quinta-feira, 30 de maio de 2013

Rui Responde n.º 24 (o último... por agora!)

Hoje chega ao fim a fornada de perguntas que me foram fornecidas por alguns leitores fiéis desta minha Companhia das Amêndoas para que a rubrica do «Rui Responde» pudesse voltar durante umas semanitas. E assim foi. Agora é como as séries britânicas: pequenas temporadas que surgem entre intervalos de tempo muito grandes. Mas podem já a começar a "trabalhar": enviem perguntas para eu responder num próximo "comeback" desta rubrica! Já sabem: ruialvesdesousa@hotmail.com, a caixa de comentários deste post ou o facebook! Façam tudo para eu continuar a dizer parvoíces, peço-vos!

70.ª pergunta
Qual é a tua opinião sobre o feminismo?
Inês Rebelo

Ahá, eis a pergunta dos cem mil dólares! Cá vou eu esmiuçar um tema muito polémico, como sempre gostei de fazer nestas coisas do blog. Ora muito bem, a minha opinião sobre o feminismo é a seguinte: é uma posição extrema ou algo extrema, e eu não gosto de extremos. É claro, e está mais que provado, que as mulheres são superiores aos homens (não há que evitar - se existe machismo é por alguma coisa, temos de admitir, e essa parece-me ser a única razão), mas precisam de se gabarem? Ora caneco, nós sabemos! Podem ser superiores, mas não se superiorizem, porque no fim de contas até ainda precisam de nós. Vamos mas é ser todos amigos e não fazer guerras homens vs mulheres e esses clichés tão batidos. Pode ser? Hum? Feminismo é algo extremo, tal como o machismo. Mas lá está: os homens até têm a desculpa de serem inferiores e de quererem sentir-se menos deprimidos assim. Agora vós, mulheres? Hum... ok, acho que com esta resposta ainda sou capaz de levar o estalo de alguém, por isso aviso já que isto foi a brincar, OK? Mas agora falando a sério, acho que o feminismo é importante, mas tal como o álcool, em moderação. E infelizmente, é tudo o que eu tenho a dizer sobre o assunto.

71.ª pergunta
Qual a música que te leva a imaginar mais cenários? Quais?
Inês Rebelo

Essa pergunta é muito relativa, cara Inês. São muitas músicas e é difícil, assim de repente, centrar-me apenas numa que se adeque à tua pergunta. E não estou a engonhar nem nada, mas é que não estou a conseguir, sequer, pensar num conjunto de, vá, meia dúzia. Não consigo! Todas as músicas de que eu gosto e que ouço com regularidade levam-me a imaginar cenários, histórias, vidas. Mas, e apenas para tentar diminuir um pouco da generalidade da minha resposta, digo que as bandas sonoras dos filmes são as que me levam a imaginar mais cenários. Muitas vezes relacionados com os próprios filmes (ouço repetidamente várias bandas sonoras, sem filme), outras não (gosto de ouvir bandas sonoras de filmes que ainda não vi). Gosto muito da tua pergunta mas infelizmente é difícil dizer mais do que isso. Mas acrescento só que os cenários que imagino têm muito pouco a ver com a realidade. À exceção de quando vou na rua, me lembro de uma música que, por acaso, é adequada para aquele dia, aquela hora, e aos lugares por que estou a passar... aí misturo também realidade. Admito.

72.ª pergunta
Se alguém te oferecesse um livro e, ao fim de algumas páginas, percebesses que era o livro que contava a tua história, acabarias de o ler?
Rita Gonçalves

Bolas, que pergunta. Mas respondo-te com outra pergunta: não será que, sabendo eu essa informação, acabaria por, acidentalmente, mudar o fim do livro? Ou se chegasse a ler o fim do livro, essa leitura não me iria motivar a mudar as coisas e, consequentemente, o próprio livro? Apre, quando vêm questões espacio-temporais à minha cabeça, fico todo maluco. Mas dando uma resposta do que é que eu faria mesmo: não iria ler até ao fim por três razões: primeira, por estar a intrometer-me no futuro, que não devo saber, e se quisesse poderia trazer consequências graves ao mundo (ou não...? Agora estou confuso); segunda, teria medo do que pudesse lá encontrar, poderia ver que a minha vida tinha dado uma volta de muitos graus e que, se apanhasse um choque desses assim de repente, poderia ser mau (mas talvez. a presenciar os momentos em que essa volta se deu, talvez não sentisse nada); terceiro (e mais cliché), apesar de gostar de saber o final das histórias lendo o livro todo, neste caso cairia na tentação de abrir logo para o final, se soubesse que se tratava desse "tal" livro. Mais vale viver eu a minha vida, sem recorrer a previsões sobre mim próprio. Acho que é o que todo o ser humano deveria fazer!

E por aqui termina esta fornada do regresso do «Rui Responde». Mas as quintas-feiras, daqui a algum tempinho, voltarão a ter uma rubricazinha toda engraçada para substituir. Já tenho muitas ideias e tudo. Mais novidades em breve...

Tabu: no período áureo do moderno cinema português


«Tabu» é um dos filmes portugueses mais badalados dos últimos anos no mundo inteiro. E ainda bem, porque isto só mostra que o cinema português tem muito para dar e vender e pode trazer muitos consumidores estrangeiros a descobrirem a sétima arte na língua de Camões. A obra de Miguel Gomes (realizador de «Aquele Querido Mês de Agosto) andou em diversos festivais de cinema do planeta, saindo vencedor em duas categorias do certame da "Berlinale". O merecimento ou não-merecimento destes prémios é algo totalmente subjetivo, dependendo dos nossos gostos e daquilo que gostamos de ver em Cinema. Mas tenho a dizer que fiquei agradavelmente surpreendido por este «Tabu». Tem um bom argumento, inteligente e sedutor (que por vezes possa pecar por alguma incoerência ou "literatura" nos seus diálogos, o que faz com que perca um pouco a sua energia e a sua cinefilia - mais aquele início, que me pareceu mal executado e, mesmo, um pouco ridículo - dava uma ótima "cena eliminada" nos extras do DVD) que junta três personagens (Aurora, uma senhora de idade que se sente arrependida dos erros que cometeu no passado, Santa, a empregada que cuida de Aurora, e Pilar, uma vizinha que se preocupa com Aurora e que é uma "feroz" ativista de causas sociais) e a história de vida de uma delas, aproveitando para homenagear a arte cinematográfica. «Tabu» é um filme que tem duas partes: a primeira, no presente, junta o trio e as atribulações mentais e físicas que Aurora sente por começar a estar debilitada e pela solidão em que se encontra; a segunda trata-se de uma viagem ao passado de Aurora, contada por Ventura, um antigo conhecido da senhora e que vai explicar a Santa e a Pilar o tempo em que a conheceu, em África, nos tempos atribulados do Estado Novo, não existindo diálogos, apenas a narração de Ventura, sendo que acompanhamos os sentimentos das personagens através dos seus gestos e expressões ao bom jeito (não pantomineiro) do Cinema Mudo - o que reforça o estilo diferente que Miguel Gomes dá a este seu filme, que aproveita também para dar a conhecer alguns costumes da cultura africana e filmar, brilhantemente, as magníficas paisagens que as redondezas do Monte Tabu, onde vivem Aurora, Ventura e tantos outros, proporcionam a quem quiser visitar. 


Assim, e também por outras coisas que só vendo a fita é que podem ser explicadas, «Tabu» é um filme sobre os portugueses e sobre a humanidade e a História gigante que o nosso povo possui, apesar da nossa pequenez em relação ao resto do Mundo. Não é um filme de patriotismos, mas sim uma história que nos leva, através do exemplo de todas as personagens, com mentalidades e vivências distintas, a entender como somos um povo com coisas interessantes a serem exploradas e divulgadas (e que, por isso, deveriam ser sujeitas a muitos outros bons filmes nacionais...). Portugal é um grande país, nas coisas boas e nas coisas más, e com todas as críticas que há para serem feitas, temos de conhecê-lo bem para encontrarmos razão naquilo que pretendemos criticar (e há muita coisa para ser mal-dita, é verdade...). Em «Tabu» são também dissecados algumas problemáticas que tanto preocupam os seres humanos na atualidade, como sempre foram preocupantes em todas as gerações e continuarão a ser no futuro: o amor, o confronto crença VS descrença, a cada vez maior globalização do mundo (mas que, ao mesmo tempo, sente mais um afastamento entre todos os indivíduos e uma perda acentuada da comunicação entre as pessoas), e tantas outras coisas. Há um certo desequilíbrio na história e nos atores (alguns são muito bons, outros não passam do nível mediano), mas «Tabu» consegue ser um bom filme, diferente do que Portugal costuma ver no seu Cinema (que - e ainda bem! - não é só Oliveira) e que, sendo arriscado, atraiu a atenção de muitos espectadores à volta do Globo. Está longe de ser um filme perfeito, mas comparando com muitos projetos que têm aparecido a nível nacional nos últimos anos, «Tabu» é dos poucos que arriscam fazer a diferença sem se perder demasiado em "extremismos" intelectuais ou exageros "mainstream". «Tabu» mostra Portugal e os portugueses a preto e branco, num filme mágico, misterioso e com muitas histórias para contar aos que as quiserem descobrir. É uma grande pérola.

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Rebecca: o reconhecimento de Hitchcock por Hollywood


Rebecca, a mulher que dá título ao filme homónimo de Alfred Hitchcock, o primeiro (e único) da longa filmografia do cineasta (que conta com mais de seis dezenas de títulos) a ser premiado com o Oscar da Academia para Melhor Filme (e que, com esse reconhecimento, catapultou-o para as lides cinematográficas de Hollywood, o que o levou a fazer grande parte das obras primas que tantas vezes são hoje referenciadas), é uma das personagens mais misteriosas que já integrou as tramas impressionantes, empolgantes e, por vezes, aterrorizantes, que compõem o universo do Mestre do Suspense. Contudo, Rebecca tem uma vantagem sobre todas as grandes personagens hitchcockianas das outras (muitas) lendárias obras do realizador (como é o caso do detetive "Scottie" Ferguson e da misteriosa Madeleine Elster, pela qual o primeiro fica obcecado, em «Vertigo», ou o do fotógrafo voyeur de «A Janela Indiscreta» ou ainda até o perturbado Norman Bates de «Psycho» - são muitas grandes personagens e estas apenas são três exemplos): é que ela é uma peça fundamental para a narrativa e para o ambiente do filme, não precisando, contudo, de alguma vez aparecer no mesmo. Rebecca está morta desde o princípio da trama (e isto não é nenhum spoiler, atenção), só que a sua influência é ainda tão grande na vida do marido viúvo Maxim de Winter (Laurence Olivier numa interpretação notável) e no quotidiano dos empregados que trabalham na sua enorme e misteriosa mansão, que é impossível deixar de pensar como, talvez, Rebecca continue muito viva em todo aquele ambiente. Talvez a sua presença seja ainda mais notória e profunda naquela altura do que quando ainda estava viva... É neste ambiente que entra a segunda mulher de Maxim (Joan Fontaine), nova e algo ingénua, e que vai entrar num mundo que é totalmente diferente do que a sua vida a habituou a conhecer: fora de grandes luxos e de "boas" companhias. Contudo, ela vai percebendo (e sobretudo graças ao ambiente estranho e algo caótico da casa de Maxim e aos estranhos comportamentos que uma das criadas, Mrs Danvers, tem em relação a ela e à sua presença naquela mansão que tem ainda a chama de Rebecca muito presente) como o seu marido tem uma obsessão ainda forte (e por vezes, algo paranóica) por Rebecca, e que as razões do seu desaparecimento estão longe de estarem bem explicadas. Ou aliás, será que ficamos mesmo a saber a verdade, a forma como tudo realmente aconteceu, tudo o que levou a que Rebecca se fosse deste mundo?


Em «Rebecca», além de nos perguntarmos porque é que a dita senhora continua a ser tão importante e traumática para aquele mundo, questionamos com ainda mais persistência, quem é, realmente, Maxim de Winter. Porque tal como com as razões da morte de Rebecca, o filme também não nos dá uma ideia exata de quem é este homem. Ou pelo menos, para mim, não deu. Fiquei a duvidar dele até ao final do filme, e talvez tenha ficado muita coisa por responder. Mas consegui ver como Maxim é um homem amargurado, triste e desejoso de refazer a sua vida (social e amorosa), e encontra na sua nova esposa um novo e bom motivo para acreditar na sua própria "ressurreição" (aliás, se ambos não se tivessem conhecido na mesma hora e no mesmo local onde tudo aconteceu, muita coisa teria mudado - e talvez houvesse mais uma morte à mistura, neste caso um total suicídio, e aqui não haveria qualquer dúvida). Tem uma atitude algo cínica e muito british, o que dá origem ao pedido de casamento mais "original" de todos os tempos, pelo menos em cinema (que é, nada mais nada menos, do que algo como "estou a pedi-la em casamento sua burra!"). Maxim é uma personagem invulgar, que levanta muitas suspeitas pelos avanços e recuos "mentais" que faz, e pelas diversas contradições que elabora nas conversas que tem com as outras personagens. Por exemplo, ele conta uma versão dos factos à mulher, mas no final a história "verídica" é outra completamente diferente da que ele tinha contado originalmente. Maxim é um indivíduo obcecado, paranóico e inseguro, e que, ironicamente, é o tipo de personagem que tanto fez as delícias de Hitchcock (que, atenção, também gostava muito de psicopatas e de personagens ingénuas e que, volta não volta, acabam por perder toda a sua criancice com os sarilhos em que se metem - e talvez a segunda Mrs de Winter seja um caso que mostra muito bem isto) e que também encaixa nas preferências de muitos cinéfilos que buscam uma maior profundidade e humanidade nas personagens cinematográficas. Hitchcock consegue isso nos seus filmes, e em «Rebecca» em particular. Com pequenas cenas que mostram situações vulgares do dia a dia, ao mesmo tempo que as mistura com o drama e o mistério que já não se enquadra bem nos limites da vulgaridade, «Rebecca» faz o que achávamos ser real e um dado adquirido dar, constantemente, várias voltas atrás e à frente. Por vezes deixamos mesmo de acreditar no que estamos a ver (e, então, quando já se conhece alguns dos filmes do Mestre, constrói-se um certo faro detetivesco, diria mesmo...) e Hitchcock transforma «Rebecca» num filme genial por isso, mas também pelos atores e pelos planos de câmara e as pequenas subtilezas que nos contam (há um pormenor que achei bastante curioso e engraçado: quando a senhora para a qual Mrs de Winter trabalha como dama de companhia - isto antes de casar com Maxim e, por isso de "ganhar" esse apelido - apaga o cigarro que estava a fumar num frasco com creme, provavelmente por descuido). «Rebecca» é, para muitos, o melhor filme de Alfred Hitchcock. Como não conheço (ainda) toda a obra do realizador, não posso estar a afirmar esses grandes (e sempre tão subjetivos) argumentos. Mas que este filme tem qualquer coisa de especial para que, com 73 anos, continue a ser tão ou mais impressionante que muito thriller que foi feito nas últimas décadas... é porque talvez essas pessoas têm as suas razões para darem o primeiro lugar do pódio a «Rebecca», que é uma obra excecional, cujo "appeal" não se perdeu, nem uma pitada, até hoje.

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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Esta semana em UM LANCE NO ESCURO...


Esta semana UM LANCE NO ESCURO não foi emitido quarta, mas sim sexta feira, às 15 horas, gravado em direto na RSC. O convidado é o ilustre dobrador, humorista e imitador Bruno Ferreira. A sua voz pode ser ouvida em inúmeros filmes e programas de TV, e fez parte da equipa do «Contra-Informação», na RTP1, e que é agora «Contrapoder», nas SIC's Notícias e Radical. Também o podem ver todas as segundas-feiras no «5 para a meia noite», e este vídeo é apenas um de muitos grandes momentos hilariantes que o meu próximo convidado já proporcionou ao Mundo. Vinde ouvir amanhã, porque diz que vai valer muito a pena!

terça-feira, 28 de maio de 2013

O Comboio Apitou Três Vezes (High Noon)


Arriscaste a vida para apanhar uns bandidos e depois um júri liberta-os para eles voltarem e te matarem. Se fores honesto, arruínas a tua vida. E acabas morto e abandonado num beco qualquer. Para quê? Para nada, por uma estrela de prata.


«O Comboio Apitou Três Vezes» (e não vou perder tempo com a idiotice da tradução portuguesa do título) é um western invulgar dentro do panorama americano dos anos 50, ainda dominado por uma onda mais "certinha" de narrativas menos arriscadas, menos ousadas e com um teor mais repetitivo (salvo algumas importantes exceções) que inundavam muitos filmes de um género cinematográfico que, na época, era uma autêntica indústria dentro da indústria. Mas o filme de Fred Zinnemann, protagonizado por Gary Cooper (que levou o Oscar para casa pela personagem central do filme, o xerife à beira da "reforma" Will Kane) veio "revolucionar", em parte, o método de se contar o far-west no grande ecrã, puxando numa história onde o herói perde a heroicidade (não sendo um Deus omnipotente, que salva o dia - tal como a América quer dar a ideia que "salva" o resto do planeta constantemente), arriscando-se, sozinho, contra os bandidos que, algum tempo antes, tinha prendido, sem receber qualquer tipo de ajuda de alguma pessoa da cidade onde pertence (e da qual estava de partida, a princípio, após o casório com Amy - a bonita Grace Kelly). O resultado foi um filme que mudou a América e que propiciou a feitura de «Rio Bravo», a resposta conservadora e opositora a «High Noon» pelo realizador Howard Hawks e pelo ator John Wayne (que acusou o filme de Zinnemann de ser uma crítica ao McCarthyismo - na altura a política estava em tudo e mais alguma coisa, mesmo numa história de coboiada - ou de aparente coboiada, porque o essencial de «High Noon» não é isso). Ah, e este é o filme de Bill Clinton, vá-se lá saber porquê. Mas colocando todas estas informações irrevelantes de lado, há que admitir que «High Noon» é ainda um excelente filme, arriscado e original, onde os bons têm tanta sorte como os maus, e são tão fracos como qualquer um de nós. É um western sobre os males da sociedade como colectivo de pessoas que, muitas vezes, parecem seguir um único pensamento, por receio de serem julgados pelos demais membros da mesma, em deterimento do poder do indivíduo, do que cada um de nós representa e da maneira como a nossa individualidade pode fazer a diferença no meio de tanta igualdade. E isto pode parecer pouco para os nossos dias, mas meus amigos e minhas amigas, abordar temas como estes no princípio dos anos cinquenta nem era assim tão fácil, e «High Noon» faz isso muito bem, e melhor ainda, de uma maneira que ainda hoje faz sentido e que ainda nos alerta seriamente para a nossa importância no coletivo...


O slogan de «High Noon» deve ser das coisas mais apelativas que já li em termos de marketing do Cinema Americano: the story of a man who was to proud to run. É uma frase que resume muito bem toda a história central do filme e todas as convicções de Will Kane, em relação ao que a chegada do comboio do meio-dia vai causar naquela pequena cidade. A maioria dos habitantes da cidade não passam de cobardes que recusam os pedidos insistentes de ajuda que Kane lhes lança, e para melhorar o ambiente que paira naquele local, com toda a gente expectante do que possa acontecer, muitos gostam de lançar palpites e, mesmo, de lançar apostas sobre quem vai matar quem no duelo que, dentro em pouco, se irá desenrolar. Exatamente igual ao que se passa hoje em dia: um único homem pretende fazer frente aos mais fortes, e como ninguém acredita nele, é alvo de chacota e de desprezo pelo resto da população. «High Noon» mostra, portanto, uma posição menos "heróica" e mais humana que é atribuída ao protagonista do Western que, tal como todos nós, é um ser humano, com os seus defeitos e com as suas qualidades, e que é também vulnerável a tudo o que se passa à sua volta. E Will Kane, entre fugir e lutar sozinho, prefere optar pela segunda opção, indiferente aos conselhos e avisos que muitos dos seus amigos (e incluindo a sua esposa) lhe dão. No fim se verá se o seu orgulho deu ou não resultado, e se terá razões para desprezar toda a "preciosa ajuda" que a cidade lhe ofereceu, depois de todo o bem que fez por ela. Mas com «High Noon» se aprende como nos temos de ajudar uns aos outros, sem recorrer à arrogância e a intrigas desnecessárias e perigosas para o bem-estar da sociedade. Mas por vezes, devemos afastar-nos da maioria e, sem qualquer medo, impôr-nos perante os outros, mostrando ter uma atitude diferente dos demais. Mas se não conseguirem ver esta forte mensagem social que o filme (excelentemente realizado por Zinnemann) apresenta, sempre se podem congratular por verem a magnífica interpretação do oscarizado Gary Cooper (destaque especial para o último momento da personagem da fita - sem precisar de dizer nada e com um pequeno gesto, faz um estrondoso momento de acting, pois são estes pequenos momentos que fazem um grande ator) e, ainda, assistirem à estreia no Cinema do ator Lee Van Cleef (o famoso vilão do Western de Sergio Leone «O Bom, o Mau e o Vilão», e de outras "esparguetadas" posteriores), aqui no papel de um dos vilões e que não pronuncia nem uma palavra durante toda a fita.


«High Noon» é também um filme político: lançado em plena era do McCarthyismo, o filme foi visto, tal qual a visão que John Wayne retirou da fita, como uma crítica ao sistema da "caça às bruxas" criado pelo senador americano. Nesse ano, o filme perdeu nos Oscares na categoria primordial, segundo muitos, por isso mesmo (acabaria por ganhar o galardão o filme «The Greatest Show on Earth» de Cecil B. DeMille, apoiante de McCarthy), mas a sua energia e a sua influência passaram por todas essas controvérsias. Hoje em dia, «High Noon» é tido como um dos grandes Westerns de todos os tempos, graças à sua abordagem mais humana e, por isso, para sempre mais fresca do que muitos filmes do género feitos na época. Howard Hawks não gostou da forma inovadora e irreverente como as personagens foram tratadas no filme, dizendo que não era assim que gostava de ver um Western. Mas a magnitude do filme passou por todas as críticas (algumas muito mesquinhas e desprovidas de qualquer sentido) que lhe foram feitas ao longo dos anos. Hoje, no século XXI, fora de fanatismos políticos e de qualquer espécie de "perseguição" aos valores da cultura e da sua importância na sociedade em que vivemos, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que este é um filme excecional, que marcou e marcará para sempre a cultura popular e a cultura dos cinéfilos em geral. Porque «High Noon» é um Western pequeno em tamanho, mas Enorme em Cinema.

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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Regresso à Laranja Mecânica


«Laranja Mecânica», um dos filmes a pertencer, sem dúvida, ao meu top 10. Um filme que gosto mais e percebo melhor de cada vez que o revisito. Uma obra prima da História do Cinema e, para mim, o melhor filme (entre os que vi) de Stanley Kubrick. Voltei a vê-lo no final da semana passada. Cada vez compreendo melhor a forte mensagem social e cultural que Kubrick (e o autor do livro que inspirou a história e atribulações de Alex, Anthony Burgess) pretenderam transmitir com toda a narrativa e com os avanços e recuos que se sucedem na vida sádica, estrondosa e, para ele, divertida, do protagonista, cuja forma de vestir voltou a tornar "cool" o uso do chapéu de coco. Ah, e com «Laranja Mecânica» a adorável música que Gene Kelly entoou em «Serenata À Chuva» tornou-se símbolo de más memórias e de traumas noturnos para muitos. Mas lá está, o filme não se trata de um retrato sem nexo e inconsequente de um grupo de miúdos violentos e com divertimentos pouco usuais (e tão bem que se adequa tanto à sociedade de 1971 como à de 2013...), que será a ideia com que muitos ficarão se virem apenas metade do filme, mas sim de uma grande reflexão sobre a forma como encaramos a violência, a manipulação que cada um de nós pode estar sujeito pelo que nos rodeia (o que pode pôr em causa o nosso livre-arbítrio), e de como a educação e o meio são importantes na nossa forma de ser. Contudo, não acho que é só por isso que Alex é uma personagem tão estranha e tão complexa (para mim, um dos mais icónicos protagonistas do Cinema), porque, lá está, temos liberdade de escolha para algumas coisas apesar de todos os condicionalismos. Mas podemos escolher ser um "druco" que gosta de agredir mendigos e assaltar casas localizadas no meio de nenhures, ou então uma das pessoas que tenta resolver esse tipo de situações. Mas que não queiram por aí utilizar o método Ludovico para encontrarem uma solução para a banalização da violência do nosso mundo, está bem? Porque, como «Laranja Mecânica» nos mostra, não é só no bando de Alex que está presente a maldade do ser humano... por vezes o maquiavelismo pode ser feito a partir de pequenas palavras, gestos e ações que, aparentemente, querem ser "amigáveis" e inofensivas... E aí ficamos com um dilema: estamos no lado de quem? Da personagem de Alex, da qual ficamos com pena quando o vemos a ser submetido ao tratamento para ficar "bom" e aos acontecimentos que se sucedem em consequência disso, ou da classe política e científica que pretende, à custa desta sua cobaia, arranjar meios para alcançar os seus interesses pessoais e que pouco dizem respeito ao bem-comum? Ninguém é santo em «Laranja Mecânica»...


Se me pedissem para mencionar um único filme que, a meu ver, todo o jovem deste mundo (e dos outros) deveria ver antes de passar à idade adulta (um tema que, um dia destes, gostava de trabalhar de uma forma mais "académica"), eu não hesitaria duas vezes: seria mesmo «Laranja Mecânica» a minha escolha. Podem muitos ficar traumatizados pela violência, mais psicológica do que física, do universo cinematográfico de Kubrick, auxiliado pela escrita de Burgess, e pesadelos poderão surgir nas noites das mentes mais sensíveis ao choque visual que o filme proporciona. Mas «Laranja Mecânica» é importante para se perceber o papel que cada um de nós pode ter na sociedade, tanto no bom como no mau sentido do termo. Podemos fazer parte de um gangue que se impõe no meio dos mais fracos e que os domina, como também temos a opção de integrar a classe política que tão poucas vezes olha para o que verdadeiramente interessa na vida dos cidadãos que neles votaram. Mas existem muitas opções, e «Laranja Mecânica» é bom para se perceber cada uma delas. Além de ser uma grande lição de vida (e de Cinema!) exposta de uma maneira pouco usual, chocante e ainda tão provocadora (mesmo tendo mais de quarenta anos de existência, o que é obra e o que mostra a genialidade do Master Kubrick!). Alex não é um exemplo para a Humanidade (apesar de, na altura em que o filme estreou, houve quem pensasse que sim - e o próprio Kubrick viu a sua vida e a sua família ser verdadeira e perigosamente ameaçada), mas uma amostra do que aquilo que nós, seres humanos, somos capazes de fazer, dos limites a que podemos chegar se quisermos ser como estes "drucos", comandados pelo seu "guru" a fazerem algumas das maiores atrocidades com que os media nos presenteiam todos os dias nos noticiários, e que mostram como a ficção do filme está, afinal, tão perto da nossa realidade. Mas, sejamos sinceros, Alex é dos anti-heróis mais carismáticos que alguma vez passaram pelo ecrã de Cinema (e veja-se o seu gosto musical refinado pela obra de Ludwig Van Beethoven - e principalmente por "aquela" Nona Sinfonia). E o facto do filme conseguir passar por tantas gerações e continuar a ser novo, fresco, chocante e perturbador, não é para qualquer um. Porque o Bom Cinema é feito de filmes que mudam o Mundo, de diferentes formas - umas mais arrasadoras e polémicas, como o caso de «Laranja Mecânica» (como diz uma interveniente de um documentário dos extras da edição DVD do filme, nem todos os filmes podem ser «Do Céu Caiu uma Estrela»...) - e que nos alertam para o que nos rodeia mesmo que se tratem da maior das "ilusões". E poucos filmes na História do Cinema conseguiram ter o poder, a energia, a irreverência e o divertimento de «Laranja Mecânica». Um Clássico Absoluto.

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sábado, 25 de maio de 2013

O Vigilante (The Conversation)


Pouco tempo depois do sucesso planetário do primeiro capítulo da trilogia «O Padrinho» (que pela altura da estreia de «The Conversation», o segundo filme estava a ser preparado), que obteve o mérito mundial e o reconhecimento que ainda hoje se fazem sentir, por um dos filmes que fará sempre parte, sem dúvida, da "lista" dos melhores filmes de todos os tempos, o realizador Francis Ford Coppola decide apostar numa história original, de sua autoria (aliás, era isso que ele queria para a sua carreira de realizador, ao princípio: não fazer adaptações mas utilizar a sua própria criatividade narrativa nos filmes que, posteriormente, faria. Assim, após «O Padrinho», Coppola opta por "regressar" às origens do seu pensamento cinéfilo e foi buscar um argumento que tinha deixado na gaveta por alguns anos para poder, agora, torná-lo num filme apetitoso no grande ecrã. E se há um adjetivo que eu posso utilizar para qualificar «The Conversation» é mesmo esse, apetitoso. Trata-se de um thriller engenhoso, um filme que nos faz entrar num mundo aparentemente simples, mas com algo de obscuro, é certo, que é o da profissão de Harry Caul (o protagonista da trama, interpretado pelo Senhor Gene Hackman numa grande performance), e que, à partida, parece ser mais propício a uma análise documental e verídica do que, propriamente, do que diz respeito à ficção em si. Só que «The Conversation», graças ao seu realizador bem inspirado e muito bem influenciado pelos filmes que consumiu até então, conseguiu construir um sólido filme com aquela particularidade tão especial (e que tão poucos filmes possuem na sua "essência") que é o facto de crescer connosco, à medida que o vamos visionando e descobrindo. Este é daquelas fitas que nos fazem constantemente questionar sobre o que estamos a ver, mas que no final, quando terminamos o visionamento, percebemos que qualquer ideia pré-concebida que tenhamos feito sobre a narrativa não tinha pés nem cabeça. É um filme que me deixou surpreendido a cada instante, tanto pela paranóia de Harry Caul e a obsessão que ele tem pelas escutas (o seu trabalho), e por uma "encomenda" em especial, como todo o jogo de bastidores que o leva a pensar numa coisa e a agir de uma maneira, mas que, no final, acaba por ser outra completamente diferente. Tanto Caul como o espectador é constantemente enganado pelos truques e pelas armadilhas que alguns personagens proporcionam ao desenrolar da história. E eu queria evitar metáforas que não soassem a pieguice profunda, mas não posso deixar de dizer que esta situação é mesmo como a vida, e a forma como o quotidiano nos faz duvidar, muitas vezes, de tudo o que nos rodeia (ah, afinal nem ficou tão pirosa assim, esta tentativa de metaforizar!).


Caul é uma figura solitária, paranóica (a banda sonora cria um ambiente obscuro e noturno que salienta isto) e pouco dada aos assuntos sociais e ao convívio duradouro e não-hostil com outros seres humanos. O filme mostra-nos todo o seu trabalho nas escutas (a forma como monta aqueles minúsculos - e engenhosos - aparelhos, que mesmo para os nossos dias até ainda têm o seu quê de impressionante, como também a audição que faz das escutas e, no caso particular que o filme aborda, as conclusões que retira sobre o que os seus microfones conseguiram captar da conversa entre as duas "vítimas") e todo o seu estranho e invulgar quotidiano na cidade. É um indivíduo que está sempre a fazer perguntas e que, ao querer descobrir as razões que o levam a fazer um determinado trabalho, poderá ter de sofrer algumas graves consequências. Caul apercebe-se dos perigos que o seu "inocente" trabalho podem causar a pessoas que, ao que parece, são inocentes, e aí tenta, contra tudo e contra o que as pessoas que o conhecem lhe dizem, tentar corrigir o que fez. É um apaixonado pela música jazz (toca saxofone), é católico devoto e mete-se, pois, num mundo que lhe é totalmente desconhecido, tentando fazer "frente" também aos que o querem deitar abaixo e que pretendem aproveitar-se das suas fraquezas físicas e psicológicas, rodeando-se, por vezes, de falsos amigos aos quais pouco liga. Mais do que um thriller, «The Conversation» é, por isto, um "character study", uma análise detalhada a uma personagem complexa, perspicaz e "outsider" da sociedade em que se insere, e que não deixou de me captar a atenção e de, em parte, me sentir identificado com as suas atitudes e a sua forma de pensar. Por fim, é importante referir que «The Conversation» venceu o mais importante (e prestigiante) galardão do Festival de Cannes do ano de 1974. O pequeno filme de Coppola (em termos de orçamento) conquistou o júri e o público do certame, mas passou um pouco despercebido dos cinemas do Mundo. Mas é um filme a ser descoberto. E (re) descobrir a diversidade e a versatilidade de um realizador que, por mais que os Padrinhos e o «Apocalypse Now» sejam filmes extraordinários, também realizou pérolas como esta. Entrou num mundo cinematográfico novo para ele, na altura, e saiu totalmente vencedor. «The Conversation» é a "hidden track" da filmografia de Coppola, mas o seu consumo  é a prova como tem muito para dar e muito para mostrar a nós, espectadores, e a todo o povo cinéfilo em geral. Um grande filme, algo esquecido e escondido, mas que merece ser visitado.

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O episódio 7 de UM LANCE NO ESCURO


Sétimo programa de «Um Lance no Escuro», o magazine sobre Cinema e tudo o que o envolve, depois de uma semana de ausência devido ao aniversário do mamífero autor desta coisa. O convidado é o ilustre Mário Bomba: ator, humorista, um indivíduo que também empresta a voz a muita bonecada da televisão e dos filmes. Uma grande conversa, que tornou este programa hilariante (mais seria se eu tivesse alguma graça...). A banda sonora da semana é o tema de abertura de «Psycho», por ser também o filme escolhido do Mário, mas devido a um problemazinho técnico, a música deixou de dar a certa altura e a emissão ficou em silêncio por breves instantes. Peço desculpa pelo incómodo, mas quando chegarem a essa parte avancem a emissão um bocadinho para a frente e assim, não têm de aturar mais nenhuma chatice. Obrigado, e bons filmes! ;)

Samuel Úria e «O Grande Medo do Pequeno Mundo»


O novo disco do genial Samuel Úria, "O Grande Medo do Pequeno Mundo", é talvez a melhor descoberta musical que fiz este ano. Esta grande música é apenas uma das várias pérolas que possui este álbum. Há outras igualmente fantásticas como «Lenço Enxuto», «Forasteiro», «Essa Voz»... praticamente, é todo o disco uma grande pérola da música nacional. Escutai!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Disponível para Amar


Já nada que lhe tenha pertencido existe.

Wong Kar-wai já não era um realizador desconhecido no panorama cinematográfico mundial antes de ter mostrado ao Mundo «Disponível para Amar» (o cineasta já tinha dado que falar, anos antes, com «Chungking Express»), mas foi sem dúvida graças a este filme de 2000 que o cineasta deixou de passar despercebido por alguma alminha cinéfila que ande por este planeta. Provavelmente o seu filme mais conceituado, «Disponível para Amar» é um exemplo óbvio de como a forma de um filme pode melhorar o seu conteúdo, ou em certas partes, torna-lo mais secundário (porque, se formos a ver, a história de amor que faz parte de toda a trama da fita não é nada de outro mundo, mas a "arte" consegue levantar o espírito da narrativa de uma maneira surpreendente!). Deve ser esse poder que muita gente vê em filmes como, por exemplo, «A Árvore da Vida», mas que a mim me escapam por completo. Mas pelo menos, em «Disponível para Amar», consegui perceber a essência do filme, e a química dos dois atores e a sua "relação" com a belíssima fotografia (parece pintura!) e a sublime e magistral realização de Wong Kar-wai (que possui um estilo muito próprio e bem definido, mostrando sobriedade na escolha dos planos e da câmara e na continuidade das cenas, que possuem uma certa lentidão por terem um significado específico: torna-las mais bonitas, algo que também sai reforçado com a fantástica banda sonora do filme). E tudo junto, faz um extraordinário filme, que é uma delícia para os olhos e para os sentidos.
 
 
«Disponível para Amar» é um filme que tem não só uma história romântica, como também faz o retrato social e crítico de uma época e dos seus costumes, que sai beneficiado pelo incrível rigor histórico da narrativa e dos seus ambientes, que nos mostram que a sociedade asiática dos anos 60 não é assim tão diferente da nossa, e quando descobrimos pontos em comum nas duas culturas, essas ocorrências podem fazer-nos rir ou pensar (depende do caso em si). Todos os códigos de conduta das personagens e todo o receio que o "casal" tem de poderem circular boatos sobre eles, sobre a sua relação de que nos apercebemos sem precisarmos de algo muito "gráfico": apenas nos mostram gestos, palavras e olhares entre Su e Chow, e apenas isso é preciso para nos dar a entender o grande sentimento que os começa a unir ao longo do desenrolar do filme. Não é preciso mostrar a relação de uma forma mais íntima. E ambos sabem o que sentem um pelo outro, mas os "rituais" das relações não lhes permitem "abrir-se" logo diretos ao assunto (algo também muito comum hoje em dia - e que nunca mudará, para o bem e para o mal...), mas vão-se aproximando pouco a pouco, de uma forma escondida e sorrateira, sem darem muito nas vistas. E este caso, meio banal, é transformado em espetacularidade graças ao toque de Wong Kar-wai. Em «Disponível para Amar», é tudo tão subjetivo, e tão poético ao mesmo tempo. Pouco nos é dito e mostrado sobre a dupla de personagens protagonistas da fita, o seu passado, as suas convicções, a sua existência, mas o filme faz-nos mesmo assim pensar tanto sobre tudo o que se está a desenrolar, em cada local por onde passamos e que ficamos deslumbrados. É a forma de Kar-wai dar a esta história um certo nível de "transcendentalidade", que nos diz algo e que nos faz sentir qualquer coisa de especial (de uma forma mais forte, para uns, e menos, para outros) e que nos toca pela sua sensibilidade, pela sua humildade e pela sua humanidade. Independentemente da língua, das tradições, dos costumes e do modo de vida de cada um de nós, há pequenas coisas na existência humana que acabam por chocar, em relação a tudo o resto que é completamente diferente. O Amor é uma dessas pequenas coisas, e em «Disponível para Amar», vi um dos poucos e raríssimos casos em que o conceito de "Amor", na sua essência, foi respeitado: que esse sentimento faz-se dos momentos simples e nada espalhafatosos.
 
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O Rui Responde n.º 23

Já o disse e retorno a afirmar: eu gosto tanto, mas tanto desta rubrica, que invariavelmente esqueço-me de publicar mais uma edição. Mas pronto, como as perguntas estão a chegar ao fim, e este vai ser o penúltimo «Rui Responde» desta fornada, é sempre bom continuar a encher chouriços. Mas se quisererdes fazer questões já sabem: no blog, no facebook (o link está do lado direito deste blog) ou mail ruialvesdesousa@hotmail.com.
 
Mais três perguntas da Inês Rebelo respondidas, a partir de... agora!
 
67.ª pergunta
Comer demasiado é crime? (vi esta frase há algum tempo, gostava de saber a tua opinião)
 
Acho que comer demasiado não é crime, excetuando para a pessoa em questão. Eu gosto de comer, mas sei controlar-me. Se a outra pessoa não sabe, não é nenhum "criiime". Apenas para a saúde dela. Mas para o resto do Mundo, o que importa? É só mais um ser humano a encher o mundo de gordura. Qual é a cena? Acho que é mais crime fazeres perguntas parvas. Já afetam mais pessoas, neste caso duas: tu (neste caso, o teu cérebro) e eu, que fico atormentado por ter de responder a perguntas como esta. Touché!
 
68.ª pergunta
Se pudesses conhecer qualquer pessoa no mundo (vivo ou morto), quem seria e porquê?
 
Como me fazem essa pergunta várias vezes, vou listar todos os nomes e depois digo o porquê, está bem (no final ainda acabarão por faltar uns quantos)? Ora cá vai:
Mortos: Charles Chaplin, Laurence Olivier, William Holden, Billy Wilder, Marcello Mastroianni, François Truffaut, Alfred Hitchcock, James Stewart, John Ford, John Huston, Henry Fonda, Sidney Lumet, James Cagney, Humphrey Bogart, Raul Solnado, Charles Dickens, F. Scott Fitzgerald, Robert Mitchum, Gregory Peck, Frank Capra, Marlon Brando, Ayrton Senna, Mark Twain, Antoine de Saint-Exupéry, Sergio Leone e Stanley Kubrick
Vivos: Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Al Pacino, Robert de Niro, Daniel Day-Lewis, Philip Seymour Hoffman, Dustin Hoffman, Paul Thomas Anderson, Quentin Tarantino, Takeshi Kitano, David Mamet, Peter O' Toole, Mário Zambujal, Woody Allen, Jerry Seinfeld, Louis C.K, Conan O' Brien, Roberto Benigni, James Woods, Robert Duvall, os Coen, Roman Polanski, Rowan Atkinson, Ennio Morricone, Ricky Gervais, os Python, Jon Stewart, Stephen Colbert, Jack Nicholson, Steven Spielberg e Clint Eastwood
E porquê? Porque todos me influenciaram, de uma forma ou de outra, na minha "vida" artística. Espero, pelo menos, conseguir conhecer um dos muitos nomes que perfazem esta lista. Tenho ainda muito tempo!
 
69.ª pergunta
Quem tem medo de Virginia Woolf? (vá lá, open answer)
 
Acho que fizeste essa pergunta não por conheceres a peça de Edward Albee  (que eu pude ver, numa magnífica encenação, há uns tempos, no Teatro Nacional D. Maria II) ou a conhecidíssima adaptação cinematográfica protagonizada pelo fabuloso (e lendário) duo Elizabeth Taylor e Richard Burton, mas porque gostas da obra de Virginia Woolf. E sinceramente não te sei responder a esta pergunta. Mas pronto, vá, eu não tenho medo da Virginia. Ao menos alguém que não tenha!
 
E esta rubrica volta então para a semana - pelo menos, se eu me lembrar... Adeuzes!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O Estranho Caso de Angélica


Aprendi a respeitar Manoel de Oliveira mesmo que não seja um particular apreciador dos seus trabalhos. Se agora olhar para as coisas que disse sobre o centenário realizador há uns anos, no blog, sei que hoje isso não passam de infantilidades sem qualquer tipo de argumentação (isto é, excetuando que «Cristóvão Colombo - O Enigma» continua a ser um dos piores filmes que vi na minha vida) e que apenas se pode julgar um artista pelo seu trabalho quando se é conhecedor do mesmo. E por isso, ultimamente, tenho feito algumas incursões no cinema de Oliveira. Duas críticas feitas, falta-me apenas fazer a de «O Estranho Caso de Angélica», um filme muito recente que é a penúltima longa-metragem realizada, até agora, por Manoel de Oliveira, para completar a fornada tripla de fitas do realizador que vi nos últimos dias. Este não foi o último visto (mas sim «Porto da Minha Infância»), mas acho que só agora é que consigo escrever qualquer coisa de jeito sobre ele. Vamos lá a ver o que sai daqui...


«O Estranho Caso de Angélica» é uma pequena obra cinematográfica, que talvez seja demasiado longa mesmo assim. No entanto, apesar dos planos longos e estáticos que caracterizam o Cinema de Oliveira, há ação, há narrativa, nos mesmos. Há coisas a acontecer no pequeno universo nortenho aqui criado pelo cineasta, num argumento que tinha escrito há mais de cinquenta anos mas que só recentemente conseguiu adaptar ao grande ecrã. A história, sobre um fotógrafo, Isaac, que fica obcecado por uma das suas fotografadas (a enigmática - e falecida - Angélica) cria um certo ambiente de mistério em volta da personagem e das suas verdadeiras intenções. Contudo, o argumento centra-se na atualidade, o que acaba por "danificá-lo" um pouco - os diálogos de Oliveira têm muitas marcas de um português que, hoje em dia, já não se usa, assim como muitas expressões proferidas pelas personagens que soam algo "ocas" e desprovidas de sentido por causa disso mesmo. Não teria sido melhor que a história de Isaac e Angélica tivesse sido filmada numa fita de época, onde todas essas características da narrativa conseguiriam ser muito melhor aceites (e, ainda melhor, realçavam o realismo da fita, pelo menos, pela maneira como, no "antigamente" - e nisto digo anos 40/50 - se faziam filmes em Portugal - olho para «Angélica» e lembro-me das comédias populares da "época de ouro" pela maneira de falar das personagens. Só que essas comédias, que Oliveira tanto critica, foram feitas na altura apropriada, e não foram adaptadas para o "agora"...)? Ou, pondo a questão de outra maneira, Oliveira nem chegou a rever o seu argumento? Bastou-lhe tirar dos arquivos e pumba!, dá-lo aos atores para o decorarem? Muita gente gosta de dizer que no Cinema não é importante a história, mas num filme como este em que tudo se apoia na narrativa (e não é que se apoia mesmo?), as falhas da mesma são essenciais para estragar todo o conjunto. Mas talvez (e isto é apenas uma suposição), e fazendo uma teoria mais "intelectual" (não gosto desta expressão, nem do seu significado, mas uso-a agora para tentarem perceber o que pretende metaforizar) do objetivo de Oliveira, é que isto pretende simbolizar como a tradição do passado persiste no presente, ou que o passado ainda é presente. Isso vê-se bem em cenas como aquela em que Isaac vai ver e fotografar os agricultores a trabalharem a terra à moda antiga, artesanal, que hoje em dia caiu em completo desuso. Mas não quero entrar em conspirações, continuemos mas é a analisar a fita, e apontemos as coisas boas (e mais uma ou outra má) porque ainda há muito para dizer sobre a mesma.


O ator Ricardo Trêpa, neto de Manoel de Oliveira e presença habitual dos seus mais recentes filmes (tanto como protagonista, tanto como em interpretações mais secundárias) é, de facto, muito parecido com Oliveira. Aqui até tem uma boa e relevante interpretação, muito fora do que estamos habituados a vê-lo fazer (como no caso do deplorável - e volto a citar - «Cristóvão Colombo - O Enigma»), conseguindo transmitir os sentimentos da personagem Isaac de uma maneira que muito apreciei. Talvez Isaac seja um alter-ego de Oliveira mas, como afirmei há pouco, não volto a entrar em teorias! «O Estranho Caso de Angélica» possui também uma realização limpa, sóbria e bem conduzida de Oliveira, com uma fotografia muito bonita e uma banda sonora que, apesar de por vezes roçar o descontextualizado/desnecessário, tem grandes momentos, muito graças à virtuosidade da performance da ilustríssima Maria João Pires (destaco a "theme tune" do filme - uma verdadeira delícia). O filme é insuportável para muitos (algo que eu compreendo perfeitamente), mas por acaso não tive de preparar grandes doses de "paciência" para ver este filme, ao contrário de «Porto da Minha Infância», por exemplo. Porque me interessei pela história do filme e por todo o seu interessante ambiente. Oliveira parece ter sempre premissas excelentes para os seus filmes (algo que, muitas vezes, acaba por não ser realmente aproveitado), mas este foi um dos poucos casos, dos que conheço, onde houve até um aproveitamento considerável do "material" fornecido pela narrativa e pelos ambientes onde a história se situa, mas que, mesmo assim, ainda necessitaria de uns grandes e essenciais acertos, porque a rica ideia de Oliveira poderia ter sido concebida de uma maneira melhor. Para terminar, destaco apenas a fraca direção, no geral, dos atores do filme (talvez depende dos gostos, mas muitos dizem que os atores de Oliveira são muito "teatrais"... só que neste filme, na maioria dos atores, se houve uma coisa que não me ocorreu ao ver as suas performances foi a palavra "teatro" - é uma outra visão do cinema, tudo bem. Mas que não está semelhante ao teatro, que felizmente, é uma arte que conheço suficientemente bem, disso não tenho dúvidas. O problema (e agora pretendo pegar num estigma que se criou, criticado entre os que não gostam de Oliveira porque não viram os seus filmes, e usado por alguns que gostam mas que não arranjam argumentos próprios para defender a sua opinião) é que o Cinema de Oliveira não é para pessoas mais ou menos inteligentes. Sei que filmes como «O Estranho Caso de Angélica» tocaram melhor, e de uma forma mais profunda, noutras pessoas com gostos distintos do meu. Para mim, é um filme interessante, uma obra merecedora de visionamento e que marca pela originalidade da sua história geral. Mas é assim tão difícil para Oliveira pegar numa história como esta, que tem tantas ligações ao povo português e que, decerto, muitos gostariam de ver no grande ecrã, e torná-lo num filme direcionado a um "nicho" cinematográfico um pouco mais vasto?

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Momentos de Glória (Chariots of Fire)


A sequência inicial de «Momentos de Glória» («Chariots of Fire» no original, um título que, numa tradução literal portuguesa, poderia não soar tão bem - a escolha que fizeram até que foi acertada, porque condiz com o filme e a sua história) é, sem dúvida, uma das mais icónicas e populares da História do Cinema, sem que muitos de nós a tenhamos propriamente visto (tal como o facto de sabermos que o Darth Vader é pai do Luke Skywalker sem precisarmos de ter passado a vista pela trilogia original «Star Wars»). Sim, porque é inacreditável a maneira como qualquer pessoa associa a popular banda sonora de Vangelis, criada para esta fita (e que ganhou o Oscar, um dos quatro que o filme arrecadou no princípio dos anos 80) a pessoas a correrem em câmara lenta. Todos temos esta imagem da cabeça, e muitos não sabem mesmo de onde é que ela surgiu. Só que já é uma sequência tão imitada e tão referenciada que talvez se tenha perdido, na cultura popular, a sua origem para a maioria das pessoas. Mas digo que, mesmo se for apenas para descobrir, afinal, onde é que surgiu uma imagem cinematográfica que está tão presente na memória coletiva, vale a pena ver «Momentos de Glória». É um filme bom, talvez um pouco ultrapassado pelo tempo e demasiado "bem comportado" em certos aspetos (daí ter sido laureado pela Academia?), mas cuja banda sonora e todo o legado que esta deixou no mundo do Cinema, e que continua a ser tão influente hoje em dia no mundo dos media (veja-se a paródia que Rowan Atkinson fez com a dita sequência, para a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, que ocorreram no ano passado), fortalece mais um filme que não se consegue destacar muito em todo o resto, pelo menos hoje em dia, vendo de uma perspetiva em que «Momentos de Glória» já tem mais de trinta anos de existência. Talvez o filme tenha sido sociologicamente importante para a época em que estreou e para o impulso que trouxe ao Cinema Britânico daquela altura, mas hoje em dia o impacto inicial de «Momentos de Glória» vive muito mais do poder da sua banda sonora, e de alguns movimentos de câmara utilizados em favor da mesma (outros nem por isso - como por exemplo, aquele estereótipo de começar a conversa numa cena e terminá-la noutra completamente diferente que se lhe segue, como se quisessem dar a ideia de que um dos atores só deu resposta ao outro depois de um tempo quase infindável...).


O filme começa cronologicamente a sua história no ano de 1919, pouco tempo depois do fim da I Guerra Mundial, com a Inglaterra a sofrer muitos dos danos provocados por um dos conflitos mais devastadores do século passado. Com esse cenário dramático como pano de fundo, conhecemos duas pessoas, com diferentes estilos de vida e, mais importante do que isso (pelo menos, para a mensagem que a fita pretende transmitir), duas crenças religiosas distintas: Harold Abrahams é judeu (e sofre um pouco de preconceito dos seus colegas da universidade por causa disso) e Eric Lidell é cristão. «Momentos de Glória» traça, assim, se bem que seja de uma maneira muito mais superficial do que muitos a pintam, o confronto entre duas culturas completamente diferentes, mas que se cruzam devido à competição desportiva e pela paixão que ambos os protagonistas do filme nutrem pelo atletismo, e que afinal, são muito mais semelhantes do que parecem à primeira vista. Não é pela crença que se pode distinguir os seres humanos, mas sim pelas suas habilidades, pelos seus talentos, pela sua vida e pela forma como se agarram aos desafios que a sua existência nos propõe diariamente. No fundo, esta obra acaba por ser mais interessante noutro aspeto: ao ser uma história também sobre a força de vontade, a coragem, a amizade e o companheirismo, coisas que são iguais em todos os seres humanos (e de que todos nós precisamos ao longo da nossa vida) independentemente da etnia, religião, opção política, gosto artístico, etc, «Momentos de Glória» fica com uma grande carga humana e emotiva para sustentar, tornando as corridas em que Abrahams e Lidell disputam (e mesmo as variadas sessões de treino para se prepararem, da melhor forma possível, para os desafios que lhes são apresentados) muito mais interessantes e entusiasmantes para o espectador (algo que é também auxiliado pela, lá está, banda sonora de Vangelis - com ele, correr em câmara lenta tornou-se uma das coisas mais "cool" de todos os tempos). «Momentos de Glória» é, então, mais um filme sobre os atletas e as suas convicções do que um apelo à tolerância e ao diálogo inter-religioso. E ainda bem, porque nesse campo acaba por se sair de uma maneira muito agradável. O filme possui um bom argumento, apesar de a história não mostrar, em certas partes, uma boa consistência ou um desenvolvimento adequado para se tornar mais interessante, e algumas interessantes interpretações do elenco (destacam-se os dois atores que assumem o papel de protagonistas da trama) desta fita que nos mostra como, no desporto, a competição é igual para todos. O final é típico, como costumamos ver em muito filme com temáticas ligadas ao desporto. Mas em «Momentos de Glória», o que sobressai mais é a intenção da obra e da sua narrativa junto de nós, espectadores. E nisso, esta aposta sai vencedora de uma forma total, pela maneira como nos mostra o desporto e tudo o que o envolve sem esquecer as relações humanas e tudo o que os atletas fazem para alcançar os seus objetivos. E nesse sentido, até que temos todos muito para aprender com as histórias verídicas de Harold Abrahams e Eric Lidell...

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Esta semana, em UM LANCE NO ESCURO...

Esta quarta-feira, as 17:30, na RSC, volta UM LANCE NO ESCURO. O convidado é o actor e dobrador Mário Bomba (tanta bonecada que tem a voz dele!). Ultimamente não tenho conseguido atualizar frequentemente o blog, mas lá para quinta feira posto coisas novas, nomeadamente mais críticas de Cinema (tenho neste momento cinco "acumuladas"). Ouçam o programa, que vai valer muito a pena! 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Jesus Cristo Bebia Cerveja - um livro surpreendente

 
Um livro surpreendente que conheci nos últimos dias, esta obra curiosa do autor Afonso Cruz. Uma história irreverente sobre religião, ciência, amor, família, literatura e sentimento, onde uma aldeira do Alentejo, envelhecida e esquecida pelo tempo, assume o papel principal de uma narrativa onde se cruzam as duas protagonistas, Rosa e a sua Avó Antónia, que deseja visitar a Terra Santa antes de morrer, com outras individualidades como o intelectual Borja, conhecedor das obras clássicas gregas, a senhora Whittemore, uma milionária que é proprietária da aldeia, e o pastor Ari, perdido de amores por Rosa. Numa escrita única, cómica, irónica e muito subtil, Afonso Cruz guia-nos por um mundo muito português que nos faz pensar no país, suas tradições, seus costumes e suas gentes, de uma forma inteligente e que não dá azo ao exagero ou ao saudosismo (muito pelo contrário...). Uma história muito original, um estilo arriscado e irreverente que muito prazer me deu ler e devorar em cada página e em cada capítulo. Temos aqui um grande escritor da atualidade com um trabalho obrigatoriamente a ser lido e seguido!

Euzinho a participar em iniciativas doutros blogs

Podem ler um artigo meu para a iniciativa "O Meu Ciclo" do blog A Janela Encantada. O tema que eu escolhi foi Cinema e Literatura e dou 25 sugestões cinematográficas bem interessantes envolvendo estas duas grandes artes! ;)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Os 18

Hoje, 15 de maio, nasciam, entre outros, James Mason, Joseph Cotten, Chazz Palminteri, L. Frank Baum e Humberto Delgado. 

Em 1928, o Mickey estreava-se no cinema com o seu primeiro desenho animado, «Plane Crazy». E em 1940 abria o primeiro McDonalds em San Bernardino, Califórnia. 

E esta data é feriado nas Caldas da Rainha e é o dia da independência do Paraguai. 

E por coincidência do destino, lá nasci eu no dia 15 de maio, mas do ano de 1995. 

Obrigado por todas as mensagens, por todos os abraços, por todo o carinho e amizade que me têm proporcionado ao longo deste dia. E que ainda vai só a meio... ;)

P.S - Hoje não há UM LANCE NO ESCURO, porque também preciso de descansar, não é?

terça-feira, 14 de maio de 2013

Beleza Americana


Muito provavelmente, «Beleza Americana» é um dos mais controversos e polémicos vencedores do Oscar de Melhor Filme na História dos Prémios que a Academia das Artes e das Ciências do Cinema atribui anualmente. E porquê? Porque se trata de um filme atrevido, corrosivo, que ataca a moral e os bons costumes da velha guarda de Hollywood e que não é um filme nada certinho como o são muitos dos vencedores dessa honra do Cinema Americano. Este filme catapultou o realizador Sam Mendes (que agora é um dos cineastas mais conceituados da atualidade - para mim o James Bond começou a ter interesse graças a «Skyfall», o mais recente filme do franchise, realizado por Mendes, e esperam-se mais capítulos com a sua assinatura), que aposta sempre em projetos diferentes, interessantes e com algum toque de "revolucionarismo". Veja-se também essa grande pérola do Cinema Independente que é «Um Lugar para Viver», com John Krasinski e Maya Rudolph, ou então «Caminho Para a Perdição», um filme que adapta muito bem as histórias de gangsters para o século XXI, e assim se comprova, para além do exemplo de «Beleza Americana», o talento e a versatilidade de um excelente realizador. Este oscarizado filme é o retrato de uma América e de uma sociedade em mudança constante, a caminhar para um mundo menos preconceituoso e mais aberto a novas tendências e a novas ideias, apesar de persistir ainda alguma intolerância, expressada por alguns personagens do filme e algumas partes da narrativa. «Beleza Americana» é uma fita com um forte argumento e uma história perturbadora, que nos faz olhar para tudo o que nos rodeia de uma forma mais atenta e menos apressada. É uma obra sobre a nossa própria vida, e a nossa forma de ser. É um filme sobre o interior do ser humano. E faz isso de uma forma tão perfeita que até me causou uns quantos arrepios na espinha...
Lester Burnham (interpretado por Kevin Spacey numa formidável performance) é o típico cidadão americano, insatisfeito com a vida e com todas as coisas vulgares e ridículas que lhe fornecem o dia a dia. A mulher (Annette Bening) e a filha (Thora Birch) detestam-no profundamente, o que faz com que este trio familiar se torne muito, mas muito disfuncional. E para melhorar as coisas, Lester conta-nos, em voz-off e logo no princípio do filme, que dentro de mais ou menos um ano, estará morto. Ele é sincero e diz a verdade na cara das pessoas, e na nossa também, de uma maneira muito cínica e arrogante. Viajamos nas imagens do seu pensamento (e naquelas famosas cenas que envolvem pétalas de rosas...) e com isto tudo, a pergunta persegue-nos durante toda a duração do filme: O que irá acontecer a Lester? Não sabemos. Mas o que o final permite descobrir é surpreendente. «Beleza Americana» mostra os problemas do quotidiano que são vistos, ainda, com algum preconceito visto por parte de algumas pessoas, retratando também ao mesmo tempo as idiotices e a forma, com particularidades muito "utópicas", que os adolescentes têm de pensar a vida e o futuro da sua existência. «Beleza Americana» retrata ainda as diferentes relações entre Pais e filhos que existem, e a forma como lidam os progenitores e as suas "crias". Numa crítica aos exageros da sociedade americana, tão irónica e tão bem escrita  (num argumento que nos mostra várias personagens, com as suas histórias de vida, todas diferentes, mas tão originais e tão irreverentes) que, com a transformação que a personagem de Kevin Spacey "sofre" ao longo do filme, ao decidir mudar a sua vida com pequenas decisões no quotidiano, nos traz uma moral que nos ensina que, se estivermos constantemente à procura da felicidade (esse conceito tão abstrato e que tanta gente procura decifrar), talvez não conseguiremos aperceber-nos verdadeiramente das coisas boas, ou más, que estão à nossa volta. Porque o objetivo, pelo menos, de uma grande parte das personagens de «Beleza Americana», é serem felizes, cada uma à sua maneira. Mas nenhuma o conseguirá, pelo menos é o que parece. Todos desejamos não ser vulgares, mas no fundo, e mesmo que sintamos isso apenas dentro de cada um de nós, acabamos sempre por nos tornarmos em tal. «Beleza Americana» é um filme "estranho" e excelente que, surpreendentemente, triunfou nos Oscares. Mas a força do filme de Sam Mendes não reside no número de estatuetas que conseguiu arrecadar, e sim, na força e na "vida" que a sua narrativa contém.

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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Esta semana, em Um Lance no Escuro...

... não há Um Lance no Escuro por duas razões distintas: a primeira, é que eu faço anos na quarta e não me apetece "trabalhar"; a segunda, é que vai haver uma coisa bem mais gira em substituição (e o autor deste programa vai participar nela, o que vai tirar a parte "gira" dessa coisa), e que não podeis perder na tarde de quarta feira!

O Al.


Quando me lembro do Al Pacino, o meu ator de preferência (entre os vivos), apenas me ocorre uma palavra para o descrever: ousadia. 

Ora, como tenho de fazer uma apresentação amanhã para português sobre esse tema, vou lá falar do Al. Espero, em três minutos, conseguir dizer alguma coisa de jeito e que dignifique merecidamente este grande artista. É um exemplo, de vida, de carreira (mesmo que ultimamente tenha feito filmes mais fraquinhos) e do verdadeiro Cinema. Sem o Al, nada seria o mesmo hoje em dia...

EDIT (14/05/2013) - Entretanto mudei de ideias. Não dá para falar do Al em apenas três minutos... tanto para dizer e tão pouco tempo...

sábado, 11 de maio de 2013

Porto da Minha Infância: Oliveira e a cidade que o viu nascer


A convite do produtor Paulo Branco (responsável por uma boa parte do cinema português que o Mundo tem conhecido nos últimos anos), e enquadrado na iniciativa do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura, Manoel de Oliveira realizou este «Porto da Minha Infância». Uma revisitação a alguns dos lugares mais emblemáticos da capital Invicta em que nasceu o cineasta português mais conceituado do planeta, e às memórias que o realizador guardou de situações, pessoas e eventos que marcaram os primeiros anos da sua vida, hoje centenária e tão emblemática. Com um forte teor nostálgico, saudosista e emocionado, Oliveira adapta as suas memórias, que relata, em voz-off, ao longo dos cinquenta e sete minutos deste quase-documentário, a cenas cinematográficas que dão vida ao que a mente do autor permitiu que ele se recordasse até então sobre os primórdios da sua existência, que tanto mostra a forma como a cidade do Porto mudou (para o bem e para o mal) durante um século. Revisitando o Porto do "antigamente", durante os anos 20 e 30, abordando-se também as primeiras experiências cinematográficas de Oliveira (caso do documentário mudo «Douro, Faina Fluvial» e do seu filme mais bonito e popular «Aniki-Bobó»), «Porto da Minha Infância» mostra como a cultura portuguesa do século XX se confunde com a vida agitada, boémia, luzuosa e cativante do realizador. Contudo, esta viagem ao passado não foi feita da melhor forma possível, sendo que, de Cinema, este filme possui muito pouco. É pena, pois todo o material, todo o conceito historico-social que o filme poderia ter tido, além de uma vertente mais lúdica e melhor construída que poderia aproximar melhor a fita das pessoas, não foi aproveitado. Esta obra dá uma certa sensação de pouco interesse também da parte de Oliveira, que não teve muito cuidado nem delicadeza em tornar as suas memórias num grande trabalho cinematográfico. É pena.


Cruzando filmagens reais que Oliveira captou muitos anos antes, em sítios, para ele, icónicos do Porto como a casa onde nasceu (que o cineasta filmou, em ruínas, para poder preservar uma memória visual daquele "baú" recheado de tão grandes e boas recordações), e filmagens atuais que recriam situações que ficaram bem vivas na memória do realizador (como a cena de uma peça no Teatro Sá da Bandeira, as conversas que tinha com os amigos boémios, e as saídas noturnas), o filme pretende homenagear o Porto, se bem que de uma forma que não aproveita as potencialidades oferecidas pelos lugares por onde a cãmara passa, tal como das situações apresentadas. Em «Porto da Minha Infância», fica-se com a sensação que, apesar do filme ter apenas cinquenta e sete minutos, poderia ter uma duração muito menor. Os planos estáticos em ângulos não muito favoráveis aos monumentos e locais portuenses que são referidos, tal como um escasso aproveitamento do que a voz-off de Oliveira nos "ensina" através das suas memórias, sem que a imagem, muitas vezes, o acompanhe devidamente, não ajuda a realçar muito o pensamento que Oliveira tinha em pequeno, os costumes e tradições de tempos mais antigos, e a constante comparação que o cineasta faz entre o passado e o presente da época em que foi feito este filme. Mas não deixa de ser interessante como o realizador conjuga o Cinema e a Arquitetura, duas das suas grandes paixões, neste filme que passa depressa e deixa um gostinho a pouco. É o retrato do estrato social a que Oliveira pertencia em jovem, membro de uma das famílias mais ricas do Porto em princípios do século XX. Mas como documentário pouco ou nada serve, sendo mais a perspetiva do autor e o seu historial de vida, tal como os primeiros anos de vida do Cinema Português (o pioneiro - e imitador dos irmãos Lumière - Aurélio Paz dos Reis é profundamente mencionado), que me puxou um maior interesse em ver «Porto da Minha Infância» até ao fim. Existe muita confusão com o que Oliveira relata, não se sabendo bem, afinal, qual é o seu objetivo com toda esta recolha de memórias. Mas no fundo, talvez Oliveira queira apenas mostrar como, apesar de todas as mudanças (tanto para um lado mais positivo como para um mais negativo) que a cidade sofreu , o Porto continua a ser a "sua" cidade, que marcou também grande parte da sua vida.

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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Tudo é e não é - o novo livro de Manuel Alegre



Nós não somos apenas feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos. Também somos o mistério que os sonhos são.

Eu leio menos livros do que gostaria. Mas nos últimos dias tenho dado, felizmente, um "forcing" nas leituras, o que me tem proporcionado visitar escritas e autores mais variados de uma forma mais descontraída. Li há poucos dias, e de uma forma muito rápida e acessível, o romance «Tudo é e não é», de Manuel Alegre. Já tinha gostado da novela simples que é «Cão como Nós», mas esta obra é bastante diferente: trata-se de uma história complexa e intrigante, onde sonhos, pessoas e situações se confundem na cabeça de António Valadares, o protagonista que tem muito de alter-ego de Manuel Alegre. Cita filmes, vê-se nas situações de alguns desses filmes, confunde acontecimentos reais e pessoas que conhece com a mais pura fantasia que o sono proporciona à sua mente: nela aparece um guerrilheiro ao estilo de Che Guevara, um recepcionista de um hotel que lhe avisa constantemente que está atrasado para apanhar o autocarro (mas qual autocarro, caramba?!), como também figuras históricas como Trotsky e Lenine. Tudo se confunde na mente de António Valadares, o que proporciona um romance interessante, algo político (e com algumas mensagens, algo panfletárias diga-se, dedicadas à atualidade portuguesa) mas que acaba por ser uma narrativa muito interessante, que levanta mais perguntas que respostas e que acaba por ter mais conteúdo do que se poderia esperar. Não acreditava que Manuel Alegre pudesse fazer uma história destas...

Felizmente Há Luar, e a nossa realidade


«Felizmente Há Luar!» é a outra obra de leitura obrigatória para o 12.º ano, a par de «Memorial do Convento». É uma grande peça de teatro, carregada de simbolismo, e que representa bem uma época e todos os sentimentos da mesma... através da busca de uma época passada. O autor Luís de Sttau Monteiro (responsável, entre outras coisas, pelas hilariantes «Redações da Guidinha») pega no absolutismo e adapta-o ao Estado Novo, mostrando como a repressão e a censura do regime monárquico têm tanto a ver com a ditadura de Salazar. Mas a peça permanece atual por outros motivos além do histórico (e que ilustra tão bem a censura): a mensagem de «Felizmente Há Luar!» adequa-se a todas as eras, ditatoriais ou não, opressivas ou não, corruptas ou não. É como «O Triunfo dos Porcos», de George Orwell: apesar do autor ter escrito este fabuloso romance há mais de cinquenta anos como um alerta ao comunismo, permanece uma obra que desperta a nossa atenção para aquilo que nos rodeia e que devemos tentar compreender pela nossa própria cabeça, e não pela de outrem. As personagens da peça alertam o espectador para a situação "atual", observando como o tempo muda, mas como muita coisa continua na mesma (para além daquelas particularidades do ser humano, iguais desde sempre e que o continuarão a ser). Mas apesar de todos os males da sociedade, há sempre razão para se ter esperança. E vista hoje em dia, em que partes é que «Felizmente Há Luar!» choca mesmo com a realidade portuguesa? Deixo esta dica como um passatempo para vós, leitores deste estaminé, pensarem um pouco. Espero respostas!

A escrita de MEC


Desde há uns bons dois anos que leio as crónicas que, diariamente, Miguel Esteves Cardoso escreve para o jornal Público. E só há pouco tempo (no mês passado), decidi pegar em alguns livros do autor, que autenticamente devorei: dois de crónicas («A Causa das Coisas» e «Último Volume») e um romance, o seu mais emblemático e polémico (sim, é esse que estão a pensar. Preciso de colocar o título aqui?), que revelam uma escrita irreverente, original, neurótica e... viciante. E também fui assistir ao lançamento do novo livro do MEC nos Pastéis de Belém, na semana passada. Mas o que há para dizer sobre o autor, ou "in other words", o que eu posso dizer sobre Esteves Cardoso, é... nada. Está tudo dito, ponto final. Ou talvez não. Posso apenas acrescentar que o autor regressou à esfera pública, com agora os seus livros a pertencerem à Porto Editora, no momento certo. A sua forma de ver o mundo, muito cómica, observadora e muitas vezes "parvamente" genial, tornou-o, ao longo dos anos, num escritor irreconhecível no panorama literário português (que é tão bom e que não se resume, felizmente, apenas aos clássicos do Eça e do Camilo...). Há uns tempos vi uma sessão do «Falatório», da RTP Memória, em que Esteves Cardoso debatia com Saramago, Agustina Bessa-Luís, e mais uma autora que de momento não me recordo o nome, a literatura e a escrita de cada um deles. E apesar de nada ter a ver com algum dos outros intervenientes, MEC é tão importante como qualquer um deles, não haja dúvida. Pelas gerações que já cativou, pelas opiniões e polémicas que já despertou, pelo reconhecimento e pelo mérito de que já foi alvo. E vale sempre a pena ler o MEC. Se não quiserem pegar nos livros, aproveitem para ler os seus pequenos apontamentos diários do Público. Já sabem muito bem para desenjoar da canseira do dia a dia...

Eu li o Memorial do Convento todo.


Há uns tempos, quando a minha escrita era demasiado infantil, inconsequente e sem qualquer tipo de interesse (quer dizer, tudo isto se mantém na atualidade, se bem que de uma maneira um bocadinho menos acentuada), critiquei demasiado Saramago sem conhecimento de causa. Ao longo dos anos fui respeitando o senhor, e li um dos seus livros: «A Viagem do Elefante», de que não gostei muito. Ao contrário deste «Memorial do Convento», o seu romance mais famoso (muito provavelmente por, todos os anos, a malta do 12.º ter de o ler para a disciplina de Português...), que gostei muito. Li com calma, porque este é daqueles livros para se ler mesmo bem. Não deixar escapar nada. Fui lendo capítulo a capítulo sem pressa, e preservando a calma a que uma escrita como a de Saramago exige. E se a princípio voltar a este tipo de pontuação me custou um pouco, lá me habituei. E gostei muito da história, dos seus personagens, e do plano histórico e ficcional que se cruzam constantemente. Acho que me apercebi só que gostei muito do livro quando o terminei de ler e quando vi que sabia grande parte das cenas, das histórias, dos pensamentos dos personagens e da visão ultra-pessimista de Saramago (ou melhor dizendo, segundo as suas próprias palavras, "eu não sou pessimista, o mundo é que é péssimo). O «Memorial do Convento» é um dos grandes romances da literatura contemporânea, e mesmo sendo uma tortura para muitos (admito que certas sequências do livro me custaram um pouco a ler), é preciso reconhecer a força desta obra, que caracteriza, em tudo, toda a bibliografia de Saramago. Eduardo Lourenço diz que este livro tem "tudo". Talvez sim, talvez não. Mas é um grande livro. E Saramago não queria que fosse este o livro indicado para as escolas, mas provavelmente, uma história como a de Baltasar, de Blimunda, do rei D. João V e do Padre Bartolomeu "Voador" Lourenço, entre muitas outras personagens, passaria ao lado a muita gente. E quer gostemos quer não, é sempre necessário tomar contacto com novas realidades, e com novas escritas.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Lawrence da Arábia: a grande obra prima de volta ao grande ecrã


Vou ser rápido, curto e direto (ou por outras palavras: não vou fazer uma crítica interminável - ou pelo menos, vou tentar). É-me difícil escrever muito sobre um filme que me diz tanto como «Lawrence da Arábia», uma das obras primas do Cinema Americano (um épico em Grande, sem clichés como muitos do género na época - e que depois o fizeram esgotar rapidamente, veja-se o flop que foi «Cleópatra» com Elizabeth Taylor e Richard Burton - apostando na sua grandiosidade, no seu conteúdo, e em tudo o que a Sétima Arte proporciona à arte do espetáculo). A primeira vez que vi «Lawrence da Arábia» deveria ter uns doze, treze anos. Vi o filme todo de seguida, praticamente. Nunca tinha visto nada assim - aliás, penso ainda hoje que foi graças a este filme e a «O Grande Ditador», que visionei quase na mesma altura, que comecei a deixar de ser apenas um consumidor de filmes, mas também um cinéfilo -, e pelo que a minha memória me diz, nunca voltei a rever o filme dessa forma. Tentei várias vezes visionar tudo (acho que consegui fazê-lo uma vez, mas não me recordo bem), mas desisti sempre por não conseguir ver um filme tão Grande num ecrã tão pequeno. Não dá, é contra-natura: «Lawrence da Arábia» é um filme unica e exclusivamente para se ver no Cinema, ou melhor, para se poder vê-lo com a atenção devida, só no ecrã maior. E ontem, revi-o na antestreia da fita, apresentada por João Lopes, Nuno Galopim e Lauro António, integrada nas Sessões Clássicas dos UCI (o próximo filme será «Até à Eternidade», passo a informação), e acho que o achei trezentas vezes (no mínimo) mais grandioso do que da primeira vez. Fiquei com a sensação que «Lawrence da Arábia» foi, para mim, o que para muitos é «A Desaparecida» de John Ford: um filme cheio de simbolismos, repleto de mensagens, e a transbordar de poesia visual. E se calhar, se algum dia me doutorar (coisa que não deve acontecer), ainda faço uma tese sobre esta magnífica obra. A ver vamos.


«Lawrence da Arábia» não se trata apenas de um épico ao grande estilo americano. Não se trata somente da amostra dos esquemas de Hollywood para fazer concorrência à novidade da altura - a televisão (e o filme só ficaria ainda melhor se visto num ecrã original de Cinemascope!). Nem é só um filme de guerra. É tudo isto e muito mais: é Teatro (sim, porque este é que é o verdadeiro cinema teatral, assente nos grandes diálogos e nos grandes atores vindos da dramaturgia - ao contrário do que muitos gostam de dizer, não é em Oliveira que está o Teatro, muito pelo contrário, porque as peças não são feitas como nos mostra a visão cinematográfica do realizador português... e desculpem este pequeno aparte), é fotografia, lindíssima e espetacularmente utilizada (as paisagens do deserto e a forma como T.E Lawrence, interpretado pelo Grande Peter O' Toole, que faz muito mais com o olhar do que tudo que se possa dizer por palavras, é filmado, aumentam ainda mais a "inesquecibilidade" da fita - e Lawrence é, pura e simplesmente, uma das melhores personagens do Cinema de Hollywood, tão intrigante, tão misterioso, tão... desconhecido!). É um estudo sobre a guerra e, pasme-se quem pensa que o cinema de guerra da época era demasiado conservador, mostra imagens violentíssimas (nem me lembrava de grande parte dessa violência) e uma densidade espantosa na psicologia das personagens e do caso apresentado, numa reflexão constante e, digo, muito inteligente sobre a tragédia dos conflitos armados e da liderança dos povos europeus sobre as suas colónias, durante os primeiros anos do século XX (uma das muitas ironias que encontrei no filme foi a comparação entre os árabes e os ingleses: enquanto os primeiros sobrevivem no deserto controlando muito bem a água que possuem, para durar o máximo de tempo possível, os segundos, em reunião com Lawrence no Cairo, estão numa salinha que tem, ao centro, uma pequena fonte que deita água que ninguém utiliza e que só serve para "embelezar" o espaço...). E mais, muito mais: «Lawrence da Arábia» é um filme que possui tudo. E se muita coisa me escapou com doze ou treze anos, algo persistiu e tornou-se, agora, ainda mais forte: o impacto da personagem de O' Toole na minha pessoa. Na altura, até fui à biblioteca e li uns quantos livros sobre este grande homem, com uma personalidade tão complexa e tão... interessante. Concluindo (porque disse que ia ser curto): «Lawrence da Arábia» é um filme do Cinema, para ser visto no Cinema, e que faz parte da História do Cinema. Tenho dito!

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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Um Lance no Escuro - Episódio 6 (disponível online poucos minutos depois de ter acabado a emissão em direto!)

Sexto programa de «Um Lance no Escuro», o magazine sobre Cinema e tudo o que o envolve, emitido dia 08-05-2013 em direto na RSC. O convidado foi o Professor e Crítico de Televisão Eduardo Cintra Torres, que proporcionou aqui uma grande hora de conversa sobre tudo... e também sobre Cinema! 


Um Lance no Escuro - Episódio 6 (08-05-2013) - Eduardo Cintra Torres by Rui Alves De Sousa on Mixcloud

A Lista de Schindler


Depois de ter colmatado uma de muitas falhas cinéfilas que ainda tenho de corrigir (a lista é interminável) ao visionar, há pouco mais de uma semana, o épico de Steven Spielberg «A Lista de Schindler», consegui perceber o quão complexo este aparentemente simples drama sobre o Holocausto consegue ser: abrange muitas perspetivas, muitas ideias e muitos ideais de vida, sem ter conseguido ser, como muitos afirmam, um filme idiota. Talvez se todos os atores do filme falassem os idiomas originais das personagens que interpretam, a perspetiva com que muitos ficaram desta obra teria sido completamente diferente (às vezes um pormenor ou outro ajuda), e talvez assim menos críticas seriam feitas à americanização da história de Oskar Schindler, motivo para uma série de pessimismos picuinhas sobre a veracidade ou não dos acontecimentos retratados. Mas «A Lista de Schindler» não é um filme qualquer sobre o Holocausto e o impacto de uma das maiores tragédias da História da Humanidade no nosso Mundo: é uma obra de homenagem a uma cultura, da qual Spielberg faz parte, e de memórias de um genocídio que nunca mais deve voltar a acontecer. Deve ser por isto que «A Lista de Schindler» é um dos filmes favoritos do público: pelo rasto de humanidade, sinceridade e verdade que desperta em cada um de nós. Os "maus" são retratados como pessoas tão pouco superiores ou inferiores como qualquer ser humano, sem estereótipos a elas associados (como os que muitos filmes criaram em volta dos nazis ao longo dos anos - esquecem-se que Hitler e companhia eram pessoas com cabeça, o problema é que tinham umas ideias nada favoráveis à paz e à tolerância entre os povos), mostrando mesmo assim as atrocidades em que estiveram envolvidas mas apontando o facto de que elas foram "habituadas" a ver a morte de milhares de judeus como algo normal do seu quotidiano. Possuindo um notável rigor histórico, sendo, em parte, um documentário (tanto pelas legendas explicativas sobre certos momentos da narrativa, tanto pela forma como a ficção é filmada - uma câmara desorientada, sempre móvel, que mostra, pela forma como capta as emoções das personagens, muito do ambiente "proporcionado" pela ideologia nazi) e cuja parte ficcional (baseada numa história verídica, é preciso salientar) toca a qualquer um de nós, de uma maneira séria, inteligente e real, sem necessitar de grandes fenómenos de tecnologia, cujas cenas estão carregadas de grande simbolismo e originalidade (a cena da rapariga vestida de vermelho, por exemplo, disse-me muito mais do que muitos filmes que mostram, de uma forma encenada, as torturas feitas pelos homens de Hitler - e que se trata da possível "tomada de consciência" de Schindler -, como também a cena em que o oficial nazi toca o piano de uma habitação de judeus, enquanto os seus colegas encarregam-se de matar, de uma maneira selvagem, os "inimigos" do povo ariano). Spielberg sabia o que queria filmar e o que queria passar, em forma de testemunho, para as próximas gerações de cinéfilos (e de seres humanos em geral), tal como a forma que queria utilizar para homenagear os seus antepassados e o seu legado histórico. E, na minha opinião, o cineasta conseguiu fazer um grande filme. Tem como base uma tragédia? Sim, é verdade. Mas da tragédia, Spielberg criou poesia. E ninguém disse que isso era proibido - muito pelo contrário.


«A Lista de Schindler» não se foca tanto em relação à lista em si (que não chega a ocupar mais de um terço de toda a narrativa), criada por Oskar Schindler (o protagonista, interpretado por Liam Neeson num grande papel - ao contrário dos filmes mais recentes que tem feito) que conseguiu salvar, graças a ela, mais de um milhar de judeus. Centra-se mais na perspetiva dos judeus (e de alguns em particular, como o caso de Isaac Stern - Ben Kingsley -, que se torna o braço-direito de Schindler), de um membro do Partido Nazi que pouco se interessa pelas coisas em que está envolvido (Schindler), e de um oficial das SS (interpretado pelo grande Ralph Fiennes) com sede de poder e que faz tudo aquilo que lhe apetece. O filme mostra também, de uma forma frenética e preocupante, as maneiras que os judeus planearam para conseguirem sobreviver de todo aquele horror - e a forma como é filmado aproximou-me ainda mais os sentimentos das personagens do filme, admito. Schindler, a princípio, tem a mania das grandezas, despreocupado de toda a situação dramática de que faz parte, e que vive de uma forma boémia, glamourosa e com olhos apenas para a sustentabilidade dos seus negócios. À medida que «A Lista de Schindler» avança, a psicologia da personagem torna-se mais densa e interessante: será que tem mesmo interesse, ao longo da trama, de salvar aqueles judeus, ou apenas os contratou para que o seu esquema empresarial continue a triunfar? Só perto do final é que consegui tirar todas as dúvidas que a personagem me "colocou", e se para uns a personalidade muito variável de Schindler piora o filme, eu achei o contrário: só a torna mais humana. A não ser que alguém diga que manteve sempre a mesma opinião ao longo da vida (eu, por exemplo, ao reler as primeiras patacoadas que escrevi para este blog, há já quatro anos, e comparando ao que escrevo agora, noto que houve uma certa evolução da minha parte. E ainda bem!). Oskar Schindler não é o "salvador" do nazismo, não se trata de nenhum santinho mas sim de, a certa altura, de um homem ressentido que se apercebe o bem que pode fazer e que está ao seu alcance para salvar aquelas pessoas. Houve maiores heróis, muito maiores do que ele, como é o caso do português Aristides de Sousa Mendes. Mas sobre ele não existe um filme magnífico, tal como existe para Schindler.


Espantosamente filmado, «A Lista de Schindler» não parece, em parte, um filme de Steven Spielberg, pelo menos para a ideia habitual, mais "mainstream", que temos do seu Cinema. É um filme com muito de expressionismo alemão e do Cinema clássico americano, que nos ajuda a perceber, graças a uma estética e a um visual cinematográfico menos comum para a nossa época, mais avançada tecnologicamente, como o nosso olhar pode captar e fica mais sensibilizado pelos momentos mais simples, mas mais eficazes, do Cinema. A montagem cria momentos que, combinados entre si, mostram sequências impressionantes ao nível cronológico, fotográfico e fílmico da obra, apresentando-nos uma série de personagens com vidas absolutamente distintas, mas que nos tocam de uma maneira totalmente comum. Haja respeito por este filme! Tantas críticas negativas que algumas pessoas lhe fazem, e que tendem a levar em conta mais pequenos pormenores do que realmente interessa numa fita desta magnitude, porquê? As opiniões são sempre subjetivas mas alguns indivíduos (e volto a referir: alguns) que criticam este filme negativamente este filme, parece que pretendem levar a sua opinação a um estado de objetividade autoritária e algo "repressiva", esquecendo-se que, mesmo que não gostem, o Cinema não se faz só de Godards, Oliveiras e Kiarostamis. Não vale a pena tentarem dar ao Cinema o estatuto de "cultura de nicho", porque não é. Nenhuma arte o é nem nunca será. Porque o público, quando quer, sabe ver uma grande obra por se deixar levar pelo espírito da mesma. E penso que é este o caso de «A Lista de Schindler»: é um filme de espírito, de poesia, de toque e de emoções. É um monumento do Cinema. E ainda por cima, tendo também "aquela" excelente banda sonora...

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