quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Odisseia: algo inovador na televisão pública


«Odisseia», um dos projetos humorísticos mais badalados dos últimos anos na RTP, é outro conceito inovador que, a par de «O Humorista», mostra a necessidade crescente de programas de comédia portugueses na nossa TV. Protagonizado por Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington, «Odisseia» conta, em jeito de pseudo-epopeia cinematografica e parva, as aventuras e desventuras da dupla de atores enquanto passeiam pelo país numa autocaravana. E ao mesmo tempo, assistimos a história dos bastidores onde os autores criam o percurso que as suas personagens vão fazer. E ainda há espaço para parodiar filmes, fazer cenas de bastidores das filmagens da suposta ficção (que ultrapassam a noção normal da narrativa e dos limites da ficção e do cruzamento desta com a realidade). Tudo isto torna esta série algo de novo na nossa televisão, uma lufada de ar fresco que, apesar de não estar a ser muito consensual em termos de receptividade (embora alguns críticos já se tenham apercebido das potencialidades do programa), tem dado muito que falar.
 
Num estilo alternativo a que não estamos habituados a ver mesmo nas nossas séries, mais lineares e desprovidas de qualquer originalidade, «Odisseia» marca pontos pela forma como conta a(s) sua(s) histórias e como os atores convidados para esta loucura televisiva sabem encarnar tão bem os seus papéis e nunca fogem do conceito completamente aparvalhado (no bom sentido) da mesma. De destacar obviamente a presença contínua do magistral Nuno Lopes, que brinca constantemente com o facto de ser ator e do Método do Actor's Studio que utiliza para interpretar as diversas personagens que faz no programa, e também a presença do Oráculo que, num jeito de pseudo-paródia aos grandes épicos líricos da Antiga Grécia e ao nosso épico «Os Lusíadas», enaltece (ou não) os feitos alcançados pelos heróis desta «Odisseia». Provavelmente um dos programas mais originais e controversos deste século na TV portuguesa, «Odisseia» é um must para quem gosta de humor e destes comediantes em particular. Vai para o ar todos os sábados à noite na RTP1 e todos os episódios já emitidos estão disponíveis no youtube e na plataforma online RTP Play.

O Humorista: proposta televisiva inovadora e vencedora


«O Humorista» é uma das apostas mais relevantes do panorama televisivo da atualidade. Numa quase-homenagem a um género cómico que a série «The Office» ajudou a criar (sendo o personagem João Cunha muito baseado no David Brent do programa de Ricky Gervais e Stephen Merchant), esta série segue o percurso "artístico" de um comediante detestável, execrável, convencido, e praticamente sem jeito nenhum para a comédia, apesar de se achar um génio e que todos os aspirantes a comediantes devem ir a um espetáculo seu se quiserem perceber a genialidade da sua arte.

Numa mistura de realidade e ficção que ultrapassa a comédia de embaraço de «The Office» (que se trata puramente de encenação. Da boa, mas é encenação), «O Humorista» é relatado em género de documentário, em seis episódios de vinte e cinco minutos cada (todos eles estão disponíveis integralmente no youtube, além de serem alvo de valentes reposições da SIC Radical), que nos mostra as reações de João Cunha, "o" Humorista, quando trabalha com outros comediantes ou profissionais das artes de palco, sentindo-se sempre superior em relação aos outros. Já os outros entrevistados, têm sempre reações de surpresa e de humilhação perante aquele miserável ser. Contudo, a maioria não sabe que está diante de uma personagem, criada pelo próprio João Cunha e por Jel (que é co-autor da série e a realiza), e por isso as suas reações são mais autênticas e poucas vezes nos percebemos verdadeiramente onde acaba o real e onde se inicia a encenação, ou vice-versa.
«O Humorista» não é uma série para se rir às gargalhadas, mas para seguir o percurso embaraçoso de um pseudo-stand up comedian que acha que tem o Mundo a seus pés. Mas as desilusões são constantes tanto para ele como para nós, enquanto espectadores e seguidores muito próximos do seu percurso artístico, e mesmo assim, ele não deixa de acreditar no seu estado de semi-divindade em relação aos seus outros colegas de profissão. E por isso é que esta personagem e esta série é tão interessante, tão inovadora na televisão portuguesa, e tão genial. E parece que finalmente a SIC Radical está a regressar em força aos velhos tempos em que lançava grandes conceitos televisivos no nosso país... Finalmente!

Pequeno rascunho sobre os Oscares...


Não costumo ver a cerimónia dos prémios da Academia na sua versão integral. Sinceramente, é uma maçada. Longa demais em certas partes, curta demais noutras, no fundo trata-se apenas de enaltecer os meninos bonitos de Hollywood e que as revistas cor de rosa e o resto dos media gostam de perder o seu tempo, utilizando muito do seu espaço útil para falar do glamour da festa e de certos convidados em particular.
 
Contudo, este ano foi diferente. Seth Macfarlane, o controverso criador das séries «Family Guy», «American Dad» e «Cleveland Show», e mais para breve um remake do clássico televisivo «The Flintstones», e da comédia largamente aclamada «Ted», estreada nos cinemas no Verão do ano passado, foi o apresentador que conduziu a cerimónia número oitenta e cinco dos Oscares. Eu sempre gostei dele, e da sua habilidade para interpretar tantas personagens e tantas vozes distintas em todos os seus programas. Aprecio também o seu humor controverso, estúpido e hilariante, inundado de situações que honram qualquer apreciador do "non-sense" na comédia do pequeno ecrã. Voltei a não ver a cerimónia toda, mas pu-la a gravar e ando a ver bocados das apresentações de Macfarlane (discursos de agradecimento, com exceção do dos senhores Christoph Waltz e Daniel Day-Lewis, passei à frente), que me surpreendeu em parte por conseguir manter o seu humor corrosivo e não ter caído, como Ricky Gervais nos Globos de Ouro (a última apresentação que fez para estes prémios foi já muito suave e sem ponta de qualquer graça), no controlo da Academia e de fazer piadas de "bom gosto". A crítica americana não gostou e Macfarlane, como já está habituado a isso, aproveitou para gozar com a própria situação no espetáculo, reavivando o capitão Kirk de «Star Trek» com a participação especial do ator William Shatner que reencarnou a mítica personagem.
 
É difícil gostar de Seth Macfarlane e da sua comédia, contudo não posso dizer, como outros críticos, que ele foi um dos piores apresentadores da cerimónia. Uma coisa é não se gostar do humor dele, outra é dizer que ele foi um mau comunicador, mau apresentador e mau condutor desta cerimónia. E isso com certeza que não foi. Cantou e encantou, e lá pelo meio disse algumas piadas que feriram a dura sensibilidadezinha do povo americano, habituado a engrandecer-se publicamente - especialmente aquelas celebridades, na sua maioria. Mas enfim, cá se fazem... cá se pagam. Seth arriscou, e para mim, arrasou.
 
Em relação aos prémios, pouco tenho a dizer. Não vi a maioria dos filmes nomeados mas gostei de ver Waltz e Day-Lewis a ganharem o Oscar, de forma merecida. Poderia acontecer aquela coisa da Academia querer colmatar erros antigos e atribuir prémios a quem nunca ganhou, mas estes dois atores merecem. Não são americanos, e tal como os outros nomeados nas suas categorias, são melhores que a maioria dos presentes na cerimónia. Para mim, os artistas têm de receber todos os Oscares que merecem, mesmo que sejam uma dezena ou apenas um. Mas têm de ganhar tudo a que o seu talento e dedicação lhes dá direito. E esses dois atores são um grande exemplo disso. Viva a verdadeira Hollywood, fora do circuito de amiguinhos e "bonzinhos" que toda a gente adora sem razão aparente!

O Cinema vai acabar? Só se o Homem quiser.


Cada vez mais leio, vejo, e ouço coisas sobre o possível fim do Cinema, num futuro próximo. Quando, ninguém sabe. Em relação ao como, a resposta é um pouco mais óbvia, e o porquê posso sem dúvida afirmar que se refere a duas coisas: internet e bilhetes caríssimos para as sessões de Cinema.

Muitas respostas e muitas suposições têm sido feitas sobre o futuro da Sétima Arte. Há quem diga, por exemplo, que daqui a alguns anos os filmes estrearão diretamente nos nossos televisores, podendo os espectadores a eles aceder através do aluguer na box doméstica. Ou seja, vai ser como ver um qualquer telefilme - porque ultimamente cada vez mais são as fitas que se assemelham ao que se faz na caixinha mágica - só que vamos pagar para o ver. E provavelmente o preço não será de todo justo para a qualidade do produto em questão.

Mas muitos se esquecem que, há cerca de cinquenta anos, o Cinema esteve mesmo para acabar, pelo menos nos EUA, pelo maior alcance que a televisão estava a ter junto das audiências. Foi preciso que uma nova geração de cineastas, onde se incluíam os Grandes Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, para as dúvidas se dissiparem e os detratores da arte cinematográfica calarem o pio por algum tempo. Mas e agora?
 
Agora, que estamos numa época em que, ao mesmo tempo se questiona sobre o uso que o papel terá no futuro, se fazem novos e geniais investimentos envolvendo a imprensa tradicional e a leitura manual? Porque é que, sempre que uma nova ideia se impõe, haverá sempre espaço para se profetizar o desaparecimento de outra? O Cinema passa muitas dificuldades, é verdade, mas não será a dizer que se trata de uma Arte em vias de extinção que este poderá ficar mais destruído? Ai opinião pública, opinião pública... apenas aconselho duas coisas: a primeira, para as salas de cinema começarem a reduzir o preço dos bilhetes a números mais acessíveis, compensando mais a ida ao grande ecrã do que a simples espera, dois ou três meses depois, para o lançamento em DVD dos filmes, pouco tempo depois a 1 ou 2 euros nas grandes superfícies, e mesmo os downloads que muitas vezes parecem ter melhor qualidade do que aquilo que se pode ver nas salas. A segunda, queria apenas alertar para essas pessoazinhas verem bons filmes e calarem-se com as suas profecias, nem continuem a dar valor nas apostas futuras de estreia das fitas logo no videoclube. O Cinema é o Cinema e não há nada como isso!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Bom, o Mau e o Vilão: western em estado épico


Existem dois tipos de pessoas no mundo, meu amigo. Aquelas com a corda à volta do pescoço, e aquelas que têm a função de a cortar.


E eis que cheguei ao terceiro capítulo da Saga dos Dólares, o supra-citado, mencionado e aclamado épico «O Bom, o Mau e o Vilão». Sem sombra de dúvida trata-se do filme mais fantástico de toda a trilogia e o que mais rios de tinta fez correr a seu respeito ao longo das décadas. Sergio Leone não filma apenas um vulgar, mas bom western, como se sucedeu em «Por um Punhado de Dólares», nem realizou outro filme entre o estado épico e o género cinematográfico de coboiada, como em «Por Mais Alguns Dólares». Em «O Bom, o Mau e o Vilão», o espectador depara-se com um filme que é muito mais complexo e profundo do que os dois anteriores volumes da saga, e que se eleva a um estado de quase-transcendentalidade que é muito raro um filme conquistar. Do muito pouco de Cinema que por agora eu já conheço, penso que «O Bom, o Mau e o Vilão» foi o único filme em muito tempo que me deixou, tanto durante o seu visionamento como após o mesmo, num estado perfeitamente hipnótico. Algo que já me tinha sucedido precisamente com mais alguns filmes, nomeadamente outras duas obras primas de Sergio Leone - «Era Uma Vez na América» e «Aconteceu no Oeste» -, e «O Bom, o Mau e o Vilão» trata-se, com certeza, de outro desses filmes magistrais e completamente inigualáveis, que mostram a versatilidade e o talento de um realizador que conseguia retratar no ecrã as mais diversas histórias a partir das formas mais peculiares e pouco usuais, mas que são efetivamente geniais.

  

«O Bom, o Mau e o Vilão» retoma as aventuras e desventuras do "Homem Sem Nome", o mais famoso pistoleiro dos westerns com um toque de raviolli, e que desta vez, apesar desse epíteto que os media norte-americanos atribuíram à personagem, é apelidado de "Blondie". O indivíduo e o ator que o interpreta, Clint Eastwood, adquirem uma nova dimensão nunca antes alcançada até então nas histórias dos Dólares, tornando esta personagem num verdadeiro herói, "de carne e osso", algo que os dois outros filmes já tinham trabalhado um pouco (mas não o suficiente, apesar de ter havido uma certa evolução de fita para fita), sem recorrer demasiado aos artifícios "espetaculares" das personagens dos filmes de ação que costumam aliciar a malta masculina em busca de testosterona cinematográfica («Rambo», «Os Mercenários» e afins...), em que os bons e os maus quase não têm sentimentos e se assemelham um pouco a robôs pré-programados. Regressa o ator Lee Van Cleef, que aqui interpreta outra personagem ("Angel Eyes") apesar de utilizar, praticamente, os mesmos acessórios de vestuário (e de armamento também) que o Coronel Mortimer que encarnou em «Por Mais Alguns Dólares». Neste capítulo final, Van Cleef perdeu toda a (pouca) simpatia da personagem anterior, sendo aqui um verdadeiro homicida sanguinário e impiedoso, que não olha a meios para atingir os seus fins. Temos aqui uma grande diferença entre o Bom e o Mau, com Eastwood a ser um "Homem sem Nome" mais humano sério, e de certo modo tocante, contra o odiável e desprezível Van Cleef. E o Vilão? Bem, efetivamente não se trata bem de um Vilão, visto que ele é Tuco (que na tradução original não seria o Vilão - porque efetivamente esse é Angel Eyes, se formos a ver bem pelas características e ações que a personagem nos mostra - , mas sim o Feio - algo que se adequa perfeitamente, basta olhar para a fuça do personagem), um fulano interpretado por Eli Wallach que, por vias do oportunismo ultra-excessivo e completamente propositado, tanto aproveita estar de um lado como do outro da moeda, mas acabando sempre por virar mais para a companhia de Blondie, mas... para ser ele a ficar com o ouro que os três personagens estão incessantemente à procura durante as quase três horas de duração (muito, mas muito bem passadas) de «O Bom, o Mau e o Vilão». Mas é interessante ver como Blondie e Tuco, acidentalmente, se vão aproximando um do outro, por causa da busca dos tais 200 000 dólares. Por momentos até julgamos que eles são bons amigos, mas... é provável que não sejam. É bom salientar também a vertente metaforico-filosófica de Tuco, o que o faz estar constantemente a debitar pseudo-frases marcantes da vida (como o exemplo que utilizei para abrir esta crítica), o que acaba por dar um interesse acrescido ao nível psicológico a esta personagem. As outras duas personagens também o são, mas Tuco tornou-se uma verdadeira surpresa nesse aspecto. 


É interessante também analisar ao pormenor o crescimento da personagem de Clint Eastwood ao longo de toda a trilogia e o porquê de isso se ter sucedido. É algo que está, sem sombra de dúvidas, ligado também ao desenvolvimento artístico do realizador e co-argumentista Sergio Leone, que a cada novo filme dos Dólares soube colocar novos elementos técnicos, cénicos e cinematográficos às narrativas e aos diálogos vividos entre as personagens. É óbvio que cada um dos filmes da trilogia pode ser compreendido sem ser necessário ver os outros, ou que a ordem cronológica de lançamento das obras é irrelevante (visto que, para muitos, «O Bom, o Mau e o Vilão» se trata de uma prequela dos dois volumes anteriores), mas só se pode notar verdadeiramente esta evolução do "Homem sem Nome" e da forma como ele se torna cada vez mais próximo do público, se se vir os filmes pela data de estreia. Embora este terceiro seja o que verdadeiramente se destaca de toda a trilogia, toda ela é de visionamento altamente recomendável. De destacar, mais uma vez, o tom épico e semi-divino da banda sonora de Ennio Morricone (é impossível, para quem conhece a melodia da "theme" de «O Bom, o Mau e o Vilão» - sinceramente, existe algum ser humano que não tenha ouvido já a música? - , não ficar preso logo nos créditos iniciais do filme - e principalmente se se estiver acompanhado de um portentoso sistema doméstico de som), que mostra também sinais de evolução em termos transcendentais e ser uma das maiores obras de toda a História da música feita para Cinema. Tudo isto (a maior densidade das personagens, do mise-en-scène e da banda sonora) se junta a um argumento recheado de grandes diálogos memoráveis que ficam no ouvido e na mente do espectador e que de lá não irão sair por muito tempo. 


Este filme mostra um Sergio Leone em estado de graça (estado esse que é presenciado, de outras maneiras, nas outras duas obras primas do Mestre que mencionei no primeiro parágrafo), no expoente máximo da sua criatividade (que, felizmente, persistiu para os filmes seguintes), sendo um grande épico western, que envolve a guerra civil americana e a forma algo filosófica, e ao mesmo tempo divertida, como Blondie e Tuco se metem no meio do conflito que faz parte dos livros de História americanos. Para terminar, e porque não me resta mais nada a acrescentar a esta obra magistral, apenas refiro a única coisa que não gostei em «O Bom, o Mau e o Vilão»: que tivesse acabado. Por mim, ainda hoje, passados três dias de ter visto o filme, eu continuaria a acompanhar as tropelias e pistolarias do "Homem sem Nome", sem sombra de dúvidas. Não em formato non-stop, porque não possuo vista para isso. Mas fiquei tão agradado com este filme que me entristeci muito quando chegou ao fim e me apercebi que não havia mais. Mas por si só, esta é uma fita que deve ser vista várias vezes. Tenho a noção que muita coisa boa me escapou neste primeiro visionamento, e já tenho, pelo menos, uma dezena de revisões prometidas a mim próprio até ao final da minha existência. Porque tem de ser.

* * * * *

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Por Mais Alguns Dólares: mais alguma coboiada


Um ano depois da estreia do primeiro volume das aventuras do "Homem sem Nome", o realizador Sergio Leone e o protagonista Clint Eastwood regressaram para dar continuidade a uma das trilogias mais conceituadas da Sétima Arte, com «Por Mais Alguns Dólares», um filme mais longo, mais profundo e melhor do que o seu antecessor, e que vinca ainda mais algumas das marcas de estilo que caracterizariam, para os estudiosos e para os espectadores, a cinematografia única de Leone, que marcou todo o conceito de "spaghetti western" e que ao cineasta deve muito a sua qualidade. Pegando na mesma personagem e nos seus costumes incontornáveis (como por exemplo, o facto de estar sempre com o charuto na boca) protagonizado por um Clint Eastwood em completo estado mítico, e praticamente na maioria das pessoas que fizeram parte da equipa técnica do primeiro filme da trilogia, «Por Mais Alguns Dólares» eleva-se pela quantidade/qualidade de cenas lendárias e de profunda mestria que marcaram a História do Cinema. Trata-se de um filme mais consistente, mais detalhado e mais criativo, onde Sergio Leone aproveita ainda mais o espaço cinematográfico e a narrativa para criar grandes sequências que provam o porquê da magnificiência da Arte cinematográfica, e da Arte feita por Leone em particular. 


«Por Mais Alguns Dólares» tem Eastwood, um novo vilão (embora seja interpretado pelo mesmo ator) e uma nova companhia para o "Homem sem Nome": o Coronel Mortimer, interpretado por Lee Van Cleef (ao menos temos mais uma personagem cujas falas encaixam nos movimentos da boca, visto que se trata de um ator americano), um caçador de prémios que se junta a Eastwood para angariarem uma boa pipa de massa  apanhando um bando de criminosos muito procurado, desejando também concretizar o seu plano de vingança devido a uma causa que apenas conheceremos exatamente do que se trata no final do filme (e por isso vou fechar este assunto já aqui). A adição deste co-protagonista à história do filme auxilia também ao maior interesse e à maior complexidade da história da saga, visto que agora temos duas figuras centrais com que nos "preocupar" e que, por se tratar de um ator do mesmo país de origem do de Eastwood, faz-nos perceber que também se destaca de todos os outros personagens. O filme é feito desta dupla e de todas as peripécias que vão viver para alcançarem o seu objetivo, enquanto exploram os movimentos do grupo de maltrapilhos chefiado pelo temível (e mais lucrativo - para os "bounty hunters") pistoleiro Índio (um vilão que tem algumas das mesmas características do antagonista de «Por um Punhado de Dólares», além de ser interpretado pelo mesmo ator: é sádico, mais ou menos inteligente, precipitado e cobarde sem ter a pistola por perto - mas quando tem uma arma em punho, torna-se sanguinário e imparável), que pretende assaltar o altamente protegido Banco de El Paso e levarem o cofre camuflado de móvel de madeira que passaria despercebido de qualquer ladrão normal e não-informado previamente. Tudo isto ambientado nas cidades poeirentas e algo desprezíveis que caracterizam a perspetiva do género "western" em versão italiana, e com a grande banda sonora de Ennio Morricone que, tal como todo o filme, consegue superar a fita original, que não passava de um bom remake de um filme de Kurosawa com algumas ideias originais, mas com poucas razões para se tornar inesquecíveis. «Por Mais Alguns Dólares» pode não ser uma obra prima, mas é muito mais inovador, progressista e fantástico do que «Por um Punhado de Dólares». Sergio Leone foi constantemente aprimorando a sua visão cinematográfica, e este filme justifica bem esta minha afirmação. Basta ver a obra com atenção e notar-se-ão diversos planos de câmara e cenas que já se tornaram alvo de muitas imitações por parte de diversos cineastas nas últimas décadas.  


Em termos de técnicas cinematográficas e que são indissociáveis do estilo de Sergio Leone, em «Por Mais Alguns Dólares» há uma que aparece mais e que em «Por Um Punhado de Dólares» era completamente inexistente: a lentidão dos movimentos de câmara, muitos deles fixos e centrados na cara dos personagens (os míticos planos que Quentin Tarantino utiliza nos seus filmes - e principalmente no seu último trabalho, o "eastern" «Djando Libertado - , referindo-lhes mesmo como os planos Sergio Leone), que provoca tensão tanto no espectador como nas personagens e que nos mostra que pode haver suspense mesmo nas cenas mais simples e nas ações mais rápidas de uma narrativa (nunca a preparação para a morte e a ocorrência do óbito demorou tanto tempo num filme, diga-se de passagem).. Contudo, este estilo poderá não ser muito apreciado para aqueles que não gostarem deste género de filmes, nem para quem procura ação pura e dura e em efeito "non-stop". Contudo, isto a mim é o que faz verdadeiramente sentido, principalmente num western. E foi esta ideia de lentidão com que a cultura divulgou o Velho Oeste e as suas lendas (tal como os ditos duelos, silenciosos e nervosamente intermináveis), e acho que Sergio Leone sabe retratar isso como ninguém. Mas como em tudo na vida, gostos são gostos, que são completamente indiscutíveis, visto que cada um possui opiniões diferentes das coisas. Mas eu não hesitaria em recomendar «Por Mais Alguns Dólares» a qualquer apreciador de filmes e a todo o explorador de novas artes e novas perspetivas da magia dos filmes. Com «Por Mais Alguns Dólares», a saga melhora a olhos vistos, pronta para o desfecho excecional (para muitos - espero que comigo também seja o caso) que foi o terceiro filme, «O Bom, o Mau e o Vilão». 

* * * * 1/2

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Pai Tirano da Coreia do Norte

Ai que querido qu'ele é, a bater as palminhas, o Kim Jong-un!
Como não tenho visto novos filmes nos últimos dias não tenho tido razões para fazer uma daquelas bizarrices que dão pelo nome de críticas cinematográficas. Contudo, com as novidades que todos nós pudemos saber esta semana da terra do Kim (e de outras coisas também, mas para mim falar de ditaduras tem mais graça - no mau sentido, obviamente), não pude deixar de fazer bastantes associações entre grandes obras que inspiram o culto da cinefilia e a situação do país (e de todo o medo que pretende espalhar pelo mundo). Veja-se a "inspiração" que eu tive para o título deste post (que nada tem a ver com o tema em si, mas que se lhe encaixa que nem uma luva). Kim Jong-un é o "querido líder" (que é ainda mais querido e fofinho com toda a sua população) da população norte-coreana, e ultimamente tem andado pelas bocas dos media, devido a duas coisas que têm um ponto em comum: bombas. Uma envolveu um hipotético sonho alegre e feliz do Paizinho coreano em que "arrebentava" tudo em Nova Iorque que até dava um espetáculo lindo de se ver - pelo menos para o Jongzinho, visto que deve ser a única pessoa de que eu tenho conhecimento que faz a sua felicidade através de previsões apocalípticas. Este sonho foi divulgado num vídeo que foi enviado, com toda a cordialidade, para os EUA. A outra coisa foi o ensaio nuclear que fizeram há poucos dias. Ah, o cheirinho a hipotética guerra que anda pelo ar, hmm? Esperemos que nada aconteça, mas não consigo deixar de recear um pouco pelo nosso planeta e por todas estas "brincadeirazinhas" políticas que os ditadores e outros estadistas gostam de planejar. São ameaçadoras, e mesmo muito alarmantes. Mas não quero alertar ninguém para nada. 

Talvez isto seja tudo uma paranóia da minha parte, mas... há qualquer coisa nesta história toda que me cheira a esturro. E talvez o Kimmy tenha já um plano todo detalhadozinho como destruir a Terra e expandir a sua "querida" nação para o resto do globo, que estará nessa altura ainda menos utilizável do que hoje em dia (são as desvantagens das bombas nucleares, lá está. Das bombas nucleares e de qualquer tipo de bombas, mas enfim...). Mas força aí Kimmizão! 'Tamos contigo! Implanta uma áurea de ditadura, perigo e opressão pelo mundo! É isso que todos nós estamos a precisar: mais um regime que pretende destruir o pouco que resta da humanidade e sensatez que caracteriza a nossa espécie.

Uma das comparações cinéfilas que tenho feito ultimamente na minha cabecinha em relação à situação norte-coreana (eu faço diversas - adoro conseguir meter o Cinema em todo o género de temáticas), em termos mais concretos, envolve o filme de culto «Dr. Strangelove», de Stanley Kubrick. A obra prima da sátira política e social que em tudo seria igual se fosse feita hoje, mas apenas se mudaria a Rússia como a Coreia do Norte. Não tenho dúvidas que há aqui uma nova pseudo-Guerra Fria no ar e há muita coisa envolvida que nem nos passa pela cabeça. E tudo não passa de uma paródia... para os dirigentes políticos em questão, tal como nos mostra o filme ("por favor não lutem aqui, isto é a sala de guerra!"). E sinceramente, tenho algum receio de tudo isto, de todas estas notícias que vêm da Coreia do Norte. Do futuro nada sabemos, e mais vale não nos preocuparmos por antecipação. Mas co'a breca, ouvir este tipo de coisas deixa um pequeno "zum-zum" cá dentro. Contudo, só o tempo dirá se houve razão para estas especulações sobre o futuro do planeta. Mas tenham cuidadinho. É melhor começarem a pensar em encher a reserva de enlatados. Depois não digam que eu não avisei!

Livros usados: o dilema

Num livro português dos anos 60 que encontrei aparece um aviso no início a alertar as pessoas para verificarem se não compraram um livro já usado. Termina com a frase "Defenda a sua saúde não manuseando livros usados". Ocorreram-me duas coisas: trouxe este livro da biblioteca (logo... a minha saúde está em risco?), e há cinquenta anos havia tanta mania dos germes como há hoje em dia. Nada mudou. Era tudo germofóbico já nos anos 60.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

14 de fevereiro...

... o único dia do ano em que os adolescentes solteiros se convencem seriamente que estão melhor sozinhos.

Psycho regressa


«Psycho», de Alfred Hitchcock, regressou aos cinemas. Esta é uma ótima oportunidade para ver (ou rever) no grande ecrã um grande clássico da Arte que é a Sétima. E mais: é bom poder ver que este se trata de um realizador cujos filmes continuam a provocar mais tensão e medo, depois de terem sido feitos há tanto tempo, do que todos os capítulos da saga «Saw», uma das obras conhecidas recentes de terror. Mas terror a sério há apenas em Hitchcock.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Ultraleve: a música tuga não é Chata

Esta música trata-se de uma grande descoberta que eu fiz na noite de ontem. Um delírio pop tuga com uma letra carregada de verdade e humanismo (ou seja, eu já chamei "chata" a muita gente), e tem co-autoria do Nuno Figueiredo, um dos Virgem Suta, agora envolvido neste «Ultraleve» com o Bruno Vasconcelos dos Pinto Ferreira. Vale a pena ouvir, parece-me que temos aqui um novo projeto de música portuguesa bem interessante! :)

O Despertar da Mente (Eternal Sunshine of the Spotless Mind)


How happy is the blameless vestal's lot! 
The world forgetting, by the world forgot. 
Eternal sunshine of the spotless mind! 
Each pray'r accepted, and each wish resign'd.

É do poema «Eloisa to Abelard» do autor Alexander Pope (do qual estão transcritos quatro versos neste post) que surgiu o título original para «O Despertar da Mente», este romance genial escrito pelo imparável Charlie Kaufman (que se trata, provavelmente, de um dos argumentistas mais originais que Hollywood deu ao Mundo nos últimos anos, responsável também por outros filmes tão inovadores como «Inadaptado» e «Sinédoque, Nova Iorque», filme este que também realizou), realizado pelo francês Michel Gondry (e que teve com este filme o seu trabalho mais notável e reconhecido) e protagonizado pelos dois surpreendentes Jim Carrey e Kate Winslet comprovou que o Cinema contemporâneo ainda tem muito de bom e de novo para proporcionar aos espectadores, utilizando novas fórmulas e novas perspetivas cinematográficas, não deixando escapar, contudo, a humanidade nas histórias que o público sempre gosta de ver no ecrã. Sendo aclamado pelo Mundo fora como um dos melhores filmes do século XXI e por diversos críticos americanos e europeus, «O Despertar da Mente» revela ser um filme muito bonito, e sem dúvida, muito identificável para cada ser humano. Este filme foi um autêntico murro no estômago para quem já estava desacreditado da arte cinematográfica e centrava as suas atenções unica e exclusivamente para as novidades do mundo televisivo. Contudo, a Sétima Arte é ainda o único meio que consegue retratar as histórias e paixões humanas de uma forma mais profunda e poética, e que puxa mais por nós.


Por vezes, a nossa memória falha tantas vezes que até nos parece que foi "remexida" misteriosamente. E noutras vezes, nós é que gostávamos que a nossa cabecinha não se lembrasse de certos e determinados acontecimentos, principalmente nos momentos menos adequados para a lembrança dessas recordações. E neste filme, que mistura em parte alguma ficção científica, esta ideia, que a todo o indivíduo surge de quando em vez, é totalmente materializada. «O Despertar da Mente» é a história de Joel (interpretado por Jim Carrey, num dos papéis mais impressionantes de toda a sua carreira, pontuada excessivamente demais pela participação em comédias totalmente idiotas e sem qualquer tipo de piada), que depois de perceber que Clementine (Kate Winslet numa personagem completamente eletrizante, irrequieta e poeticamente bonita) apagou da sua memória todas as recordações que guardou do namoro que teve com ele, decide enveredar pelo mesmo processo e conseguir, de uma vez por todas, esquecer uma relação que terminou de uma maneira muito triste. Contudo, à medida que o processo de "apagamento" de Clementine prossegue, Joel apercebe-se que não quer perder, apesar de tudo, os bons e memoráveis momentos que viveu com ela. E em várias tentativas de "fuga" à lavagem cerebral, ele vai tentar vencer aquela batalha mental, deambulando pelos seus mais inúmeros pensamentos e memórias. Mais uma mensagem que se adequa perfeitamente à nossa realidade, "humana" e menos ficcional: provavelmente sentimo-nos também assim muitas vezes, com estas necessidades de apagar as memórias más da nossa vida, mas não serão mesmo essas memórias que causaram as memórias boas ou são causadas pelas mesmas, e/ou vão criar algo melhor que se sucederá nas nossas vidas? «O Despertar da Mente» mostra ser, por isso, um romance com toques de comédia que nos mostra todas as falhas que as relações amorosas possuem e que são inevitáveis. E que por terem esse grau de inevitabilidade não devem ser vistas como algo que nunca pode nem deve falhar, porque irá sempre haver qualquer coisa que escapará à perfeição desejada para uma relação. Nada é perfeito, e se formos a ver bem, se tudo assim fosse, qual seria a graça da vida?


«O Despertar da Mente» possui uma bonita fotografia e uma montagem consistente e quase sempre bem ritmada, que perdeu para mim algum efeito por se tornar demasiado rápida em certas partes de uma maneira despropositada. Contudo, este filme é surpreendente e impressionante pela sua originalidade e inventividade (que poderá não agradar a todos - aliás, os filmes escritos por Charlie Kaufman nunca costumam ser consensuais), e é um mimo ver Jim Carrey e Kate Winslet nesta obra, interpretando um casal apaixonado, real, e muito humano. A maior surpresa é sem dúvida Carrey que mostrou mais uma vez a sua versatilidade, como é habitual nos poucos projetos diferentes da "palhaçada" com que ficou conhecido e que lhe dá mais dinheirinho (recomendo, dentro dos ditos "poucos" projetos: «The Truman Show: A Vida em Direto», «The Majestic» e «Homem na Lua»), mas Winslet é igualmente magistral no ecrã. O filme não retrata só os desamores de Joel e Clementine como também das quatro restantes personagens centrais da trama, que são os próprios clínicos que fizeram as operações de "apagamento" de memórias. O que nos prova também a humanidade das personagens e como elas próprias se sentem vulneráveis em relação ao produto que vendem. A vida faz-se dos pequenos momentos, mais relevantes para cada um de nós e para a nossa felicidade do que as partes mais pessimistas da existência humana. E mesmo que queiramos esquecer o lado mau da vida, este é indissociável das partes boas da mesma.

* * * * 1/2

domingo, 10 de fevereiro de 2013

O Caçador (The Deer Hunter)


Um ano antes de Francis Ford Coppola ter dado ao Mundo a sua visão inigualável, inesquecível e algo surreal do Vietname que dá pelo nome de «Apocalypse Now», o realizador Michael Cimino, na altura ainda relativamente desconhecido do grande público cinéfilo ao nível global, lançou o épico «O Caçador». Cimino era um "outsider" de Hollywood, cuja excentricidade conquistou em 1978 o mérito e aclamação do público e da crítica, e de entre toda a curta filmografia que realizou, este continua a ser o seu filme mais famoso e marcante. Hoje em dia, Cimino está "escondido" do mundo cinematográfico (há algum tempo deu sinais de vida, aparecendo no twitter e mostrando a sua admiração por Paul Thomas Anderson e pelo seu mais recente filme «The Master - O Mentor»), em parte pelo o prejuízo e fraco reconhecimento que os seus filmes posteriores tiveram nos EUA (nomeadamente o anti-western «Heaven's Gate - As Portas do Céu»). Mas felizmente, o cineasta deixou para a posteridade, pelo menos, um filme que garantirá a sua imortalidade para a Sétima Arte. E esse filme é «O Caçador».


Com uma densidade e uma profundidade cinematográfica e humana de proporções inigualáveis, «O Caçador» é a história de três amigos e das suas vidas antes, durante e depois de terem participado na Guerra do Vietname. Mike (Robert de Niro), Nicky (Christopher Walken) e Steve (John Savage) decidem partir para o conflito após o casamento deste último, e antes de se despedirem da "aldeola" onde vivem, combinam uma última caçada nas montanhas (daí o título da obra). Mais tarde, quando saem da guerra e as suas vidas seguem rumos opostos, apercebemo-nos da forma como o combate modificou, fisica e mentalmente, aqueles três amigos. Durante a guerra, vemos a tortura e o sofrimento a que são submetidos (a famosa cena da "roleta russa", um dos pontos mais fortes e mais dramáticos de toda a ação da fita), e depois damos conta das marcas que tudo aquilo lhes deixou para o futuro. Contudo, não é tanto a guerra o tema central de «O Caçador», mas sim a forma como o ser humano age em diferentes situações. Antes de partirem para o Vietname, vemos a festa do casamento de Steve e a forma jovial e bem disposta como o trio encara a partida para a guerra (apenas algum do patriotismo exagerado dos americanos a tomar as suas funções), mas durante alguns segundos aparece um oficial vindo do conflito que não responde às perguntas dos três curiosos sobre como é a guerra. E penso que este pequeno momento nos diz de tudo o que se irá passar de seguida. Mas é muito interessante, não só de um ponto de vista histórico como também psicológico, acompanhar as situações com que o trio se depara. Acho que nos ensina bastante sobre os horrores da guerra e um conflito que nunca poderá voltar a acontecer. Alguns prevêem, num futuro próximo, uma guerra mundial entre China e EUA. «O Caçador» mostra como qualquer guerra é estúpida, independentemente do que está em jogo, algo que todos os bons filmes do género fazem.


«O Caçador» é um filme muito rico em termos de simbologia cinematográfica, visto que constitui planos subtis e movimentos de câmara engenhosos (como por exemplo, as gotas de vinho que a noiva entorna no seu vestido - um pequeno pormenor tão insignificante que, além de também nos dar uma "previsão" do futuro daquela personagem se se perceber o contexto da cena, consegue fazer completamente a diferença, tornando mesmo cada detalhe sem interesse num ponto de paragem do nosso olhar). Recheado de momentos altamente engenhosos e complexos, que muitas vezes não precisam de qualquer diálogo para estarem repletos de emoção e drama (veja-se, por exemplo, a cena do regresso dos amigos depois da caçada, e da sessão de piano tocada por um deles e que move a transição da calma e estabilidade da "aldeola" para o perigoso e terrível cenário do Vietname. E a partir daí, «O Caçador» adquire um ritmo vertiginoso, muito pesado e ainda mais real. Outro exemplo é o magnífico final do filme, com a música «God Bless America» como pano de fundo). Auxiliado por uma lindíssima banda sonora (com uma "theme" que usa poucas notas e mínimos instrumentos, mas que tem uma força excecional), esta obra magistral de Michael Cimino mostra a dura realidade da guerra de uma forma fascinantemente bonita e com uma qualidade impossível de ser superada.


«O Caçador» pode ser visto, para concluir, como uma autêntica desconstrução das "regras" do género épico e dos filmes de guerra, uma rebeldia que continua a influenciar diversas gerações de cineastas e que permanece muito atual e viva (não é para menos: «O Caçador» está incluído, por exemplo, na lista dos 100 Melhores Filmes Americanos de Sempre do American Film Institute). Esta desconstrução é feita através de uma forma de protesto cinematográfico contra os grandes épicos certinhos de Hollywood, que não pretendiam, na sua maioria, retratar a realidade crua das coisas. Esta ação de inovação marcou, na altura, a aclamação mundial de Michael Cimino, mas mais tarde, com o elevado prejuízo de «Heaven's Gate», o autor começou a ser esquecido pela máquina de Hollywood. Mas volto a repetir, quando se faz um filme como «O Caçador», qualquer cineasta bem pode encostar-se à sombra da bananeira e perceber que já conseguiu deixar o seu contributo fundamental para a História do Cinema. Porque «O Caçador» não é só, provavelmente, um dos melhores filmes de guerra de sempre, como um dos mais perfeitos estudos sobre o poder das Imagens em Movimento na nossa forma de reagir a um dado acontecimento. Esta obra termina de uma forma assustadoramente filosófica e que nos deixa muito para sentir e ainda mais por esclarecer. E penso que o ano de 1978 foi dos poucos em que a Academia se apercebeu que um "Melhor Filme" trata-se de uma obra que consegue ser muito mais do que um mero filme. E um desses casos raros e excecionais dá pelo nome de «O Caçador»!

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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Barry Lyndon: a conquista da alta sociedade

Singular, belo, subtil e irónico. Nestes quatro adjetivos penso que consigo resumir tudo o que «Barry Lyndon», que se trata "apenas" de mais uma obra prima do genial Stanley Kubrick (cineasta que dispensa qualquer tipo de apresentações). Mas como o filme foi, para mim, bom demais para se dizer tão pouco sobre ele, vou tentar desenvolver a minha opinião (se bem que os resultados não serão os mais desejados). Repleto de exuberantes e deslumbrantes paisagens, inspiradas em quadros de pintores da época e que são muito bem aproveitadas pela lindíssima fotografia do filme, e com um elenco de excelentes atores (destacando Ryan O'Neill, o protagonista desta saga sobre a busca da ascensão social), «Barry Lyndon» é um filme que, tal como todas as obras pertencentes ao universo kubrickiano, mostra a versatilidade e criatividade de um cineasta que queria sempre ultrapassar as fronteiras. Cada um dos seus filmes enquadra-se num género cinematográfico distinto e numa história completamente diferente, e contudo, consegue encaixar-se em qualquer proposta de uma maneira diferente e profundamente original. «Barry Lyndon» não é exceção à regra: é uma crítica a uma época e a uma classe social que eu não estava a pensar que fosse tão perturbante e bonita, vindo do realizador de filmes como «2001: Odisseia no Espaço» e «Laranja Mecânica». Apesar de ser um filme que divide mais opiniões do que estes dois últimos citados, penso que fiz muito bem em ver «Barry Lyndon». Para mim, foi uma experiência inesquecível e mesmo educacional. Enquanto estava a pesquisar sobre o filme descobri que, para o realizador Martin Scorsese (outro incontornável Mestre da Sétima Arte), este é o seu filme preferido de Kubrick (com o qual tinha investido alguns minutos da sua "Viagem pelo Cinema Americano" para explicar a sua simbologia e a forma como foi magnificamente filmado). E para mim, «Barry Lyndon» tornou-se um dos Kubricks de eleição. Não é um filme que toda a gente tenha paciência para ver até ao fim, mas os apreciadores da obra do cineasta e de filmes diferentes do costume deverão gostar de visionar «Barry Lyndon». Não é um filme de entretenimento no mais literal sentido da palavra (e tenho de ser sincero, entretenimento é coisa que há pouco nesta fita), mas é um filme que representa o melhor que o Cinema pode oferecer aos cinéfilos ou aos que são apenas curiosos da Sétima Arte. «Barry Lyndon» trata-se de um filme "especial", que nos envolve no enredo, nas personagens e no ambiente se nós deixarmos que isso aconteça.

Basta olhar para esta paisagem e percebe-se que é digna de um quadro!
«Barry Lyndon» segue o século XVIII e a vida de Redmond Barry, um moço irlandês que devido a um conflito que envolveu temáticas amorosas, se vê obrigado a fugir do seu lar e percorrer Mundo. Um filme que rodeia todo o seu conteúdo à volta de duas palavras: "alta sociedade". É um retrato das maneiras que Redmond utiliza para ascender socialmente como também é uma crítica à repressão de sentimentos que as pessoas da época faziam para não causarem má impressão ou opiniões indesejáveis junto dos outros (algo que também pode ser visto noutro filme, mas realizado por Orson Welles, «The Magnificent Ambersons»). Em «Barry Lyndon» encontramos também a falsidade e a hipocrisia que circundava toda uma perspetiva de vida de uma classe social (neste caso, a alta nobreza) através desta sublime odisseia de Redmond pela mentalidade e pelos costumes do século das Luzes. E apercebemo-nos também da mudança que se sucede dentro do próprio protagonista do filme, à medida que este ascende mais e mais na sociedade do seu tempo e à medida que o seu estatuto se torna cada vez mais significativo. E todas as aventuras de Barry, desde a participação numa guerra até ao casamento com uma moça pertencente a uma família nobre muito rica, foram todas causadas por um único e simples acontecimento. É daquelas coisas de tamanho insignificante, mas que são essenciais para uma certa e determinada história se desenrolar de uma certa e determinada maneira: ou seja, se Redmond não se tivesse apaixonado pela prima (algo que vemos logo no início do filme - portanto, não estou a "spoilerizar" nada), ele não teria saído da sua "zona de conforto" e partido rumo ao desconhecido. Essa paixoneta desencadeou todos os acontecimentos que se lhe seguiram e levaram Barry a tornar-se naquilo que podemos ver ao longo das quase três horas de «Barry Lyndon». Não acredito que a história deixasse de ser interessante se não tivesse seguido este rumo, mas acho que marcou a diferença ao ser feita desta forma. O que me fez considerar que «Barry Lyndon» é, sem sombra de dúvida, mais um filme inigualável de Stanley Kubrick!


Com todas as análises e reflexões que já foram feitas sobre esta magnífica obra, resta-me muito pouco a dizer sobre a mesma que ainda não tenha sido referido por alguma individualidade, dentro ou fora dos recantos da internet. E como não costumo chegar àquelas conclusões brilhantes e mega-filosóficas que muitas pessoas conseguem atingir quando visionam filmes com esta magnitude, também não conseguirei descobrir essas coisinhas ainda não referidas por ninguém. Por isso não me resta mais nada a acrescentar. E esse foi o meu grande dilema: saber o que ia escrever para esta crítica. Vi o filme há quase três semanas e só hoje é que consegui concluir esta análise. Fui adiando isto até que há alguns minutos atrás decidi que tinha de terminar a minha pseudo-recensão crítica. E como puderam ver, eu não soube dizer nada de especial (para não variar...). Mas apenas vos quero dizer que vale muito a pena ver «Barry Lyndon» e saborear cada segundo do filme, cada plano, cada diálogo, minuciosamente executado e magistralmente dirigido por Stanley Kubrick. Talvez fosse este o maior poder do Mestre: fazer filmes que ultrapassam a nossa capacidade mental e que nos impedem de conseguir deitar cá para fora todas as sensações que obtivemos com o visionamento dos mesmos. «Barry Lyndon» trata-se, em suma, de um filme absolutamente fantástico e completamente imperdível. E está tudo dito.

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Quinteto Era de Cordas (The Ladykillers)


«O Quinteto Era de Cordas» é uma das comédias britânicas mais famosas de sempre e um marco indiscutível do humor cinematográfico tanto para as Terras de Sua Majestade como para os próprios EUA (o argumento do filme foi nomeado para um Oscar e há poucos anos atrás os irmãos Coen fizeram um remake deste clássico adaptado ao estilo americano e mais moderno de se fazer Cinema). Respeitando a receita e os ingredientes fundamentais (um enredo divertido, personagens acutilantes e um baixo orçamento) para a execução de uma comédia que, para além de ser muito boa, é diferente das demais, «O Quinteto Era de Cordas» revela-se uma boa surpresa mesmo em 2013, passados quase sessenta anos da sua estreia original, e apesar de já haver a versão mais recente disponível para ser visionada. Contudo, se compararmos o remake dos Coen com este original (tinha visto a versão dos irmãos há uns dois ou três anos, e até gostei), consigo perceber onde é que a dupla de cineastas falhou em relação ao filme que as inspirou: eles não conseguiram passar a "essência" humorística da comédia dos anos 50 para a versão do século XXI. E apesar de ser um filme agradável e com boas interpretações, não consegue ultrapassar a graça, o estilo e a versatilidade dos atores originais e dos diálogos tão bem ritmados da fita original. E pensei antes de ver esta obra que, por ter visto o remake primeiro, ficaria demasiadamente influenciado pelo que já conhecia da história, mas muito pelo contrário: este filme tem tanto para explorar e tanto para descobrir que me esqueci quase completamente que já tinha visto aquela história (se bem que com algumas - e relevantes - diferenças) em "algum lado". E isso nem todos os filmes vítimas de remakes conseguiram fazer, afastarem-se da sombra dos seus "descendentes" e continuarem a ser únicos e inigualáveis.


«O Quinteto Era de Cordas» segue as desventuras de um grupo de ladrões que pretende fazer um grande assalto que envolve uma elevada quantidade de dinheiro. Através de esquemas intrincados e armadilhas bem planeadas, este bando pretende alcançar o seu objetivo de todas as maneiras possíveis, usando também a casa de uma senhora de idade, que vive sozinha mas que está sempre acompanhada (veja-se a patética antítese que eu acabei de criar devido ao facto de não saber escrever como deve ser) pelas suas aves de estimação, para poder executar o "grand finale" do seu golpe. Nela fica hospedado o chefe do grupo de criminosos (interpretado por Alec Guinness), um excêntrico génio do crime que neste assalto vê a sua criação mais espetacular de sempre, que traz todas as tardes os seus quatro colegas a casa da dita senhora, fingindo que são um quinteto de cordas amador que necessita de ensaiar muito para melhorar a sua "arte". Acreditando na história do grupo, a senhora começará a passar as tardes a ouvir a música "tocada" pelos artistas no andar de cima da sua casa, enquanto os bandidos aproveitam para acertar os pormenores do golpe e, após a sua execução, os procedimentos que deverão tomar para poderem sair limpos do caso. Tudo isto faz parecer com que o sucesso do quinteto é garantido, mas a presença da simpática e humilde idosa irá trocar muito as voltas dos cinco criminosos, criando uma sucessão de situações e "gags" que, além de fazerem rir, mostram como a simplicidade da senhora ultrapassa toda a malvadez daqueles cinco malfadados ladrões de meia tigela.


Brincadeiras à parte, «O Quinteto Era de Cordas» retrata um certa perspetiva de vida ainda com grandes toques de ruralidade e pouco avanço urbano, comum na Grã-Bretanha da época ainda dominada em parte pelas consequências da II Guerra Mundial (veja-se uma das cenas iniciais, em que a senhora mostra a casa ao chefe do bando, referindo o cuidado que o seu futuro inquilino deve ter com o segundo andar, que ficou algo danificado devido ao conflito). Mas deixando as reflexões sociológicas, psicológicas ou filosóficas para os que se são entendidos nessas matérias, continuemos: a subtileza dos diálogos e dos planos de câmara (que realçam, em parte, algumas cenas cómicas, que exigem com o seu "timing" uma maior precisão fílmica) e a caricatura das situações e das personagens torna-se um exemplo puro do humor clássico à maneira exclusiva da Inglaterra, repleto de execuções brilhantes e acutilantes de comédia que podem ser exemplo ainda hoje para muitos que queiram fazer filmes cómicos (um género que, a ver pela grande parte das produções que são feitas hoje em dia, bem está a precisar de ideias frescas e novas. Talvez os produtores e  os argumentistas encontrem alguma nova inspiração nestes filmes clássicos - sem precisarem de entrar na via da "cópia"pura e dura dos mesmos...). «O Quinteto Era de Cordas» revela a tradição da comédia britânica em todo o seu esplendor, contendo diversos enganos e tropelias entre as personagens que farão as delícias de espectadores de todas as idades.


Mas além de possuir uma das suas mais fortes componentes no argumento, é preciso do filme mencionar merecidamente o fabuloso leque de atores que compõe as personagens tal e qual as vemos no ecrã. Penso que no geral todos os atores estão extremamente bem (encontramos também um Peter Sellers nos primórdios da sua carreira artística no Cinema - apesar de não oferecer uma das suas melhores performances, é interessante acompanhar, sempre pelo lado "geek" da coisa, os primeiros passos do futuro génio mundial da comédia, como o podemos fazer com este filme), mas há duas "menções honrosas" que merecem ser atribuídas: uma dessas menções vai para Katie Johnson, a simpática personagem que acolhe os bandidos, que se trata de uma senhora tão querida e tão simpática que é impossível não termos pena dela à medida que se vai desenrolando toda a trama da fita. É uma senhora como deve ser, bem educada e sempre atenta aos que o rodeiam, e que seria uma Avó perfeita para os filhos dos seus filhos. A outra menção vai para Alec Guinness, que aqui entra num papel cómico que eu não estava nada à espera. Sempre tive uma imagem deste ator a interpretar papéis mais sérios e dramáticos (como por exemplo nos épicos de David Lean como «Lawrence da Arábia» e «Doutor Jivago», como também na trilogia original de «Star Wars»), e por isso foi uma grande surpresa ver este Grande ator, um perfeito gentleman, a fazer papel de parvo. Mas mesmo assim, um parvo com muita graça, o que me fez ver que devo explorar mais a vertente humorística de Guinness (deixou mais umas pérolas dentro do género que, pelo que andei a ler, devem ser vistas) e também comprovar a versatilidade e diversidade de papéis que o ator interpretou e sempre com o maior dos profissionalismos, sendo hilariante nesta personagem. Pouco mais tenho a dizer sobre este filme, mas apenas posso acrescentar que há certas coisas que deveriam permanecer intocáveis, e «O Quinteto Era de Cordas» é uma delas, visto que vale por si e não necessitava de nenhum remake. Este é um filme que continua superior às imitações e ainda motivo para se soltar umas boas gargalhadas, sendo altamente recomendado para os apreciadores das grandes comédias clássicas dos anos 50, como também para aqueles que apenas viram a versão dos Coen (para perceberem que, se ficassem apenas pelo remake, perderiam a melhor parte disto). Uma grande comédia que deve continuar a ser vista.

* * * * 1/2  

Parabéns, "Little Tramp"!


Precisamente no dia de hoje, há 99 anos, Charlie Chaplin deu a conhecer ao Mundo uma das personagens mais marcantes e influentes de toda a História do Cinema, e que a ele ficará eternamente associada. Talvez o maior símbolo (e o único que verdadeiramente resistiu ao tempo) do poder do silêncio na arte cinematográfica e da importância da simplicidade na vida de cada ser humano, Charlot "É" cada um de nós, ele representa toda a humanidade da nossa espécie e todas as nossas capacidades e perspetivas de vida. E continua tão atual hoje como o era em 1914.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Cinema e Justiça



Num tempo em que estamos sempre a questionar a nossa classe política e as convicções dos indivíduos que estão "lá em cima", aconselho que vejam este eterno clássico do Cinema, «Peço a Palavra». Realizado por Frank Capra e protagonizado por James Stewart, este filme é uma crítica super atual ao poder das influências e da corrupção sobre a verdade dos factos e sobre os "pequeninos" que pretendem mudar o Mundo face aos grupos meio mafiosos que rodeiam cada um de nós. Um filme essencial, que neste link poderão ver completo e em boa qualidade.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Lincoln - o jogo político na visão de Spielberg


E na primeira vez no ano que entrei num cinema para, efetivamente, ver um filme (que é para isso que um estabelecimento destes serve primordialmente - para além dos serviços de restauração, farra, sanitários e tudo o que não tenha a ver com a Sétima Arte), dei de caras com «Lincoln», uma epopeia magnífica realizada por Steven Spielberg (sem qualquer tipo de comentários a fazer sobre este Grande Senhor da Arte das Imagens em Movimento) e protagonizada por Daniel Day-Lewis naquela que foi, para mim, uma das maiores e melhores performances que pude vislumbrar em muito tempo. Quis ver este filme não só pela admiração que tenho por Abraham Lincoln, que é provavelmente um dos Presidentes americanos mais populares da História do País (senão "o" mais popular), mas também para saber se poderia comprovar, tal como o fez meio mundo de críticos e votantes do IMDb, que a investida de Spielberg em filmar os últimos quatro meses de vida de Lincoln resultou. E sim, na minha opinião, «Lincoln» cumpriu todos os seus objetivos. Mas não sou um grande seguidor de Spielberg, não conhecendo a totalidade da sua obra mas respeitando o Cineasta e a sua visão a 100%. Contudo, o seu penúltimo filme, «Cavalo de Guerra», deixou-me um pouco de perna atrás - vi apenas metade do mesmo, mas do que pude ver não houve nada que me convenceu que aquele filme era tão bom como várias pessoas me tinham dito -, e também o facto de me dedicar mais a ver filmes antigos (há tanta coisa boa no passado para descobrir antes de ver muito do lixo que se faz atualmente), mas enquanto estava a ver «Lincoln» numa sala que me proporcionou excelentes condições para o contemplar de todo (à exceção das três ou quatro pessoas que estavam atrás de mim e que adoravam fazer barulho com os pacotes de plástico de "um-alimento-qualquer-que-os-seres-humanos-gostem-de-levar-para-os-cinemas" a cada momento mais solene do filme), percebi que este filme não é igual à maioria dos filmes que se encontram em exibição. Fiquei muito surpreendido com este filme, mas vou tentar alongar-me mais um pouco, para poderem perceber que gostei mesmo de «Lincoln» e isto não se tratou de um impulso precipitado da minha parte.


«Lincoln» retrata um dos períodos mais intensos da vida política de Abraham Lincoln, tendo como ponto central da trama a Proclamação da 13ª Emenda na Constituição Americana, Emenda essa que permitiria terminar com a legalização da escravatura nos EUA. O filme mostra uma dualidade da figura histórica que muito pode emocionar alguns, mas que não se trata de algum pormenor lamechinhas e "lava-cérebros", ao género de muitos filmes de propaganda política que foram feitos durante toda a História do Cinema: a do político e do Pai de família, que sem esquecer o amor à pátria (não levada a extremos como hoje em dia alguns americanos, que definem "patriotismo" de uma forma algo estranha), passa tempo com os seus filhos e ensina-lhes o que acha que é importante para cada um deles compreender melhor a vida. Estes momentos paternais são em pouca quantidade em toda a duração de 150 minutos que o filme tem, mas acho que fazem a diferença, principalmente se compararmos as atitudes que Lincoln, sem ser algum santinho ou uma divindade americana, toma no longo processo que levou ao dia de eleições para a 13,.ª Emenda. É feito um retrato mais humano de Lincoln, que aprovou certas táticas e esquemas algo duvidosos para levar a sua avante, mas... não consegui deixar de pensar que foi por uma boa causa, ao contrário de todas as falcatruas onde estão metidos os nossos políticos hoje em dia...


É impossível não falar de «Lincoln» e não dedicar algumas destas linhas ao ator Daniel Day-Lewis e à sua excelente interpretação do protagonista do filme. Diria mesmo que me arrepiei com este Lincoln. Em parte já tinha ficado impressionado com o Lincoln-versão Henry Fonda (de «Young Mr. Lincoln - A Grande Esperança») pela grande certeza e firmeza com que o ator interpretou o seu papel, mas este Lincoln-versão Day-Lewis é também ele impressionante, mas por outras razões: enquanto que o Lincoln de Fonda retratava os seus primeiros anos como advogado, mostrando uma imagem mais jovem e humilde da personalidade que em muito condiz com a cinematografia pura e bonita de John Ford, o Lincoln de Day-Lewis (aquele que é considerado o melhor ator da atualidade) é muito mais velho e com outras preocupações (nomeadamente a nível político) que o "outro" Lincoln não tinha com que se debater. Contudo, em ambos os filmes a figura é retratada de uma forma digna e honrosa, sem ser falsa ou propagandística, e não as podemos comparar, porque ambas são excecionais à sua maneira. Tanto Fonda como Day-Lewis conseguem não interpretar Abraham Lincoln, mas sim "serem" o próprio Lincoln, e isso é algo que me surpreendeu imenso em ambos os casos. Se Day-Lewis arrecadar o Oscar, e apesar de eu não ter ainda visto nenhum dos outros filmes nomeados para os Prémios da Academia, penso que será mais que merecido!


A ver «Lincoln» (que apesar de durar duas horas e meia, para mim passou num instante), lembrei-me de algumas críticas de cinéfilos e críticos que dizem que o Cinema, como Arte, está em vias de falecer. Que me perdoem essas pessoas, e eu também posso não ter muitas razões para afirmar o que vou escrever aqui de seguida (visto que visiono muitos mais filmes de outros "tempos" do que propriamente atuais), mas provavelmente não saberão do que estão a falar. Ou talvez, se virem «Lincoln», poderão mudar de opinião. O filme bate certo em muita coisa que só poderá ser mesmo bem vislumbrada num ecrã grandinho: a nível técnico, posso destacar a maravilhosa fotografia e a banda sonora do multi-premiado John Williams (que apesar de não ter, aqui, um dos seus trabalhos mais originais, conseguiu elaborar uma banda sonora bonita e que acompanha brilhantemente a ação do filme, a meu ver). Mas gostei sobretudo em «Lincoln» das cenas dos debates do Congresso, muito ao jeito do Cinema clássico e que me fizeram lembrar, em parte, o fabuloso filme de Frank Capra «Mr Smith Goes to Washington» pela vivacidade e realidade que aqueles debates me passaram, e que infelizmente, pioraram de geração para geração (que se acusem as pessoas que acompanham regularmente - e por vontade própria - o Canal Parlamento...). «Lincoln» é um filme muito natural e pouco cliché (sim, existem algumas particularidades da obra que podem ser consideradas típicas da cinematografia americana, mas que estão bem "jogadas" e acabaram por não estragar o ritmo da fita), que contém um argumento puramente genial, repleto de grandes deixas e de citações que, em pouco tempo, inundarão os sites que se dedicam a fazer imagens do género para depois serem partilhadas nas redes sociais. Se muitos já foram os retratos fílmicos de Lincoln (convém não esquecer o de «O Nascimento de Uma Nação» de D.W. Griffith), mas acho que «Lincoln» bate qualquer outro na perspetiva mais histórica e precisa do seu ambiente e dos seus atores. 


«Lincoln» relata, em suma, o processo repleto de impurezas que circundou a 13.ª Emenda e sua proclamação na Constituição Americana, mas não se centrando apenas em Abraham Lincoln e dando espaço de "intervenção" a todos os seus ajudantes nas pequenas aldrabices políticas que foram planeadas: porque não se tratava apenas de Lincoln, mas sim de toda a máquina política que o acompanhava, com algum humor e realçando a vertente cómica da personagem (os momentos em que decide contar pequenas histórias engraçadas durante o filme são imperdíveis, principalmente uma que envolve um retrato de George Washington). Rodeado por um grande elenco de atores secundários (destaque especial para Tommy Lee Jones num desempenho que está também nomeado para uma estatueta de Hollywood, mas também para as aparições de Sally Field - também nomeada -,  James Spader, David Strathairn, Jared Harris e Joseph Gordon-Levitt), Daniel Day-Lewis preenche o ecrã de uma maneira extraordinária e que poucos atores da atualidade conseguem igualar. «Lincoln» é o relato da América fora de mitos e superstições criadas ao longo dos anos, não deixando contudo de existir a imagem que todos temos de Abraham Lincoln (e que se mantém, mesmo com toda a "mentira piedosa" da Emenda - visto que foi por uma boa causa). É um filme que acarreta uma elevada simbologia e que, penso eu, será estudada por alguns especialistas nas próximas décadas. Não sei se se trata de um dos pontos altos da carreira de Spielberg, mas não tenho dúvidas que se trata de um grande filme, que não pode ser esquecido na salganhada constante de estreias cinéfilas que se sucedem semanalmente. Mas «Lincoln» é, para mim, um filme que faz a diferença no meio da repetição constante de blockbusters sem imaginação que têm invadido as nossas salas. 

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