famosa frase de Sailor Ripley, a personagem de Nicolas Cage, This snake skin jacket symbolizes my individuality and belief in personal freedom.), e a ironia combinada com a bizarria de muitas das cenas apresentadas, neste filme que é, basicamente, uma narrativa de matanças, amor e oportunismos em locais muito pouco cinematográficos (pelo menos, no senso comum), onde são feitas, constantemente, referências a «O Feiticeiro de Oz». Para quê? Supostamente, pelo que diz na sinopse do filme, é para homenagear o famoso musical com Judy Garland. Mas para mim, é só mais um ingrediente que não encaixou em «Um Coração Selvagem».
 
 
«Um Coração Selvagem» é a história da relação-tipo entre duas pessoas completamente banais, Sailor e Lula que são assombrados por uma constante perseguição pela arte e engenho da mãe de Lula, que é o autêntico diabo em pessoa e que, pelo que o filme nos mostra, é como se fosse a bruxa má do reino de Oz (porquê? Sinceramente, não sei), porque não aprova o casal e, devido a umas coisas do passado, gostava de ver Sailor morto e enterrado. Ah, o amor da família, sempre tão bom para as relações humanas... Sailor é um fã acérrimo de Elvis Presley e imita os seus gestos e a sua forma de andar (de uma maneira muito ridícula), e Lula é uma rapariga com um passado obscuro e com umas estranhas ideias que lhe passam constantemente pela cabeça (olha o Lynch versão feminina!), como, outra vez, coisas do «Feiticeiro de Oz» (caramba, já chega!), e vão partir numa viagem, após Sailor ter saído da prisão e estar em liberdade condicional, para conseguirem dar alguma felicidade às suas vidas e verem-se livres da terrível mãe de Lula (que tem um gosto amoroso especial por assassinos contratados, é preciso referir). E é este mundo alternativo, bombeado com uma banda sonora peculiar, que nos é apresentado em «Um Coração Selvagem». E que há mais para dizer? Que este é um filme ultrairreverente, com muitos planos elaborados de uma maneira muito alternativa, onde as estranhas ideias de Lynch, e as coisas sem sentido que são metidas ao acaso na narrativa (e que acabam por quebrar muito do seu ritmo) acabaram por levantar questões despropositadas na minha cabeça, aquele tipo de perguntas que não são lá muito boas que surjam na mente do espectador enquanto está a ver um filme: "Mas o que é aquilo?", "Porque é que está metida esta referência desta maneira tão esquisita?", "O over-acting das personagens tinha de chegar a este nível particularmente irritante?" e "Mas afinal o que é isto?" são apenas alguns exemplos. Ou seja, tratam-se daquelas perguntas que nos querem distrair do essencial do filme para partirmos para a auto-discussão de todas as coisas que não estamos a gostar no mesmo. Mas com algum esforço, consegui ultrapassar essas perguntas, quando me surgiam, e até consegui aproveitar bem as duas horas de filme que constituem «Um Coração Selvagem». O filme tem, como já disse, coisas boas e que, ao verem o filme, conseguem captar quais são (até podem ser capazes de gostar mais da fita do que eu, é bem provável). Mas é pena que, no geral, esta obra não tenha uma estrutura muito convincente dentro do seu próprio universo bizarro e diferente, onde a parca originalidade que possui é só posta no estilo de David Lynch (algo que, a meu ver, acabou então por colocar esta fita num patamar de qualidade que, nas mãos de outro realizador, não conseguiria adquirir uma fasquia tão alta) e onde senti um grande desequilíbrio para tudo ser levado ao máximo exagero possível, de uma maneira propositada e para entrar, de uma forma mais fácil e menos interessante, na cabeça das pessoas.
 
 
«Um Coração Selvagem» não é, por isso, nenhum «Mulholland Drive». A lógica é óbvia, e aqui faz-se, em suma, uma ode ridícula às coisas ridículas da vida. Há tantas cenas que, se fossem remontadas ou pensadas de outra maneira, poderiam ter encaixado melhor no filme, assim como diversas personagens e alguns figurantes que nos são apresentados. Há tanta coisa que é metida ao acaso, neste filme, que depois acaba por não servir de nada, para um filme que pretende parecer profundo e romântico sem ser lamechas, mas que acaba por ser tão inteligente como uma telenovela. Mas no fundo, é um filme divertido, que me deu gosto de ver e que, apesar das muitas críticas que lhe fiz, merece ser elogiado na cinematografia, na realização de David Lynch e na escolha acertada de muitos dos atores que fazem o elenco (e que, apesar do over-acting, têm algumas performances dignas de memória - sobretudo Nicolas Cage e Laura Dern, o casal-protagonista da trama, e também Willem Dafoe - aqui as memórias que terei desta personagem roçarão o repugnante), além de existir, no fim de contas, uma ideia interessante e algumas cenas bastante boas, no meio desta salganhada Lynchiana. «Um Coração Selvagem» é um filme para os fãs de Lynch e do seu "estilo", uma história de amor bizarra cheia de falhas, mas que é divertida de se ver.
 
* * *

domingo, 9 de junho de 2013

Uma História Simples (The Straight Story)



Quando os meus filhos eram miúdos, eu fazia uma brincadeira com eles. Dava um pau a cada um deles, e mandava-os parti-los. É claro que partiam, com toda a facilidade. Depois mandava-os atá-los num feixe, e tentar parti-los. É claro que não conseguiam. Então eu dizia-lhes que o feixe é como a família.

«Uma História Simples» é um filme realizado por David Lynch, distribuído pela Walt Disney. Sim, e com esta informação percebemos que esta obra do realizador não deverá ser tão complexa em termos narrativos e visuais como, por exemplo, a fita que realizou antes desta, «Lost Highway - Estrada Perdida», nem como o seu sucesso posterior, «Mulholland Drive», para poder ser uma fonte de investimento segura para os ditos estúdios, sem quebrar os seus protocolos de "auto-censura" em relação aos filmes que devem ou não distribuir (e lá está, por isso nunca vemos a Disney lançar filmes que tenham classificações superiores a M/12). Contudo, «Uma História Simples» (um trocadilho feito com o título original, «The Straight Story» - sendo que Straight é o apelido da personagem principal da trama) não é o típico filme live-action sem sabor e "familiar" que a Disney nos habituou a ver nos cinemas e em edições "direct-to-video" que têm estampadas o seu logo (sim, porque são fitas tão boas que nem passam nas salas...), que destroem a noção de mínima inteligência que qualquer ser humano tem. Ao contrário de "pérolas" como o franchise «High School Musical», «Uma História Simples», a primeira obra de David Lynch que não teve, no seu argumento, a autoria deste cineasta, é um bom filme, e que, por isso, podemos considerar que esta foi uma boa aposta da Disney, e que foi totalmente inesperada, pelo menos se for comparado com o que estamos habituados a imaginar quando pensamos na "riqueza" dos projetos que recebem, normalmente, os grandes investimentos desta empresa. E deveriam "arriscar" mais vezes em filmes como este...


Baseado numa estranha história verídica, «Uma História Simples» tem no seu título todo um resumo: não esperem uma grande lição de vida, onde as personagens alteram radicalmente as suas perspetivas da existência humana e tornam-se melhores pessoas devido a coisas inacreditavelmente giras. Aqui, o que acontece é o seguinte: temos um senhor, chamado Alvin Straight, que ao saber que a saúde está numa situação muito crítica, decide fazer aquilo que, durante dez anos, não teve coragem de pôr em prática - falar com o seu irmão, que vive longe da sua cada. E para concretizar este objetivo, o que é que ele faz? Decide partir à aventura, sair da pequena cidade em que vive (onde todos os habitantes se conhecem e onde cada um sabe tudo sobre a vida de todos os outros) e viajar não num automóvel (porque está impedido de conduzir), mas sim... numa máquina cortadora de relva. Sim, eu disse que a premissa de «Uma História Simples» não era espetacular. Mas no fundo, não é este pormenor que interessa, mas sim toda a viagem que Alvin faz, as pessoas que vai conhecendo, as situações com que se depara e os seus pensamentos que, influenciados pela sua longa experiência de vida, são uma ótima chave para muitas das personagens que com ele tomam contacto. «Uma História Simples» remete a sua simplicidade apenas para os meios técnicos que foram utilizados para a sua elaboração (trata-se, aliás, de uma produção feita de um modo totalmente independente, juntando-se a Disney apenas para a distribuir nos cinemas de todo o mundo) e para a sinopse básica da sua trama, porque em todo o resto e em todo o seu conteúdo, não há nenhuma maneira onde se possa encaixar a palavra "simplicidade". É um filme que está feito nos moldes do Cinema Americano clássico, mais intimista, filosófico e moralista, e que tem como principais temas as relações humanas e a família. Com uma bonita banda sonora que, através da utilização de poucos instrumentos, mas de sonoridades bastantes acolhedoras e bonitas (e que em muito fazem lembrar o género "country", música tão característica do Sul da América), «Uma História Simples» é uma viagem em busca dos medos e dos arrependimentos do ser humano, tendo a importância da família e das boas relações entre familiares como principal mote. Na sua viagem, que durou seis semanas e que fez História (tanta que decidiram - e bem! - passá-la para o Cinema) recebemos uma lição de vida sem precisarmos de grandezas cinematográficas, nem de lágrimas no canto do olho forçadas e propositadas, não deixando esta obra de ser uma boa aula de Cinema, e de como se pode fazer algo de Grande com coisas tão pequenas e, de um certo ponto, tão "ridículas" para a maior parte dos espectadores. Com Alvin Straight, aprendemos a importância do perdão e da compaixão na existência humana, além de que nunca é tarde para aprender nem para corrigir os erros que possamos ter feito na nossa vida. Richard Farnsworth teve, em «Uma História Simples», uma notável performance que recebeu uma nomeação para o Oscar da Academia de Melhor Ator Principal, e um desfecho com chave de ouro na sua grande carreira no Cinema (faleceu no ano a seguir à estreia deste filme). E não sendo uma peça típica da obra de Lynch, mostra como o cineasta é multifacetado e como gosta de explorar sempre novas histórias, com poucas ou nenhumas ligações entre si. E, em «Uma História Simples», reencontramo-nos com a simplicidade da vida no Cinema, de uma forma que só poucos, na atualidade, conseguem captar assim: como se fosse poesia.

* * * *

Blue Jasmine: estreia a 5 de setembro

O trailer do novo filme de Woody Allen (que estreará em Portugal a 5 de Setembro), com o nome de «Blue Jasmine», está já disponível. Conta com as interpretações de Cate Blanchett, Alec Baldwin, Peter Sarsgaard e Louis C.K, e pelo que estas imagens mostram, promete surpreender...

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Alice: realidades no cinema português


- Mas porque é que repetes sempre os mesmos movimentos?
- Parece-me que, se quebrar as rotinas, nunca mais a volto a ver.
- Mas e se ela estiver fora de Lisboa? Mesmo fora do país?
- As pessoas não desaparecem no ar. Mais tarde ou mais cedo ela vai passar pelas mesmas ruas e eu vou estar lá. Que é que queres que eu faça? Não posso desistir, não é?

Muitos afirmam que o Cinema não deve possuir, como ponto de principal importância, a história ou os atores que a interpretam. Contudo, se assim fosse, o ser humano ficaria privado de contemplar muitas das grandes maravilhas, nesses dois setores, que auxiliaram a que a arte cinematográfica proporcionasse ao Mundo desde o ano em que foi criada, iniciada graças aos experimentalismos de alguns pioneiros que encontraram, nas imagens em movimento, uma nova forma de expressão que marcou a humanidade e todo o século XX. E também, assim não existiriam obras primas modernas (ou se existissem, não teriam o mesmo poder e a mesma excelência como as conhecemos), como este «Alice», esta brilhante primeira longa-metragem realizada pelo português Marco Martins. Porque apesar dos tempos terem mudado, a fórmula continua a mesma, podendo ainda ser renovada e inovadora. E se assim não fosse, talvez este filme, com o qual fiquei bastante impressionado, nunca teria sido elaborada. Porque é no argumento, muito inspirado no caso verídico de um desaparecimento de uma criança em Portugal (o do Rui Pedro) como também de outras tragédias semelhantes, e nos extraordinários atores que compõem o elenco da fita, que se encontram os dois principais motores desta obra. E se isso é mau? Muito pelo contrário: apesar de todas as grandes teorias que possam ser feitas sobre a importância/não-importância de atores e argumento nos filmes, é indissociável a influência que estes têm para as fitas, tanto para o bem como para o mal. E, em todos os aspetos, «Alice» é, para mim, um filme que acerta, numa obra que é uma profunda, trágica e triste história dramática sobre como os Pais reagem ao desaparecimento de um dos seus filhos e de como tudo isso altera o percurso das suas vidas, mesmo nas coisas mais pequenas que perfazem o nosso quotidiano. É impossível não nos sentirmos tocados por «Alice» porque nela não há sentimentalismos propositados ou truques de câmara que são utilizados para o melodrama, porque basta termos a visão melancólica, depressiva e que muitos fados tão bem cantam, da cidade de Lisboa, e entrarmos em contacto com a história de Mário, da sua relação com a mulher Luísa (magnífica Beatriz Batarda) e a sua obsessão em busca do paradeiro de Alice, a sua filha desaparecida na capital portuguesa há 193 dias. E cada novo dia que passa torna-se ainda mais preocupante para este Pai, que não desiste por nada do seu objetivo, e que vê em qualquer possível pista uma razão para não perder a esperança, e que sabe que, em algum dia, em alguma hora e em algum lugar de Lisboa, ela voltará a desaparecer. Só não sabe é quando e onde, mas no fim, saberemos se todo aquele esforço diário, que o filme nos mostra de uma forma meticulosa, serviu, afinal, para Mário reencontrar Alice.

Nuno Lopes é Mário, um Pai que não desiste de procurar a sua filha Alice.
«Alice» é, mais do que um testemunho vivo sobre o que acontece aos Pais de uma criança depois de saberem que a mesma desapareceu, a forma como a tragédia muda as suas vidas, o seu estado de espírito e a sua forma de ser enquanto casal. A excelente banda sonora de Bernardo Sassetti (que tinha umas opiniões sobre Cinema muito interessantes - procurem na internet por algumas das últimas entrevistas que lhe foram feitas antes do seu falecimento) condiz a 100% com a atmosfera "fadesca" e melancólica que o filme nos apresenta, retratando uma história trágica que se confunde com a multidão (onde cada um tem também as suas atribulações, os seus problemas e os seus medos), um rebanho de ovelhas que parece ser um só, sem que cada um dos indivíduos que a representa tenha qualquer valor. Mário (que é brilhantemente interpretado por Nuno Lopes, com um olhar perturbador e um acting muito bem composto, é talvez o ator que mais vezes venceu os Globos de Ouro portugueses - em «Alice» conquistou o primeiro galardão da sua carreira, o mais recente foi com o seu desempenho em «As Linhas de Wellington») é, além de Pai angustiado, um ator de teatro. Várias vezes o vemos, no meio do seu quotidiano onde segue, todos os dias, os mesmos passos que foram dados, precisamente, no dia em que Alice desapareceu, a exercer a sua profissão. O modo como a filha desaparecida o afeta no trabalho (nalgumas vezes a sua "persona" em palco mostra mudanças em várias sessões da peça) é apenas um dos vários reflexos que a tragédia tem na vida desta personagem. A sua procura obsessiva leva-o a entrar num esquema de voyeurismo constante, visto que instala diversas cãmaras de filmar nos pontos da cidade onde a filha passou nesse dia, e que, apesar de algumas das pessoas que consegue convencer a ajudá-lo lhe dizem para desistir, ele nunca lhes dá ouvidos. Acumula cassetes e cassetes de gravações que visiona todas as noites, para descobrir algum pormenor que o leve a encontrar o rasto da filha. Além dos atores, do argumento e da forma real e muito próxima como nos é feito este paralelo entre ficção e realidade «Alice» é, na minha opinião, um grande filme por outras razões: há que destacar também a bela cinematografia, que dá à cidade de Lisboa aquela frieza característica que é associada ao povo português (mas, particularmente, ao da capital). Os diálogos são quase como conversas mundanas, improvisadas, que fazem tão parte do nosso dia a dia que nem precisariam de estar escritas, que ganham por se restringirem à realidade, sem necessitarem de recorrer a qualquer tipo de acessórios. A realização de Marco Martins é segura, bem executada e montada, que nos faz pensar como o cinema do meio (como dizia o Vicente Alves do Ó na entrevista que lhe fiz para o programa) é importante em Portugal: o Cinema pode e deve abordar diversas realidades, reais ou imaginárias, e todas as tendências e as perspetivas de cada cineasta. Contudo, são necessários mais filmes assim, como «Alice», mais uma lufada de ar fresco nas fitas portuguesas por ter tocado o Mundo pela sua rara sensibilidade (pelo menos, é uma sensibilidade que já pouco se encontra nos filmes dos últimos anos) e pelas temáticas que são retratadas. Porque afinal, casos como o de «Alice» podem estar mais próximos do que imaginamos.

* * * * *

O 1502.º post (ou seja, só dois posts depois do n.º 1500 é que me apercebi que atingi este feito!)

Sim, meus amigos, o blog conta agora com mais de 1500 entradas, mais de 1500 textos, mais de 1500 postas de pescada, mais de milhares de palavras juntas em frases juntas em críticas, crónicas ou idiossincrasias completamente parvas que perfazem a vidinha tão interessante do autor deste blog, que é - e posso dizer isto com toda a tranquilidade - uma das duas únicas coisas de que sou autor e que tenho 100% de orgulho (a outra é o programa de rádio), apesar de todo o disparate que elaborei por aqui e que, quiçá, para o mal de toda a Humanidade, não vai parar por aqui. Não, minhas amigas e meus amigos: acabam hoje as aulas, provavelmente irei entrar numa nova fase da minha vida, com faculdades e tudo o mais, mas... a infantilidade, a estupidez e a falta de sentido que as minhas ideias proporcionam a vós, poucos seres que ainda têm paciência para virem fazer cliques a este sítio, vai continuar a existir. Desculpem-me isto mas não posso evitar. Ainda podem fugir - basta fazerem uma lavagem na memória tipo «Eternal Sunshine Of The Spotless Mind» que isso fica resolvido (quem não percebeu a referência... não vale a pena procurar. Depois vão lembrar-se deste blog por causa deste filme, por isso também o terão de o retirar da vossa mente). E viram? Já este textinho, que supostamente deveria ser de agradecimento por terem-me ajudado a manter isto até agora, a ter feito tantas coisas neste blog e, acho eu, a ter agora encontrado o rumo certo que quero levar para isto (tentem ver o que eu fazia nos primeiros posts da Companhia e vão ver se isto não era um pouquinho diferente do que é agora...), já está repleto de desinteresse, divagações, devaneios e confusões próprias da minha pessoa. Por isso, sem me alongar mais (porque já chega), apenas digo: OBRIGADO. E que venham mais 1500 (ou talvez seja um pouco arriscado estar a prever tantos posts mais para isto. Mas mais uns cinquenta devem vir de certeza. Trinta, vá. Dez. Dez tenho toda a certeza. Ou talvez não), e agradeço a vossa simpatia e feedback para com este miseravelzinho blog (foi como lhe chamei quando recebi o TCN Blog Award em Dezembro). Tenho uma quantidade relativamente pequena de leitores, mas felizmente (e isto não é para "encher", digo isto do coração), são os melhores leitores do Mundo! E não se esqueçam de vir cá passar de quando em vez, mesmo que eu seja parvo! ;)

Psycho: a arte de liquidar no duche


«Psycho» é um dos filmes mais populares de Alfred Hitchcock, o realizador que continua a conseguir atingir os seus objetivos junto das audiências cinéfilas do mundo: causar arrepios, sustos e tensão, provocar a nossa mente com histórias que, muitas vezes, não são aquilo que estamos a pensar, em suma, agitar a mente e o corpo do espectador, levando-o a não assistir, de uma forma passiva e desinteressada, ao que se está a passar no ecrã. E não sendo o filme mais ousado de Hitchcock, «Psycho» continua hoje a ser alvo de grande estima pelos cinéfilos (apesar de um ou outro pormenor que não conseguiu manter a frescura com o passar dos anos), por não só ter marcado os primórdios de uma nova fase do Cinema Americano, ansioso para se abrir a novas tendências e narrativas, que se viria a suceder alguns anos mais tarde, como também por ter sido uma obra que quebrou muitos tabus e algumas restrições no ano de 1960 (quando estreou nas salas), quando o público foi apanhado de surpresa por esta história de horror, suspense e, e isto não é menos importante, família. Contado de uma maneira invulgar, filmado com técnicas inovadoras que desafiam ainda mais a narrativa e, mais do que tudo, elaborado com um orçamento muito reduzido (basta dizer que Hitchcock teve de usar grande parte da equipa da sua série de TV «Alfred Hitchcock Presents», onde fazia aquelas caricatas introduções - e da qual realizou alguns episódios - para fazer este filme), os muitos estúdios que recusaram realizar «Psycho» por terem considerado ser um projeto demasiado arriscado (mesmo que Hitchcock tenha tido, no filme que realizou antes deste, «Intriga Internacional», um dos seus maiores êxitos do box-office americano) devem ter comido os seus próprios chapéus (como se fossem o Patacôncio, de todas as vezes que perdeu nas suas disputas com o Tio Patinhas - desta referência há duas coisas a reter, e por isso faço aqui um pequeno aparte: não, acho que não houve uma única vez em que o Patacôncio tenha saído vencedor, e por isso imagino como deve estar aquele estômago, e sim, é interessante pensar que todos os magnatas de Hollywood são Tios Patinhas que gostam de nadar em dinheiro, ou coisa do género) quando viram o esmagador e explosivo sucesso que a fita obteve. Muito por "culpa" da inteligente estratégia de marketing que foi utilizada para promover «Psycho», é certo, mas não foi só por isso: os americanos quiseram ver um filme inovador na sua cinematografia, sem deixar de ser, no literal sentido do termo, um blockbuster. E encontraram isso mesmo em «Psycho».

A morte mais desprevenida - e com certeza, mais imitada - da História do Cinema.
«Psycho» não é tanto um filme de conteúdo (apesar de ter uma história com uma carga psicológica inacreditavelmente funcional e perfeita, mesmo para os moldes das narrativas de hoje em dia, onde tudo o que é histórias de assassínios, mistérios e psicopatas anda por todas as fações do entretenimento popular - veja-se as milhentas séries de televisão que, diariamente, lidam com casos enigmáticos, e muitas vezes, tão clichés, que levaram a este tipo de assuntos se banalizar muito), mas sim uma obra onde toda a forma tem tudo para ser admirada e "venerada": Hitchcock consegue fazer, mais uma vez, de cada pormenorzinho inutilzinho e insignificantezinho, um grande momento de Cinema e um precioso achado cinéfilo. Isto é comum na obra de Hitchcock porque o Mestre era, além de um ferrenho perfeccionista, um cineasta atento a tudo o que a câmara teria de captar em cada cena do filme e em cada plano, escolhendo sempre os ângulos certos para o momento certo, sem ser convencional. É impressionante como ainda hoje consegue ser inovador, mesmo naquelas coisas onde todos já o tentaram imitar e/ou superar, o que mostra como «Psycho» é ainda um filme fresco e com muito para dar aos espectadores que não conhecem a obra de Hitchcock. E apesar de, pelo senso comum (pela imensidão de spoilers que a opinião pública gosta de injetar nos consumidores de cultura, sobre as grandes obras primas da Humanidade), termos já uma ideia de quem é o assassino de «Psycho», fica a questão no ar de "porquê?". E só por isso, o filme continua algo chocante e provocador. O momento em que ficamos a saber de tudo é curto, incisivo, e com a música num volume ainda mais elevado (mais uma extraordinária banda sonora de Bernard Herrmann que, como dizia o próprio - e muito bem -, ficou responsável por grande parte da qualidade de cada obra de Hitchcock que "musicou", e não podemos esquecer também mais um excelente trabalho de Saul Bass nos créditos iniciais), que faz com que ocorram diversas conclusões na nossa mente e, aí, percebemos como não estávamos nada à espera que tudo acabasse da maneira como acabou. E mais não digo, porque quando falo demais caio na tendência de estragar surpresas às outras pessoas. Aliás, «Psycho» fala por si, e já se disse (e continua-se a dizer) tanto sobre ele (e há coisas tão boas que se encontram pela internet sobre esta fita), que escuso de acrescentar mais alguma coisa a esta crítica. Apenas afirmo que há muito suspense, que o filme continua a ter impacto e a ser uma obra de referência nos géneros thriller e terror (mesmo que considerem as cenas das mortes ultrapassadas ou não - porque «Psycho» tem muito mais do que a cultura popular nos transmite sobre o filme), e que é uma fita que cresce com o espectador, uma narrativa que reinventou conceitos e que continua a ser novo e inovador. Hitchcock é um dos Grandes Génios da História do Cinema, e em «Psycho» teve uma das suas proezas mais simples, mas grandiosas em termos de eficácia, de Arte, e de Cinema. E este filme é a prova de que, com muito esforço e dedicação, se pode fazer, do pouco que se tem, algo que ultrapassa os limites de "enormidade" que impomos na nossa consciência. Um clássico.

* * * * *

Eu numa iniciativa de outro blog bastante giro

Enquadrado na iniciativa «Um Filme, Uma Mulher», do Blog Girl on Film, onde o objetivo é que se fale de uma personagem feminina do Cinema de que se goste particularmente, aqui fica a minha participação na mesma. Escolhi Ilsa Lund, do memorável «Casablanca». "We'll always have Paris..." 

Podem ler o meu textinho AQUI!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O nono (e, por agora, último) programa de UM LANCE NO ESCURO


Nono episódio (e por agora, último - talvez o programa possa voltar em breve mas isso é incerto) de UM LANCE NO ESCURO, o magazine sobre Cinema e tudo o que o envolve, emitido em direto na RSC no dia 5 de junho de 2013, quarta feira. O convidado foi o divertido advogado, motoqueiro, stand up comedian e postador de pescadas no facebook Hugo Claro, também celebrizado como Um Gajo Claro. Comédia, Direito, Cinema, foram as três coisas conjugadas em mais uma excelente emissão deste programa. Espero que gostem! ;)

terça-feira, 4 de junho de 2013

Serenata à Chuva (Singin' in the Rain)


«Serenata à Chuva» é um dos filmes da minha infância, e o único musical de que gosto verdadeiramente. E só ontem consegui perceber o porquê de tanta gente adorar esta fita fantástica e de tantos cinéfilos a colocarem nas listas mais conceituadas (e sempre muito subjetivas) que versam sobre "os melhores filmes de todos os tempos". E percebi que tinha um preconceito em relação a este filme brilhante, apesar de gostar tanto do mesmo: nunca pensei que pudesse considerá-lo excelente, por se tratar de um musical. Mas ontem à noite percebi que estava errado: revisionei o filme, atentamente, deixando-me deliciar por cada momento, por cada cena, por cada coreografia de Gene Kelly e companhia, pela brilhante combinação entre o melhor da música e o melhor do Cinema, em suma, pela "fantasticularidade" de «Serenata à Chuva». É um filme que deve ser visto desde que somos pequenos, e que tem a particularidade de se tornar cada vez melhor. É impossível não se ficar maravilhado, pelo menos, pelo sumptuoso espetáculo musical e visual que o filme possui, e que influenciou tantos realizadores e artistas por esse mundo fora. E Hollywood produziu dezenas, talvez centenas de musicais na dita era "doirada" do género (desde que surgiram os filmes sonoros até, pelo menos, aos finais da década de 50 e princípios da década de 60). Mas porque é que «Serenata à Chuva» é o único musical que me agrada, perante a vasta panóplia de escolhas que o género dispõe aos cinéfilos (e nisto incluo também todos os - poucos - musicais que foram feitos nas décadas seguintes, em Hollywood e fora dessa indústria)? Por uma razão muito simples: é porque este é um filme que, mesmo que seja dirigido a uma época específica e a um tipo de espectadores e de lucro que a indústria americana conseguia atrair naquela era com uma maior facilidade (veja-se que, um ano antes de «Singin' in the Rain», Gene Kelly já tinha visto as luzes da ribalta com outro musical - hoje, menos popular - com o nome de «Um Americano em Paris», que saiu triunfante dos Prémios da Academia), conseguiu ser intemporal. E apesar de algumas pequenas coisas que se tornaram ultrapassadas pelo tempo e muito visíveis (alguns erros notórios de continuidade da câmara, por exemplo), conseguimos ver como «Serenata à Chuva» continua a ser um filme irresistível, explosivamente divertido, e que permanece com o poder de atrair cinéfilos que o colocam no topo dos melhores, ao lado de fitas que nada têm a ver com este musical, como «2001: Odisseia no Espaço» e «Apocalypse Now». E também porque «Serenata à Chuva» não é só um filme brilhante em termos técnicos, visuais, musicais e narrativos: é porque também consegue ser uma crítica inteligente, subtil, irónica e refinada ao próprio Cinema, através de uma visão pouco explícita, mas muito bem engendrada, dos "loucos anos 20" em Hollywood (e que, em muitos pontos, é exatamente igual ao estado da indústria no ano de 1952, quando este filme estreou). E daí é preciso ver «Serenata à Chuva» mais do que uma vez, em várias etapas da nossa vida. Até porque não é sacrifício nenhum: este deve ser um dos filmes mais bonitos e agradáveis de se ver que conheço. Mas apesar de ser todo "bonitinho" e ter tantas coisas que criticamos em Hollywood, «Serenata à Chuva» destaca-se por ser original e irreverente, e por também ser um filme que aproveita todas as potencialidades do Cinema para ser uma Grande fita, e não como muitos musicais que se limitam a, apenas, serem uma "playlist" de músicas sem ligação entre si e que têm umas imagens para ilustrar, como se se tratassem de um teledisco em longa-metragem. Acho que este é mesmo o único musical, de todos os que vi e que "papei" durante muitos anos, que me entusiasma verdadeiramente e que me faz mesmo ver como a música e as imagens nunca foram tão bem conjugadas num musical, nem nunca voltarão a ser, como em «Serenata à Chuva»!

Gene Kelly tornou uma noite chuvosa numa bela oportunidade para criar um fantástico momento musical.
Em «Serenata à Chuva» conhecemos Don Lockwood (Gene Kelly, uma estrela famosíssima da década de 20 do cinema mudo norte-americano (sim, aquele tipo de filmes que permitia estar num estúdio e fazer três ou quatro ao mesmo tempo, com toda a gente a falar - e onde os atores com uma má voz se poderiam safar graças ao poder da imagem, sem som, algo que a sua parceira Lina Lamont, que possui uma voz de autêntica cana rachada, aproveita como ninguém) e que depois se vê confrontado com a entrada do sonoro e do impacto que o filme «O Cantor de Jazz» causou na indústria de Hollywood. Don é um tipo folião, a típica figura do star-system hollywoodiano, alvo de fãs histéricas, mexericos da imprensa e de grande alarido nas estreias dos seus filmes. É uma pessoa que se mostra sempre contente e feliz (mostrando aquele sorriso meio falso - que só agora consegui verdadeiramente compreender) para poder agradar a toda a gente e não prejudicar a sua prodigiosa fama. Ao seu lado está sempre o amigo Cosmo Brown (Donald O' Connor) que, além de ser o seu braço-direito, é a personagem que, para mim, mais me diverte rever (o momento musical "Make 'Em Laugh!" é simplesmente imperdível) e, mais adiante, a sua paixão: a estreante Kathy Selden. E com estas três personagens, faz-se em «Serenata à Chuva» uma sátira agradavelmente parva aos exageros de Hollywood (e que, bem vistas as coisas, não deixa de ser irónico, dado que este filme é todo um exagero - no bom sentido do termo - em termos técnicos e visuais - o filme consegue ser uma crítica ao exagero utilizando a mais "pura" exuberância como "arma"), ao sucesso imprevisível que qualquer um pode encontrar, de um momento para o outro, em Hollywood (e que tão rapidamente o adquire como rapidamente o perde para sempre...) e às incertezas e pessimismos que muitos tinham na altura com a entrada das novidades trazidas pelo sonoro (tal como os múltiplos problemas de adaptação ao novo sistema cinematográfico, para além das gaffes que se podem suceder numa projeção de cinema e numa antestreia), com o auxílio de músicas, danças, piadas (os vários trocadilhos dos diálogos das personagens - e que passam tão ao lado da tradução portuguesa - são geniais) e "timings" narrativos e coreográficos que ainda hoje são inultrapassáveis. Acho que é quase impossível alguém não se deixar levar pelo ritmo divertido de momentos como o da música "Moses Suposes", ou mesmo a cena em que Kelly canta a música que dá título ao filme e que é, com certeza, o momento mais icónico e lembrado do mesmo. «Serenata à Chuva» é de uma alegria contagiante, e é mesmo um dos poucos musicais (ou mesmo o único) que consegue agradar a várias gerações e que não ficou parado no tempo. É um dos filmes de maior culto dos americanos (e que está profundamente enraizado na cultura popular desse povo), uma fita que passa regularmente nas televisões do país (tal como, por exemplo, «Do Céu Caiu Uma Estrela» e «O Feiticeiro de Oz») e que delicia cada vez mais cinéfilos pela sua frescura, vivacidade e "cinemacidade". É um filme onde tudo é pretexto para se tornar música, tanto gestos como palavras e expressões. E nunca o sorriso saiu do meu rosto enquanto revia «Serenata à Chuva».


«Serenata à Chuva» aproveita todas as qualidades da música, da magia do Cinema e das potencialidades das artes de palco da melhor maneira, criando uma história, um grupo de personagens e uma sequência narrativa que fará inveja a muita gente que queira fazer filmes de alegado "entretenimento". É um filme que faz também um estudo sobre os gostos, sempre relativos, do público, e que apesar de querer agradar à "sua" época e de ter alguns ingredientes para, hoje em dia, se tornar datado, chato e aborrecido, conseguiu tornar-se uma referência que será eternamente homenageada e prestigiada no mundo do Cinema, por não ser datado, nem chato, nem aborrecido. É impossível uma pessoa ficar entediada com toda a energia que o filme nos transmite e todos os sentimentos que o fazem ser uma fita tão apreciada e acarinhada. É um filme tão irreal, mas real ao mesmo tempo, pela proximidade com que nos toca e pela arte que emana e que nos faz querer saltar da cadeira e desejarmos que a nossa vida seria muito mais interessante se fosse um musical como este, onde tudo estaria bem ritmado, coreografado e esquematizado para que cada momento do nosso dia-a-dia se tornasse numa verdadeira obra prima da música e do espetáculo. E, se nos primórdios do Cinema sonoro, para se aproveitar as suas qualidades eram feitos, maioritariamente, filmes com muita música na sua génese e no seu conteúdo, «Serenata à Chuva» acaba por, também, ser um digno aproveitador do som e da arte cinematográfica, criando um espetáculo que é muito maior que a vida e um mundo do qual não nos apetece sair. E o Cinema, tal como toda a arte em geral, tem esse preciso objetivo: ser grandioso e superior em relação às nossas "ridículas" e "miseráveis" vidinhas de "meros mortais" que, por acaso, até andam a circular pelo planeta Terra. E além disso, este filme é quase como um Quentin Tarantino dos musicais: foi buscar elementos a outros filmes anteriores do género (sendo que todas as influências musicais para esta fita e todas as músicas que de outras obras foram retiradas para a execução de «Serenata à Chuva» estão muito bem documentadas e "arquivadas" nas edições em DVD e Blu-ray do filme que a Warner Bros. lançou para o mercado), acabando por ser um tributo aos Grandes musicais (cuja maioria não acabou por continuar a ser tão refrescante e arrebatador como este filme já sexagenário) mas que acaba por se tornar distinto em relação às suas influências e a eternizar-se, ao contrário de muitas das mesmas (talvez no Tarantino não seja tanto assim, em relação a este último assunto - veja-se o exemplo dos westerns spaghetti que o influenciaram para «Django Libertado» - mas acho que devem ter conseguido perceber onde eu queria chegar... espero eu!). Em suma: «Serenata à Chuva» é o melhor musical de todos os tempos, e um dos poucos filmes da era mais "bonitinha" de Hollywood que consegue ultrapassar barreiras de gostos e de opiniões cinéfilas. E se os pessimistas dos "roaring twenties" soubessem que o sonoro acabaria por criar filmes como este, talvez perdessem todo o negativismo em relação à novidade que, então, abalou a História do Cinema. Talvez acabariam por, todos eles, sair da sala de Cinema à espera que chovesse, para poderem imitar Gene Kelly da melhor maneira que conseguissem...

* * * * *

Na nona semana de UM LANCE NO ESCURO...

Esta semana, UM LANCE NO ESCURO volta ao horário habitual, e o convidado é um stand up comedian que diz ser Um Gajo Claro. Quarta feira, às 17:30, na RSC, volta o magazine sobre Cinema e tudo o que o envolve, e o convidado é o Hugo Claro. Não percam! ;)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ingmar Bergman e as Máscaras desta vida


«A Máscara», um dos mais icónicos filmes do realizador sueco Ingmar Bergman, pode ser descrito, em muito poucas palavras, como um pesadelo visual. E porque é tão bom? Por isso mesmo, por ser um filme que pega em tudo o que já temos estabelecido, mistura tudo como se fosse uma grande sopa, e acaba por criar algo de completamente diferente, inesperado e, em certa medida, inovador. Em «A Máscara», não se conta a história de uma maneira habitual, não se filma a narrativa de uma forma mais tradicional, e até as emoções das personagens acabam por ser captadas de uma outra maneira, uma forma rara mas mais intensa que poucos realizadores utilizam para irem ao lado mais profundo das "performances" do seu elenco e para as tornarem ainda mais sensacionais. Tudo isso é possível neste pequeno-Grande filme, nesta obra prima cinematográfica e que é um dos títulos mais controversos da vasta, versátil e extraordinária filmografia do senhor Bergman, que num ambiente de desorientação e dúvida constante, consegue tornar esta experiência cinematográfica em algo totalmente arrasador.. E que, como muitos dos grandes filmes da cultura mundial, tem de ser visto mais do que uma vez. E cada revisionamento de um filme com o calibre de «A Máscara» vale pela descoberta de muitos filmes novos que por aí andam e que não possuem nem um centésimo da imaginação, da irreverência e do "choque" que tem esta obra...

O realizador Ingmar Bergman no set das filmagens de «A Máscara» com as atrizes Bibi  Andersson e Liv Ullmann
O início de «A Máscara» é inesperado, estranho e controverso, mas que acaba por ter um grande significado (isto se for analisado com calma). Não nos prepara em nada para o que vamos ver de seguida, para toda a história que se irá desenrolar entre as duas personagens principais. E ainda bem que «A Máscara» não nos diz nada a princípio, sobre a sua história e a sua trama, porque depois toda a narrativa e as situações que esta dupla tão extraordinária de personagens vivem, são impossíveis de prever tal qual Ingmar Bergman as pretende descrever. Somos confrontados com duas mulheres, totalmente diferentes a todos os níveis: Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), uma atriz que, devido a um esgotamento em palco, perdeu a capacidade de falar, e Alma (Bibi Andersson), a enfermeira que vai acompanhar o processo de "terapia" a que a primeira é submetida, sendo para o efeito levar para uma calma e tranquila casa de campo. Mas a tranquilidade desse local não limita os estranhos acontecimentos que por lá se façam, e nisto quero dizer nomeadamente a relação cada vez mais profunda e complexa que acaba por se moldar entre Elisabeth e Alma. A primeira torna-se uma confidente da segunda, contando-lhe todos os pormenores da sua vida privada (incluindo os mais sórdidos e... privados) e partindo para desabafos cada vez mais intensos  e socialmente pouco aceitáveis, ficando Elisabeth com o encargo de, apenas, escutar e a acenar de vez em quando com a cabeça, em sinal de compreensão. Contudo, uma história simples como aparenta ser «A Máscara» acaba por se tornar num dilema cinematográfico e moral sobre algumas das mais importantes (e problemáticas) questões que envolvam a existência humana. Além de que, às tantas, já nem conseguimos perceber quem é que está a cuidar de quem, e quem é que é verdadeiramente "doente" naquela situação. E mais ainda: será que Elisabeth e Alma são quem aparentam ser na realidade, ou tudo aquilo não passa de uma permanente máscara que as duas utilizam para se poderem afastar das más memórias, das experiências negativas do passado e da melancolia da vida? «A Máscara» é, então, o confronto de duas personalidades que chocam uma com a outra, mais as suas maneiras de pensar, sentir e viver o mundo de que fazem parte. E a câmara de Bergman capta, de uma forma tão extraordinária, pesada (no bom sentido) e violenta as reações das duas personagens, das conversas que têm uma com a outra e das coisas que vão descobrindo sobre si próprias, que faz com que «A Máscara» seja um daqueles pequenos achados da arte cinematográfica que valem mesmo mais que mil palavras. E a história de Elisabeth e Alma acaba por se tornar um alerta para todos nós, espectadores, que seguimos atentamente os passos que ambas as mulheres dão ao longo da fita, e que nos fazem corrigir os pensamentos que pré-estabelecemos sobre as mesmas durante certas partes e certas cenas do filme. A história de Bergman, complexa e "complicada", acaba por nos fazer questionar se, afinal, a questão das máscaras não está mais perto de nós do que gostariamos de admitir no nosso quotidiano...


«A Máscara» e a poderosa mente cinematográfica de Ingmar Bergman abriram novas portas no mundo sempre possível de refrescar e de renovar que é o do Cinema. É um filme muito mais experimental do que outros clássicos do realizador (como por exemplo «O Sétimo Selo» e «Saraband»), mas que é uma obra intemporal de um Mestre que se destacou no tão disperso Cinema Europeu pela sua visão original da vida e dos hábitos do ser humano, algo que agradou e continua a agradar a cinéfilos de todo o planeta. Quando acabei de o ver fiquei como que "aterrorizado" por aquela luz que surgiu na minha grande "escuridão" cultural. E penso que vou rever esta fantástica fita muitas vezes nos próximos anos, porque fiquei a sentir que só consegui perceber uma pequena parte do seu odor de excelência. E tal como os grandes filmes, que nos "obrigam", por gosto ou por simples curiosidade, a revisitá-los muito pouco tempo depois da sua descoberta, com «A Máscara» irá suceder-se exatamente a mesma coisa. É um filme que, com o passar dos anos, vou entender melhor (ou espero que isso aconteça!), porque quero e porque anseio descobrir todos os porquês que inundam esta narrativa e que me deixaram uma impressão tão forte na mente, na escrita e no sentimento. Este é mesmo um filme verdadeiramente singular da História do Cinema, que só muito bem mastigado (como um bom bife da vazia - e desculpem esta péssima comparação) é que será mesmo bem aproveitado. Fantástico!

* * * * *