segunda-feira, 29 de abril de 2013

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard)


O público não sabe que alguém escreve os filmes. Pensa que os atores vão inventando os diálogos...

«Crepúsculo dos Deuses» foi (e é... e será!) um filme tão importante para a História e para a evolução do Cinema Americano, que foi logo uma das obras incluídas na primeira fornada do ainda embrionário National Film Registry para conservação e preservação. Com o passar dos anos, o NFR colocou mais e mais filmes na sua "filmoteca" essencial de clássicos americanos, e a cada ano que passa, «Crepúsculo dos Deuses» angaria mais e mais seguidores. É um filme com uma pontuação altíssima no IMDb e que, pelos vistos e ainda bem, anda a captar as novas gerações de uma forma avassaladora. E comigo o mesmo também aconteceu. Queixam-se que eu só vejo bons filmes, mas caramba!, ia perder tempo com obras cinematográficas que não selecionei previamente e correr, eventualmente, o risco de não passar os olhos por obras primas como esta fantástica fita realizada pelo Mestre Billy Wilder? Não senhora. Porque «Crepúsculo dos Deuses», minhas senhoras e meus senhores, trata-se de um daqueles raros filmes que  quase consegue alcançar o nível de perfeição. Ou "in other words", como o conceito de "perfeição" é perfeitamente ambíguo e utópico e como pode abranger várias perspetivas diferentes, eu digo mesmo que este é um filme perfeito. Em tudo. Nele não vi qualquer falha. Ou se vi, passou-se-me ao lado ou a minha visão fingiu que não viu, para não estragar este festim cinéfilo com que fui brindado no passado sábado. Sim, caríssimos amigos e amigas, «Crepúsculo dos Deuses» é um filme divinal. Ponto. E prossigamos porque apenas estas linhas sabem a pouco.


«Crepúsculo dos Deuses» é, ainda hoje (e, espero, por mais algumas décadas), um filme completamente surpreendente, vivo, frenético e espectacular. A maneira como o argumento me agarrou desde o princípio da fita, com toda aquela sequência inicial tão pouco usual num filme dos anos 50 (pelo menos, para a ideia que tenho, no geral, do Cinema nessa época hollywoodesca) e que me cativou para descobrir Sunset Boulevard de uma maneira que me deixou espantado. Já para não falar do facto de todos os diálogos do argumento do filme são muito refinados, inteligentes, e atraentes para o ouvido - este é um filme repleto de grandes frases, de grandes momentos, de grande Cinema. Mas isto não é de admirar, visto que o senhor que realizou este filme (e que Senhor!) dá pelo nome de Billy Wilder, que é muito conhecido pela forma muito "carinhosa" e eficaz que utiliza para introduzir a narrativa e a sua importância devida na ação cinematográfica (veja-se, por exemplo, «O Inferno na Terra», também protagonizado pelo Grande William Holden, e que se trata de uma comédia muito divertida, e «Pagos a Dobrar», um fantástico film-noir com argumento de Raymond Chandler), e por isso, em matéria de argumento não há, de todo, alguma coisa mais a apontar. Em «Crepúsculo dos Deuses», William Holden é Joe Gillis, um argumentista de Hollywood que narra o filme (e se autoconfessa constantemente, mesmo quando, na realidade, isso não seria possível - "if you know what I mean") e encontra uma "oportunidade" de emprego com a descoberta da mansão de Norma Desmond, interpretada por Gloria Swanson, uma grande atriz do mudo que, agora (no tempo da fita), está afastada de tudo e todos, desprezando o sonoro e ambicionando voltar a fazer uma nova fita, para gáudio dos milhares de fãs que não se cansaram de a admirar (ou será que não?). Desmond é uma resistente do mudo que não quer ser confrontada com as mudanças trazidas pelos progressos de Hollywood, pensa que o Mundo gira à sua volta (muito por causa das vontades que lhe faz o seu mordomo - que é mais importante nesta trama do que se poderia pensar...) e age sempre como se estivesse atuar, nos tempos do mudo, de uma forma exagerada e sem dar muita atenção ao "som" (apesar da voz de Desmond ser inigualável, diga-se!). Desmond representa o declínio das grandes estrelas, esquecidas pela sociedade. E em várias ocasiões reencontra os seus amigos veteranos para uma jogada de cartas (entre os quais se encontra o lendário Buster Keaton). E para ela, Gillis é o único motivo para continuar a viver e a sobreviver no mundo que, parece, não tem mais espaço para ela. Toda a postura de grandiosidade e imperiosidade que Desmond mostra não passa disso mesmo: uma aparência. Ela reencontra também o realizador Cecil B. de Mille  (que faz também um papel extraordinário - o de si próprio - mas que mostra que foi um cineasta que se adaptou ao sonoro e triunfou, tendo sucesso depois do mudo), que ambiciona que seja o homem que esteja por trás do seu regresso ao Cinema. Mas será que tudo isso é mesmo possível, ou não passam de sonhos de uma mulher que preferiu esconder-se no seu canto durante tanto tempo? É o que Gillis descobre e nos leva a pensar a importância do "star-system" hollywoodesco para a perspetiva com que ficamos do Cinema Americano. Mas a fama nunca poderá afetar a arte que cada estrela produz. Em teoria, não deveria, pelo menos...

Norma Desmond - a nostalgia do mudo?
«Crepúsculo dos Deuses» apenas me permitiu pensar nestas notas soltas que escrevi e que pouco consigo interligar para as transformar numa crítica com princípio, meio e fim (mas também, quando é que as minhas críticas obedecem a essa estruturação?). Mas posso também dizer, para concluir, que o filme é um estudo muito interessante e original sobre os processos de "fabrico" de estrelas e filmes em Hollywood, para além de que olha para toda a indústria do Cinema Americano de uma forma muito menos glamourosa e plasticamente feliz, ao contrário do que a comunicação social e os diz-que-disse nos levam a crer, a cada momento. Com a interseção entre as personagens reais (que mais não são do que grandes figuras do Cinema a fazerem delas próprias e a mostrarem mesmo o seu "fracasso" no mundo do então-atual sistema de Hollywood) e a história (muito pouco) ficcional de Norma Desmond (e caramba, é preciso voltar a referir - Gloria Swanson tem uma interpretação extraordinária! Representa a personagem de uma forma tão terrorífica, tão alucinante, tão entusiasmante!), «Crepúsculo dos Deuses» mostra como, ao olhar para o presente, tem de se estimar o passado, e vice-versa, para uma melhor compreensão do futuro. Com uma impecável realização de Billy Wilder, um Grande argumento e uma lindíssima fotografia, «Crepúsculo dos Deuses» é um dos grandes filmes de sempre, livre de pretensiosismos e tocando nos corações com uma história humana que pode dizer tanto a cada um de nós. É uma jóia mais valiosa da coroa.

* * * * *

Esta semana, em Um Lance no Escuro...

Esta semana UM LANCE NO ESCURO será gravado amanhã, visto que quarta feira é feriado. Vou gravar amanhã às 18 horas em directo na RSC, e a minha convidada é a Inês Moreira Santos, uma moça que escreve mesmo muito bem e que anda por alguns blogs... Amanhã falaremos sobre isso e muito mais! ;)

sábado, 27 de abril de 2013

Relíquia Macabra (The Maltese Falcon)


«Relíquia Macabra», um título português que dá a «The Maltese Falcon» um aspeto mais assombroso do que tem na realidade (porque a sua substância encontra-se noutros elementos), trata-se, pura e simplesmente, de mais um clássico do film-noir e do Cinema Americano. Para muitos, trata-se da primeira obra que se enquadra nesse género cinematográfico, cujo epíteto foi criado pelos cinéfilos do Velho Continente. Este é um filme realizado por John Huston, que viria a ser um exemplo para realizadores posteriores como Roman Polanski (que renovou o género cinematográfico nos anos 70, com «Chinatown» - e onde Huston interpreta, de uma forma grandiosa, uma das personagens centrais, num fabuloso film-noir), e que possui todo um ambiente de suspense e mistério que marcam a visão cinematográfica do cineasta. Nesta fita, sucedem-se mentiras atrás de mentiras (e às tantas interrogamo-nos onde pára a verdade no meio desta coboiada toda), mas também se descobrem mistérios atrás de mistérios, e que parecem não ter solução e que só nos deixam mais e mais perguntas por responder. Mas no final, tudo se resolve. Ou será que não? O que é certo é que o final de «Relíquia Macabra» foi um dos melhores, mais ritmados e provocadores que vi na vida. É a cereja no topo do bolo desta obra impecavelmente escrita, realizada, interpretada, montada e fotografada. Poderia ficar por aqui e fazer uma pequena crítica, mas vou desenvolver a minha opinião mais um pouco, porque este filme tem muito que se lhe diga...


«Relíquia Macabra» foi o filme que catapultou o até então pouco conhecido Humphrey Bogart para a ala dos Gigantes ícones de Hollywood. Antes, Bogart tinha entrado em vários filmes de gangsters com papéis secundários e mais ou menos relevantes (caso dos clássicos «The Roaring Twenties» e «Anjos da Cara Negra», por exemplo), e foi com esta fita que o ator se tornou relevante na cena de Hollywood. E ainda bem. Já aqui mostrava o seu grande talento e a sua forma grandiosa de dar vida a personagens que marcam o seu estilo de performance e a sua forma de encarar o Mundo que o rodeia. Em «Relíquia Macabra», ele é, numa interpretação verdadeiramente explosiva, Sam Spade, um detetive arrogante, sarcástico, irónico e metediço, à boa maneira da tradição do film-noir. Spade vê-se metido numa história repleta de reviravoltas, intrigas e contradições, sendo que tudo gira à volta de uma estranha relíquia que muitos pretendem e que nenhum consegue encontrar. Mas atenção: «Relíquia Macabra» não é uma espécie de "caça ao tesouro" detetivesca, nada disso - é uma busca incessante em perceber o que é que cada uma das personagens pretende e qual a importância do "falcão maltês" (a relíquia à volta da qual toda a ação do filme gira) no meio disto tudo. Spade é uma personagem ambígua, que utiliza diversas "máscaras" consoante os diversos momentos de tensão da narrativa e consoante as personagens com que se depara: ele está, ao mesmo tempo, dos dois lados da barricada. Os outros não sabem, mas Spade dá essa pista aos espectadores do grande ecrã. E há também os dois grandes vilões do filme (Sydney Greenstreet e Peter Lorre em desempenhos notáveis, na primeira de nove obras em que participariam juntos), que não olham a meios para obter a estatueta com um grande legado histórico. E depois Spade quer perceber o seu papel nesta história. Em que é que ficamos? Sei lá... só a ver o filme é que poderão compreender! O que é certo é que «Relíquia Macabra» é um dos grandes filmes americanos da era clássica e "doirada" de Hollywood. Os anos quarenta foram recheados de grande material cinematográfico que nunca poderia ter sido feito noutra época nem noutro contexto, porque perderia toda a sua magia. Este é um filme que, se fosse feito hoje em dia, não conseguiria ser tão bom, obviamente. Tornar-se-ia mais vulgar porque hoje em dia o Cinema não está virado para este tipo de estilo e de narrativa. Mas trata-se de uma grande história, excelentemente escrita e interpretada, e que ainda hoje consegue fazer vibrar.


A complexidade da câmara de John Huston, em «Relíquia Macabra», faz deste filme uma das maiores lições de Cinema técnico que Hollywood deu ao Mundo. As habilidades fílmicas do realizador fazem com que toda a ação do filme pareça decorrer de uma forma tão simples e tão dinâmica, que nos faz ter aquela ideia de que os filmes são feitos de seguida, sendo que a sua feitura dura apenas o tempo que têm. Mas está aqui todo um trabalho elaborado e meticuloso de cinematografia, de cenários, de iluminação, de encenação e de fotografia, que é um espectáculo! E o estilo, meu deus, o estilo (= cool) dos "homens de gabardine", algo tão comum nos films-noir, é algo que me encanta. Falta mencionar também os planos de câmara, grandiosos e  muito expressionistas, que tornam toda a ação do filme ainda mais rápida, intrincada e consistente. «Relíquia Macabra» é um excelente filme de crime, mistério e suspense como nunca, até então, tinha sido feito no Cinema Americano, e que permanece fresco hoje em dia. E o que melhora ainda mais o filme é conseguir descobrir, através do exemplo de Humphrey Bogart, como nasce uma grande estrela.

* * * * *

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Gato Fedorento - 10 anos



No dia 23 passaram-se 10 anos sobre a criação do grupo Gato Fedorento. É sem dúvida o grupo de comédia português mais conhecido da atualidade, e mesmo que já não estejam no ativo há algum tempo (apesar de já existirem rumores de um provável regresso ainda este ano) continuam a ter uma grande influência. 
Eu tive oportunidade de conhecer este grupo pouco tempo depois de ter sido criado, antes de se ter tornado num fenómeno totalmente conhecido de todos. Vi alguns sketches da Radical e, mesmo não percebendo algumas coisas (era miúdo, tinha uns nove anos), foi como se tivesse descoberto a pólvora. Adorei aquilo, e a minha vida nunca mais foi a mesma. Os Gato foram a minha primeira séria influência humorística, e ainda hoje vejo e revejo os programas da série original (e também dos programas que, depois, eles fizeram na RTP e na SIC - mas o Gato é o Gato) e continuo sempre a rir-me de todo aquele universo patético, idiota, e com grande atenção para a linguística e para as manias da língua portuguesa. Eles são os maiores, e mesmo que tenham preferido fazer, nestes últimos anos, só anúncios para o MEO, são por sketches como este (que foi feito antes de haver Gato e só com o RAP e o ZDQ) que eu gosto de os lembrar. Ainda os imito constantemente (ainda no ano passado numa iniciativa do Teatro lá para a escola) e estimo-os como sempre os estimei. São Grandes!

- Não pode.
- Palavra.
- Não pode.
- 'Tou-lhe a dizer!

The Newsroom e a criação das notícias


Uma série que tem suscitado um grande interesse da minha parte, e que tenho andado a papar nas últimas semanas, é «The Newsroom», a nova série da autoria desse genial argumentista que é Aaron Sorkin («A Rede Social» de David Fincher, a série «The West Wing» protagonizada por Martin Sheen, entre tantos outros trabalhos emblemáticos). Protagonizado em grande por Jeff Daniels, no papel de Will McAvoy, um locutor de telejornal stressado, agressivo, chato, e muito inteligente e muito talentoso, a série pega em acontecimentos reais, em notícias que abalaram o Mundo num passado muito recente, para dar a visão de como é que uma redação televisiva de notícias trata desses temas: a forma como os expõe, o timing que escolhe para o fazer, a exploração dos pormenores dos acontecimentos, etc. «The Newsroom» tem diálogos à boa maneira de Sorkin: grandes, complexos, inteligentes e proferidos a uma velocidade estonteante, mas a que é impossível não ficar agarrado. Uma série desconcertante, que nos mostra como, numa era tão digital e tecnológica, a informação circula de uma forma que devia ser melhor analisada, dada toda a "máquina" que trabalha atrás dela. Com excelentes interpretações e uma realização prodigiosa, «The Newsroom» é um projeto do conceituado canal de cabo HBO, que continua a somar pontos com séries inovadoras e populares, sem por isso terem de ser "pipoqueiras" ou estereotipadas. Uma grande série, sem dúvida uma das melhores, em exibição, na atualidade.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A Invenção de Hugo


O último filme realizado por esse guru do Cinema que é Martin Scorsese (e que prepara agora o interessante projeto «The Wolf of Wall Street», e para depois tem já em mente a adaptação cinematográfica do livro «Silêncio» de Shusaku Endo e um biopic do grandioso artista Frank Sinatra) dá pelo nome de «A Invenção de Hugo». E como em muitos projetos do multifacetado realizador, por vezes autor (e ator), mas principalmente conotado pela sua "cromice" obsessiva pelas artes cinematográficas, esta obra mostra alguma da versatilidade do cineasta. E porquê? Porque nunca tinha imaginado que Scorsese tivesse intenções de fazer um filme familiar, todo bonitinho, colorido e maravilhoso, depois de obras tão conceituadas, tão pouco "mainstream" e tão perturbantes como «Taxi Driver», «Touro Enraivecido» e «Tudo Bons Rapazes». É um registo completamente diferente e menos habitual na sua filmografia, que sai vencedor porque mostra como Scorsese continua a ter um olho rigoroso, mágico e incrível para a Sétima Arte, irreverente e muito "scorsesiano", apesar de tudo, e esta entrada de Scorsese em outras formas de Cinema só mostra como o grande realizador, que já nada tem a provar no Mundo das fitas (já é uma Lenda, só pelos três filmes que agora mesmo citei), gosta de descobrir novos mundos cinematográficos e aprender sempre algo mais nesta Arte (mesmo que não precisasse - ele sabe tudo!), que mostra, cada vez mais, que possui uma quantidade infindável de conhecimentos para serem descobertos...


Baseado no grande livro (e nisto convém dizer que me refiro tanto aos dois significados que possam ser dados a esse adjetivo - de uma forma mais literal e de outra menos) da autoria de Brian Selznick (e que por si só já se torna um grande desafio cinematográfico, visto que grande parte do livro vive das imagens, desenhadas pelo autor, que assumem uma função tão ou mais importante que a palavra escrita - e que ocupa muito menos páginas -, o que faz com que o livro se assemelhe quase como que a um storyboard, que homenageia o Cinema pelo poder das imagens que quase se movem nas páginas da obra), «A Invenção de Hugo» é um filme muito interessante principalmente pelo aspeto de nostalgia e de incentivo à descoberta dos primórdios da arte cinematográfica que possui. Não admira que este filme tenha sido escolhido para integrar a lista das obras do Plano Nacional de Cinema, porque nos mostra como o Cinema mais "arcaico" ainda está cheio de atualidade e de magia, visto que inspirou todo o espetáculo visual verdadeiramente espantoso (porque aproveita todas as potencionalidades tecnológicas do cinema americano moderno e, mais propriamente, do 3D - que aqui é utilizado de uma maneira que recompensa o facto de o bilhete, para filmes deste tipo, ser quase ao dobro do preço normal - além de fazer um uso muito vivo e quase "pinturável" da cor e da fotografia, o que torna o filme num festim totalmente dedicado à vista humana) de «A Invenção de Hugo», e antes, a história e as personagens criadas por Brian Selznick. Pecando por vezes por uma certa ligeireza demasiado... ligeira (com o lado infantil da obra a influenciar a aparição de algumas piadas um pouquinho básicas demais, oriundas do estilo mais banal dos filmes mais banais), e por um argumento não muito bem estruturado e suficientemente interessante para justificar a duração da fita (porque a narrativa, se formos a ver bem, não é assim tão complexa e original, e deixou-me uma certa sensação de vazio no final. O filme parece muito vasto mas no fundo tem uma história simples. Muito, muito simples. Mas as coisas boas compensam muito bem esta falta de solidez, coerência e construção do argumento), «A Invenção de Hugo» é um filme sobre a paixão pela arte e pela arte dos sonhos, das ilusões e da magia, com a história de Hugo, um rapazito vagabundo que mora numa estação parisiense e que descobre todo um Mundo relacionado com os primeiros anos de vanguarda do Cinema Mudo... e com uma certa viagem até à Lua. No fundo, é uma obra muito bonita que pretende homenagear o Cinema como só Scorsese, com a sua incrível cultura e experiência cinematográficas, poderia executar. Tem grandes momentos de Cinema, e apesar de estar virado para um lado mais "mainstream" (como se sucede com alguns dos últimos filmes do cineasta). não deixa de ser um filme à la Scorsese.


Outro ponto forte de «A Invenção de Hugo» é, sem dúvida, todo o elenco. Com especial destaque para Sacha Baron Cohen, que no papel de polícia da estação de comboios está muito divertido. É um ator e humorista muito versátil (basta ver todo o vasto leque de personagens do seu reportório: Ali G, Borat, Bruno e O Ditador, as mais emblemáticas) e que, além de muito dotado para a palermice, mostra como consegue ser bom também nas partes mais sérias (apesar de, na fita, ser quase sempre vítima da palhaçada), o que me fez ficar ainda mais curioso para ver como se sairá como Freddie Mercury no biopic sobre o vocalista dos Queen que há muito tempo anda a ser preparado. Os miúdos têm boas interpretações (apesar de Chloë Grace Moretz me parecer, por vezes, um bocadinho forçada na personagem, ao contrário de Asa Butterfield). Ben Kinglsey está, pura e simplesmente, extraordinário, no papel do cineasta George Meliès, num tributo ao seu Cinema e à sua prodigiosa inventividade. A banda sonora está muito boa, a montagem, da autoria de uma veterana da filmografia de Scorsese, é fantástica. «A Invenção de Hugo» mostra como o impacto que, para outras gerações, tiveram a maioria dos filmes mudos, alterou-se ao longo das gerações, e que, para nós, hoje em dia, não nos são tão apelativos, pelo menos pelo lado preconceituoso da coisa. Mas apesar disso, Scorsese alerta não só para o conhecimento verdadeiro e abrangente deste Cinema (há muitas pérolas para serem descobertas), como para a sua urgente preservação, para não se perderem obras tão importantes para a própria História mundial, como aconteceu com grande parte das fitas de Meliès. Cada um de nós tem uma responsabilidade nisto, e mesmo que seja só pelo facto de termos de conhecer o Cinema Mudo, já estamos a dar uma grande contribuição para a "causa" de Scorsese.

★ ★ ★ ★

... e Pacino!

E - como é que isto me passou ao lado - o ENORME Al Pacino comemora hoje também mais um aniversário! Entre tantas interpretações memoráveis e inesquecíveis, deixo aqui uma que não costumo partilhar tanto. Um excerto de «Um Dia de Cão», de Sidney Lumet, com uma das personagens mais fabulosas daquele que é um dos meus atores preferidos.

Fitzgerald

Em dia de se recordar a revolução portuguesa, ocorre urgentemente também a memória de uma revolucionária... do mundo da Música. Ella Fitzgerald, se fosse viva, faria hoje 96 anos. Aqui deixo um dos vários duetos que a grande Artista fez com o genial Louis Armstrong.

Um Lance no Escuro - Episódio 4


Quarto programa de «Um Lance no Escuro», emitido na tarde de ontem em direto na RSC. O convidado é o stand up comedian Rui Moreira, que esteve à cavaqueira com a minha pessoa sobre tudo e mais alguma coisa... com algumas fitas lá pelo meio.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Hoje, em Um Lance no Escuro...

Apesar da voz deste senhor apresentador não estar em grandes condições radiofónicos, sempre poderão ouvir mais uma edição de «Um Lance no Escuro» hoje à hora habitual, às 17:30. O convidado é o stand up comedian Rui Araújo Moreira que me vai ajudar a tornar o programa interessante. Em termos de notícias, voltar-se-á a Cannes, falar-se-á em Star Wars... e em outras coisas. Ah! E a banda sonora será de Ennio Morricone... Acedam à emissão em direto da RSC através deste link, e vamos a ver se desta vez consegue correr tudo bem. Senão, mais logo ou amanhã irei disponibilizar a emissão para download. Bons filmes! ;)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Nanni Moretti e a minha garganta



Isto quando uma pessoa está malzinha da garganta, é uma chatice. Mas é giro ouvir, analisar e comparar todas as sugestões que a pessoa A, B ou C me dá para tentar curar ou, pelo menos, aliviar a dor que me está a maçar de uma forma tão... maçadora. Lembra-me do filme «Querido Diário», de Nanni Moretti, mais propriamente este terceiro e último capítulo do mesmo, onde o realizador brinca com as diversas formas como os médicos encararam a coceira de que ele se estava a queixar e do que ele deveria fazer para a curar. Ele saltita entre um e outro doutor e calham sempre respostas diferentes... e no final, nenhuma (ou quase) deu resultado...

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Rui Responde n.º 21

Esqueci-me completamente ontem que era dia de Rui Responde. Aqui tento perdoar-me pela falta. Mais três respostas a duas perguntas do André Pereira e a uma da Rita Gonçalves.

61.ª pergunta
Qual a tua queda mais aparatosa?
André Pereira

Uma que fiz há uns anos, a descer de trotinete o bairro de São Miguel. Tive a brilhante ideia de parar a máquina com os pés no chão, esquecendo-me que estava a ir a grande velocidade, e quando os pus, tumbas!, foi cair no alcatrão. É a vida.

62.ª pergunta
Qual a tua sobremesa preferida?
André Pereira

(Nota: Iei, é a última pergunta do André! ALELUIA!)
Sinceramente... gosto de muita coisa. Mousse, baba de camelo, frutinha... tudo o que seja doce e bom, eu como. Não sou esquisito. Sou um bom garfo em termos de sobremesas. Exceto as de Natal. Mas isso é outra história...

63.ª pergunta
Por onde passa o futuro do jornalismo televisivo?
Rita Gonçalves

Passa por não ser tão repetitivo e entediante, e ser mais variado e verdadeiramente informativo. Desculpa a resposta tão curta mas escrevi tanto há pouco no post anterior do blog que fiquei sem "forças" para muito mais. Mas acho que, em suma, é isto... 

Aniki-Bobó: o amor, a infância e a sociedade


É um facto que o Cinema, e se formos a ver bem, toda a Arte em geral e todas as formas que utiliza para se expressar e para se divulgar, gosta de outsiders, dos grandes heróis que têm tanto de vulgaridade como de diferença em relação à maioria das pessoas.. O vagabundo Charlot, o Man With No Name encarnado por Clint Eastwood, o inesquecível Rick Blaine de «Casablanca»,... poderia estar aqui a enumerar exemplos durante horas (alguns minutos, vá, porque a minha memória não consegue trabalhar assim tanto...). Um tipo de Cinema que utiliza muito a presença dessas personagens que, apesar de serem apenas um indivíduo no meio da multidão, conseguem ao mesmo tempo representar todo o Mundo que conhecemos e o que não nos deram a conhecer, é o neorrealismo italiano, do qual «Aniki-Bobó», primeira longa metragem de Manoel de Oliveira, o realizador mais velho do Mundo em atividade, foi um grande percursor e que, ainda hoje, é aplaudido e admirado por isso mesmo, pelo retrato realista, tocante e fiel que faz da cidade do Porto e do grupo de crianças que lidera a ação da narrativa do filme. «Aniki-Bobó». É um dos filmes portugueses mais admirados de sempre (apesar de, na época em que estreou nas salas nacionais - e numa situação semelhante ao que acontecera anos antes com a curta-metragem muda de Oliveira «Douro, Faina Fluvial», e que hoje é um filme estudado e analisado pela sua importância cinematográfica e histórica acrescida e que o tempo ajudou a amadurecer e a tornar consistente -, ter sido completamente enxovalhado não só pelo público, como o próprio regime salazarista - que viu na bonita história de Carlitos, Eduardinho e Teresinha, uma potencial arma perigosa contra os valores da ditadura), fazendo parte de um tipo de corrente cinematográfica com aquelas obras que, gostos à parte, são necessárias em qualquer cinematografia do Mundo: filmes que digam algo a nós, espectadores, utilizando a realidade e o nosso dia a dia para torná-la, no grande ecrã, numa experiência útil e ainda mais enriquecedora a cada um de nós. É isto que se sucede com «Aniki-Bobó». Não vou comentar o facto de, depois de ter estado tanto tempo sem filmar, Manoel de Oliveira se tenha dedicado mais àquele estilo controverso, pouco apetecido em Portugal, mas que é aplaudido por esse mundo cinéfilo fora (e que, apesar de eu querer conhecer primeiro todos os seus filmes para poder ter uma opinião bem formada sobre o cineasta, dos outros dois filmes que vi não fiquei grande admirador - muito pelo contrário), e apenas dedicar-me a «Aniki-Bobó», filme mais "normal" na sua filmografia, mas não é por isso que é um mau filme (muito, mas muito pelo contrário), e é, sim, sem dúvida alguma, a obra cinematográfica mais popular do realizador no seu país de origem, e que, sendo uma fita necessária para compreender o povo português, trata-se de um filme que abrange muitas discussões e muitos temas, e que é bonito, sem precisar de ser pretensioso e de dar a entender que, apesar de nada mostrar, que está a mostrar alguma coisa (última referência que faço ao cinema mais recente de Oliveira, peço desculpa, não voltará a acontecer ao longo desta crítica).

Carlos ou Eduardo: qual deles acabará por conquistar o alvo de toda a sua disputa?
«Aniki-Bobó» gira à volta de um triângulo amoroso, de um comboio (e da tragédia que se gira à volta do mesmo), de uma boneca roubada, e dos sonhos e das ambições comuns à infância de qualquer um de nós, mas que acabam por bater certo em qualquer idade, estrato social, credo ou etnia. Carlos e Eduardo são dois gaiatos que vivem ao pé do rio Douro (no mesmo ambiente e cenário da curta de Oliveira, disponível em três versões diferentes na edição DVD do filme que tanto tardou a chegar aos pontos de venda habituais - uma, original, muda, e outras duas com música, uma de Luís Freitas Branco e outra de Emmanuel Nunes), onde fazem as suas brincadeiras e onde encontram o seu grupo de amigos, que é liderado com "mão de ferro" por Eduardo (que é, sejamos sinceros, uma autêntica besta... trata-se daquele tipo de miudagem que, além de ser mal educada até dizer chega - e sim, a má educação das crianças não é só de agora, ah pois não - consegue sempre fazer frente aos restantes garotos da sua idade, apenas armando-se em mau. Ai mas se eu pudesse... os estalos que aquele miúdo levava... OK, continuemos a crítica). Acompanhamos as suas aventuras na escola, fora dela, em casa e na "Loja das Tentações" (cujo dono é interpretado pelo ator Nascimento Fernandes, numa personagem memorável), uma lojinha que vende de tudo, e inclusive, uma bonita boneca que Teresinha adoraria ter na sua casa. E Eduardo e Carlos estão sempre numa luta constante, um contra o outro, para ver quem é que vai conseguir conquistar a linda menina que lhes roubou o coração. Quem sairá vencedor? Por quem é que devemos torcer nesta disputa que parece não ter fim (e que acaba por ficar meio conturbada lá para o meio do filme)? Não é isso que verdadeiramente interessa em «Aniki-Bobó», mas sim toda a sua conjuntura socio-cultural e a forma como o meio é retratado, através dos planos de câmara, dos movimentos dos personagens, dos diálogos e das variadas situações que a narrativa nos vai apresentando ao longo de sessenta e oito minutos de filme. As interpretações hilariantes dos miúdos e os diversos gags de que são "vítimas", aliado a um dramatismo belo e tocante que em nada deve ao cinema italiano (algo auxiliado pela inesquecível banda sonora da obra), fazem de «Aniki-Bobó» uma grande experiência de Cinema e de Vida, tal como é mostrada, de uma forma que não é estereotipada nem exagerada, a ingenuidade e da graça do pensamento infantil (que é tão identificável com a infância pela qual cada um de nós passou).


Ao contrário de outros clássicos portugueses da tão-designada "época de ouro" do Cinema Português («A Canção de Lisboa», «O Pátio das Cantigas» e «O Pai Tirano» - este último o meu preferido - são alguns exemplos), «Aniki-Bobó» possui um restauro digital digno desse nome e que não serve só para fazer publicidade na capa do DVD. Mesmo que não seja perfeito (e há ali cada calinada - mas o que é mesmo de fugir a sete pés é a sinopse da contracapa... os tugas são tão maus a fazer resumos de filmes sem ter de contar a história toda e a torná-la desinteressante...), ao menos esta cópia melhorada torna o filme visualizável, retirando grande parte dos danos que o tempo causa a este tipo de fitas mais antigas. E isso é muito bom, porque «Aniki-Bobó» é um filme intemporal, curto, incisivo, poético e altamente fiel ao espírito da alma portuguesa e do engenho e arte da "tripeirice". Este é um filme que tem uma história repleta de humanidade, de magia e de energia e que, apesar de alguns erros estruturais e fílmicos que são notórios (para Oliveira, este foi um filme experimental, convém lembrar), não consegue deixar de ser, na sua totalidade, um grande filme e uma grande pérola da cinematografia lusa. É uma obra que nos deixa interessados, admirados e curiosos, pelo seu realismo, pela sua eficácia, pela forma bonita como foi feito e que, em pleno século XXI, se torna mais próxima de nós do que muita fita mais recente. Carlos e Eduardo (mais o primeiro que o segundo) fazem tudo pela moça por que estão apaixonados, e por causa disso suceder-se-á uma série de peripécias que criam alguns dos momentos mais fortes e marcantes do filme. Isto só prova que o Amor é, tal como sabemos, universal, e que se torna admirável em qualquer cinematografia, em qualquer parte do globo. Mas em «Aniki-Bobó», é à moda do Porto!

* * * * 1/2

Milhares de vídeos de produtores portugueses vão ser retirados do youtube - really?

Este é o meu pequeno comentário a esta notícia:

É impressionante como os produtores tugas têm "medo" do youtube e conseguem ser indescritivelmente incrédulos. E vou ser muito sincero: se é para ver um filme à borla, se há um programa que não uso é este... A sério, o youtube diminui a resolução dos filmes, que ficam com pior qualidade, e é por isso que o Mundo acaba? Não é pelos múltiplos e incontáveis sites de pirataria, que oferecem rips em DVD e Blu-ray tão bons como os originais?! Realmente, que mania da perseguição! Já há tão poucas possibilidades de se ver Cinema Português (do bom, do menos conhecido - e que não corresponde aos estereótipos criados sobre o estilo das fitas nacionais) e bons (e raros) programas televisivos nacionais, e ainda querem destruir mais o pouco que está disponível? Se há uma coisa que o português gosta é de público, está-se mesmo a ver...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A melhor tradução de todos os tempos!

Se nos entregarmos aos polícias, dão-nos vinte anos na cadeira eléctrica.

Esta pérola foi hoje apanhada num zapping pelos canais de cabo, mais propriamente, num filme qualquer que estava a passar no Hollywood.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Um Lance no Escuro - 3.º programa já online

3.º programa de «Um Lance no Escuro», o magazine sobre Cinema e tudo o que o envolve, emitido em direto no dia 17 de abril de 2013 na RSC. O convidado é Vicente Alves do Ó, realizador de cinema que participou numa conversa que poderia ter durado horas. Contudo, demorou 81 minutos. E ficou tanta coisa por perguntar a este excelente convidado, fã de Vertigo, em particular, e de todo o Cinema, no geral. Vale muito a pena ouvir! ;)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Luzes na Cidade (City Lights)


Há uma cena-chave em «Luzes na Cidade», uma das obras primas, por excelência, da História do Cinema, e uma das melhores fitas do Mestre desta Arte, mas também da Comédia e da Vida, que dá pelo nome de Charles Chaplin, que faz com que qualquer pessoa, mesmo que não tenha ficado admirada com todo o resto do filme, não consiga deixar de se sentir tocada e, mesmo, de ver a sua opinião alterada: o final. Aquela magnífica cena em que Charlot, o Little Tramp que, pelo andar da carruagem, nunca sairá da mesma condição de vagabundo que calcorreia as cidades por onde passa numa onda de "desenrrascanço" e de sobrevivência da vida quotidiana, reencontra a protagonista feminina desta magnífica peça de poesia cinematográfica. Mais não se revela nestas linhas porque o autor das mesmas não pretende fazer spoilers, mas aqui está presente toda a força do Cinema Mudo e, por isso, todas as provas pelas quais Chaplin considerava que eram as suas obras sem diálogo que o iriam imortalizar. As fitas mudas de Chaplin primam pela simplicidade e pela beleza das imagens (ambas influenciam-se mutuamente), criando um misto de Arte e de Cinema que nunca, mas mesmo nunca, conseguirá voltar a ser feito na História desta nobre arte que é a sétima. Mesmo que se consigam recriar todas as técnicas e todos os instrumentos que eram utilizados na época do Mudo, nunca seria possível voltar a fazer filmes com o mesmo calibre e o mesmo poder destas obras magnânimes e sem igual na cultura ocidental. E essa força e esse poder persistem hoje: Chaplin continua a cativar gerações e a ser a fonte de inspiração de muitas pessoas. Chaplin continua a ser novo, inovador e original, mesmo com tanta coisa tão ou mais complexa que possa ser feita hoje em dia. Mas o cineasta persiste, pela sua forma bonita de retratar o Mundo e as relações humanas. E com ou sem som nas suas obras (porque apesar de tudo, o cineasta tem obras de grande valor na época do sonoro, sendo «O Grande Ditador» a melhor de todas - e o preferido deste escriba), ele é um génio impossível de passar despercebido. Ensinou-nos a sorrir e a viver a vida da melhor maneira, brincando com o que é sério e ajudando a mudar o Mundo através da comédia e da força dos gestos e das ações dos seus personagens. Mudo ou sonoro, Chaplin é totalmente imortal, um Mestre na Arte de contar histórias e na Arte de se ser humano.


«Luzes na Cidade» segue as deambulações do vagabundo Charlot por uma cidade típica americana dos anos 30. Ou, sejamos mais precisos, o filme gira à volta da paixoneta do Little Tramp por uma rapariga invisual que vende flores (e a atriz que a interpreta, lindíssima, dá uma certa luminosidade especial à obra). E por ela, ele vai fazer tudo e mais alguma coisa, inclusive fingir-se milionário e possuidor de coisas que, na realidade, nunca pôde sonhar que iria alguma vez ter como suas. Mas o Amor é assim, guia uma pessoa a agir de maneiras que nunca tinha pensado que iria fazer, e Charlot vai meter-se em alguns sarilhos por causa da sua paixão, como conhecer um milionário que salvou e que o trata como seu amigo enquanto está bêbado (mas de manhã, após a ressaca, já voltou a ser o "big shot" milionário arrogante do costume - uma das muitas críticas à condição humana, neste pequeno apontamento humorístico concebido por Chaplin) e entrar num ringue de boxe para, ao participar numa competição, conseguir arranjar dinheiro para salvar a moça da miséria e ajudá-la a curar a cegueira. Em certas alturas poderemos pensar, tal como noutros filmes da personagem, que Charlot está a ser demasiado ingénuo e a arriscar exageradamente a sua pele pelas pessoas que pretende ajudar, mas o vagabundo não é parvo. É apenas desenrrascado. Sim, tem a sua maneira de ver as coisas e uma forma descontraída e inventiva de fugir aos problemas que, na maior parte das vezes, ele próprio cria, mas ele apenas quer alcançar o seu objetivo: conquistar a miúda. E como é uma tarefa difícil, ele faz tudo para concretizar o seu desejo. Ele é o ser humano humilde, generoso e disposto a fazer tudo pelos seus, e que se torna um exemplo para todas as gerações, da época do filme ou as que se lhe seguiram. Em qualquer época, em qualquer lugar, em qualquer situação, o caráter e a personalidade de Charlor nunca deixará de ser exemplar e necessária para ajudar a compreender o que é um Homem no verdadeiro sentido do termo. A simpatia, a humanidade e a simplicidade da personagem tornam-no no espírito mais fofinho e carinhoso que o ser humano pode ter na sua alma. E a maneira como Charlot olha para a câmara (ou seja, para nós, espectadores) em diversas cenas do filme (recordo-me agora assim de repente de uma festa a que o vagabundo vai com o seu amigo rico - bêbado -, em que Charlot põe um charuto na boca e olha para "nós", todo contente da vida) aproxima ainda mais quem o está a ver da ação cinematográfica de «Luzes na Cidade». Chaplin identifica-se connosco, tal como nós nos identificamos com ele. E tanto ele como o espectador sabem como a vida é, cheia de amarguras e de alegrias. Mas no fundo, nunca há razões para uma pessoa perder completamente o sorriso...


«Luzes na Cidade» é uma obra prima, ponto final. «Luzes na Cidade» é um caso magnânime que faz reduzir a minha ignorância cinéfila a níveis nunca antes vistos: que pena só ter conhecido esta fantástica fita agora! Como deixei escapar um filme portador de uma rara sensibilidade (e que, repito, já não se faz hoje em dia...), uma tragicomédia excecional que fala das coisas simples da vida num Cinema que, se fosse adaptado à atualidade, deixaria de fazer sentido e perderia toda a sua magia (como o momento final - volto a sublinhar -, uma das cenas mais tocantes e extraordinárias que vi até hoje, e que mostra como, apesar de muitas vezes nos quererem enganar, os olhos passam sempre os sentimentos do nosso coração), e que é uma fita bela como a vida, e que tem uma fantástica banda sonora que eleva ainda mais a superioridade do filme (e que é da autoria, "as usual", do próprio Chaplin - uma das melhores composições da sua carreira, juntamente com as partituras de «Luzes da Ribalta» e «Tempos Modernos»)? Eis a questão, para a qual dou a seguinte resposta: porque sou um ignorante. E depois de ver «Luzes na Cidade», tornei-me um bocadinho menos ignorante. E já consegui preencher, com mais um pouco de grandeza, a minha tão-deprimente existência. Obrigado, Chaplin.

* * * * *

Apenas uma nota sobre a forma como vi «Luzes na Cidade»: num DVD trazido da Biblioteca, edição da Costa do Castelo Filmes. Imagem? Horrorosa, vi cópias do youtube com menos "pixelizado" do que a deste disco. A editora apoderou-se das tremendamente excelentes edições da MK2, repletas de extras e que, em 2003, foram editadas em Portugal pela Lusomundo/Warner, e agora vende os filmes de Chaplin a preços barbaramente caros, sem extras e com pior qualidade. Mais vale mesmo aceder à net, visto que fizeram desaparecer essas edições de luxo antigas...

Esta semana, em Um Lance no Escuro...


Quarta feira vai-se falar, entre outras coisas, de «Vertigo», o clássico de Alfred Hitchcock e que há bem pouco tempo foi considerado o melhor filme de todos os tempos numa votação da Sight and Sound. O convidado será o realizador e autor Vicente Alves do Ó, que há bem pouco tempo fez sucesso no país com o filme «Florbela». Dia 17, às 17:30, na RSC! ;)

domingo, 14 de abril de 2013

Os Quatrocentos Golpes


Antes de ter começado a ver, na noite de ontem, «Os Quatrocentos Golpes», de François Truffaut (um dos filmes mais conceituados do cineasta francês, responsável também por «O Menino Selvagem», «Jules e Jim» e a adaptação cinematográfica do romance «Fahrenheit 451» de Ray Bradbury), achei interessante, ao ler a contracapa do DVD, o facto do realizador querer acompanhar a evolução dos seus personagens. Ou seja, Antoine Doinel (o protagonista deste filme, que valeu a Truffaut o prémio, no Festival de Cannes, de Melhor Realizador) foi a personagem principal não só de «Os Quatrocentos Golpes», como também de algumas fitas que o cineasta realizou posteriormente (sendo que a última em que Antoine, interpretado pelo magnífico ator Jean-Pierre Léaud, foi feita em 1979 e chamou-se «Amor em Fuga», vinte anos depois da sua primeira aparição), e que acompanham a forma como o pensamento, o modo de agir na sociedade e os gostos de Antoine se alteram à medida que o personagem vai envelhecendo. E depois de ter acabado de ver «Os Quatrocentos Golpes», e de ter ficado completamente maravilhado com o que me tinha passado pela vista, a primeira pergunta que me surgiu foi mesmo "E agora? O que acontecerá a Doinel depois de «Os Quatrocentos Golpes»?" A esta questão vou dar um certo ar de retórica, pelo menos por agora, enquanto não sei mesmo o destino futuro da personagem, e porque não procuro alguém que me saiba responder à questão. Apenas posso, agora, expressar tudo o que admirei nesta espantosa obra cinematográfica, realista e incrível, que é «Os Quatrocentos Golpes».


«Os Quatrocentos Golpes», a primeira longa-metragem de François Truffaut (que até então tinha realizado duas curtas, sendo que uma delas, «Os Putos», poderá ser vista na edição nacional em DVD do filme), é um dos mais belos e reais filmes sobre a infância e sobre a escola. Mostrando o ambiente escolar e a família de classe média de que faz parte Antoine Doinel, a personagem central, a fita mostra uma escola muito diferente da atualidade, onde, por exemplo, havia a separação entre rapazes e raparigas nas turmas, mas tem as suas semelhanças e que, como se fossem fatais, nunca deixarão de ser associadas à vida nos estabelecimentos de ensino: os sermões dos professores, os miúdos mal comportados que aproveitam qualquer oportunidade para se baldarem às aulas (onde Doinel se encaixa), como também os meninos bem comportadinhos e mais próximos da etiqueta adequada, que fazem tudo para agradar ao professor e deixarem os seus colegas sempre mal vistos, denunciando as suas patifarias e partidas (competição em estado puro, diria eu - nem a SONAE contra a Jerónimo Martins consegue ser tão implacável como este tipo de miudagem). Mas como é óbvio, depois os outros vingam-se, algo que acontece no filme e que, apesar de ser algo incorreto, não consegui deixar de achar bem o que é que os alunos daquela turma fizeram com o "queixinhas" da mesma. Este é um dos muitos pequenos episódios que acontecem na sala de aula onde Doinel passa os seus dias, sonhando com uma fuga àquela vida e aos progenitores que não lhe dão a devida atenção (apesar de, por vezes, Doinel ter alguns momentos de ligação ou com o Pai ou com a Mãe - mas noutras vezes, preferia que eles nem existissem, como quando diz ao professor, como desculpa para não ter ido à escola no dia anterior, que a sua Mãe morreu...). É um miúdo traquina e rebelde que se mete em sarilhos na escola e em casa com os seus múltiplos esquemas e escapatórias à sua vida quotidiana. Ele no fundo, não é má pessoa, apesar de estar sempre a inventar histórias para se safar de eventuais sarilhos que possam suceder-se devido às suas ações. Mas o filme seria igual, se fosse feito hoje, na forma impecável e credível como retrata a infância e a forma como as crianças e pré-adolescentes veem o mundo e tudo o que o envolve. Antoine Doinel é uma personagem que tem um certo carisma (algo que fica superior com a fantástica interpretação do - então pequeno - Jean-Pierre Léaud), por ser o anti-herói infantil real e ideal, com o qual gostamos de nos identificar (recorda-nos o passado escolar - que, para mim, ainda não é muito distante) e que desejamos ser retratado, de uma maneira fiel, no grande ecrã (aqui Truffaut utilizou o seu próprio caso de vida, o que também ajuda a que a história de Doinel seja forte, realista, inspiradora e marcante - tal como ele, Doinel adora passar as tardes nos cinemas da cidade, a devorar todos os filmes em exibição). «Os Quatrocentos Golpes» é uma história francesa, mas universal e comum a todos nós. Independentemente da idade e da vida que cada um tem, é impossível não se sentir algo identificado, pelo menos, com as andanças e os sonhos do pequeno rapaz de catorze anos, enquanto deambula pelas ruas com o seu melhor amigo ou é castigado pelos professores. Este é um filme nostálgico, sem ter nada de melancólico. É um dos filmes que melhor caracteriza a infância, sem recorrer a clichés nem a acessórios cinematográficos. 

E agora, o que será de Antoine Doinel...?
«Os Quatrocentos Golpes» é, por isto e muito mais (que as minhas críticas são pouco boas na arte de persuadir pessoas a ver filmes, por não conseguir expressar, por escrito, grandes argumentos sobre os mesmos), um dos filmes que todo o jovem deve ver. É um filme dinâmico, repleto de ação e de situações cinematográficas belíssimas, graças à genial mise-en-scène de François Truffaut e a toda a narrativa, bem pensada, construída e adaptada para o ecrã, para além da linda banda sonora e das poderosas interpretações dos atores, escolhidos a dedo (principalmente Léaud) pelo cineasta. Na fita, tudo se passa muito rápido, e somos confrontados com os sonhos de Doinel, as mentiras que inventa (às tantas nem consegui perceber, afinal, o que é que era mesmo verdade naquilo que o rapaz conta às outras pessoas...). Por momentos fez-me lembrar as histórias hilariantes do Menino Nicolau (criação humorística do argumentista René Goscinny e do desenhador Sempé), pela forma subjetiva e ligada à personagem como é visto tudo o que nos é apresentado. «Os Quatrocentos Golpes» mostra mesmo o Mundo nos olhos de um gaiato francês e a sua forma de estar perante a sociedade, tal como as influências que escolhem para moldarem a sua maneira de ser (por momentos, Doinel usa Balzac, fazendo em casa uma espécie de "capela" de adoração ao escritor...), e também a maneira como os adultos "pensam" as crianças. É um must para qualquer cinéfilo, uma obra de referência para muitos realizadores da mesma geração ou posteriores a Truffaut (Akira Kurosawa e Luis Buñuel são dois exemplos), onde tudo está muito preciso, bem composto, completo e com um timing que acerta em cada cena da obra. Não podemos estar quietos, com tanta coisa a acontecer, e com a arrebatadora e arrepiante cena final que fecha esta fantástica fita, ninguém, mas mesmo ninguém, consegue ficar indiferente a «Os Quatrocentos Golpes».

* * * * *

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Belarmino: a vida e as ambições de um simples lisboeta


Não era o Belarmino Fragoso que estava a jogar, mas a necessidade de ganhar quinze contos.

«Belarmino» é considerado um dos filmes (ou provavelmente é mesmo "o" filme) que iniciou a propagação e a evolução do Cinema Novo Português, uma corrente cinematográfica que caracterizou a Sétima Arte em Portugal durante a década de 60 e nos primeiros anos dos "seventies", e que, à semelhança do neorrealismo na Itália e à Nouvelle Vague em França, virou do avesso tudo o que tinha sido feito, até então, em termos de cinema nesses países, através de uma nova geração de artistas (realizadores, autores e atores) que, com a sua visão alternativa (ao que era habitual ser visto) e arriscada (na sua forma inovadora de contar uma história em imagens), retrataram um desejo de mudança e de constante inovação no meio social e artístico e que, felizmente, continua a estar presente hoje em dia. «Belarmino» trata-se de uma obra que, além de conter, na sua génese, "alguns pingos" de inspiração retirados dos ditos movimentos de novidade cinematográfica da Itália e da França, consegue inovar e impôr o seu estilo tanto dentro do panorama português como dentro de todo o Cinema que era feito dentro do continente europeu. «Belarmino» é neorrealista pela visão crua e dura da realidade, pela mão do realizador Fernando Lopes e do protagonista/ator Belarmino Fragoso, e "vítima" da Nouvelle Vague pela forma como a câmara acompanha os movimentos e ações do protagonista deste pseudo-documentário, e que, ao pretender misturar constantemente realidade (a entrevista do jornalista e, posteriormente, também escritor Baptista Bastos) e ficção (as cenas em que Belarmino passeia por alguns locais emblemáticos da Lisboa diurna e noturna dos anos sessenta, particularmente alguns pontos de encontro de Fernando Lopes e dos seus comparsas cinéfilos - e não só -, como o Hot Club e os pequenos cinemas que, na época, inundavam a cidade, com toda uma oferta curiosa e variadíssima), torna-se um documento muito importante para se entender a História de Portugal e, mais propriamente, este período turbulento que marcou o país, ainda mergulhado na ditadura (e com Salazar ainda sentado comodamente na cadeira) e num atraso económico, cultural e social profundo e crítico que, hoje, continua a persistir, de uma forma menos acentuada é certo, mas ainda notável mesmo em tempo de (aparente) democracia...


«Belarmino» conta a vida e o dia a dia real de um simples e humilde lisboeta que devaneia por muitas das ruas da capital do país ibérico. Apesar de ser um filme que, muitas vezes, é conotado com certas ideologias políticas (algo que se sucede com muitas obras do Cinema Português, tanto para a direita como para a esquerda), mas penso que, ao contrário de alguns clássicos da nobre arte das imagens movimentadas como «O Couraçado Potemkin», de Sergei Eisenstein, ou «O Triunfo da Vontade» de Leni Riefenstahl, que têm mesmo uma posição política muito vincada e extremamente objetiva e precisa e que, assim, se tornam verdadeiros folhetins propagandísticos de uma ideologia, «Belarmino» não é nada disso. É um filme de oposição ao regime salazarista, é verdade, mas é muito mais do que isso, porque mostra muito mais a visão de Lisboa e de um certo lado triste e "fadesco" que continua a "assombrar" o povo português nos nossos dias. «Belarmino» é a verdadeira Lisboa dos anos 60, sem muita subjetividade ou politiquice à mistura, tornando-se a perspetiva pura, real e movimentada, sem melhoramentos ou invenções fantasiosas, da capital de um país orgulhosamente só, mas pouco orgulhoso de si próprio. O filme mostra como Belarmino Fragoso, um antigo pugilista português que, no presente da ação do filme, já não faz a sua vida a competir nesse desporto, conseguiu alcançar o patamar de glória e vitória que, efemeramente, viveu no mundo pequeno e quase despercebido do boxe português. Com a longa entrevista que é feita a Belarmino (e ao seu antigo "manágér" Albano), compreendemos como foi dura, angustiante e triste a vida deste no pugilismo, mas que, apesar de todas as dificuldades que teve de passar, persistiu sempre na sua carreira e de como nunca se arrependeu da carreira que construiu, com tanto trabalho e afinco. Mas ao mesmo tempo, conhecemos Belarmino por dentro: os seus gostos, as suas distrações, a sua forma de ver o Mundo e as pessoas que vai conhecendo na sua vida, e a maneira como comunica com as pessoas (uma pronúncia do português que só consegui compreender na totalidade graças às legendas disponíveis na edição DVD do filme, admito). No fundo, Belarmino Fragoso é apenas mais um homem no meio da multidão, e que, tal como todos os seres humanos, se sente, muitas vezes, desanimado e desiludido consigo próprio, a nível profissional e pessoal, algo causado, em grande parte, pelo fim que teve de dar à sua carreira séria no pugilismo (e que é bem retratada e recreada nesta primeira longa-metragem do realizador Fernando Lopes). Mas a vida continua (Belarmino está sempre a afirmar que as coisas más que lhe acontecem fazem parte da vida, "é a vida" e não há volta a dar ao que nos acontece) e, apesar de "hoje em dia" viver de pequenos biscates e a fazer muitas coisas totalmente diferentes, Belarmino nunca perde o sorriso e a forma simpática e cordial que sempre usa para falar com outras pessoas.


É interessante ver como «Belarmino» nos mostra as diferentes perspetivas que podem ser retiradas dos acontecimentos que o protagonista relata e são ou não contrariados pelo seu antigo agente. Belarmino Fragoso é o exemplo do português que faz sacrifícios para o bem dos que lhe são mais próximos, fiel aos seus amigos e que possui uma enorme honestidade e seriedade, apesar de tudo, no seu discurso. É o português mais vulgar, mas que tornou este filme numa obra de grande interesse tanto artístico como narrativo. A boa banda sonora, no estilo do jazz e que me fez muito lembrar as inesquecíveis sonoridades que Bernard Herrmann compôs para o excelente «Taxi Driver» de Martin Scorsese, complementa o lado melancólico e filosófico da obra de Fernando Lopes, tal como os planos de câmara dinâmicos, os grandes ângulos e os interessantes perspectivas fílmicas. Belarmino Fragoso recordou-me Marlon Brando em «Há Lodo no Cais», e a famosa frase "I Could'a been a contender", que expressa a desilusão que a sua personagem sente pelo que poderia ter sido mas que não conseguiu, ou não quis, atingir. Algo parecido é dito, muitas vezes, de Belarmino Fragoso, ao longo da fita. E apesar de ser um filme de referência no Cinema Português pela inovação e abertura que deu a novos realizadores e visões cinematográficas, o que fica mais, no presente, desta obra, é a forma como, apesar de tudo, a sociedade ainda está, hoje, povoada de Belarminos, e de Lisboa continuar uma cidade tão bonita e com tantos segredos para serem desvendados, que achei mais "inultrapassável" temporalmente. E só por isso, ver «Belarmino» já é algo importante a ser feito.

* * * *

Rui Responde - o vigésimo

Mais três perguntas naquela que é a edição n.º 20 do Rui Responde. Já sabem, para enviarem as vossas questões basta enviarem um comentário para a caixa apropriada para os mesmos neste post, ou então para o mail ruialvesdesousa@hotmail.com. E é com mais três perguntas do André Pereira (xii que este nunca mais se cala!) que atingimos a pergunta n.º 60. Para quem duvidava que eu, afinal, até sou uma pessoa interessante o suficiente para me fazerem seis dezenas de perguntas... embrulhem! 
Cá vamos.

58.ª pergunta
És um extraterrestre? Em caso de resposta negativa, acreditas neles?

Estás à espera de um "sim", não estás? Com esta pergunta, apetecia-te mesmo que eu fizesse aqui uma coboiada qualquer envolvendo ET's, não era, meu rapaz? Pois bem, enganas-te. Não, não sou um extraterrestre. Ou aliás, até posso ser para um indivíduo de outro planeta, mas continuando... e se eu fosse, não poderia acreditar na existência deles? Só se disser não? Mas pronto, não vou estar aqui a demonstrar a minha indignação em relação a (mais uma) pergunta mal formulada pela tua pessoa. Acredito que possa haver vida noutros planetas, mas não necessariamente os bichos feios, reptilantes e destruidores da galáxia que o imaginário popular criou ao longo das décadas. Devem ser gente como nós até, com as suas preocupações e tal. Mas sinceramente, nunca pensei muito nisso. Mas se algum dia, senhores extraterrestres, quiserem passar férias cá a Portugal, deixo aqui o apelo: avisem aqui o Ruizinho, pode ser? Não me admira que alguém tenha vindo parar a este blog, por um terrível engano, numa galáxia muito distante. Mais vale prevenir que remediar, e por isso ficam aqui as minhas palavras de simpatia para com os (possíveis) alienígenas que existam no Universo. Até se calhar, em caso de guerra interplanetária, eu possa sair beneficiado por me fazer de amigo deles. É sempre bom ter contactos.

59.ª pergunta
Se pudesses viajar no tempo para qualquer altura, onde viajarias e porquê?

Como de costume, os pingos de picuinhice e neurotismo que me correm o sangue, não me fizeram conseguir tomar atenção à pergunta da primeira vez que a li, devido ao erro gramatical que nela existe. Ai se eu quero viajar no tempo para qualquer altura, vou viajar para "onde", menino André? Santa paciência, eu sei que também não sou grande "pro" em língua portuguesa, mas vá, não precisam de descer ao meu nível na escrita das vossas perguntas... 'tá bem? Respondendo à tua questão: tenho curiosidade em viajar para o dia 15 de maio de 1995, ou seja, a data do meu nascimento. E avisar a mim próprio, ainda recém-nascido, de que iria ser uma besta. Poderia ser um conselho útil para alterar a linha espacio-paradoxo-temporalo-coiso para melhor, pelo menos para a minha pessoa. Se depois ia estragar a vida a centenas de portugueses por causa dos meus atos irresponsáveis, ui... peço desde já as minhas desculpas. Tenho medo das viagens no tempo, até. Mas se calhar até gostava de ir ao século XX, em qualquer ano. Pelo menos, desde a ascensão de Chaplin no cinema. Mas também podia causar estragos. Portanto, viagens no tempo, é para esquecer.

60.ª pergunta
Gostas de lagartixas?

Epá mas que raio... que pergunta é esta... não estou em mim! Se gosto de lagartixas?! Que imaginação, hein, senhor André? Bom, uma questão que, como vimos, é importante e singular para o rumo da Humanidade, é esta que tu fizeste. Mas pronto, estou com algum soninho e cansaço, o corpo dormente e tal, e por isso não vou meter mais rodeios nestas respostas e vou direto à resposta: Não gosto nem desgosto dessa bicharada, pronto. E é tudo. As tuas perguntas, principalmente esta, dão sempre para um bom tema de conversa, não é?

E cá despeço esta rubrica, por mais uma semana. Com a vossa licença!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Mais um episódio...



Eis o segundo programa de «Um Lance no Escuro», um magazine cinéfilo (e não só!) apresentado pela minha pessoa, disponível para audição on-demand e, se vós quiserdes, para download. João Cunha, a.k.a. O Humorista, foi o Grande convidado deste segundo episódio emitido hoje às 18 horas em direto na RSC, e vai ser reposto amanhã à suposta hora de emissão habitual do programa, às 17:30. Mas para quem não gosta de esperar... aqui fica.

Hoje, em Um Lance no Escuro...




Hoje fala-se de Cinema, de novidades e de estreias da Sétima Arte, na segunda emissão de «UM LANCE NO ESCURO». Será gravado em direto a partir das 18 horas e depois vai ser repetido amanhã às 17:30. Ah, e vou falar com o Grande João Cunha, mais conhecido por O HUMORISTA, onde, entre várias outras coisas, o filme «Die Hard» será tema de conversa. Ouçam na RSC!

Sintonizem a emissão a partir das 18 clicando neste link

domingo, 7 de abril de 2013

O Que Nos Faz Rir - O Humor no País do Fado


«O Que Nos Faz Rir» é um documentário em dois episódios, apresentado por Nuno Artur Silva, e realizado no âmbito de «RISO - Uma Exposição a Sério», a grande odisseia museológica pela História Universal do Humor e de todas as coisas que nos fazem rir, de variadas formas, na vida quotidiana. O programa aborda o riso e a importância histórica, social, filosófica, religiosa e cultural que o humor tem para as nossas vidas, com as entrevistas a várias personalidades (muitas delas que não fazem parte do mundo da comédia) que nos dão a entender como, afinal, nem esta questão é tão simples como parece. Nuno Artur Silva guia-nos não só pela exposição e pelas diferentes partes que a constituem, como nos explica as diferentes máscaras e posições que o humor pode possuir perante o público. E em boa hora, a RTP1 decidiu fazer serviço público, em horário nobre, e transmitir este agradável e educativo documentário que faz rir e pensar em doses q.b e sempre com um grande nível de inteligência.

O essencial a retirar de «O Que Nos Faz Rir» é o grande e complexo trabalho de pesquisa e investigação levado pela produção do documentário e a diversidade de testemunhos que nos são oferecidos. Estabelecem-se questões, esclarecem-se dúvidas, mas no fim de contas, o riso é algo que pode ser visto de tantas maneiras e compreendido de tantas e variadas formas, que apenas duas partes de aproximadamente uma hora não servem para caber toda a grandeza do tema. Mas ao menos fica aqui um "cheirinho", muito bem apresentado e estruturado, sobre as Artes do Humor e sobre a forma como encaramos as piadas e a própria arte das gargalhadas em si. Desde comediantes a líderes religiosos, passando por historiadores e políticos, todos gostam de rir e veem no humor uma arma primordial para o bom funcionamento da sociedade. E no país da tristeza e do Fado, é ainda mais urgente impôr o riso agora, sempre que possível, e em qualquer momento do dia...

O documentário está disponível, na íntegra, no mega-arquivo de programas da RTP Play.

Esta semana, em Um Lance no Escuro...


E o próximo convidado de «Um Lance no Escuro» é... O HUMORISTA! 
Vamos ter no nosso estúdio o Grande, o Inigualável, o Transcendental João Cunha, para uma conversa sobre tudo e mais alguma coisa, e com um filme pelo meio! Não percam! 
O programa vai ser gravado em direto na terça feira às 18 horas, e será repetido na quarta feira à hora "habitual" de exibição do magazine (17:30). 
Perguntas e sugestões para esta entrevista são bem vindas (será que eu estou preparado para esta tarefa?) :) Citando o Mestre, PODEM FAZER LIKES... na página do programa...

I'm a poor lonesome cowboy... but happy!


Não percebo nada do Amor, ao contrário do Chaplin. Nestas alturas em que me debruço sobre as temáticas amorosas da existência humana, percebo como não sou muito adaptável a elas e como pouco percebo (e quero perceber) das mesmas. A última relação que tive foi a mais longa de sempre, e durou... um mês e duas semanas. E as outras não duraram mais que dias. Mas felizmente, desta última vez percebi como deixar abater-me por este tipo de coisas é pura e simplesmente uma perda de tempo. E até é melhor assim, pelo menos para mim. 

É quando se sucedem estas coisas que me identifico mais com as personagens solitárias dos filmes e das histórias, que fazem do seu "eu" não um poço de egocentrismo, mas apenas um estilo de vida que se adequa com todas as pessoas que encontram e que fazem delas pessoas mais... porreiras. Lembro-me do Man With No Name, do Little Tramp e do Alvy Singer do «Annie Hall», por exemplo. É aquele tipo de vida, desprendido um pouco de obrigações de maior e sempre prontos para tudo e para todos, com que eu mais me identifico. E hoje sou capaz de ver um filme com esse tipo de personagens. Não estou triste nem nada parecido, mas preciso de ver uma dessas personagens no ecrã, e perceber como não tenho razões nenhumas para fazer de coitadinho.

Talvez tenha de me reduzir à condição de pessoa solitária, que me parece ser a que me faz viver melhor o dia a dia. Talvez o "celibato" seja uma opção de vida que eu tenho de seguir, mas não estou preocupado com essas coisas, mais vale esperar para ver o que a vida me fornece. E pronto, quando acabei esta última relação, não me senti arrependido, nem deprimido, nem nada. Apenas continuei a andar em frente, qual Lucky Luke em busca eterna do pôr do sol.

E entretanto, a vida continua, tal como as suas alegrias e tristezas. E eu cá continuo a cavalgar, sempre em frente, para o que der e vier... ;)

sábado, 6 de abril de 2013

Filhos de um Deus Menor

Não é muito comum eu ler críticas de outras pessoas antes de fazer as minhas próprias opiniões escritas sobre os filmes que vejo. Mas desta vez houve uma exceção. Com o falecimento de Roger Ebert esta semana, dois dias depois de ter visto «Filhos de um Deus Menor», a curiosidade era demasiado grande e, por isso, decidi ler a sua recensão sobre este drama romântico protagonizado por William Hurt e Marlee Martin. E curiosamente, é das poucas críticas em que concordo a 100% com Ebert, sendo que em algumas coisas coincidia com as ideias que eu tinha retirado durante o visionamento da fita e que tinha apontado em tópicos no meu bloco de notas. De facto, este texto é desnecessário, porque me basta dizer que mais valem ler as palavras do Grande Ebert do que estarem a perder tempo com isto. Mas talvez consiga acrescentar algumas perspetivas sobre o filme com que fiquei para além das que coincidiram com as do crítico mais famoso do Mundo - mas, de uma forma ou de outra, vou cair sem querer nas que ele já tinha falado, e peço desculpa desde já por essa inconveniência.


«Filhos de um Deus Menor» é uma história de amor ao melhor/pior estilo dos anos 80. Um amor impossível que passa não só pelas diferentes vidas dos dois protagonistas que formam o par romântico do filme, como também pelas formas distintas como ambos veem... e ouvem o Mundo. William Hurt é James Leeds, um professor de surdos que chega a uma escola que ensina alunos com essa incapacidade, adaptando o ensino e as aulas às suas necessidades e ao que necessitam aprender para a sua vida, e Marlee Matlin (que arrecadou o Oscar de Melhor Atriz com este desempenho, o primeiro da sua carreira) é Sarah Norman, uma ex-aluna da dita escola que, sendo agora uma moça maior de idade, trabalha no estabelecimento a fazer limpezas para poder "sobreviver". E, surpresa das surpresas, James e Sarah vão-se apaixonar e viver uma "linda" história de amor, que à boa (e à má) maneira de Hollywood, até perfaz um filme cativante e bem feito, e que, confesso, foi do meu agrado (até gosto de lamechices, pronto! Uns morrem, outros ficam assim, acontece...). É interessante terem querido transpôr para o grande ecra uma peça de teatro (da autoria de Mark Medoff, que venceu o Tony Award por ela e que depois escreveu, a meias com Hesper Anderson, o argumento cinematográfico) que envolve um tipo de sistema educacional que não estamos habituados a ver no Cinema. E, se o staff de «Filhos de um Deus Menor» quisesse, poderia ter utilizado esse ingrediente para tornar o filme mais pindérico e emocional num sentido mais patético e deprimente, mas felizmente não decidiram fazer muito isso. Há algum rasto disso no filme, mas para o bem de todos nós, não foi utilizado em demasia. Mas o filme possui muitos clichés (começando, desde logo, pela relação improvável que, logo no princípio, nós percebemos que vai resultar - sim, porque se não resultasse a narrativa não utilizava alguns mecanismos que podem ser vistos na fita) e tem um lado muito marcado dos anos 80, da sua música (algo excessiva - por vezes o silêncio, e havendo uma co-protagonista que é surda e faz de uma personagem surda, ele poderia ser muito bem utilizado) e de alguma poesia visual que nada nos interessa e que só serve para aumentar o grau de melodrama desta obra. E sim, já devem ter percebido que foi para estes lados que o staff do filme decidiu usar, em parte, os assuntos sérios que a trama aborda. Mas não são suficientes para tornar o filme mau. E aliás, este é um bom filme, que consegue ser bonito e bem estruturado e escrito, com os dois atores principais a marcarem uma forte e impressionante presença em «Filhos de um Deus Menor». Talvez a personagem de Hurt fale um pouco demais (para nossa sorte, quando ele fala em linguagem gestual para ela, ele auto-traduz porque, segundo o que diz, gosta de ouvir o som da sua própria voz - que conveniente, não é?) e a personagem de Matlin merecia mais espaço na história e na forma como nos mostram a evolução da relação entre as personagens... mas lá está, Hollywood ainda não estava muito preparada (e estará hoje?) para tratar devidamente os atores surdos nos seus filmes. Mas pelo menos, em «Filhos de um Deus Menor», foi dado um grande passo para a abrangência de oportunidades no mundo da representação. E Matlin tem mesmo uma grande performance no filme, que consegue ser muito bem destacada, apesar desta pequena "injustiça" de atribuição de espaço e de importância às personagens (se até a Academia premiou, é porque conseguiu chamar a atenção do público mesmo assim, e isso é muito bom, porque Matlin, para mim, é a força maior da fita).


«Filhos de um Deus Menor» possui a estrutura básica de uma fita romântica, nas partes em que o romantismo está presente, e por isso, nas cenas da relação entre James Leeds e Sarah Norman, é possível encontrar a maioria dos clichés que caracterizaram o modo de filmar o amor e a paixão no Cinema Americano da década de 80. Só que o filme não é só drama romântico, e bem, porque no resto encontramos muitas coisas boas que devem ser aproveitadas. A relação de James com os seus alunos revela momentos de Cinema com alguma substância filosófica e moral e que são muito humanas e tocantes (e não por os alunos serem surdos, é por tratarem-nos como pessoas) e que mostram a inteligência e a perspicácia do argumento (e supostamente, da peça) de Mark Medoff, ao pegar em coisas menos conhecidas do grande público e mostrar que, afinal, não são tão invulgares como julgamos a uma primeira vista descuidada e desatenta. «Filhos de um Deus Menor» é um bom drama que, apesar dos problemas (e que estão muito bem descritos na tal crítica de Roger Ebert - felizmente consegui não ir muito pelo caminho da opinião dele...), torna-se um bom filme, uma história algo arriscada apesar de algumas coisas menos singulares, e pelo retrato sério e fiel da realidade das pessoas com deficiências auditivas. A forma como um filme nos toca não depende só da originalidade, mas do nível de "agradabilidade" que nos proporcionam, entre outras coisas mais. E se falha em grande parte no primeiro parâmetro, «Filhos de um Deus Menor» é uma aposta ganha no segundo. E pelas escolhas habituais das televisões, que preferem optar maioritariamente por dramas com alguns toques de humanidade/idiotice para passarem nos seus ecrãs, talvez esta obra conseguir-se-ia destacar mais do que as habituais (e repetitivas) escolhas dos canais generalistas...

* * * 1/2

O essencial é invisível aos olhos



Tenho muitas dificuldades em nomear um filme da minha vida. Mas em relação aos livros, não tenho dúvidas que o "meu" livro é «O Principezinho», de Saint-Exupèry. Publicado originalmente a 6 de abril de 1943 (faz hoje, então, setenta anos), continua a encantar gerações e a servir de inspiração para muita gente. Um livro mágico e poético que, sendo tão pequenino, tem a vida toda dentro dele. E espero que «O Principezinho» continue a ser lido e admirado por esse Mundo fora, para todo o sempre.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Taxi Driver de novo nos Cinemas


Uma das grandes surpresas que tenho tido em visionamentos cinematográficos até hoje foi... com um revisionamento. Fui ver «Taxi Driver» em condições apropriadas, numa grande sala de cinema, a do El Corte Inglés de Lisboa (também no UCI Arrábida), onde o filme voltou para ser exibido na cópia restaurada de 2011. Antes tinha ficado siderado com o filme na versão DVD rudimentar (com péssimos som e imagem), e aqui, voltei a adorar o filme e a perceber qual o seu verdadeiro impacto. Assisti à antestreia apresentada por João Lopes, Luís Miguel Oliveira e Nuno Galopim, que além de terem feito um bom trabalho, ajudaram a compreender mais a importância histórica do filme. É uma das minhas fitas de eleição e, para mim, o melhor trabalho do genial Martin Scorsese (completo o pódio com «Tudo Bons Rapazes» e «Touro Enraivecido» em segundos lugares) e que é muito atual hoje. Travis Bickle é ainda mais relevante na atualidade, e todo o estudo que é feito à volta da personagem não deixou de deliciar uma plateia quase repleta de gente nova. Valeu a pena, valeu muito a pena. As Sessões Clássicas continuarão nos UCI, depois com «Lawrence da Arábia» (também num restauro impecavelmente belo, como mostra o trailer que antecede a exibição de «Taxi Driver»), e são de louvar este tipo de iniciativas pelas grandes distribuidoras. E, com certeza, este vai ser um dos melhores filmes em sala neste ano, mesmo com tanto filme novo a aparecer. «Taxi Driver» é «Taxi Driver» e, como o leite, é insubstituível.

* * * * *

Roger Ebert e Gene Siskel vão voltar a fazer um programa


Quando acabo de escrever uma crítica cinematográfica para o blog, a primeira coisa que faço é procurar no IMDb se existe disponível para leitura a opinião do crítico Roger Ebert. Nunca cumpro este ritual antes de publicar os textos (ou pelo menos, na maior parte das vezes), mas a admiração que tinha por este notável Senhor era muito forte. Há mais de um ano dediquei-lhe, exatamente, um post aqui no blog (que pode ser lido carregando neste link, que tem cor e tudo) e, por isso, pouco tenho a acrescentar ao que já tinha escrito sobre Ebert. Apenas posso confirmar o impacto que este grande escritor das artes cinéfilas teve para a Humanidade. Não tenho dúvidas que se trata do crítico mais famoso da atualidade, e que por mais algum tempo continuará a tomar essa posição, mesmo que já esteja noutro sítio que nunca saberemos bem qual é (os mistérios da Morte...). Também, é difícil ver alguém que consiga destronar Roger Ebert, o homem que, com Gene Siskel, popularizou a expressão "two thumbs up!". Há muitos grandes escritores de críticas de cinema na América (Richard Corliss é o primeiro exemplo que me ocorre de momento), mas nenhum deles conseguirá ter o mesmo espírito comunicativo e simpático de Ebert. Fica o seu grande legado para a História, e também para a História da Sétima Arte. É muito raro eu conseguir concordar com as opiniões do homem, mas são uma delícia lê-las. Todos os prémios e honras que recebeu são muito merecidos e, juntamente com Pauline Kael e o seu "partner" televisivo Gene Siskel (que tanto popularizaram o Cinema e a crítica no showbiz televisivo), Roger Ebert mostrou como, afinal, um crítico de Cinema não é, como diz um chavão, um realizador que falhou na vida... Paz à sua Alma.

Podcast - Um Lance no Escuro (1.º Episódio)

Primeiro programa de «Um Lance no Escuro», o magazine sobre Cinema e tudo o que o envolve, emitido em direto na RSC (Rádio da Secundária de Camões). Está cortado no princípio devido à falha técnica que ocorreu no início do programa. O convidado é o blogger de Cinema e Televisão Manuel Reis e na parte cortada falou-se do festival de Cannes e de Woody Allen em Lisboa.

Mo Yan e as Mudanças da China


«Mudanças» é uma pequena autobiografia, disfarçada de romance, do autor Mo Yan, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura no ano de 2012. Um olhar interessante e discreto à vida do escritor e, ao mesmo tempo, às mudanças sociais e culturais que testemunhou na China enquanto passou por diversos trabalhos e por muitas e diferentes experiências de vida. Contado na primeira pessoa, como se fosse uma memória falada em monólogo por Mo Yan, tomamos conhecimento das pessoas que mais marcaram a sua vida, os seus amigos, os seus familiares, e também de todas as coisas que viveu e que tornaram a sua pessoa   como é hoje, algo que influenciou a sua escrita, louvada com grande aclamação pela Academia Sueca dos Nobel. Um livrinho interessante, com uma escrita peculiar e que, a meu ver, revela algumas partes menos conhecidas do grande público da cultura chinesa e de tudo o que a envolve. Uma obra divertida, reflexiva e que, em certas partes, se adequa à realidade portuguesa, «Mudanças» é uma surpresa pela maneira entusiasmante como a realidade é descrita, e pelo historial complexo de vida de Mo Yan. Se não fossem todos estes acontecimentos, o escritor não seria nada igual ao que é...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Rui Responde n.º 19

O blog não tem apresentado grandes sinais de vida esta semana (falta de tempo + grande desperdício de horas de vida com um computador portador de uma lentidão descomunal + alguma preguiça da minha parte), mas não ficou esquecida mais uma edição do Rui Responde, sempre às quintas feiras. E já sabem: para enviarem questões a este caixa d'óculos, usem a caixa de comentários deste post ou então o mail ruialvesdesousa@hotmail.com.

Respondo agora a mais três perguntas do André Pereira (e isto ainda vai durar mais algum tempo).

55.ª pergunta
Associas nomes de pessoas a matrículas de carros? Se sim, qual é o nome do teu carro?

OK, para já "matrículas" e "nomes" de carros não são exatamente a mesma coisa. Aiaiai erros de português (que neste estaminé abundam em força, mas não vamos falar sobre isso). Mas analisando a tua extraordinária questão (ironia), apenas posso dizer isto: Conheces alguém que associe nomes de pessoas a matrículas de carros? Mas que é isto? "Ah e tal, eu conheço o Toni, associo-o à matrícula 93-51-TO"? É isto? Sendo assim, a resposta é não. Contudo, como a segunda pergunta desta pergunta não tem a ver com a primeira, vou respondê-la segundo o que percebi da mesma. O nome do meu carro seria a marca do mesmo. Estamos conversados? Nada de nomes fofinhos ou queriduchos a uma máquina. Tenho coisas menos mais interessantes para fazer, sinceramente!

56.ª pergunta
Qual é o teu maior medo?

Ter de responder a mais perguntas do André Pereira. Estou a brincar. Sinceramente, não sei. Talvez seja em relação ao futuro e às alterações à minha vida que posso provocar e que podem dar-lhe uma reviravolta que eu não quero. Sou obcecado com essas coisas temporais. E o medo de eclodir, algum dia, uma III Guerra Mundial. Mas esperemos que não. Vamos só deixar os americanos e a Coreia do Norte brincarem mais um bocadinho à Batalha Naval um contra o outro e depois perceberemos se é para nos preocuparmos a sério ou não com o que poderá vir...

57.ª pergunta
Se pudesses conhecer qualquer pessoa quem seria e o que lhe dirias?

Entre os vivos, tenho mais curiosidade em conhecer o Al Pacino e o Robert de Niro. Encontrar os dois num café e começarmos uma alegre e sentida cavaqueira (o que não se iria suceder na realidade, obviamente). Provavelmente não saberia o que lhes poderia dizer, mas se calhar perguntava-lhes "Hei, onde andam os grandes personagens que interpretaram nos anos 70, 80 e princípios de 90? Acabaram no século XXI?". Isto mais para o Bobby do que para o Al, mas enfim, coisas de cinéfilo.

O RR volta para a semana. 'Tá bom? Até lá, 'tá fechado. Com licença.