sábado, 30 de março de 2013

Hipsters. Sinceramente, não dá para fazer um título de jeito sobre isto.

CUIDADO! Aqui não se falam de coisas verdadeiras nem minimamente interessantes. O texto que estão prestes a ler não passa de uma palhaçada total, que mostra a falta de noção da realidade e do que é verdadeiramente apelativo ao público pelo escriba deste blog. Mas pronto, ficaram avisados. Agora é por vossa própria conta e risco!

Hei criançada! Tudo bem? Para todos os meus caríssimos leitores que se têm perguntado: "Onde anda aquele Rui, o crítico implacável de certos temas obscuros e bizarros da atualidade, e que gosta sempre de embarcar no meio da palhaçada quando devia estar a falar de coisas sérias?". Pois bem, para o júbilo desses meus pequeninos amigos (ai que isto soou tão mal) que já sentiam saudades dos meus devaneios palhaçais e da minha falta de civismo e de (algum) respeito em relação a certas coisas que, nomeadamente, me chamam a atenção (e que, na maior parte das vezes, não possuem grande interesse) está de volta! Pelo menos, neste post. É que a secura de temas interessantes para futuras postas de pescada relativamente patéticas aqui na Companhia das Amêndoas é tanta, que não tive que adormecer esse Ruizinho durante uns tempos. Com muita morfina, devem estar a pensar vós, para ele ter estado desaparecido durante tanto tempo. Mas meninas e meninos, não se preocupem! Não façam já um protesto contra os maltratos ao meu alter-ego espirituo-filosófico-estupido-escrital! Ele está bem, só que pronto, gosta de hibernar. O soninho faz bem, de vez em quando, crianças. E oi, já deve estar na hora do Vitinho vos mandar p'ra cama, não? Vá, vão lá que eu continuo a falar com a gente mais velha. Boas noites! Ah-ha, não se vão deitar sem lavarem os dentes, pois não? Isso, muito bem.

Ora, quem não me parece que tenha investido muito do seu tempo em horas de sono (o que se nota em termos de vestuário, formas de falar e maneiras de se conviver em sociedade) são os hipsters. Quer dizer, as pessoas que se consideram hipsters, e que na maioria dos casos não são hipsters, mas sim indivíduos a envergarem roupas que não combinam umas com as outras (pelo amor de Deus, eu não percebo nada de vestuário mas sei que azul-bebé não combina com púrpura, não é? Ah ah, o meu vaipe abichanado acabou de se suceder. Desculpem). Mas como eu não sei bem o que é um hipster e, como vocês sabem, eu gosto de estar bem informado para as coisas que escrevo (como, cof cof, costuma ser, cof cof, a minha imagem de marca), vou partir à descoberta do que é um hipster. Sim, eu, Rui Alves de Sousa, o intrépido aventureiro e explorador de certos temas da natureza social social que perfaz a nossa... sociedade, vai então ao... motor de busca mais próximo que me lembre... e pesquisar durante alguns segundos sobre esta temática, e depois escolher informações à balda e inseri-las na minha cabeça como se se tratassem de verdades absolutas. Vamos lá brincar aos Caçadores de Mitos e perceber, afinal, o que é um hipster! Ide, Rui! Ide!

Bah, não me apeteceu. Já me tornei um adolescente tão preguiçoso, tão monótono e tão sem graça, que fiquei sem vontade de esticar o dedo até ao rato do PC e abrir um novo separador, e coiso e etc. Por isso, cá vou eu continuar o meu texto, esquecendo a parte da suposta pesquisa: 

Sim, os hipsters. Essa estranha raça alienígena que povoa o nosso planeta desde há uns tempos para cá, divulgando, qual praga do caraças, uma onda de bizarria e exibicionismo nunca antes vistas desde os famosos anos 60, com as suas roupas altamente coloridas e o psicadelismo atrevido e inconsequente. OK, nenhuma das duas correntes de "moda" têm algo a ver com a outra (acho que só a estupidez), e por isso, peço que tenhais calma gente! Estava só a brincar! Eu, como pessoa mal informada que sou (aliás, "fofoquice-alheia" é o meu nome do meio) e como ser muito preguiçoso que sou, tenho de inventar a minha noção da realidade, virada para o reino da fantasia parva e repleta de situações ridículas dignas de um desenho animado do Daffy Duck. Algo que os hipsters também gostam de fazer, só que se sentem felizes com isso. O que até é algo preocupante, digo eu, do alto da minha sabedoria.

E agora chega o momento sério, para arrematar esta crónica com o brilhantismo que me é característico (crónica esta que, como muitas outras, não tem pés nem cabeça, começa de uma maneira parva e acaba com uma conclusão apressada e sem nada a ver com o resto, por ter alguma seriedade da minha parte): Os hipsters são bichos raros. Existem dois tipos de outsiders da sociedade: os que verdadeiramente se destacam do "comum dos mortais" e que conseguem seguir a sua vida no meio da vulgaridade dos demais, e os hipsters, que pretendem ser como os primeiros, só que de uma maneira parva, e sem quererem mostrar que "ei, somos seres humanos, tal como vós". Na, são só pessoas com a mania que são especiais. E eles manifestam-se sem mostrarem que têm um lado pessoal, porque todos os hipsters vestem-se da mesma maneira e são sempre parvos da mesma maneira. Ah, e gostam de se exibir e dizer que são diferentes e tal e coiso, apesar de, no fundo, não o serem. Apesar de não ter ido confirmar se esta minha noção corresponde à real, penso que, pelo que a atualidade me tem vindo a mostrar, não posso estar errado de todo. Veja-se o caso deste Rui que agora foi à televisão e tudo. Tchii pá, é preciso ganhar-se muito dinheiro para ir fazer aquelas figuras pr'á TV! Os hipsters gostam de ir para os meios de comunicação social fazer figuras tristes, porque só assim, infelizmente, conseguem o reconhecimento cultural que tanto almejam atingir na vida. E ainda por cima, um hipster que tem o mesmo nome que eu! Que vergonha! Como é possível? Eu até tenho algum orgulho do epíteto que os meus Pais me deram, por isso, ó Ruizito, desaparece um pouquito, pode ser? É que tenho receio de ligar a televisão, num futuro próximo, e apanhar com um canal qualquer em que alguém teve a brilhante ideia de te pôr lá. Tenho medo, só isso. Na minha opinião, e simplesmente porque não pretendem ser pessoas a sério (que valem por outras coisas do que pela imagem social), os hipsters não são pessoas dignas de serem popularizadas. De entre todas as bizarrias que são alvos de popularidades, esta é uma das piores. Os hipsters, concluo, gostam de aparecer nos ecrãs para toda a malta os achar importantes e dignos de fazerem parte da atualidade, só que fazem coisas que, involuntariamente, nos fazem rir por serem tão absurdas. 

Só que essa é a profissão do Emplastro, que eu saiba. Por isso não lhe tirem o emprego, ouviram?

A Doce Vida (La Dolce Vita)


Marcello, o protagonista de «La Dolce Vita», uma obra imortal da História do Cinema e um dos expoentes máximos do seu realizador, Federico Fellini, é um indivíduo que leva uma vida desprezível, ao pé de gente igualmente desprezível. Esta é a ideia inicial com que se fica do homem (interpretado por Marcello Mastroianni, que viria a colaborar com Fellini em mais quatro filmes - este foi o primeiro) que é o alvo deste épico italiano de quase três horas, que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e que, hoje em dia, é um filme amado e estudado nos quatro cantos do mundo. E essa impressão inicial mantém-se precisamente até ao final do filme, só que vamos acrescentando mais coisas, mais detalhes psicológicos ao que percecionámos desta personagem. Marcello é um jornalista italiano da imprensa cor-de-rosa que leva uma vida boémia e descontraída, saltitando de mulher em mulher e de lugar em lugar (desde um cabaré nas imediações de Roma, onde se encontram muitas figuras do jet-set da cidade e onde ele consegue grande parte do seu trabalho, até a uma Igreja, onde reencontra o seu amigo Steiner), mas que nunca consegue estar satisfeito consigo próprio e com a sua existência, com a sua profissão e com a sua maneira despreocupada e preguiçosa de ver tudo o que o rodeia. Com «La Dolce Vita» e com as múltiplas observações que fazemos dos ambientes, das situações, e das pessoas que se cruzam com Marcello (e da forma como ele se deixa influenciar ou não pelas mesmas), conseguimos perceber como a vida é feita de zangas e de dissabores, e que depende única e exclusivamente de nós próprios a forma como a queremos tornar mais ou menos "doce". Ou seja, temos a grande responsabilidade de decidir a nossa própria vida, e escolher quais os modelos que queremos seguir para nos tornarmos quem somos no quotidiano, agora e no futuro, sem nos conformarmos com todas as facilidades que estão à nossa volta e não tendo razões, como diversas personagens do filme, para viver numa fachada onde se finge ser feliz quando a vida está completamente arruinada. Para essas pessoas, a vida adocica-se de uma forma ficcional para agradar às aparências e à opinião dos outros, a que damos, desde sempre, demasiada importância. 


Federico Fellini aproveita a complexidade de episódios e de narrativas de «La Dolce Vita» para retratar uma perspetiva de vida de uma forma que, para a época, foi completamente nova, desinibida e provocadora. Mas além de todas as filosofias e reflexões existenciais, existe uma forte componente crítica em relação à supremacia do Cinema americano em todo o Globo, com toda a história da atriz dos "states" que chega a Roma para trabalhar num filme. Com ela, que se torna um fascínio para muitos italianos, Fellini mostra como se causa tanta coisinha, tanta confusão e tanto entusiasmo por uma pessoa sem interesse algum a não ser, obviamente, a sua beleza exterior. Todo um manancial de paparazzi (termo que ficou popularizado por causa deste filme), do qual Marcello faz parte, segue incessantemente, e de uma forma quase selvagem, todos os passos da atriz e todas as coisas que ela diz, mesmo as mais insignificantes (tal como as perguntas que muitos jornalistas lhe fazem: "Usa pijama ou camisa de noite?" é uma dessas muitas pérolas). Marcello vai ter uma das suas muitas paixonetas por esta dita atriz, algo burra e ingénua, que ao viver na sua própria redoma, pensa que é o centro do Universo, e além disso, revela não ter muita cultura sobre o país e a cidade em que vai filmar (a cena em que estão dentro de um monumento histórico e ela diz: "Posso escrever o meu nome aqui?" é apenas um exemplo). Mas não é só ela: os seus compinchas americanos também não são muito respeitadores do que lhes é desconhecido e quase que "destroem" a cultura italiana, em benefício das tradições e formas de vida do povo americano e que ao qual estão tão habituados. Talvez Fellini pretendesse alertar para a forma como as pessoas olham o Cinema não como Arte e forma de expressão, mas como todo o recheio desnecessário que a ele ficou associado, muito por "culpa" dos grandes sucessos de entretenimento exportados para os quatro cantos da Terra: o glamour, os famosos, as suas histórias de vida como pouco significado, as fofoquices que à volta deles são facilmente criadas, etc. E ao seguir a atriz (e vivendo um curioso episódio na Fonte de Trevi, uma das cenas mais emblemáticas de «La Dolce Vita»), Marcello acaba por viver com ela momentos que para ele são de "viragem", pois ao cair nas ilusões do amor e/ou da paixão, ele sentir-se-á como que atingido por um tornado que lhe mudou, momentaneamente, a sua existência e o seu papel na sociedade. É aí que pensa pela primeira vez, e de uma forma séria, que tem de mudar de vida, ao dar de caras com esta diva que lhe desperta o coração de uma maneira fulminante, e que tão depressa lhe foge. Mas será que conseguirá passar das palavras aos atos? Isso fica na opinião de cada um. Mas Marcello continua a deambular pelas ruas de Roma, depois de ter de se "despedir", de maneira forçada, da lindíssima (mas superficial) atriz, e aí compreendemos, a pouco e pouco, a forma como ele vive o quotidiano e a sua profissão: desgastada, deprimida, e sem grande vontade ou entusiasmo em ir para a frente com os seus projetos. Envolve-se em muitas festas para se tornar cada vez mais derrotista e derrotado consigo mesmo. Marcello está ali, mas ao mesmo tempo é como se não estivesse em parte alguma, nem mesmo neste planeta. Está confuso sobre o que realmente quer para a sua vida, e muda de ideias frequentemente sobre as suas ambições, os seus sonhos e os seus verdadeiros ideais.


Com uma banda sonora divinal do compositor Nino Rota (um dos Grandes nomes da Música Cinematográfica: «O Padrinho» e «O Leopardo» tornaram-se imortais, em parte, por causa das partituras da sua autoria),  «La Dolce Vita» mostra-nos a cidade de Roma e todas as suas figuras "fellinianas", todos os personagens que habitam neste universo que tanto tem de romântico e de encantador, como de triste e de depressivo. A magia da cidade é pisada pelos seus múltiplos problemas e provocações, como as andanças dos paparazzi, sempre em busca de qualquer escândalo, polémica ou tragédia para meterem mais uns tostões ao bolso (a normalidade com que encaram os problemas graves e as situações que fotografam é impressionante - como no caso das crianças que "viram" a Virgem Maria, que causam o caos numa pequena localidade repleta de membros da comunicação social de vários países), mas também é ambientada por reencontros, como Marcello que está uma noite com o Pai, que mal sabe quem é, porque não deram tempo suficiente um ao outro para se poderem conhecer melhor antes. «La Dolce Vita» é um filme que é quase um guia completo para a existência humana e para todos os defeitos que o ser humano possui, as suas fraquezas e as suas frequentes desistências perante as oportunidades que lhe surgem para poder mudar a sua vida. Com uma belíssima cinematografia e um elenco de luxo, encabeçado por um espetacular Marcello Mastroianni (um dos mais icónicos atores do Cinema Italiano), «La Dolce Vita» é um filme sobre o descontentamento com a nossa própria vida e sobre o pouco que fazemos para a mudar (como diz uma música recente da banda portuguesa Virgem Suta: andamos furiosos/Entre dentes a resmungar/Mas quando há chance de algo mudar/Chutamos para canto/Preferimos nem lhe tocar). Falamos, falamos, falamos, mas depois não fazemos nada e preferimos reduzir-nos à nossa "insignificância". Procuramos a felicidade, mas no final desistimos porque achamos que aquilo que sonhámos não passa, nem passará, de uma ingénua e ridícula utopia. Mas podemos, ao menos, encontrar alguma dignidade e alegria para a nossa existência, para não acabarmos como Marcello, na sua desilusão permanente e constante e na forma como desiste de tudo o que sempre sonhou. Nada é impossível neste Mundo. Se quisermos e agirmos, não há impossíveis.

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sexta-feira, 29 de março de 2013

A parvoíce de Robot Chicken


Eu tenho um sentido de humor um pouco estranho, admito. Tanto posso estar a rir-me com uma das várias peripécias de «Sim, Senhor Ministro», como a seguir pego num episódio de «Robot Chicken», a série do Adult Swim que popularizou o humorista Seth Green (que também dá uma perninha no «Family Guy» - e o Seth Macfarlane vice-versa), e quase choro de tanto "gargalhar". Gosto muito de comédia e esta série, constituída por pequenos sketches sem ligação entre si e que parodiam filmes, programas de televisão e certas individualidades americanas, com um estilo humorístico muito parvo, patético e estúpido, tem feito as minhas delícias nos últimos dias. Estou cada vez mais convencido que o que me faz rir de uma maneira inexplicavelmente gigantesca são desenhos animados. Porque neles podem ser postas em prática todas as impossibilidades do ser humano em fazer humor, e daí séries como «Robot Chicken», «Os Simpsons» e «Family Guy» terem tanto sucesso e aclamação - e serem os programas que eu "perco" mais tempo a ver. Apesar de se tratarem de séries com piadas muito infantis e que, por vezes, roçam o escatológico (isto para a primeira e a terceira que mencionei). Mas é impossível eu não rir com os disparates criados pela equipa que faz este programa em stop-motion, repleto de nonsense e de cenas do maior absurdo possível, sempre a brincar com os bordões da sociedade, com as coisas fofinhas a que estivemos sempre habituados a ver de uma certa maneira, e com as coisas que nunca poderíamos associar a outras (Uma pequena discussão de escritório e o jogo «Street Fighter», por exemplo). «Robot Chicken» não agrada a todos, e como eu compreendo isso! Aliás, eu por vezes sinto-me bastante envergonhado por ver esta bonecada tão idiota e estúpida, cheia de lugares-comuns e piadas fáceis e/ou pouco imaginativas. Mas caramba, isto faz-me rir, e de que maneira!

O Inimigo Público: o pontapé de saída de James Cagney


«O Inimigo Público», elaborado antes do "Production Code" que, anos depois, viria a regular os "comportamentos" das obras cinematográficas, foi uma obra relevante pelo impulsionamento que teve para os filmes de gangsters nos EUA, pela sua importância histórica e cultural que marcou a sociedade americana, e porque foi o filme que lançou aquele que é um dos atores mais míticos da indústria de Hollywood: James Cagney. Se a produção não tivesse mudado de ideias e tivesse deixado com que Cagney continuasse a ter um papel secundário, como era suposto, muita coisa não teria sido alterada na História do Cinema. E «O Inimigo Público», hoje em dia, perderia todo o seu interesse. Na noite de quarta feira vi o filme e percebi que apenas o estava a ver por ser protagonizado pelo James Cagney, que não só é uma figura lendária como tem uma interpretação fabulosa nesta obra. A maioria dos restantes elementos que compõem a fita já estão algo ultrapassados ou não têm substância tanto hoje como não tinham há oitenta e dois anos, quando estreou nas salas de cinema americanas. É um filme de gangsters, algo experimental e primário em termos técnicos, narrativos e interpretativos (muitos atores ainda não se conseguiram adaptar muito bem ao cinema sonoro, uma relativa novidade na época), e hoje em dia, «O Inimigo Público» é um filme interessante de se ver, mas que não chega tão facilmente às audiências atuais como os clássicos posteriores protagonizados por James Cagney, como «Anjos de Cara Negra», «Heróis Esquecidos» e «Fúria Sanguinária». É um filme de puro entretenimento, sem grandes intenções artísticas. Tem grandes momentos, totalmente propiciados pelo Grande Cagney e pela realização que, apesar de muito rudimentar e desorganizada em muitas partes, ainda possui uma ou outra cena que revela alguma mestria pela mão do realizador de «O Inimigo Público», William A. Wellman. Vi o pequeno documentário extra da edição DVD, onde críticos, historiadores e realizadores de Cinema (incluindo o Mestre Martin Scorsese) tecem elogios rasgados ao filme e ao quão excelente ele é. Não fiquei com essa sensação, mas para quem gosta de descobrir tesouros relevantes cinematográficos, talvez «O Inimigo Público» possa ser uma boa opção. Pena que esteja numa cópia tão degradada (afinal o National Film Registry serve para alguma coisa ou quê?), mas aparte dos problemas de restauro e dos múltiplos problemas do filme, «O Inimigo Público» é uma relíquia americana, e que ainda surpreende. Especialmente pelo twist final que, ainda hoje, revela ser uma pancada algo forte em termos de violência visual.


E de violência é que se pode retirar grande parte da importância cultural de «O Inimigo Público» no cinema americano. Para a época, foi um filme que chocou as audiências pela forma inovadora como mostrou as cenas pesadas, envolvendo tiros, pancadaria e certas ameaças psicológicas por parte de Tom Powers, o implacável e sanguinário gangster interpretado por James Cagney. E apesar de, em grande parte, já não ser um filme violento hoje em dia, existem certas cenas que são completamente assombrosas hoje ainda, e tudo por "culpa" da atuação vibrante e inigualável de Cagney. Por vezes parece que «O Inimigo Público» vive apenas do facto de estar a inovar a violência e esquece-se um pouco de tudo o resto - a história falha, os restantes atores também, a câmara muitas vezes não está bem direcionada, etc. Mas vale mesmo a pena centrar todas as atenções em Cagney e nos seus movimentos, nas suas reações, nos seus modos de se exprimir. Este filme só confirmou aquilo que eu já tinha confirmado com as três outras fitas protagonizadas pelo ator e que eu vi antes: é um enorme talento e um indivíduo que preenche o ecrã de uma forma extraordinária. Ainda hoje, em 2013! O filme centra-se na ascensão ao poder do bandideco Tom Powers, que começando com pequenos crimes em criança, evolui sempre na sua "profissão" acabando por, depois da I Guerra Mundial, estar envolvido num dos muitos negócios ilegais que caracterizaram o período da Lei Seca dos EUA. No meio do drama do poder existe uma história familiar, onde os dois irmãos Powers se rivalizam por pensarem de maneira diferente sobre o que é ter um emprego a sério. E no meio de pequenas situações, na sua maioria, sem um grande ritmo ou um entusiasmo por aí além, auxiliados por uma montagem mais ou menos competente, acompanhamos as andanças de Tom, os seus crimes, os seus amores e os seus dilemas pessoais e profissionais. Mas se não fosse o senhor James Cagney, «O Inimigo Público» seria, todo ele, uma banalidade quase-total. Já disse isto várias vezes mas penso que é importante realçar mesmo este fator. Foi a única coisa que me fez ver o filme todo do princípio ao fim. Este sim, era um ator fabuloso, que sabia agarrar as pessoas, de uma maneira tão invulgar e fascinante.


E sinceramente, não sei mais que dizer sobre «O Inimigo Público». Ao centrar-me na única parte que se salientou para mim desta experiência cinematográfica, perdi-me no que queria ainda escrever sobre o filme. Apesar de ter à minha frente o meu bloco de notas com uma folha em que escrevi uma dezena e meia de tópicos e ideias a retirar da fita, não estou a conseguir transpô-las agora para uma crítica propriamente dita. Mas penso que já disse tudo: «O Inimigo Público» é um filme interessante, que vive de Cagney. Não sei se, na época, o mesmo se passava, mas é o que sinto hoje na nossa época. Mas só por isso o filme tem mais valor do que o suposto: Cagney é Rei neste filme, e apesar de uma realização muito amadora e mais ou menos inadequada, de uma montagem muito incompetente, de um exagero do dramatismo que parece que quer fazer passar o espectador por estúpido em certas partes, o ator sai vencedor porque nenhum das coisas técnicas consegue denegrir a sua performance. Aliás, as cenas demasiado óbvias tornam-se apelativas com Cagney e a câmara até consegue captar bem o estilo de Cagney (bem, é bom que consiga mesmo captar bem alguma coisa, não é?). Resumindo e concluindo: «O Inimigo Público» é um documento histórico essencial para se compreender a cultura e a sociedade americanas de início dos anos 30, as suas preocupações e o que lhe interessava realmente na vida. E com Cagney (e com o facto de podermos ver a ascensão de uma grande estrela), e também aquele punhado de cenas que ainda são verdadeiramente espetaculares (são poucas, mas são boas), o filme passa por ser algo mais do que um simples achado "arqueológico". Felizmente.

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quinta-feira, 28 de março de 2013

Rui Responde n.º 18

Aqui está, como prometida, mais uma edição do agora permanente (isto é, enquanto tiver perguntas) do Rui Responde. E hoje acabo, momentaneamente (porque depois ela mandou mais uma, mas vou seguir a ordem de chegada das questões), com as perguntas da Rita Gonçalves e começo a responder à "fornalha" enviada pelo André Pereira. E se por acaso tiverem alguma questão que gostassem que este besta opinasse sobre, basta enviarem-na para a caixa de comentários deste post ou para o mail ruialvesdesousa@hotmail.com. 

52.ª pergunta
Diz-me uma coisa sem a qual não consigas viver - não vale escolher o oxigénio. 
Rita Gonçalves

Bom Rita, a resposta é simples: comida e bebida. E a literatura, e o cinema, e a cultura em geral. E o blog, também. É impossível nomear uma coisa só. Mas entre as que, literalmente, não conseguia viver, apostava nas duas primeiras. Tenho uma ideia que, nesse aspeto de sobrevivência, são mais importantes que as outras. Mas num aspeto mais filosófico, é tudo o que vem a seguir.

53.ª pergunta
Se tivesses 18 anos e pudesses votar, em que partido votavas se não em branco?
André Pereira

Hum... that's a tricky question. Principalmente porque, agora, estou a dois meses de fazer 18 anos (estas perguntas foram ainda enviadas em 2012...). Neste momento não me sinto com algum particular interesse por algum partido em especial. Eu não me ligo por partidos, mas sim por pessoas. É diferente. E infelizmente, entre os poucos que poderia "confiar", não encontro razões para tal. So... quando chegar a altura de votar, penso melhor nisso. Agora não, 'tá bem?

54.ª pergunta
Se pudesses escolher entre viajar no futuro, ter uma espada laser (aka sabre de luz), teres poderes de telepatia e controlo mental, ou um Porsche topo de gama, o que escolherias?
André Pereira

Primeiro introduzo a resposta a esta pergunta com uma outra pergunta: Oh André, mas que diabo andaste a tomar quando escreveste estas questões?
Posto isto, respondo: viajar no futuro era um pouco chato. Como há aquela coisa de "se tocares nalguma coisa do passado, muda o presente e o futuro", tinha medo de estragar qualquer coisa. Mesmo que seja para viajar no futuro. Isso acabar-me-ia por mudar a perspetiva que eu teria de mim próprio no presente. E para isso, na. Mais vale criar a expectativa do Amanhã através de mim próprio e sem ir ver as "soluções". Uma espada laser era capaz de causar sarilho porque ainda decepava alguém sem me dar conta (sou distraído). Ter poderes de telepatia e controlo mental, hmmm... acho que acabaria por me subir o poder à cabeça e quereria dominar o Mundo, portanto, não. E o Porsche... ainda nem tenho a carta, homem, nem estou a pensar em tê-la em breve!, mas era capaz de o escolher, só para dar aquele ar de "eh pá e tal tenho um Porsche", e aí seguiria uma vida de luxo e glamour. Que era capaz de ser chata também, mas é a vida. E depois deixava-me cair nalguma armadilha da vida e assim, como nos filmes. Mas um Porsche é um Porsche! Para a fotografia fica sempre bem!

Até p'ra semana! 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Mentira (Shadow of a Doubt)


«Mentira» era um dos filmes preferidos da filmografia do cineasta que o realizou, Alfred Hitchcock, como também da sua mulher e frequente colaboradora dos seus filmes em vários parâmetros, Alma. O Mestre gostava do conceito de "assassino que entra num ambiente calmo, pacífico e sem razões para ocorrer qualquer tipo de crime". E essa é, efectivamente, uma das premissas deste filme, uma das primeiras obras do realizador a ser elaborada em solo americano e um dos seus primeiros grandes sucessos nos EUA, e que se mantém importante hoje e por muitas mais gerações, por ter sido incluído também na área de preservação de filmes do National Film Registry. E «Shadow of a Doubt», título original - e bem mais sugestivo - desta fita do Mestre do Suspense, contém todos os ingredientes que caracterizam, para mim, o melhor que este Génio do Cinema soube proporcionar à arte cinematográfica e aos espectadores fanáticos por extraordinários e envolventes filmes: personagens que não são o que parecem, constantes reviravoltas narrativas, a intromissão do pacifismo de uma pequena cidade pela inclusão de uma personagem, cheia de segredos, que faz parte de uma família lá residente... há muita coisa para ser dita, mas que a minha mente não é evoluída o suficiente para conseguir expressar tudo o que há para dizer pela palavra escrita. «Shadow of a Doubt» tornou-se também um dos meus Hitchcocks de eleição, de entre o muito pouco que já tive oportunidade de visionar entre a vastíssima filmografia do realizador, pela sobriedade da realização, a profundidade das interpretações, que só ao longo do filme saberemos o quão profundas são (a princípio parece tudo alegre, falso, hipócrita e feliz, mas é só a aparência de fachada que Hitchcock nos pretende transmitir). O humor sarcástico e irónico (ao melhor estilo britânico), recorrente nos filmes de Hitchcock e que aqui marca uma presença muito vincada, é sempre combinado com o suspense ao mais alto nível e com uma história de intrigas e de segredos que envolve um jogo de "gato e rato" que é impossível ficar-se indiferente.


Joseph Cotten (aqui numa interpretação arrepiante e enigmática, numa personagem com, digamos, duas personalidades) é o co-protagonista de «Shadow of a Doubt», sendo o Tio Charlie que vai visitar a irmã, o cunhado e as sobrinhas numa pequena aldeola ao melhor estilo clássico do "American Way of Life". Estando envolvido numa série de assassinatos e sendo um alvo a encontrar pela polícia, o Tio Charlie pensa que é na pacatez do lar familiar que conseguirá encontrar sossego e uma escapatória às perseguições policiais de que tem sido "vítima". Contudo, nos filmes de Hitchcock, nada do que parece ao princípio acaba por se manter igual durante o desenrolar da ação: tudo começa na maior via da normalidade, e depois... é o que se vê. Os indícios deixados pelo homicida começam a criar algumas suspeitas em relação a uma pessoa que lhe é muito querida e que mal consegue acreditar na culpa de Charlie na corrente de assassínios que começou a dar que falar na imprensa... e entretanto, há uma sub-plot muito interessante (e deveras cómica), que envolve as múltiplas conversas entre o cunhado de Charlie e Herbert, um vizinho seu amigo, que se reunem para discutirem o seu fascínio pela "arte" do homicídio (ou seja, são dois alter-egos de Alfred Hitchcock a falarem entre si - um pouco como o diálogo inicial de «O Desconhecido do Norte Expresso», de que me recordei bastante enquanto estas cenas da sub-plot surgiam). Entretanto apercebemo-nos como, a pouco e pouco, e apesar da aparente atmosfera de "cinema clássico" que existe em «Shadow of a Doubt», o filme possui uma certa lógica de desconstrução do formato convencional de se contar uma história e dos sentimentos que devem ou não ser suscitados no espectador - uma das marcas do estilo de Hitchcock, seguramente. Muitas das personagens do filme são aos nossos olhos irritantemente queridas e simpáticas, mas depois apercebemo-nos como algumas acabam por se desconstruir e mostram possuir ter algo de maior interesse para nós.


«Shadow of a Doubt» trata-se de um filme único, construído de forma inigualável na montagem, nos pormenores e na continuidade das cenas. A forma como Alfred Hitchcock dirige sempre a câmara para aquilo que interessa que o espectador veja mesmo num determinado momento, a cada diálogo e a cada situação, é um ponto que destaco pela importância acrescida que neste filme é dado a este fator (como por exemplo, numa cena em que a família está a jantar e um dos parentes, ao falar de algo que estivesse direta ou indiretamente ligado com o Tio Charlie (já não me recordo a 100% de todos os pormenores, eu contemplei este filme há mais de uma semana), e a câmara foca-se apenas na face do ator Joseph Cotten e na forma como ele reage a essa dita notícia. No teatro, por exemplo, temos de ser nós a decidir focar o olhar naquilo que mais nos interessa no palco. No cinema, tem de ser o realizador a escolher o melhor plano, a melhor situação, o melhor ângulo. E Hitchcock sabe mesmo o que o espectador anseia ver, mas mostra isso sempre de uma maneira alternativa ao esperado. O que é impressionante, pelo menos, naquilo que eu acho mais interessante na arte cinematográfica! Repleto de momentos rápidos e fulminantes, «Shadow of a Doubt» foi, para a minha pessoa, um "estrondo" de filme (não associar aos filmes com níveis elevados de testosterona), que são arrematados com uma grande banda sonora de Dmitri Tiomkin, um dos grandes compositores para Cinema dos anos 40 e 50 em Hollywood, cujas peças aqui contribuem para o climax e o suspense criados por Hitchcock. E o final, também ele repleto de tensão (mas que dá um desfecho ao filme que deve ter tido mão de algum produtor, mas penso que isso não estraga a fita) que é muito diferente do que os estigmas que foram criados em volta do cinema a preto e branco. «Shadow of a Doubt» é um Hitchcock especial, para mim, e um dos seus trabalhos mais fantásticos. Ainda me falta muito para ver, sim senhora, mas esta foi uma excelente obra de se ver!

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Miguel Torga e "O Senhor Ventura"


Acabei há cerca de alguns minutos de ler «O Senhor Ventura», uma pequena novela da autoria do escritor português Miguel Torga. Sobre a obra escrevo aqui algumas linhas de apreciação, porque gostei do livro e da escrita do autor que, para o infortúnio da minha intelectualidade tão diminuta, pouco conheço verdadeiramente da sua obra. Mas penso que, em breve, poderei corrigir essa falha grave, porque Torga é um dos grandes escritores de referência da contemporaneidade. E não é para menos, visto que tem no currículo obras como o incontornável «Bichos» ou os «Contos da Montanha». E em «O Senhor Ventura» é-nos contada as origens e a vida desse dito senhor, que se passeia por meio Mundo, conhece gentes de variados lugares, mas que acaba por nunca esquecer o seu Alentejo de origem, mais propriamente a aldeia de Penedono. É uma pequena ficção sobre a vida e as tristezas e ironias da mesma, e que, a meu ver, daria para se fazer um excelentíssimo filme sobre ela. A escrita de Torga é muito viva, muito cativante e com muitos toques de pura genialidade linguística e cultural. É um autor português que deveria ser mais lido, e espero fazê-lo, porque vale mesmo a pena.

Matar ou Não Matar (In a Lonely Place)

Nicholas Ray é um dos mais inspirados autores do cinema clássico norte-americano. Antes de «Rebel Without a Cause», o filme que possui a mais popular personagem da curta carreira de James Dean, e do mítico western «Johnny Guitar», Ray realizou «Matar ou Não Matar», uma história misteriosa e impressionante ainda hoje e que se tornou um dos filmes mais conhecidos da corrente "film-noir" nos EUA. Com o protagonismo de Humphrey Bogart, aqui num dos seus papéis mais surpreendentes e memoráveis, «Matar ou Não Matar» começa por ser uma crítica aos exageros e à falta de qualidade da maioria dos filmes de Hollywood, que pretendem apenas apelar à grandiosidade da arte cinematográfica e não à inteligência e à aprendizagem que as imagens projetadas no grande ecrã podem trazer aos espectadores. Contudo, a história de Dixon Steele (interpretado por Bogart), um argumentista arruinado no tempo presente da fita e que não pretende escrever para projetos que ache desadequados ou que não se identifiquem com os seus gostos pessoais (mesmo que neles esteja muito dinheiro envolvido), segue a pouco e pouco uma linha de maior tensão e de maior suspense devido a uma série de acontecimentos que culminarão na suspeita crescente que as personagens do filme terão de Dixon, culpado de um crime que, aparentemente, não cometeu, mas que faz também a nós, espectadores, duvidar da inocência da personagem à medida que a narrativa se desenrola e nos vamos apercebendo de mais e mais pormenores que inundam este misterioso crime. E só no momento final de «Matar ou Não Matar» é que poderemos saber a resposta a todo o crime que atormenta tanto a relação amorosa que Dixon estabelece com a vizinha, que conheceu nos interrogatórios efetuados sobre o homicídio de que Dixon é arguido. A ambiguidade da personagem é inacreditavelmente surpreendente, mesmo nos dias de hoje, e às tantas eu próprio deixei de acreditar na veracidade do seu testemunho e juntei-me ao "grupo" de personagens que duvida, durante o filme, da perfeita inocência de Steele neste caso. Mas quem terá, afinal, razão?


Em «Matar ou Não Matar», encontramos um Humphrey Bogart em modo abatido, deprimido, e vencido pelo tempo e pela vida. Diria que esta personagem poderia ser uma espécie de continuação do Rick do «Casablanca», depois de fugir do seu café e de ter perdido o amor da sua vida. Mas isto sou só eu a imaginar coisas que nada têm a ver uma com a outra, porque fiquei demasiado marcado pelo filme de Michael Curtiz e pela personagem de Bogart no mesmo. Mas tal como Rick, aqui Bogie também é uma personagem sarcástica e temperamental, só que nesta fita, é num grau mais "evoluído", digamos. Steele já viveu muito, e agora pouco mais tem para fazer do que congratular-se por ainda ser chamado para um ou outro trabalho cinematográfico, apesar dos sucessivos fracassos nos últimos anos da sua carreira. Há também um lado que gostei muito nesta personagem que é a suacompaixão pelos seus compatriotas de escrita e pelas antigas estrelas de cinema de Hollywood que são espezinhadas pelos produtores milionários (como um antigo artista, já velhote, com quem Steele se encontra muitas vezes no bar que frequenta), que sempre andam em busca de novos talentos para meterem mais uns milhares de dólares nos bolsos. Dixon já não é uma estrela, e pouco se importa com isso. Não quer uma vida repleta de glamour, grandes luxos e falsidades mediáticas, e nisto, «Matar ou Não Matar» representa o melhor do classicismo hollywoodiano no seu sentido de reflexão e de filosofia sobre a própria arte cinematográfica e a maneira como cineastas, atores e espectadores encaram o Cinema e todo o seu processo de bastidores, muitas vezes obscuros e com muita corrupção lá pelo meio. «Matar ou Não Matar» possui uma boa banda sonora, marcante e profunda, que dá um tom ainda mais negro e romãntico a todo o filme, que cresce gradualmente de "pãozinho sem sal" a obra riquíssima a diversos níveis, estéticos e narrativos. A realização de Nicholas Ray, segura e grandiosa de uma forma inteligente, auxilia à dita ambiguidade da personagem e à forma de como deixamos de saber em quem acreditar, em que testemunho e em que teoria confiar. «Matar ou Não Matar» não é um filme totalmente típico de Hollywood, cuja chama inovadora persiste nos dias de hoje graças a uma história cativante e romântica sem ser demasiado lamechas, e com um elenco e uma ralização brilhantes e que testemunham o que de melhor se fez no Cinema Americano, no seu período áureo, com uma das suas maiores estrelas e ícones da Sétima Arte em geral, Humphrey Bogart. Um must.

* * * * 1/2

Obrigado por Fumar: o poder da argumentação nas coisas mais inacreditáveis

«Obrigado por Fumar» é uma surpreendente comédia, mordaz e provocadora, que não aponta o caminho certo a percorrer, mas sim uma crítica complexa aos dois lados de uma situação: o tabaco e a sua permissão e/ou proibição junto dos atuais consumidores e dos futuros "adeptos" do vício. Sendo a primeira longa-metragem do realizador Jason Reitman, um cineasta que tem dado que falar em Hollywood com o seu estilo irreverente e apelativo, muito bem realçado na sua ainda curta filmografia, onde se incluem filmes aclamados e nomeados para um sem-número de prémios, como este e também «Juno», «Nas Nuvens» e o mais recente «Jovem Adulta», o filme possui um tom corrosivo e severamente crítico (ou talvez não - depende da perspetiva de cada um) à indústria tabaqueira, aos lobbies, ao marketing e à forma como a argumentação é utilizada para persuadir os consumidores a comprarem produtos ou a aderirem a certas e determinadas causas e ideias. «Obrigado por Fumar» segue uma linha narrativa linear e que envolve muito (e bom) diálogo, mas acaba por surpreender e entusiasmar por não pretender mostrar que há bons nem maus neste jogo de economia, de interesses e de política. É claro que Reitman e o autor do livro que foi adaptado para o filme, Christopher Buckley, têm as suas ideias próprias e incluem-se numa das faces da moeda, mas é dado ao espectador a liberdade de perceber qual é a posição com que se identifica mais, o ideal de "liberdade" tal como o protagonista do filme muitas vezes afirma ao longo da ação do mesmo. Essa ambiguidade perpassa toda a narrativa de «Obrigado por Fumar» e achei isso uma das suas características mais curiosas.


«Obrigado por Fumar» é contado na primeira pessoa por Nick Naylor, o protagonista da história do filme, que representa uma grande indústria tabaqueira e que consegue persuadir as pessoas da certidão e da veracidade das ideias que tem de divulgar. Eis o grande poder do diálogo: através do uso adequado de certas palavras, de certas frases e de certos modos de falar, o Homem consegue sempre aquilo que deseja. E Nick, uma pessoa envolvida num negócio que suscita à opinião pública muitas dúvidas quanto à saúde dos seus consumidores, alcança sempre o que quer, através de manobras engenhosas e de planos muito inteligentes que conseguem manipular as pessoas que o ouvem, e nós próprios, espectadores, também. Ouvimos as coisas estúpidas que Nick defende, mas ele di-lo com tanta seriedade e acreditar tanto no que profere que é impossível não "acreditar" nele. Nick é uma pessoa que se sujeitou a fazer o trabalho "sujo" porque, segundo as suas próprias palavras, "todos temos uma hipoteca para pagar", mas está tão convencido da veracidade dos seus argumentos que depois, quando é sujeito a passar pelas coisas que defende, consegue arranjar sempre uma escapatória para poder continuar a dizer que tem muita razão naquilo que diz. E é este o ponto mais forte de «Obrigado por Fumar»: o argumento e as personagens, com estados de espírito muito distintos e interessantes, que nos fazem pensar que, apesar da ambiguidade do filme, existe nele um grande retrato dos americanos e dos seus valores mais ou menos retrógrados, quer para um lado, quer para outro. A fotografia do filme auxilia ao ar mais "sério" desta comédia, tal como o grande elenco de atores, que tornam as suas personagens alvo de grande respeito, apesar de poderem ser um pouco "irreais" para nós (destaco principalmente neste parâmetro a interpretação de Robert Duvall). «Obrigado por Fumar» mostra o que se sucede quando levamos o que acreditamos até às últimas consequências, e através da realização de Reitman, dinâmica e adequada ao ambiente e à narrativa, observamos também como não é só a argumentação que sabem persuadir, como o envolvimento dos media nas nossas vidas tem um grande poder na veracidade ou na falsidade que atribuímos na nossa opinião dos diversos temas da atualidade que se nos apresentam (porque sim, sobre tudo nós temos alguma coisa sempre para opinar. Somos seres humanos, não há que evitar!). Com diálogos muito bem feitos e estruturados, totalmente "americanizados" mas sem recorrer a clichés ou estereótipos de maior, «Obrigado por Fumar» deixa as perspetivas da questão para nós formularmos a nossa própria opinião sobre a mesma. Afinal, a questão do tabaco e de tudo o que está nele envolvido, tem muito que se lhe diga...

* * * * 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Estórias

«Estórias», um documentário sobre o mítico Senhor do Adeus, estreia dia 1 de Abril no Cinema São Jorge. Os bilhetes são dois euros e podem encontrar mais informações deste projeto bem interessante na página oficial de Facebook do mesmo, aqui.

Eis o trailer:

Filosofias

A expressão que hoje está na moda é "fechar um capítulo". Isto é maioritariamente dito por pessoas envolvidas em processos judiciais. Fecham capítulos, mas nunca mais acabam a &#+$* do livro.

Amour: quando o impacto da realidade é maior do que qualquer ficção


"Só o amor é mais forte do que a morte". Esta frase não foi utilizada para promover o filme «Amour», a mais recente obra cinematográfica do realizador incontornável Michael Haneke, uma fita que ganhou Oscares, Césares, Globos, BAFTAS, entre tantos outros prémios e aclamações por esse mundo fora. Essa frase foi o slogan de «Caos Calmo», uma tragicomédia italiana protagonizada por Nanni Moretti. Contudo. várias vezes veio esta frase à minha memória enquanto via «Amour», e fiquei com ela associada ao filme mesmo quando visionei o final desta história triste e bonita sobre o envelhecimento e o amor que duas pessoas nutrem uma pela outra. «Amour» é um filme lento, mas é ao mesmo tempo rápido demais, como a existência humana propriamente dita, que retrata a vida de um casal de octogenários durante uma fase conturbada das suas vidas, quando a esposa começa a sofrer alguns problemas de demência. O marido decide cumprir o seu papel até às últimas consequências, nunca querendo abandonar a sua mulher, que tanto ama e estima, com a "missão" de a acarinhar e de tratar bem dela mesmo na fase mais complicada da doença desta. «Amour» não é um filme excelente por falar de temas preocupantes e que algumas pessoas se sentem mais tocadas do que outras quando a veem num filme, algo de que não depende a qualidade do mesmo (por exemplo, há quem adore «O Diário da Nossa Paixão» por falar do Alzheimer, mas não é por isso que o filme deve ser avaliado como bom ou mau, porque pode só "falar" e não retratar como deve ser a doença). A obra de Haneke destaca-se pela excelência como aborda a velhice e a vida, é verdade, mas além disso, é uma grande lição de Cinema e da transposição da realidade para a ficção. A linha que separa o real do imaginário é muito frágil em «Amour», e isso cria uma atmosfera muito densa, real e triste que, sem artifícios ou acessórios cinematográficos, vale pelo poder das imagens e das interpretações dos dois atores principais: Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva (nomeada para o Oscar de Melhor Atriz, que perdeu para Jennifer Lawrence - não vi ainda o filme pela qual ela venceu o prémio, contudo, duvido que a jovem atriz tenha tido uma interpretação em «Silver Linings Playbook» tão profunda e intensa como a de Riva). A realização de Haneke, centrada no dramatismo da narrativa e da preocupação que o cineasta tem por problemas sociais desta índole torna «Amour» vencedor de todos os prémios que lhe sejam possíveis dar, na minha opinião. É um filme verdadeiramente excecional. Difícil e pesado, mas é uma experiência cinematográfica rara de se encontrar. Uma pérola do Cinema Moderno que nunca passará de moda, e aliás, com o passar dos anos, tornar-se-á cada vez mais importante ver e compreender a mensagem humana e social que «Amour» pretende passar aos espectadores.


«Amour» não se trata de um filme fácil de digerir nem de acompanhar, e muitas vezes é duro encararmos o que vemos no ecrã como pura ficção filmada. Como o próprio Haneke afirmou, o argumento desta obra magnífica foi baseado num caso que o próprio cineasta presenciou no prédio onde vive. E o embate com a realidade torna «Amour» um filme duro de se ver. É um banho de realidade de que eu não estava à espera que fosse confrontado, e penso que muitas pessoas sentir-se-ão mal consigo próprias e tristes com esta história trágica de Amor e de Vida. Não estou a querer censurar ninguém, nem a dizer que "quem ver este filme é superior a nível intelectual e quem não o vir é estúpido". Mas «Amour» é um filme cujo visionamento é urgente para qualquer apreciador de Cinema. Algumas pessoas censuraram-me por, ao me perguntarem se valia a pena «Amour» e eu disse que não era para todos os gostos. Mas é verdade: Haneke é um realizador que quando agarra o espectador, aproveita isso até ao fim. E poderá ser, para muitos (para a maior parte das pessoas que estavam na sala onde assisti ao filme, que não perceberam tanto que aquilo que estavam a ver era um drama e não uma comédia, por exemplo), um filme impossível de se ver do princípio ao fim. Mas vale muito a pena. Não admira que a Academia tenha honrado tanto «Amour» e o seu realizador. Porque este filme, numa época onde estamos mais minados por Cinema sem grande ligação à realidade (e não tenho nada contra isso, muito pelo contrário), chega na altura mais apropriada para tocar nas feridas da sociedade e da maneira como os governantes e as entidades dão atenção à população mais idosa das sociedades, e mesmo a forma como cada um de nós olha e encara as pessoas mais envelhecidas e a sua posição no Mundo. «Amour» é um filme que faz pensar, que suscita debate, que pretende mudar mentalidades. E por tudo isto e muito mais, é-me difícil acrescentar mais alguma coisa a este filme tão inigualável e tão fenomenal. Vale mais que mil palavras.

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O Padrinho - Parte III


Just when I thought I was out, they pull me back in.

Há cerca de um mês, revi o primeiro épico filme da trilogia «O Padrinho». Na noite de sexta-feira deitei mãos à obra e chegou a vez de revisitar a fabulosa primeira sequela, «O Padrinho - Parte II». Gosto tanto destas duas obras-primas e acho-as tão espetaculares que quando vejo a primeira, a segunda tem de se ser revista pouco tempo depois. Quando vejo um, vejo outro. Já fiz isto umas quatro ou cinco vezes desde que vi a trilogia toda pela primeira vez em 2011, o ano em que, definitivamente, a minha visão do Cinema mudou, porque foi em 2011 que vi uma série de filmes fantásticos que, ainda hoje, fazem parte dos meus filmes "primordiais" entre todas as fitas de que gosto muito e que me marcaram de uma maneira muito profunda. Não consigo distinguir a primeira e a segunda parte de «O Padrinho». Têm um impacto tão forte em mim de cada vez que as revejo (e que se mantêm tão ou mais impressionante a cada revisionamento) que não consigo achar mais palavras para as poder descrever. Aliás, estou cada vez mais convencido que são os dois filmes que mais "prefiro" de toda a minha lista. Porque são inesquecíveis. Porque sinto que cresço com eles. Porque quando os vejo, sinto que estou a ver filmes completamente novos, cuja essência nunca se esgota. 


E em relação à Parte III, bem... eu nunca tinha tido coragem de rever o filme desde a primeira vez que a trilogia de Francis Ford Coppola entrou na minha vida. Quando decidia voltar a pegar nos dois primeiros filmes, punha sempre um entrave no terceiro porque achava sempre que seria uma perda de tempo, visto que tinha ficado com a ideia de que é um filme apenas interessante e sem muito a acrescentar na minha existência cinéfila. Mas desta vez, e devido a várias opiniões distintas que ouvi sobre a Parte III nos últimos meses (e que me fizeram abrir algumas reservas quanto à mesma), estive a ver no domingo o filme, pela segunda vez. E até saí um pouquinho surpreendido, pela positiva. Há dois anos, fiquei um pouco desiludido com a fita, não por não conseguir chegar aos calcanhares dos seus antecessores (algo que é tecnicamente impossível, visto terem passado tantos anos entre sequelas, e por isso é injusto avaliar este terceiro filme dessa forma), mas porque como filme em si, e afastado do legado que representava, não valia grande coisa. Não admira que as televisões por cabo transmitam tantas vezes apenas esta terceira fita, no meio da mediocridade da maioria dos outros filmes que exibem. É um filme que não se destaca muito entre todos os outros filmes fraquinhos. Contudo, neste revisionamento, gostei um bocadinho mais, e percebi que, da primeira vez, martelei um pouco no filme. E cheguei à conclusão que é bom. Mesmo à tangente do meu nível de "bom", mas tem grandes momentos, apesar dos seus defeitos. E no seu conjunto, vale um pouco mais do que as * * * 1/2 que dei originalmente. Acontece, mudamos de opinião de alguns filmes quando os revisitamos, com outro estado de espírito e com outra noção das coisas. E ainda bem, porque agora perdi o meu "medo" em relação a este filme e, talvez, nos (múltiplos) re-re-revisionamentos que farei da trilogia, irei fazê-los de uma forma integral. Porque «O Padrinho - Parte III», apesar das coisas más, e de ser uma sequela desnecessária (se formos a ver bem, ambas as sequelas o eram, mas se Coppola não tivesse feito a Parte II ter-se-ia perdido um dos melhores filmes de sempre e, se não tivesse feito a Parte III, talvez não pudéssemos contemplar certas cenas que são completamente magistrais), é um filme que vale a pena, e sinceramente, para mim foi bom ter sido chamado "à razão" por opiniões que não se deixaram conformar pelo estigma geral de que «O Padrinho - Parte III» é a pior sequela de sempre, para muitos (algo que é completamente exagerado, pela quantidade de péssimas continuações de sagas que foram feitas ao longo dos últimos anos - contam-se às dezenas, centenas até!). E enquanto não arranjo mais palavras para descrever a magnitude da Parte I e da Parte II, acho que está na hora de acertar alguns "perdões" tardios com este capítulo final, tão severamente atacado.


«O Padrinho - Parte III» começa de uma forma bonita, bem mais conseguida do que a ideia original que Francis Ford Coppola planeou executar (que seria começar com esta cena da fotografia, no Vaticano, com um afastamento da câmara em relação ao Arcebispo que é muito semelhante à do início do filme original com a personagem Bonasera, que inicia a fita daquela forma tão memorável). Temos imagens da casa dos Corleone como a vimos no final do segundo filme - um aproveitamento de filmagens à casa utilizadas na produção da primeira sequela - e a voz-off de Michael Corleone (Al Pacino is back again!) que lê a carta que escreveu aos filhos a convidá-los para a condecoração a ele feita pelo Vaticano (OK, com o início original planeado por Coppola - e que pode ser visto nos extras da edição DVD/Blu-ray da trilogia - esta condecoração faz, de imediato, mais sentido nas nossas cabeças, pelos negócios que Michael e o Arcebispo falam, e que na versão final Coppola introduziu numa parte mais tardia do filme). Tudo muito bonito, na cerimónia e na festa dada no apartamento de Michael, tão semelhante às festas familiares dos outros filmes, e onde reencontramos personagens bem nossas conhecidas: Kay Adams (a agora ex-mulher de Michael - interpretada pela Grande Diane Keaton), a única irmã de Michael (Connie, interpretada por Talia Shire) e última "sobrevivente" dos quatro filhos de Don Vito, entre alguns secundários (como o cantor Johnny Fontane) e personagens novas que nos fazem recordar figuras desaparecidas no passado (o filho bastardo de Sonny Corleone - Andy Garcia num grande papel -, os filhos de Michael Corleone - uma delas a péssima Sofia Coppola, uma das únicas críticas a esta sequela que ainda mantenho, porque mal abre a boca e percebi como ainda é, para mim, uma má atriz, tão má que eu, desta vez, e tal como a primeira, me ri nos últimos momentos da sua representação, não me pude conter - e outras individualidades). E passados alguns minutos percebemos que o tempo e o lugar mudou, mas Don Michael continua igual, sempre a tratar de negócios bem mafiosos e sempre com uma mão pronta para armadilhar todos os inimigos que o rodeiam. A família Corleone e todos os seus negócios ainda subsiste na dura década de 70. Mas «O Padrinho - Parte III» prefere embarcar também por uma outra via, não tão explorada, de uma forma assim tão complexa e tocante, nos outros filmes, e que foi muito criticada pelos fãs da saga, mas que eu continuo a achar que se trata de um dos pontos fortes desta filme final da trilogia: o arrependimento de Michael de todos os seus atos criminosos (ilustrado pela magnífica cena da confissão do personagem a um sacerdote italiano), e que mostra uma humanidade crescida no mais famoso mafioso da História do Cinema. Nem o pior dos criminosos deixa de ter alguns sentimentos, nem preocupações em relação aos seus familiares (se bem que, ao longo da saga, percebemos que Michael não seguiu tão afincadamente um dos grandes conselhos deixados pelo seu Pai: "Um homem que não se preocupa com a sua família nunca poderá ser verdadeiramente um homem")...


«O Padrinho - Parte III» não é a pior sequela de todos os tempos, mas está longe de ser a melhor. Nem mesmo como filme "a solo" não tem muito de especial em relação a outros filmes. Mas eu gostei muito de terem decidido mostrar Michael Corleone como um ser humano, e o filme deveria apenas abranger a história dos seus pensamentos e dos negócios em que se envolve (incluindo a relação com o aparentemente amistoso e amigável Don Altobello, um líder mafioso brilhantemente interpretado pelo grande Eli Wallach - exceto nos momentos finais da sua aparição do filme, muito sinceramente. É engraçado que só começamos a notar em certos atores e atuações quando somos confrontados com certos filmes, mesmo que já os tenhamos visto antes noutras obras - o caso de Wallach foi com «O Bom, o Mau e o Vilão», e não me lembrava agora que também aparecia em «O Padrinho - Parte III») e nas intrigas que constrói juntamente com Vincent, o seu sobrinho e o filho do seu irmão Sonny, para conseguir manter o Império e a reputação da família Corleone, com a ajuda do descendente que, por uma ordem lógica, tornar-se-ia, depois, no sucessor de Michael (algo que seria tratado numa possível quarta fita, juntamente com a história das origens de Sonny Corleone, numa narrativa semelhante à de «O Padrinho - Parte II»). A relação entre Michael e os seus filhos é um ponto interessante da trama, mas que não foi explorado suficientemente bem do lado da filha de Michael (com a Sofia Coppola numa interpretação mesmo má - pelo menos, a meu ver). O filho sente-se distante do Pai e, ao contrário deste, mantém a sua decisão de não entrar nos negócios da família e, assim, perseguir os sonhos que quer para a sua vida, e isso está muito bem retratado. Tal como a relação com Kay, que apesar de odiar Michael pelos seus crimes terríveis contra os seus próprios familiares, nunca o deixou de amar. E mesmo as intrigas do Vaticano estão bem executadas, e ao contrário do primeiro visionamento, já consegui perceber o porquê da ligação da conspiração dos inimigos de Corleone com a misteriosa morte com o Papa João Paulo I, e já consegui dar valor a essa sub-plot, ao contrário do que tinha afirmado até ter revisto o filme, de que se tratava de uma "conspiração à la Dan Brown". Mas o mais interessante no Vaticano é todo o lado obscuro de negócios, envolvendo a empresa da Immobilliare, que mostra como a alma dos Homens, mesmo a dos que, supostamente, deveriam estar afastados do mundo intrincado dos negócios financeiros, está sempre inundado de desejos de poder, ambição e luxúria. Já a relação incestuosa entre o sobrinho e a filha de Michael é que continuo a achar que era escusada, pelo menos da maneira como o filme nos mostra. O que é que me interessa vê-los a amarem-se, a beijarem-se, a terem uma relação digna de telenovela mexicana? Bom para eles, mostrem-me mas é o que interessa, não estes romances televisionados e sem ponta por onde se lhe pegue (até porque ambos se parecem "mesmo" muito apaixonados um pelo o outro - até tenho pena do Andy Garcia, coitado... e a Sofia podia ter-se esforçado mais um bocadinho, também!)!


«O Padrinho - Parte III» é um filme que não revela um grande equilíbrio entre o que é importante contar e o que não é mesmo relevante ser mostrado aos espectadores. Há muitas cenas excelentes, mas depois há outras partes que são assim-assim ou mesmo más e a tender para um estilo de ação que em nada se adequa ao ambiente calmo e épico dado ao filme desde o seu início (nem é pelo legado dos outros dois filmes, é pela intenção de Coppola de querer manter o espírito negro e profundo dos filmes anteriores neste também, e sai-se um pouco desiquilibrado por isso...), como por exemplo com aquela cena do helicóptero, que para mim foi a primeira "machadada" a uma fita que poderia ter sido muito melhor do que aquilo que se tornou, e algumas das mortes, que permanecem ridículas e muito mal planeadas pela equipa técnica do filme. Mas existem outros pontos positivos inesperados, que a minha obsessão com os defeitos deste terceiro filme no primeiro visionamento não me deixaram analisar com mais atenção, como a mudança de Connie Corleone ao longo de toda a saga: de uma menina histérica e irritante no primeiro filme, para uma mulher que acha que tem mais poder do que aquilo que, na realidade, lhe deram, no segundo filme, e uma mente talvez tão ou mais criminosa como a de Michael nos primeiros anos como Padrinho, neste terceiro filme. É ela que quer que os inimigos dos Corleone e não Michael, é ela que ajuda Vincent a planear as mortes dos invasores à paz da família. E isso também me impressionou muito, e foi um verdadeiro "volte-face" no que eu me lembrava desta obra. E a banda sonora, lá está, é excelente, tal como seria de esperar (seria mesmo mau se a produção do filme quisesse manchar aqui também a música extraordinária, a partir dos originais de Nino Rota e de Carmine Coppola). Nesta revisitação à saga também dei mais importância às laranjas, que as personagens tantas vezes têm nas mãos e que ajuda mesmo às cores e ao ambiente do filme (e, apesar de não ser essa a intenção de Coppola e companhia, os fãs criaram uma série de teorias e de metáforas filosóficas para a inclusão desse fruto em muitos momentos dos três filmes - apesar de neste terceiro filme, em certas partes parece que o fazem de propósito, como se estivessem a dizer "Ei, olhem pr'aqui! Temos as laranjas, como nos outros filmes! Isto não é mau de todo, afinal, pois não?"). Conclusão? «O Padrinho - Parte III» afinal, tem muito que se lhe diga. Para o bem ou para o mal, é um filme com muitos motivos para ser visto e revisto, mais do que uma vez.

Olha a fotografia de família, tão linda...
«O Padrinho - Parte III» é um filme que falha e torna-se deprimente em certas partes, mas no fundo, recupera muita da honra e do prestígio da narrativa da família Corleone e torna-se um capítulo final digno de memória para uma das trilogias mais conhecidas de todos os tempos. É um retrato da decadência da máfia e da diminuição do seu poder e da sua "inteligência" e astúcia no mundo dos negócios, pelo menos nos EUA, com o regresso de Michael Corleone à Sicília e às suas origens familiares. Um filme pontapeado e espezinhado por muitos (incluindo eu próprio) e que merece ser visto com mais calma e atenção. Foi o que eu fiz, ou tentei pelo menos, e não me arrependi. As intenções de Francis Ford Coppola e de Mario Puzo eram boas, mas temos também de perceber que, com o passar de tantos anos entre os dois primeiros filmes e este último, e o estatuto de qualidade superior que as fitas adquiriram durante esse período de tempo não ajudaram a que o filme não fosse feito sem pressões dos estúdios, que queria era lucrar mais e mais com o universo dos Corleone sem olhar a meios (até puseram a hipótese de ser Sylvester Stallone a realizar esta Parte III! Algo inacreditável, não é?). Algo que acaba por ser irónico porque os "tubarões" da Paramount me fazem pensar que se tratam mesmo de verdadeiros mafiosos. Mas enfim, desculpas feitas a «O Padrinho - Parte III», penso que já está na altura de me retirar, que esta crítica ficou um pouco longa demais. Volta Michael, que eu até te perdoo!

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sábado, 23 de março de 2013

Cannes 2013

Eis o cartaz da edição deste ano do Festival de Cannes, que terá início no dia 15 de Maio (o dia de anos deste servo da arte da escrevinhação que sou eu) e terminará no dia 26. É um dos grandes acontecimentos cinematográficos do ano, que eu acompanho com grande interesse. Vamos a ver se este ano se sucedem algumas surpresas...

sexta-feira, 22 de março de 2013

Ou Tudo ou Nada (The Full Monty)


NOTA: Esta crítica é pequena porque, além de andar a acumular filmes para criticar aqui no blog, penso que neste caso consegui dizer o essencial nestas poucas linhas que escrevi.

«The Full Monty» é uma comédia que não dá muito azo para se escrever ou analisar muito sobre si mesma, porque não é esse o seu objetivo. É um triunfo do humor britânico sobre os blockbusters americanos, se bem que com algumas cedências. Cinema comercial vindo da Europa e que se tornou um fenómeno noutras partes do globo. E, meus amigos, em parte, não acredito que vi isto. Tornou-se, em certa medida, um guilty pleasure, pela temática que aborda e a forma como a retrata. Mas não há que evitar, é um filme engraçado! Parte da premissa vulgar de muitas comédias ditas comerciais: uma personagem principal que está na mó de baixo, cheia de problemas por resolver, e que é um zé-ninguém - e já se está mesmo a ver em que é que isto vai dar: ele tem uma ideia luminosa, tenta concretizá-la, e depois de muito trabalho, lá consegue resolver os problemas e ser feliz. Sim, sabemos como vai acabar «The Full Monty», mas não é por isso que deixa de ser uma boa comédia, que vale a pena ver pela subtileza do seu argumento e pelas boas interpretações dos seus atores (destaco principalmente os Grandes Robert Carlyle e Tom Wilkinson). É um filme cómico humano, porque as personagens não se tratam de meras alegorias humorísticas da vida quotidiana: são pessoas, (quase) reais, e com as quais nos podemos mais ou menos identificar, e é também uma comédia atrevida, ao jeito bem característico do humor britânico, mas que aqui é um pouco afetado (não em demasia, felizmente) pela "americanização" da arte de fazer rir. «The Full Monty» possui alguns picos de originalidade, não pegando nos temas "tabu" que utiliza na sua narrativa de uma forma tão rudimentar e sem graça como, por exemplo, na saga (interminável) das comédias para "adolescentes" «American Pie». O filme tem algumas coisas vulgares e mesmo "clichés" lá pelo meio, é verdade, mas vê-se muito bem. E é totalmente indicada para se passar um bom bocado a desanuviar a cabeça, sem chegar ao limite de "vamos-estourar-o-cérebro-com-porcarias". «The Full Monty» é uma comédia sobre pessoas normais que arriscam numa proposta totalmente anormal (pelo menos não é tão natural vermos uma coisa destas a suceder-se em Cinema!), tem bons momentos cómicos e uma ou outra cena verdadeiramente cinematográfica. Não é só de obras-primas ou de filmes excelentes (há uma diferença entre estes dois) que se faz o Cinema. E ainda bem, porque senão, não poderiam existir filmes engraçados e divertidos como «The Full Monty».

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À Beira do Abismo (The Big Sleep)


Quando uma das grandes obras da literatura americana contemporânea é alvo de uma adaptação que inclui, na sua ficha técnica, dois dos atores mais consagrados do seu tempo e que compunham uma das químicas mais fascinantes da Sétima Arte (Humphrey Bogart e Lauren Bacall), um mítico realizador responsável por filmes que mudaram a mentalidades dos espectadores e dos cineastas americanos (Howard Hawks) e, no trio de argumentistas, um escritor que viria a receber o Prémio Nobel da Literatura e que deixaria para a posteridade uma série de trabalhos literários marcantes e excecionais (William Faulkner), logo pensei que toda esta receita tinha de dar resultado. E deu. «À Beira do Abismo», baseado no livro homónimo de Raymond Chandler, é uma das mais conhecidas aventuras do detetive Philip Marlowe, criado pelo autor, e esta será, provavelmente, uma das mais conceituadas adaptações cinematográficas da sua obra (se não a mais conceituada de todas). Num filme onde a relação entre Bogart e Bacall é muito aproveitada (e num dos slogans utilizados pela Warner para promover o filme - e que consta da capa da edição DVD do mesmo - refere-se isso mesmo: "the picture they were born for"), algo que contribuiu muito para o grande sucesso da fita, acompanhamos uma trama inteligente e empolgante que em nada retira o ambiente da ação literária e de todo o mistério que envolve as personagens que nos são dadas a conhecer.


«À Beira do Abismo» entra num mundo confuso, sério e misterioso, em que o detetive Marlowe (Bogart) tem de resolver um estranho caso de chantagem e relações familiares que o vai levar a conhecer mais pormenorizadamente uma das filhas do seu cliente (Bacall), e pela qual se vai apaixonar. Se bem que a versão original de «À Beira do Abismo» se centrava mais no caso em si e no desenrolar da resolução do mistério, a química entre Bacall e Bogart, como fora um sucesso no filme anterior que a dupla fez em conjunto, «Ter e Não Ter» (também realizado por Howard Hawks e com William Faulkner também no argumento), foi o propósito para se fazer uma nova versão do filme original de Hawks, onde as cenas de romance entre os dois atores são maiores e mais profundas. É esta a versão que se tornou mais popular, e por si só, penso que já se trata de um filme muito bom. Não vi a tal versão original (que, segundo fontes junto de mim - ou seja, a Wikipedia -, foi usada pela Warner para ser exibida para as tropas americanas), mas esta versão, que se tornou muito mais popular e muito mais apreciada (e comercializada, o que ajudou a divulgar, por muitas mais gerações, o lendário par romântico do Cinema Americano), representa todas as razões do misticismo que foi criado em volta da década de quarenta, essa época doirada para a Sétima Arte de terras do tio Sam: as roupas, os modos de falar, o mistério e a lenda que escondem as particularidades daquela década... tudo isto torna «À Beira do Abismo» um filme fascinante. O filme impôs quase como que uma "marca" de referência nos EUA, e em poucas palavras, e retirando mais uma frase promocional do filme, "Style is what The Big Sleep is all about". E gostei muito do filme, aliás, há muito tempo que um policial não me deixava tão intrigado e tão curioso. Mas não consigo achar que seja a "chef d'oeuvre" do género. Mesmo com Bacall e Bogart, cujas cenas deram um maior interesse ao filme para a minha pessoa, para além do extraordinário argumento, repleto de diálogos excelentemente escritos e que os dois atores interpretaram de uma forma inesquecível (ah, e sem esquecer o lado mais cómico que Bogart realça nesta fita ao interpretar o carismático Marlowe, dando um lado muito sarcástico e irónico que muito apreciei. E ao mesmo tempo, é o "tough guy", com quem nenhum indivíduo pode brincar!). E é por isso que vale mesmo a pena ver «À Beira do Abismo»: pela dupla e todo o simbolismo que representa, e para escutar, atentamente, as palavras que saem das suas bocas.


Howard Hawks proporciona, em «À Beira do Abismo», uma realização bem ritmada e construída de uma forma adequada aos caminhos que a narrativa toma a cada cena, algo que a banda sonora auxilia de uma forma impecável e não menos digna de nota. É uma realização ao melhor estilo dos "grandiosos" anos quarenta, e que eternizou Hawks, graças a este e outros filmes (como o emblemático «Scarface: O Homem da Cicatriz»), e que revolucionaram, de uma certa maneira, a forma de se mostrar a violência, tanto ao nível físico como ao nível psicológico, dentro dos padrões comuns da estética hollywoodiana, mais centrada na fofura das coisas e numa maior simplicidade de técnicas, mas um maior desperdício de orçamento. Eu gosto dessas coisas fofinhas de Hollywood, mas adoro o género do film-noir. E «À Beira do Abismo», apesar de não ser o melhor representante do género, que tanto inspirou e inspira ainda as gerações novas de cineastas que têm vindo a surgir, trata-se de uma obra muito boa, muito competente e muito consistente, e que é uma autêntica peça de História dos EUA (tanto que foi incluído na galeria de preservação de filmes do National Film Registry). É um filme que vem de uma época em que o final dos filmes se sucedia mesmo no final das fitas, sem necessidade de epílogos demasiado longos. O filme acaba ali, e pronto, não nos dão mais nenhuma explicação. E ainda bem, porque não nos dão informações supérfluas e centram-se, nos últimos momentos da ação, naquilo que é essencial (apesar de um pouco rápido demais - parece que acabaram o argumento à pressa, como um miúdo da primária que se apercebeu que já está quase a ultrapassar o limite de linhas da composição e inventa um final demasiado repentino -, mas isso não interessa muito, perante todas as grandes qualidades desta obra). Talvez necessite de revisitar «À Beira do Abismo» daqui a uns anos largos. Vou pôr este filme naquela prateleira dos "rever-daqui-a-dez-anos". Houve algumas coisas que me escaparam ao ver esta fita e penso que terei de a ver melhor e de uma forma digna noutra altura. Mas para já, nesta primeira visualização, fiquei com uma impressão muito boa do filme. E que é uma grande obra, disso não tenho dúvidas!

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quinta-feira, 21 de março de 2013

"Um Lance no Escuro" - um programa de rádio


Um magazine sobre Cinema e tudo o que o envolve. Um olhar aberto às novidades do panorama cinematográfico, bem como um destaque para a estreia mais interessante da semana. Trinta minutos semanais, onde está também incluída a entrevista a um convidado, que versará sobre tudo e mais alguma coisa... e com algum Cinema pelo meio.

Esta é a premissa de «Um Lance no Escuro», um programa de rádio que vou começar a fazer no próximo mês de Abril, às quartas feiras ao final da tarde na RSC (Rádio da Escola Secundária de Camões). Podem consultar a página do facebook do mesmo aqui, e dar o vosso feedback!

Efeméride


Segundo o Google, hoje comemora-se o 167.º aniversário do nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro, um dos grandes caricaturistas nacionais. E agora digam-me se esta Porca não tem atualidade...

O Rui Responde n.º 17 - O regresso (definitivo)

E para comemorar o 1400.º post o blog (que é, precisamente, este), decidi apostar no regresso DEFINITIVO do Rui Responde. Tinha recebido muitas perguntas e arrastei, arrastei e arrastei isto e acabei por não regressar com a rubrica, como tinha dito, há cerca de meio ano. Mas agora sim, volta mesmo. Todas as quintas feiras virão respostas a mais três perguntas. E já sabem, se por acaso tiverem alguma duvidazinha que gostassem que este mamífero respondesse, basta enviarem-na para a caixa de comentários deste post ou para o meu mail ruialvesdesousa@hotmail.com

E agora, as respostas a mais três perguntas da Rita Gonçalves:

49. ª pergunta
Escreve a primeira palavra que te ocorre neste momento. Tenta explicar de alguma forma porque razão a escreveste - tudo tem o seu significado. 

OK, esta resposta não deixa de ficar condicionada, porque mandaste esta pergunta há alguns meses, e por isso não vou responder de uma forma tão "automática". Mas a primeira palavra que me ocorreu quando voltei a ler esta pergunta, antes de começar a escrever este post, foi: PARVOÍCE. E não estou a gozar, nem a dar segundas intenções sobre o que eu acho desta tua pergunta, mas cá vai. E escrevi-a porque tudo o que faço neste blog é uma parvoíce, mas uma parvoíce que gosto, obviamente. Satisfeita? Gostastes do significado da palavrinhazinha? Muito bem, prossigamos.

50.ª pergunta
Até que ponto estas disposto/a perdoar os erros de quem te é próximo? 

Ai que pergunta tão à «Alta Definição»! Tinhas de vir com estas perguntas todas filosóficas e não sei quê não era? Não me estava a apetecer pensar muito, hoje. Enfim... acho que nunca tive situações assim muito dramáticas para considerar não perdoar o próximo (eu é que costumo errar mais, por isso a tua pergunta deveria ser feita de outra maneira), mas sim, perdoo sempre. Não gosto de ficar com ressentimentos para sempre, acho isso uma estupidez. Algum tempo sim, mas isso depois passa. Também depende do erro em questão. A não ser que o próximo estivesse a planear a minha morte com um piano a aterrar em cima da minha cabeça, qual desenho animado dos Looney Tunes. Mas fora essas situações mais graves, acho que não tenho muitas razões para pensar nessa questão. Preocupo-me mais com os outros a perdoarem-me as múltiplas gaffes que eu faço. Isso sim é que é importante, dada a figura desastrada que eu sou!

51.ª pergunta
Acreditas no "felizes para sempre"?

Não sei, sinceramente. Gosto da primeira parte da expressão, mas tenho receio da segunda. "Sempre" faz-me alguma confusão. Se uma pessoa for constantemente feliz acabará por ficar um dia entediada de tanta felicidade, o que acaba por não a tornar feliz... acho eu. A vida é feita de coisas boas e más (ó p'ra mim a ser filosófico), e penso que não se deve pensar nesse tipo de ideias. Sejamos felizes à nossa maneira, porque a vida, infelizmente, não é um conto de fadas. Mas por um lado, até é bom que não seja. A vida é muito mais interessante assim!

E está feito, O Rui Responde volta na próxima quinta feira! E obrigado pelos 1400 posts! ;)

À Vossa Vontade: Shakespeare volta ao D. Maria II


«À Vossa Vontade» é uma peça cómica de William Shakespeare que há pouco mais de dois séculos não era representada em Portugal. Felizmente, e em boa hora, o Teatro Nacional D. Maria II decidiu resgatar a obra de Shakespeare e a transpô-la para o palco, numa encenação hilariante e surpreendente, que este ser que vos escreve pôde assistir ao Ensaio Geral na noite de ontem. E é interessante como um texto com mais de quatrocentos anos consegue ser usado com tanta graça e tanta alegria para nós, pessoas do século XXI. O enredo e as personagens de Shakespeare permanecem atuais, quer nas críticas que fazem às relações humanas e ao amor, quer pelas situações em que se envolvem e se conhecem umas às outras. Uma trama inteligente e divertida que, apesar de sabermos como vai acabar (é inevitável), não é isso que interessa ao desenrolar da peça, que vale por cada momento e por cada diálogo, muito bem pensado, construído e adaptado para português de uma maneira impecável e que em nada descura o original. Um elenco formidável, onde todos os atores marcam a peça com desempenhos memoráveis (até os dois estagiários!), e digo-vos: nunca ri tanto numa peça de teatro como com «À Vossa Vontade». É, seguramente, uma das melhores obras que vi em cena no Dona Maria II, nestes Ensaios Gerais a que tenho tido oportunidade de assistir, e que aconselho a todos. Um hino à vida e ao amor, no estilo de Shakespeare, e com que nós nos conseguimos identificar tão bem...

quarta-feira, 20 de março de 2013

A Vida nas Cartas: a Deprimência



Não costumo ver televisão, propriamente dita (ou seja, aquilo que envolve ligar o aparelho e ver um qualquer programa que está a dar num qualquer canal às horas de exibição), de manhã. Contudo, hoje penso que fiz uma grande descoberta televisiva, enquanto deambulei pelo mágico mundo do zapping: encontrei a emissão de há pouco desse programa tão popular e querido dos portugueses (mais propriamente, das pessoas que acham que é a dar atenção a uma astróloga manhosa que a sua vida vai mudar) que se chama «A Vida nas Cartas: O Dilema». Sim, eu sei o que me vão dizer os puristas da televisão, que este não é o programa original, que era o da Maya só que ela saiu e então entrou esta fulana que faz os signos do Destak. Mas meus amigos e minhas amigas, sendo este programa uma sequela de outro, só posso dizer que, como sequela, se revela ser um dos melhores programas de comédia que vi na televisão portuguesa.

E porquê? Diria que «A Vida nas Cartas: O Dilema» será uma espécie de «The Office» em versão astróloga-que-pensa-que-tem-um-papel-divino-a-desempenhar-para-a-humanidade. É um programa extremamente deprimente, obviamente, pelo lado das entrevistas e das pessoas que contactam a astróloga. Mas o que tem graça, unica e exclusivamente (porque não há nada para se gozar com as vidas das pobres almas que, sem saberem o que fazer, dão credibilidade à sodôna Helena) é a forma como a astróloga responde aos convidados, sempre de uma forma falsa, hipócrita e engraçada. Aposto que deixa os seus "convidados" muito embaraçados com as respostas que recebem. Acredito até que acabam por esquecer as amarguras das suas vidas depois de terem conhecido este ser, que nem sei bem se se trata de algum espécime humano.

Nem vale a pena dar exemplos. Apenas vos aconselho a, num dia de manhã, acompanharem «A Vida nas Cartas: O Dilema», e tirarem as vossas conclusões. Preferencialmente vejam-no depois de ser emitido e depois vão passando à frente as partes que não vos interessam. Mas vão ver que irão encontrar ali certos gags e situações que vos farão rir, pela incompetência e falta de profissionalismo e de verdade que as afirmações da Mariazinha possuem. Até uma criança de cinco anos saberia dar uma resposta melhor a uma pessoa que perdeu tudo na vida e que agora pretende atirar-se da ponte, em vez do simples "Olhe, tenha muita força, felicidades e agarre-se à Igreja, 'tá bom? Ora liguem para o 760...". É deste tipo de pessoas que a Igreja depois fica descredibilizada (e eu sou católico, atenção! Só não acho é que uma pessoa se "agarrar" à Igreja, utilizando esse termo concreto - e é preciso tomar atenção a isto, para ninguém deturpar a minha opinião - não é necessariamente uma coisa boa). Ah, e já nem para falar dos signos, todos iguais uns aos outros e onde as coisas más significam coisas boas: "A carta da Morte", no signo de Touro (o meu, já agora - sim, não dou crédito a estas coisas, mas quem é que não tem curiosidade, ao menos, de saber a deprimência que é a astrologia do seu signo?), "significa o renascer". Sim, até porque a carta que ela mostrou tinha todo o ar de ressurreição, e não da parte mais horrível do Inferno, no último piso de todos. Mas enfim, as cartas não mentem, não é?

É a ver este tipo de programas que percebo qual vai ser a minha profissão do futuro: Tarólogo. Tenho tudo o que é preciso para ser um grande profissional nessa área: uma voz acolhedora, um ar fofinho (quando quero) e muita lábia para convencer as pessoas que, sem grande vontade e/ou opinião própria, requisitam os serviços de um especialista na matéria. Tenho o sucesso garantido, vou ganhar rios de dinheiro a adivinhar a vida dos outros, a supostamente errar em 99% das previsões que irei fazer, e a ser uma alta celebridade que vai a todas as festas que depois aparecem em programas como o «FamaShow» e derivados. Nem preciso de tirar um curso, nem nada! Está feito!

E isto, caros e caras, é o estado da televisão portuguesa. Já nem me vou queixar mais, porque nem vale a pena. Ao menos ainda dá para gozar um bocado com o que as televisões decidem transmitir... se não os podes vencer, junta-te a eles. De uma maneira não tão amigável, obviamente.