quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Por um Punhado de Dólares: uma coboiada completa


Antes de, na noite de ontem, eu ter tido a oportunidade de contemplar «Por um Punhado de Dólares», a minha pessoa já tinha visto dois grandes épicos de Sergio Leone que, em comum, possuem no seu título a expressão "Once Upon a Time" nas versões originais (e que fantásticos filmes, confesso!). Contudo, apesar do cineasta italiano ter elaborado pouquíssimas obras em toda a sua carreira (ao todo são sete), a quantidade não pode ser sinónimo de qualidade, com cada uma das suas fitas a representar algo de muito especial, tanto no crescimento técnico e artístico de Leone, como também nas diversas mudanças que a Sétima Arte "sofreu" graças ao seu estilo único, original e inconfundível. O seu legado é incomparável, estendendo-se aos mais variados géneros e a muitos realizadores da atualidade (Quentin Tarantino, por exemplo, utiliza algumas técnicas de filmar criadas por Leone nos seus filmes, como no mais recente «Django Libertado», uma homenagem do realizador ao spaghetti-western). Fiquei com uma impressão muito forte de «Aconteceu no Oeste» e «Era Uma Vez na América», revendo regularmente partes destes dois filmes, e o segundo de forma integral já uma meia dezena de vezes. Contudo, foi anteontem a rever o grandioso final de «Aconteceu no Oeste» que me apercebi que estava na altura de pegar na saga do «Homem sem Nome», o personagem que deu a conhecer o Grande Clint Eastwood (uma figura de exceção do Cinema Mundial, quer esteja à frente ou atrás das câmaras) aos quatro cantos do Globo.


Sendo em parte denegrido pelas complicações autorais em que esteve envolvido («Por um Punhado de Dólares» é, em parte, uma cópia em forma de western de «Yojimbo, o Invencível» de Akira Kurosawa - tal como «Os Sete Magníficos», um western de John Sturges, é uma "adaptação" de «Os Sete Samurais» também de Kurosawa, só que no caso do filme de Leone, houve para ali umas ilegalidades metidas...), «Por um Punhado de Dólares» é um filme que, além de proporcionar grandes doses de entretenimento que não pretende apodrecer cérebros pela sua inventividade e ritmo que, mais tarde, começaria a tornar-se uma imagem de marca do Cinema de Leone. «Por um Punhado de Dólares» é um filme que se torna ainda mais interessante numa perspetiva de cinefilia e por ser o primeiro western "esparguetado" do realizador, que é provavelmente o mais representativo do género (eu sei que pouco conheço desta reinvenção italiana dos westerns americanos e que poderão vir, na mente de alguns cinéfilos, mais uns três ou quatro realizadores à memória, mas é muito pouco provável que algum deles tenha conseguido almejar  o prestígio e a glória da curta obra de Leone) e que aqui, dá os primeiros passos com sequências absolutamente inesquecíveis e que constituiriam o ponto de avanço para executar obras mestras como as duas que eu já tinha visto. Apesar de não ter uma realização tão artística e pessoal de Leone e ainda algo académica em algumas partes, «Por um Punhado de Dólares» revela ser um bom western que entretém e que não me fez tirar a vista do ecrã. Certos detalhes podem ter ficado ultrapassados pelo tempo, mas este filme ainda vale muito!


«Por um Punhado de Dólares» segue as desventuras de um tremendo pistoleiro (Clint Eastwood) que aproveita a rivalidade entre os Rojo e os Baxter, duas grandes famílias que dominam uma pequena cidade,  espalhando o medo na população quando ocorre a competição entre estes dois grupos. O forasteiro Joe (o nome que é atribuído ao "Man With No Name"pelas personagens que o rodeiam neste primeiro filme - epíteto que não é fixo, visto que se altera nas duas sequelas que se lhe seguiram) apercebe-se que, com alguns esquemas engenhosamente montados, poderá adquirir algum proveito para si próprio, metendo-se com as duas famílias das mais diferentes maneiras, auxiliando por vezes a que a tensão entre as mesmas se acentue demasiado. É interessante notar como o filme começa e acaba exatamente no mesmo local. Esta é uma característica comum a milhares de filmes, é certos, mas em «Por um Punhado de Dólares» isso é feito de uma maneira, para mim, diferente: no princípio e no fim temos as duas personagens (Joe e o dono do saloon da cidade, um dos poucos amigos que o pistoleiro conseguirá fazer na cidade), e em ambas as partes da fita há uma frase envolvida, uma queixa por parte da segunda personagem. Foi engraçado (não de uma maneira literal, obviamente) ter ouvido essa frase no princípio do filme e ter suposto o que iria acontecer e que iria envolver esse dito, mas que no final acabou por se suceder de uma maneira algo inesperada, final esse que ficou rematado pela repetição da tal frase. É um pequeno pormenor que, para muitos, poderá não ter qualquer significado, mas que para mim é com estes pequenos pormenores que se fazem os grandes momentos do Cinema.


Gostava apenas de salientar outro pormenor de «Por um Punhado de Dólares», mas que desta vez, se encaixa no nível técnico do filme: a dobragem. Um factor que era comum a muitos filmes italianos (e que hoje é muito criticado e/ou parodiado) é a constante e dessincronizada dobragem das cenas. É algo que conseguimos notar bem em obras como «Ladrões de Bicicletas», onde os poucos atores cujas falas encaixam no sítio certo são difíceis de encontrar. Mas nesta obra de Leone passa-se exatamente o contrário. Isto é, pela versão que eu vi, que se trata da americana, com das poucas vozes originais (se não a única) que vem de algum dos atores do filme é a de Clint Eastwood, e quase todas as dobragens do filme noutros atores são difíceis de associar aos atores que interpretam as personagens. Contudo, o que achei algo impressionante é que apenas estava centrado na figura de Eastwood e em mais nenhuma: o carisma daquela personagem bate qualquer uma das outras. Podem estar todos os atores dobrados e nenhum ser, efetivamente, americano, mas desde que o Homem sem Nome continue a espalhar a sua aura de heroísmo e aventura, isso é o que verdadeiramente interessa. Eastwood foi a milionésima escolha para «Por um Punhado de Dólares», e acabou por ser escolhido por recusas de todos os outros "pretendentes" que lhe antecediam. Mas acho que está aqui uma jogada de Mestre porque, não sendo um filme que se eleve acima do nível "bom", a meu ver, este é um western com certos toques de inovação e que vive sobretudo da sua personagem que, sem precisar de dizer muito ou de se mexer demasiado, preencheu a minha memória de uma forma inesperada. E agora, que venham mais «Dólares»!

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sábado, 26 de janeiro de 2013

Antes do Anoitecer (Before Sunset)


Nove anos depois de «Antes do Amanhecer», e depois de muitas propostas e de muito trabalho em volta de uma possível sequela para o romance de Celine e Jesse, eis que, em 2004, surge «Antes do Anoitecer». De novo realizado por Richard Linklater, e mais uma vez protagonizado por Julie Delpy e Ethan Hawke, Para este segundo filme, e para o reencontro das duas personagens após terem estado tanto tempo sem se verem, os dois atores colaboraram desta vez na escrita do argumento, dando uma autenticidade maior porque, à história que a argumentista Kim Krizan (também vinda do primeiro filme) tinha escrito para esta sequela com Linklater, Delpy e Hawke juntaram as suas experiências e as emoções por que passaram durante aquele espaço de nove anos, quase uma década em que cresceram, mudaram de ideias e de mentalidades, e começaram a deparar-se com novas responsabilidades nas suas vidas, mudanças estas que, durante a feitura do primeiro filme, lhes era ainda algo inconcebíveis. Mas apesar de as suas vidas terem sido alteradas com a passagem do tempo, conseguimos perceber que o que Celine e Jesse sentiam um pelo outro manteve-se durante todos aqueles anos em que não se viram. Apesar de se terem conhecido por poucas horas, aquele encontro (diria que predestinado - apesar das personagens discutirem este tema neste segundo filme) marcou-lhes muito mais do que muitos acontecimentos que se sucederam nas suas vidas. Mudaram muito, as suas ambições e desejos alteraram-se completamente... mas nunca se esqueceram um do outro.


«Antes do Amanhecer» começa de uma forma bonita, e que nos faz logo perceber, ao princípio, a importância da história de Celine e Jesse para eles próprios. Quase contado em tempo real, o filme inicia-se com a apresentação, em Paris (terra-natal de Celine), de um livro escrito por Jessie, e que tem como pano de fundo a experiência vivida pela dupla em Viena. Com as perguntas que jornalistas e leitores fazem a Jessie, percebemos que toda aquela noite o marcou muito, tanto que teve de guardar as suas memórias na escrita desse romance best-seller. Coincidência ou não, nessa sessão de lançamento surge Celine, que se encontra com Jesse e aí começa mais uma longa conversa. Ela também ficou muito afetada por aquela noite, tendo lido muito atentamente o livro de Jesse, que fica a saber que a sua "amada" se tornou uma ativista da ecologia e da sociedade, ainda mais paranóica em relação a certos temas delicados do ambiente do que há nove anos atrás. Voltamos a encontrar a beleza da simplicidade no Cinema, como se sucedeu em «Antes do Amanhecer», com por exemplo a cena em que os dois dialogam num café parisiense. A cena é longa, e passa-se toda no mesmo local, sem necessidade de recorrer a planos de câmara espalhafatosos ou a artifícios/clichés cinematográficos aborrecidos: ficamos é concentrados no que Celine e Jesse contam um ao outro, mesmo que sejam coisas totalmente irrelevantes. E eu fiquei maravilhado, mais uma vez, como aquelas conversas conseguem dar uma magia tão especial a este universo. Aqueles momentos simples, mas eficazes, têm um efeito maior do que se poderia imaginar. E ainda bem que conseguiram manter esta essência no segundo filme da trilogia (e espero que o terceiro volte ao mesmo!).


«Antes do Anoitecer» é um filme mais curto que o seu antecessor. Contudo, contém tão ou mais significado que «Antes do Amanhecer», pela abordagem profunda das relações humanas e do pouco ou muito valor que cada um de nós atribui, injustamente, a certas e determinadas pessoas, lugares e acontecimentos. Celine e Jesse proclamam que já não são jovens, que já não estão na idade de fazerem coisas parvas e de acharem que têm o Mundo a seus pés. Contudo, não é isto que acontece diariamente, durante toda a nossa vida? Podemos escapar de assumir isto, mas é de facto verdade, e é algo que não podemos evitar porque faz parte do ser humano. E o valor de «Antes do Anoitecer» é, tal como o primeiro filme (e o terceiro, mas não vou estar a fazer julgamentos precipitados - apesar de «Before Midnight» ter sido aclamado pela crítica e pelo público na sua estreia em Sundance), de "ficcionalizar" a realidade, de uma forma... muito real. Esta expressão foi completamente estúpida mas penso que seja isto, muito resumidamente, o que é para mim a beleza e singularidade da história de Celine e Jesse. Trata-se de um daqueles raros momentos cinematográficos em que nos sentimos noutro patamar da existência humana, só atingível quando descobrimos raras obras de arte como esta. Um filme obrigatório, principalmente depois de se ter visto «Antes do Amanhecer» (há certos pormenores que o ligam a este filme, e daí é importante conhecer o primeiro para depois se compreender totalmente o segundo), e que, com apenas setenta e sete minutos, conseguiu provocar uma impressão muito mais forte do que o que a duração pudesse permitir. E independentemente do intervalo de tempo que uma pessoa faça entre cada visionamento destes dois capítulos, é impossível não crescermos com as vidas e pensamentos atribulados desta dupla. E agora, como é que tudo irá acabar, depois destas duas incontornáveis fitas? Eu cá espero pela conclusão.

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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Programa do Aleixo: um talk-show de Coimbra


Desde que uns colegas me deram a conhecer o Bruno Aleixo e seus comparsas, no ano de 2009, que eu acompanho regularmente as andanças deste bicharoco tanto pela internet como pela televisão. Mas queria-me centrar no programa do pequeno ecrã propriamente dito. A primeira série do Aleixo na TV consegui adquiri-la em DVD, e melhor ainda, autografada pelos autores da mesma (João Moreira, João Pombeiro e Pedro Santo), e com a qual recebi uma t-shirt alusiva à série. E ultimamente, tenho visto a segunda temporada do seu talk-show, que a SIC Radical já transmitiu seis episódios, de um total de (suponho eu?) sete. É uma aposta renovada de um canal que, ultimamente, se tem dedicado mais a exibir estranhas importações americanas que me fazem pensar se o epíteto de "radical" bate certo com o canal. Mas que, quando quer, ainda consegue voltar aos "velhos" tempos, em que maioritariamente constava, da sua programação, conteúdos que pretendiam dar grandes e dolorosas alfinetadas (no bom sentido do termo, obviamente) aos padrões televisivos do nosso Portugal. 

O que é que esta personagem tem de tão especial para mim? É difícil dizê-lo, já que este se trata de um indivíduo animalesco, repleto de características meio deprimentes e muito portuguesas (como o facto de ser forreta com tudo e com todos - mesmo no seu programa, quando faz jogos para os espetadores, o prémio a oferecer poderá ser, por exemplo, um bife com batatas no café do Aires mais uma Seven Up - que luxo!) que está sempre envolvido em situações peculiares com amigos ainda mais peculiares (veja-se, a título de exemplo, o Busto, o Homem do Bussaco e o Renato - este, que parece ser o tipo com o nome mais normal destes três, acaba por ser uma espécie de "monstro da lagoa negra" em versão universitária). Quer dizer, acho que para mim o grande atrativo de «O Programa do Aleixo», e de todas as variantes que se lhe surgiram na net (e a série web que originou a personagem), é que além de ser um conceito muito inovador na televisão portuguesa, feito com poucos meios e com alguma piada, é que é, apesar de envolver um conjunto de personagens e situações do mais paranormal possível para a realidade portuguesa, tudo isso tem mais a ver com Portugal do que maior parte das séries que por cá se fazem. Bruno Aleixo é rabugento, convencido, com um toque de vigarista e de aldrabão que até mete pena, às vezes. Atordoa constantemente o seu amigo Busto, aproveitando-se dele para o enxovalhar diversas vezes no seu programa (basta ver o sexto episódio desta segunda temporada, que está disponível na Web), e aproveita o seu talk-show para achincalhar personalidades por causa do seu mau feitio, e para fazer figuras tão ridículas e hilariantes, que nenhum apresentador de TV português mau (e há muitos) lhe consegue ultrapassar a deprimência: é que ao contrário desses "senhores", Bruno Aleixo faz os seus seguidores rirem. 

Esta segunda série, estreada quase quatro anos depois da primeira fornada de sete episódios, mostra algumas diferenças que, a meu ver, prejudicam por vezes o ritmo dos episódios e do efeito e do timing de muitas das piadas que são ditas. Contudo, ainda considero que se trata de um programa muito proveitoso, e que eu sigo regularmente e, até agora, não tenho perdido nenhum episódio. «O Programa do Aleixo» pode ser visto como uma crítica à sociedade portuguesa, uma sátira ao show-biz televisivo, ou mesmo um workshop de como trabalhar incorretamente com programas de animação por computador (sim, o programa tem os seus defeitos técnicos, mas isso até que faz parte da sua "magia"), e muita gente pode não gostar de Bruno Aleixo e sua Pandilha (na sessão de apresentação da primeira temporada em DVD, vi muita gente com mais idade a sair da sala quando os autores decidiram passar alguns dos vídeos da série. Mas a malta jovem gostou daquilo). Mas não pode haver dúvidas de que este bicho meio antipático mudou a forma de se fazer humor no nosso país. E de que maneira!

Antes do Amanhecer (Before Sunrise)


Se existe um filme romântico que pode ser capaz de surpreender qualquer um, tanto pela sua originalidade como pela sua atualidade (na forma como trata as relações humanas), esse filme é, sem dúvida, «Antes do Amanhecer», o primeiro de três filmes realizados por Richard Linklater e protagonizados por Julie Delpy e Ethan Hawke. Lançados de nove em nove anos (o primeiro em 1995, o segundo em 2004, e o último este ano), e sempre com as mesmas duas personagens principais, Celine e Jesse, a trilogia de Linklater segue o percurso das mesmas ao longo desse tempo e da forma como as suas relações, os seus problemas e os seus conflitos é moldada pela passagem do tempo. Pelo cartaz do filme que eu coloquei para ilustrar esta crítica, alguns de vós poderão ficar com uma ideia errada desta grande obra, feita com meios simples, mas que possui uma essência rara de ser encontrada. Poderão achar que este filme não passa de uma banal história sem qualquer rasgo de criatividade sobre o amor impossível e coisas do género. Mas não, neste filme nada disso é encontrado. Aliás, arrisco-me a dizer que, de entre todas as grandes histórias de amor que já pude acompanhar em diversos filmes emblemáticos da Sétima Arte, nenhuma foi tão real, tão "palpável" e tão facilmente identificável para o espetador como a relação de Celine e Jesse em «Antes do Amanhecer».


O filme parte do encontro de duas pessoas diferentes, oriundas de países completamente distintos (Celine é francesa, e Jesse vem dos "states"), que se cruzam numa viagem de comboio, a partir de um acaso do destino que (atenção: vem aí uma expressão-cliché) mudará para sempre as suas vidas. Quando está na altura de Jesse sair do comboio, visto que chegou ao seu destino (Viena), ele consegue convencer Celine a ir com ele e passarem juntos as horas que lhe sobram até apanhar o avião que o levará de volta aos EUA. Depois de salterem da carruagem, Jesse e Celine aproveitam para explorar Viena, conhecer alguns dos seus habitantes, contactar com modos de vida e lugares que lhes são completamente desconhecidos. Durante toda a hora e meia de duração de «Antes do Amanhecer», tudo o que as duas personagens fazem é, pura e simplesmente, conversarem uma com a outra, e à medida que a conversa se prolonga (e que os temas da mesma se tornam muito mais complexos e pessoais), conseguimos perceber que a ligação entre aqueles dois  seres humanos, aparentemente desconhecidos, conseguiu ser muito maior a nível sentimental em apenas algumas horas, do que muitas das relações de amizade ou de amor que cada indivíduo tem na sua vida e que são muito mais longas. Há qualquer coisa de especial naquela dupla, e nós percebemos isso desde o princípio. Talvez seja por isso que a história se tenha prolongado por mais dois (aclamados) filmes. Há qualquer coisa de especial nestas duas personagens aparentemente simples, que com os mais vulgares prazeres da vida, sabem emocionar, rir e chorar o espetador. E tudo isto mostrando apenas uma conversa, repleta de realidade e humanidade, que seguimos desde o início com interesse e com que nos identificamos facilmente, através dos diversos temas que Jesse e Celine discutem ao longo daquela noite em Viena, noite essa que nenhum deles quererá alguma vez esquecer.


«Antes do Amanhecer» é o relato de uma história ficcional, mas que possui uma carga de realidade tão grande que esta ultrapassa qualquer tonalidade de ficção que o filme apresente. A forma como nos apercebemos do embaraço com que aquele moço e aquela moça se sentem por estarem um com o outro e os movimentos subtis que fazem (e que valem muito a pena reparar com detalhe, durante essa longa conversa que se prolonga da noite até à manhã do dia seguinte - a forma como por vezes não sabem o que dizer um ao outro, alguns tiques faciais que mostram a sua felicidade com aquela situação, mas também de alguma tristeza, visto que ambos prevêem que tudo aquilo irá acabar demasiado depressa) são, além do dito diálogo que estabelecem constantemente um com o outro (apenas uma observação: é engraçado como as problemáticas que aqueles dois discutiam, em 1995, em nada mudaram hoje em dia), um dos grandes marcos deste filme, e uma das suas mais peculiares características. Esta relação não contém aquela "plasticidade" típica de grande parte dos filmes românticos modernos produzidos por Hollywood - e não só. É desta matéria que se fazem os grandes filmes: as pequenas coisas e a inclusão eficaz das mesmas na ficção. Porque são essas pequenas coisas, pertencentes ao nosso dia a dia, aos nossos pensamentos e à nossa maneira de encarar o Mundo, que perfazem algumas das melhores obras de arte da História do Mundo. 


«Antes do Amanhecer» é o filme indicado para quem não aprecia certas doses de romantismo no Cinema (por experiência própria em ver fitas do género - mas que foram erradamente escolhidas -  ou apenas por estereotipar coisas vindas de outras pessoas que apenas não permitem que os cinéfilos descubram pérolas como esta), mas é ainda mais recomendado para quem aprecie fitas com essa determinada característica. Não se trata de um filme convencional, que fala sobre o amor de uma perspetiva insípida e sem qualquer ponta por onde se lhe pegue, sonhando mais alto do que aquilo que lhe é pedido, tornando-se uma má experiência cinematográfica. Não! «Antes do Amanhecer» é a total antítese desta última frase que aqui escrevi.  Um filme inspirado, que pede que seja revisto variadas vezes ao longo da nossa vida, para podermos compreender como as nossas perspetivas em relação à nossa existência e em relação ao que nos rodeia se altera durante o tempo. Olhar para estes dois jovens, em busca da felicidade e de uma vida digna dos seus sonhos, faz-nos pensar na nossa própria vida, quer se tenha dezassete anos, quer se tenha mais de cinquenta. Cada um ir-se-á rever em «Antes do Amanhecer», independentemente da idade e das ideias que defende sobre o que é o amor no verdadeiro sentido da palavra. Esta é uma obra que tem sido muito acarinhada pelo público ao longo dos anos, e bem merece, pois trata-se de um caso completamente raro no Cinema americano, que volta às raízes da Sétima Arte simplista e atenta ao uso de poucos recursos financeiros, mas capaz de criar filmes inesquecíveis, apesar de todas as adversidades. 

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Pequeno desabafo saudosista

Incomoda-me que várias pessoas descriminem determinados tipos de música apenas porque não os conhecem. Outro dia o meu telemóvel recebeu uma chamada e o toque era uma peça de Schubert que gostei muito de ouvir no filme «Barry Lyndon». Primeira reação da pessoa que estava ao lado e viu isso acontecer: "a sério? Música clássica?" 
Pelo amor de Deus, quem deveria dizer "a sério" sou eu. Eu não tenho nada contra os gostos de ninguém. Podem ficar com os vossos One Directions, Justin Biebers e todos os artistas que estão na moda neste momento. Mas eu prefiro ouvir a música que EU quero ouvir, sem precisar de modas passageiras ou referências da atualidade musical. 
E pronto, era só isto.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Desconhecido do Norte-Expresso (Strangers on a Train)


Estamos em Junho de 1951, quando «O Desconhecido do Norte-Expresso», uma das obras mais prestigiadas do realizador Alfred Hitchcock, estreou nas salas de cinema americanas. Mal tinha começado a nova década e o Mestre do Suspense relançou a sua glória cinematográfica com um trabalho digno de recordação e de preservação para a posteridade. Antes de «Chamada para a Morte», «A Janela Indiscreta», «Intriga Internacional» e outros sucessos de bilheteira que povoaram a filmografia de Hitchcock durante os anos 50 (para além do clássico - mas não tão famoso quando estreou - «Vertigo»), «O Desconhecido do Norte-Expresso» mostra ser o teste definitivo para tudo o que Hitchcock planearia fazer nos EUA durante os anos seguintes, sendo também mais uma de variadíssimas demonstrações das capacidades criativas e cinéfilas do cineasta para mostrar, no ecrã, aquilo que o espetador queria ver no ecrã, sem precisar de recorrer a pretensiosismos e ideias pouco originais, nunca julgando mal da inteligência da legião de fãs que acompanhava os seus filmes. Hitchcock sabia inovar e chegar, ao mesmo tempo, ao que os espetadores mais ansiavam ver numa sala de cinema. E poucos realizadores souberam executar, em toda a História desta nobre Arte, essa junção dos seus próprios interesses (em relação à sua visão do que é o Cinema e de como é que um filme deve ser feito) com os do público, sempre em busca de coisas novas... ou pelo menos, há uns anos era assim, acho eu. OK, talvez as coisas tenham mudado, em termos da relação das audiências com aquilo que as distribuidoras decidem passar nos ecrãs. Mas é bom recordar filmes como este, em que essa dita junção que eu falei se concretiza. E não pretendo ser saudosista de um tempo que nunca conheci, visto não existir neste Mundo no ano de 1951. Apenas quero dizer que vale a pena explorar filmes dessa época, apesar da maledicência que muita gente elabora sobre os mesmos, embora não os conheça verdadeiramente. 


«O Desconhecido do Norte-Expresso» pode referir um comboio, tanto no título luso da obra hitchcockiana como na versão original do mesmo, mas não é esse transporte que está a parte central de toda a história misteriosa, intrigante e empolgante do filme. É no comboio onde as duas personagens centrais do filme (o tenista profissional Guy Haines - interpretado pelo ator Farley Granger, numa nova colaboração com Alfred Hitchcock desde «A Corda», de 1948 - e o excêntrico socialite Bruno Anthony, uma caricata e diabólica personagem com teorias preversas sobre a vida e a morte - interpretado pelo ator Robert Walker na sua primeira e única colaboração com o realizador britânico) se encontram pela primeira vez. O cruzamento entre as duas dá-se por um pequeno acaso do destino que trocará de imediato as voltas à vida de Guy Haines e à sua relação com a esposa que não lhe quer conceder o divórcio, apenas para se poder aproveitar do sucesso do marido na carreira como tenista. Logo naquela primeira viagem de comboio, Guy fala com Bruno, de uma forma acidentalmente insegura, sobre a sua vida e sobre o ódio que tem para com essa mulher, deixando expressa a vontade de lhe apertar o pescoço. Bruno leva aquela conversa a sério demais, e decide pôr a teoria do "crime perfeito" que tinha revelado a Guy, sem o consentimento deste (quando Guy ouve Bruno falar dessa teoria, não pensa, a princípio, que Bruno estivesse a falar a sério...). A ideia de Bruno consistia na troca de assassinatos: enquanto ele assassinava a esposa de Guy de uma forma bastante discreta, Guy teria de matar o Pai de Bruno (pelo qual este socialite sentia um ódio tremendo, mas nada justificável). Aqui estaria a génese do crime perfeito: sem motivos para serem descobertos, visto que estavam a matar uma pessoa que não se interligava em nada com as suas vidas, Bruno achava que ele e Guy poderiam sair ilesos e satisfeitos deste homicídio duplo. Contudo, Bruno mata a esposa de Guy, e este não quer cumprir a sua parte do acordo, porque não tinha percebido que Bruno estava a falar a sério quando o abordou com aquela teoria, e aí é que tudo se complica, ao nível da vida pessoal do jogador de ténis (a namorada e a família da mesma começam a suspeitar de alguma coisa estranha que se está a passar). A polícia andará atrás dele, convencida de que ele é o culpado do assassínio, e numa espiral de acontecimentos que não parecem ter fim, encontramo-nos num intrépido jogo cinematográfico de suspense e ação, repleto de cenas mirabolantes que estão repletas de características do "film-noir" (as sombras, as perspetivas, os planos de cãmara, etc), num filme baseado naquele que foi o primeiro romance policial de Patricia Highsmith, uma das grandes autoras deste género literário no século XX, adaptado para o cinema em parte por outro "monstro" das histórias de detetives, criador do célebre Marlowe, Raymond Chandler.

Alfred Hitchcock em mais um dos seus notáveis "cameos" - e talvez um dos seus mais conhecidos.
«O Desconhecido do Norte-Expresso» não foi para mim a obra prima que muitos críticos e admiradores da obra de Alfred Hitchcock afirmam que é. Contudo, trata-se de um grande filme, recheado de grandes momentos cinematográficos completamente inesquecíveis (veja-se, por exemplo, a célebre cena do "duelo" entre as duas personagens num carrossel - e mais não digo, apenas acrescento que esta é uma cena que, para mim, é espetacular, é a melhor de todo o filme, muito bem construída e repleta com aquele suspense tão à maneira inventiva e única de Hitchcock). Com uma história bem construída e ritmada, precisa e concreta, e que Hitchcock soube como ninguém levar ao ecrã e torná-la numa grande experiência de Sétima Arte. Vale a pena também destacar as interpretações do elenco, mas especialmente da dupla de protagonistas Farley Granger e Robert Walker (ator que faleceu no ano em que o filme estreou), que criam um clima de tensão e de "tempestade" que marcam uma das mais fortes "correntes" de suspense e entusiasmo que o filme proporciona ao espetador. Este filme é notável, e merece ser visto tanto pelos apreciadores de Cinema clássico, como os que admiram a obra e personalidade de Alfred Hitchcock. Uma verdadeira pérola do Cinema Americano.

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domingo, 20 de janeiro de 2013

Sonhar era Fácil: ascensão e queda da comédia portuguesa


«Sonhar era Fácil» é um dos produtos mais interessantes e mais bem trabalhados que a televisão portuguesa deu ao Mundo nos últimos anos. Constituído por cinco episódios de cerca de cinquenta minutos cada, esta série pretende dar a conhecer os principais filmes e personalidades que fazem parte da tão-vulgarmente designada "época de ouro" do Cinema Português. Através de excertos dos filmes, na sua maioria, com protagonistas de alto gabarito como António Silva, Vasco Santana e Ribeirinho, acompanhados por um rol inesquecível de atores secundários, e com entrevistas de arquivo com realizadores e intérpretes das fitas, é feita a análise da importância de que estas obras têm para a compreensão do Portugal de então, seus valores e costumes, e também da forma como estas películas passaram de geração em geração, conseguindo ainda hoje fazer rir e proporcionar momentos inesquecíveis para quem as quiser ver. Contudo, este período não durou muito tempo, e a mudança de mentalidades e de perspetivas de vida não ajudou a que o sucesso destas comédias se prolongasse pela década de 50. É pena que hoje em dia se produzam tão poucas comédias em Portugal, já que é um género que poderia ser muito explorado e adaptado às vivências dos portugueses de uma forma tão inteligente e divertida como fizeram estes filmes clássicos.

«Sonhar era Fácil» conta também com depoimentos atuais preciosos de individualidades como Artur Agostinho (o documentário foi elaborado poucos meses antes da sua morte), António-Pedro Vasconcelos (que realiza e conduz o último episódio desta série), Luíz Francisco Rebello, Filipe La Féria, Herman José e José de Matos-Cruz, bem como dos familiares de alguns dos atores e realizadores de comédias como «A Canção de Lisboa», «O Pátio das Cantigas», «O Pai Tirano» e tantas outras, com mais ou menos sucesso junto do público. Através de um detalhe e de uma seleção de informação muito interessante e apelativa, conseguiu-se fazer uma série documental acima da média e que deveria ser exemplo para muitos pseudo-documentários lusos que são transmitidos regularmente. Sem recorrer a influências políticas ou culturais, «Sonhar era Fácil» apresenta-nos o retrato de um Portugal diferente e de como a ligação de um país com o seu cinema é muito importante. Essa ligação hoje em dia já não existe de todo, mas é muito interessante conseguirmos ver, nestes clássicos que a RTP retransmite regularmente (e bem!), certas particularidades indissociáveis do Estado Novo, mas outras que se mantêm atuais (e hilariantes) hoje em dia. Esta série esteve em reposição esta semana na RTP2, e está disponível na íntegra no youtube. E vale mesmo muito a pena, para podermos conhecer melhor uma época em que o sonhar não era limitado pela falta de recursos económicos, visto que o engenho e a criatividade dos profissionais daqueles anos souberam sempre dar a volta às dificuldades, deixando marcas cómicas e artísticas para a posteridade.

Sleuth: Autópsia de um Crime

Andrew, tell them it was all just a bloody game.


Uma trama complexa, várias reviravoltas, um duelo entre dois homens envolvendo jogos com consequências imprevistas, e algo diabólicas: tudo isto (e muito mais) é o que poderá ser encontrado em «Sleuth: Autópsia de um Crime», uma fantástica obra cinematográfica que prima pela originalidade, pelo suspense e pela manipulação do espetador (ou seja, no que é que devemos acreditar ou não naquilo que o ecrã nos mostra). Adaptação para a Sétima Arte da peça homónima (e vencedora de um Tony Award) da autoria de Anthony Shaffer, este filme conta com argumento escrito pelo próprio dramaturgo (talvez um dos principais fatores para que esta fita funcione tão bem) e realizado por Joseph L. Mankiewicz (um dos grandes cineastas da época "doirada" do cinema clássico de Hollywood, responsável por filmes celebérrimos como o vencedor de seis Oscares «All About Eve», e por obras menos conhecidas do grande público como o épico «Cleópatra», protagonizado por Elizabeth Taylor e Richard Burton e que representou um dos maiores prejuízos de sempre da História da indústria cinematográfica americana), «Sleuth» é um filme estimulante e criativo que conta com as interpretações dos Grandes Laurence Olivier e Michael Caine, que aqui deixaram duas performances inesquecíveis para a posteridade, e que revelam que sabemos muito pouco sobre as capacidades dos dois atores em pegar nestas personagens tão complexas e profundas. É raro um filme conseguir aproveitar ter apenas uma dupla de indivíduos na sua ação, para conseguir ser tão entusiasmante. 


Em «Sleuth: Autópsia de um Crime», nada é o que parece, e nem mesmo as suposições que nós elaboramos na nossa mente, ao longo das peripécias das duas personagens, parecem estar corretas. Ficamos sempre na dúvida, desconcertados com o rumo dos acontecimentos da trama e da forma como Andrew Wyke, um famoso autor de literatura policial (interpretado com mestria pelo inigualável Laurence Olivier) e Milo Tindle, o cabeleireiro amante da sua esposa (confesso que não estava nada à espera de ver e de adorar Michael Caine neste papel tão pouco vulgar...) tentam vencer os jogos que submetem um ao outro. À medida que cada novo jogo começa, tudo o que está envolvido torna-se cada vez mais grave e, a certo ponto, de proporções mortais. Primeiro, tudo começa com Wyke a trazer Milo a sua casa (uma enorme, sumptuosa e misteriosa mansão, repleta de armadilhas, enigmas e algumas bizarrias que ligam os gostos extravagantes do escritor às histórias de detetives por ele concebidas, e que em parte fazem lembrar o Universo de Agatha Christie), convencendo-o a colaborar no seu engenhoso plano: roubar as suas jóias para ficar com a soma elevada atribuída pelo seguro. Com todos os pormenores acertados e cada passo detalhadamente planeado, Wyke e Milo pensam estar na mira do crime perfeito. Ou será que não? Talvez as personagens não estão a preparar aquilo que nós pensamos, o plano que o ecrã nos mostra... Ou então, há muitas mais coisas envolvidas, e ainda não tivemos tempo de as descobrir como deve ser...


«Sleuth: Autópsia de um Crime» é um filme precioso. Tanto por tudo o que já apontei até aqui, como por outra coisa essencial: a sua estrutura mantém-se interessante e cativante hoje, e todo o suspense percorre a ação da fita até ao último segundo da mesma. É impossível não se ficar, pelo menos uma vez, com um certo fascínio pelos truques e armadilhas que Wyke e Tindle preparam um contra o outro, primeiro de uma maneira ingénua, e depois, a cada minuto, com proporções mais desejavelmente maiores e perigosas. Um intrincado e excelente filme que deve a sua originalidade e genialidade à peça de Anthony Shaffer, como à impecável e perfecionista direção de Joseph L. Mankiewicz, não esquecendo a maravilhosa dupla de atores que vale por muitos elencos que contém um número de participantes que abrange dois dígitos (ou mais até, se contarmos com figurantes e toda a "parafernália" do costume). Ah, claro, e o cenário, magnificamente planeado e construído, e que por si só é quase um terceiro ator do filme. É através dele que os dois personagens utilizam certas particularidades para conseguirem pôr em prática os seus esquemas e aldrabices, testando a inteligência de cada um e também o sentido de "orientação" do espetador. Termino avisando que este filme nada tem a ver com o imprestável remake feito há pouco tempo (com Jude Law e de novo Michael Caine, mas no papel de Olivier), e que o que vale mesmo a pena é o original. Todos estão convidados a entrar em «Sleuth: Autópsia de um Crime». Mas quem é que se arrisca a alinhar no jogo?

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Coisas giras da criação artística


Há certas alturas na vida que derivam a 100% de todas as condicionantes que envolvem esses ditos acontecimentos. Quer dizer, praticamente tudo o que fazemos é altamente influenciado pelo sítio em que estamos, pela altura do dia, etc (como por exemplo este post, se o tivesse escrito ontem à noite como tinha previsto, talvez ficasse mais interessante do que isto). E isso é um facto que sempre me interessou na criação artística, quer cinematográfica, quer literária, quer musical. 

Um exemplo disso é esta música, «Ne Me Quitte Pas», de Jacques Brel, que descobri há pouco tempo e que não me cansei (ainda) de ouvir. É uma cantiga que deveu o seu nascimento a praticamente tudo o que o seu autor viveu na época em que a compôs: o fim do relacionamento com a namorada, que o deixou completamente de rastos e que o levou a passar as suas mágoas para as pautas musicais, nesta bonita canção intemporal e inesquecível. E pode-se dizer (não querendo correr o risco de ser mal interpretado) que tudo isso aconteceu numa altura certeira: «Ne Me Quitte Pas» é o maior marco da carreira musical de Jacques Brel (que realizou e interpretou alguns filmes, algo que tinha de mencionar visto que este blog aborda principalmente a Sétima Arte), uma música que catapultou o artista para os palcos do Mundo e o tornou um sucesso internacional. As tristezas de um ser humano como todos nós, passado para a Arte numa música que eu acho ser a mais condizente com as partes dramáticas de uma relação amorosa.

Mas mais do que tudo, é impressionante ouvir esta música e sentir a voz altamente poderosa de Jacques Brel, que dá um tom superior à sua obra. Esta que postei não se trata da versão original (gravada em finais dos anos 50), mas sim de uma posterior que, para mim, parece ser bastante melhor e cantada com muito mais sentimento (chiça, hoje tenho andado a dizer muitas expressões normalmente associadas ao "pirosismo"... é melhor ter cuidado). Aconselho a audição desta música, principalmente nesta versão. E se andarem com problemas amorosos (felizmente, de momento não é o meu caso) esta é a canção ideal para vos reconfortar um pouco e poderem mesmo perceber que esse tipo de coisas não acontece apenas com vossemecês. Uma música muito bonita, e que mostra mesmo como a influência de tudo o que está à nossa volta faz com que as coisas sejam sempre de uma dada maneira, continuamente diferente. Com «Ne Me Quitte Pas», Brel acertou em cheio, criando, no momento certo e à hora certa, uma música que ainda é ouvida e apreciada no século XXI.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Janela Indiscreta




Todos nós gostamos, de quando em vez, de bisbilhotar a vida de outras pessoas, quer cada um admita isso ou prefira guardar para si próprio. Não é por mal, mas a bisbilhotice é uma particularidade que está presente na génese da Humanidade: foi com ela que o ser humano conseguiu, com os exemplos (bons ou maus) dos que o rodeavam, a aprender a ser si próprio. Contudo, se a bisbilhotice for longe demais, é capaz de haver sarilho. Acho que posso resumir, com esta última frase, a ideia principal com que fiquei do visionamento deste magnífico thriller, realizado por Alfred Hitchcock e protagonizado pelo magnânimo James Stewart, que contracena com a lindíssima (e lendária) Grace Kelly. Para o próprio Stewart, este era a obra que mais gostava de toda a filmografia do Mestre do Suspense, e penso que tem muito boas razões para isso: é em «A Janela Indiscreta» que podemos contemplar a graciosidade e a genialidade da perspetiva cinematográfica de Hitchcock de uma maneira mais fulgurante e inteligente.


O filme relata a história de Jeff (interpretado por James Stewart), um repórter fotográfico de uma revista americana que, após um acidente de trabalho, se vê obrigado a passar os dias em casa, com gesso numa perna, e reduzido às limitações de uma cadeira de rodas. Para se entreter, durante o tempo em que não está a comer ou a dormir, Jeff dá-se ao "luxo" de espiolhar o que é que cada um dos seus vizinhos anda a fazer. É engraçado acompanhar ao detalhe as histórias que se desenrolam em cada um dos apartamentos que Jeff vai conhecendo, revelando-nos diversas personagens e situações mais ou menos complexas a nível emocional, e que, apesar da maioria delas não ser o pano de fundo da ação de «A Janela Indiscreta», servem para nos dar uma perspetiva muito subjetiva e intimista do que os olhos de Jeff captam do que se passa à sua volta. Não construímos a nossa visão do filme pelo todo, mas sim apenas porque esta personagem observa. Hitchcock não nos deixa tirar conclusões próprias: só nos podemos limitar ao que o fotógrafo, de binóculos ou de câmara fotográfica na mão, consegue descobrir da vida privada de cada um dos seus vizinhos. E daí, faz a sua própria opinião sobre cada um deles (tal como todos nós fazemos das pessoas que vivem no mesmo prédio que nós), e podendo estar mais errado ou não, não deixa de ser muito interessante conseguirmos perceber como todos aqueles "figurantes" têm muito para contar.


De entre todos os vizinhos que Jeff segue com regularidade, haverá um que se tornará o maior foco de interesse na sua demanda bisbilhoteira: um casal pouco funcional que passa a vida a implicar. De repente, a esposa desaparece, e Jeff fica, a cada momento, mais convencido de que o marido cometeu um grave crime e a matou implacavelmente. À medida que consegue convencer a namorada e a empregada da sua razão, Jeff começa a não conseguir perceber, afinal, qual é a verdade da questão, quando o seu amigo polícia consegue desmentir, frequentemente, as provas que o fotógrafo encontra para evidenciar a sua teoria. A paranóia de Jeff pela vida do seu vizinho e pelo desaparecimento da esposa do mesmo cresce gradualmente, à medida que o indivíduo começa a agir de maneiras mais suspeitas. Mas até ao último momento do filme, ficará a permanecer a dúvida na mente do espetador: afinal o que é que se passa aqui? Tanto ficamos do lado de Jeff e companhia, como achamos, por vezes, que aquela teoria que a personagem vai construindo não passa de um tiro completamente ao lado. Como tudo vai acabar? Só mesmo vendo este magnífico filme, considerado um dos melhores da História da Sétima Arte e um dos expoentes máximos da carreira de Alfred Hitchcock, que aproveita todas as limitações "oferecidas" pelo cenário do filme, ou seja, o apartamento de Jeff e os outros que o rodeiam.


«A Janela Indiscreta» marca também um dos maiores êxitos de bilheteira de Alfred Hitchcock. Com todo o mérito, visto que este é um filme definitivamente para o público. Hitchcock aproveita a atmosfera, ao princípio, simpática e inocente, da trama da obra, para a pouco e pouco nos dar a entender que estamos a lidar com uma questão muito mais complexa do que se poderia imaginar à partida. Com suspense ao mais alto nível, interpretações marcantes e uma história muito bem construída e com um ritmo detalhada e genialmente composto, «A Janela Indiscreta» é um filme para o público à espera de conseguir aproveitar o máximo que a arte cinematográfica pode oferecer em termos de emoções. Uma possibilidade aproveitada a 100%, conseguindo o filme causar gargalhadas, sustos e pressões, sem ser necessário recorrer a maneiras mais óbvias e explícitas para conseguir provocar algo no espetador. O realizador do público é, definitivamente, Alfred Hitchcock. Um cineasta de génio que soube aliar o seu pensamento e a sua visão ao que o público procura descobrir na Sétima Arte, procurando sempre agradar o seu vasto grupo de seguidores de maneiras sempre novas e originais. «A Janela Indiscreta» é uma autêntica lição de Cinema e às potencialidades que um cenário aparentemente mínimo pode oferecer a um realizador. Não vejam o remake, em formato telefilme, com Christopher Reeve e Darryl Hannah. Fiquem por este original, e ficarão servidos como reis!

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sábado, 12 de janeiro de 2013

Ladrões de Bicicletas


Um dos expoentes máximos do movimento neo-realista do cinema italiano, «Ladrões de Bicicletas» é um belíssimo filme e uma das grandes obras primas humanas da Sétima Arte. Num estilo que tinha como prioridade o relato da realidade tal como ela é, sem serem acrescentados quaisquer tipos de artifícios artísticos à história e ambiente a ser filmado, esta obra dramática consegue cumprir essa regra do género que caracterizou o cinema europeu do pós-guerra, continuando ainda, na atualidade, a comover, visto que possui um tipo de sensibilidade que não é piegas, mas sim muito realista e carregada de simplicidade (tal como toda a história da obra).

«Ladrões de Bicicletas», uma obra belíssima realizada por Vittorio de Sica e que definiu todo um género, é o retrato puro e duro de um país devastado e empobrecido pela Segunda Guerra Mundial. A comovente história de um Pai desesperado por não perder o emprego depois de ter perdido a bicicleta que utilizava para o mesmo mostra ser um bom motivo de comparação com o nosso tempo e com as dificuldades que a crise põe a cada um de nós. Esta obra mostra também os valores, ideias e perspetivas de vida de uma Itália atrasada e devastada pela II Guerra Mundial. Destaque para os pormenores que nos permitem identificar a miséria da época em que decorre o filme: por exemplo, quando Antonio vai a uma loja dar os lençóis de casa em troca de algum dinheiro, para depois poder buscar a bicicleta, necessária para obter o seu emprego. Quando o lojista vai guardar os ditos, vemos o grande "armazém" de lençóis deixados por pessoas que, na mesma situação de Antonio ou numa pior ainda, apenas quiseram garantir a sua sobrevivência na cidade.

Acho caricato que o filme, na altura em que estreou, tenha sido muito criticado pela sua visão mais pessimista da realidade italiana. Os críticos arranjam, em certas alturas, argumentos muito pouco válidos para contestarem a sua opinião sobre certos e determinados filmes, misturando mais a sua opinião sobre certas particularidades ou do estilo de uma fita, do que propriamente da sua qualidade (e que em «Ladrões de Bicicletas», é inegavelmente excelente). E numa situação contrária, hoje em dia os críticos italianos queixam-se, por exemplo, do excesso de otimismo com que a Itália é retratada no Cinema, em filmes como a mais recente comédia de Woody Allen, «Para Roma com Amor», uma obra que, a meu ver, tem levado demasiada pancada dos cinéfilos. Contudo, apesar de alguma negatividade da crítica europeia, o filme foi logo abertamente elogiado por especialistas e não-especialistas da Sétima Arte, tendo sido eleito, poucos anos depois, como o melhor filme de todos os tempos da primeira edição da famosa lista da Sight and Sound, destronado em 1962 por «Citizen Kane», cujo reinado durou até à última edição do top, quando «Vertigo» tomou de assalto o primeiro lugar.

Existem muitos diálogos sobrepostos no filme que são, na sua maioria, impossíveis de acompanhar ao mesmo tempo. Mas estes não são necessários para se compreender bem esta magnífica fita. O neo-realismo trata mais da estética e das emoções reais das personagens do que propriamente a consistência das falas dos intérpretes. Conseguimos entender mesmo assim todo o filme e refletir, à nossa maneira, nas questões que o mesmo coloca em toda a sua curta duração. As expressões dos atores, principalmente do Pai e do filho protagonistas do mesmo (e que têm uma ligação muito eternecedora, e que me fez recordar, por variadas vezes, a dupla desse maravilhoso filme que dá pelo nome de «A Vida é Bela»), são suficientes para percebermos o que se está a passar. A história de Antonio, a sua demanda em busca da bicicleta perdida e que lhe irá custar um emprego, trata-se de uma situação que era algo vulgar naquela época, mas da vulgaridade se fez Cinema, e ficámos com um testemunho de vida que se tornou imortal na Sétima Arte através deste filme tocante, inteligente e emocionante. E que, sendo simples, esta história foi contada de uma maneira que mudou para sempre a forma de se transpor a realidade para o grande ecrã. 

Por fim, gostaria apenas de elogiar a bonita e excelente banda sonora desta obra, que ajuda muito a carga emocional do ambiente, da história e das personagens, aproximando-nos ainda mais da ação de «Ladrões de Bicicletas», daquele Pai desesperado e pobre, e daquela época, triste e inglória para a Itália e muitos outros países que ficaram devastados pela II Guerra Mundial. Um filme obrigatório, repleto de sinceridade, humanidade e honestidade. E neste ano de 2013, acabadinho de estrear, em que temos muitas incertezas em relação ao futuro do país e em relação às condições económicas que Portugal terá de enfrentar, o seu visionamento torna-se ainda mais essencial.

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O Grande Ditador: Como rir da guerra... a sério


Escrevi este texto em Setembro do ano passado, para uma revista portuguesa online dedicada ao Cinema, que estaria por estrear por essa altura. Contudo, os tempos não estão fáceis e o projeto teve de ser, com uma grande pena do criador do mesmo e de todos os seus colaboradores, posto de lado. Mas decidi publicar este texto no blog para o "arquivar" nas minhas críticas (ainda não tinha feito uma recensão propriamente dita a este filme, para mim um dos melhores de sempre). Acrescentei algumas coisas e modifiquei alguns erros de português. Espero que gostem e desculpem se não está grande coisa. Mas neste blog isso já é habitual. Além de que, entretanto, já não escrevo da mesma maneira como escrevia em Setembro. Talvez um bocadinho pior, vá.

«O Grande Ditador» é uma das obras mais conceituadas e acarinhadas da extensa cinematografia de Charles Chaplin. Elaborado durante uma das épocas mais preocupantes e conturbadas da História, a II Guerra Mundial, «O Grande Ditador» criticou o seu tempo, mas continua imensamente atual nos nossos dias. Alertado pela situação do nazismo e do Holocausto de Adolf Hitler, Chaplin decidiu pegar no ditador e transformá-lo num objeto de sátira cinematográfica que elevou a arte da comédia a um nível nunca antes ultrapassado. Utilizando o riso, a sua arma mais poderosa (e também de toda a Humanidade, como afirmava Mark Twain), Chaplin criou com «O Grande Ditador» uma grande lição de cinema e de coragem, ao fazer frente às grandes instituições com a abordagem, de uma forma leve mas extraordinária e arrebatadora, de um tema tão dramático, chocante e perturbante para o século XX, conseguindo satirizar impecavelmente todos os males que o totalitarismo alemão trouxe ao mundo. Com o filme, Chaplin combate o nazismo e seus apoiantes de uma maneira cómica, mas sem perder qualquer sentido crítico e social. 

Repleto de cenas e diálogos marcantes, «O Grande Ditador» é um filme que fez História e que já faz parte da própria História, tratando-se de um documento significativo para mostrar qual era a opinião que uma das figuras mais populares do seu tempo tinha sobre uma das personagens mais odiadas de todo o sempre. E o que é curioso é que o próprio Hitler viu o filme… mais do que uma vez. Recentemente foram descobertos registos que comprovam que Adolf visionou «O Grande Ditador» duas vezes e tererá querido voltar a vê-lo por uma terceira. Ou Hitler quereria perceber os fatores que Chaplin criticou na sua pessoa, ou então tinha adorado, pura e simplesmente, a fita. Mas isso nunca chegaremos a saber… 

Em «O Grande Ditador», Charles Chaplin faz a “completa” transição do cinema mudo para o sonoro (já tinha posto alguns diálogos no seu filme anterior, «Tempos Modernos», mas este mostra a resistência final de Chaplin ao abandono de um estilo cinematográfico que adorava e que, acreditava, iria garantir a sua imortalidade) e despe- se, de uma vez para sempre, da personagem de Charlot. Pela primeira vez, o público pôde ouvir e emocionar-se com a extraordinária performance vocal de Chaplin (quer como comediante, quer como ator mais dramático), uma voz com um alcance impressionante, que continua a apelar à paz e ao bom senso dos cidadãos na atualidade, principalmente com o famoso discurso que encerra o filme. 

A história desta obra é simples de ser contada: temos dois sósias. Um é judeu e proprietário de uma barbearia, e outro é Adenoid Hinkel, o feroz (e algo palerma) ditador da Tomânia, um país fictício que simboliza a situação da Alemanha na Segunda Grande Guerra. Ambas as personagens são interpretadas pelo próprio Chaplin, que nos consegue mostrar a distinção entre as perspetivas de vida do barbeiro e do tirano. Há tempo ainda para uma sátira a Mussolini (perdão, Napaloni) e vários momentos sérios em que Chaplin dá uma pequena amostra do poder negativo da ideologia Hitleriana. Mas o cineasta pretende "cinematografar", também, a fragilidade do sistema de Hitler, e de como este homem e as suas ideias dão muito mais motivo para rir do que se poderia pensar. 

Apesar de «O Grande Ditador» ter vários momentos de comédia física, estilo que Chaplin melhor domina, são as cenas faladas que marcam mais a ação de todo o filme. E se a maioria das pessoas, ignorantemente, conhece Chaplin pelo seu trabalho no mudo, nem sabe o que perde ao não ver os seus filmes sonoros, repletos de momentos cativantes, lindíssimos e inigualáveis. Veja-se, por exemplo, a mítica cena em que Hynkel brinca com um balão que representa o globo terrestre (uma prodigiosa metáfora sobre o que poderia acontecer ao mundo se Hitler continuasse a brincar com ele como se fosse uma criança) ou o prodigioso discurso final, que encerra «O Grande Ditador» de uma forma magnífica e poderosa. Chaplin fala mais por si mesmo do que pela personagem, divulgando uma mensagem de paz e esperança num mundo melhor numa época em que essas palavras bem eram necessárias de se fazerem ouvir… 

«O Grande Ditador» só chegaria a Portugal no final da II Guerra Mundial, mas com a censura, só mais recentemente, após o 25 de Abril, os portugueses puderam ter acesso, na sua versão integral, a esta obra-prima da Sétima Arte sem precedentes. Charles Chaplin foi e sempre será considerado um grande Génio do Cinema, que nos deixou um sem-número de filmes geniais que mudaram a vida de muitas gerações de admiradores. E «O Grande Ditador» é, com certeza, um desses filmes de topo.

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Little Britain: O Melhor do Humor Inglês


Com grandes piscadelas de olho ao humor dos geniais Monty Python (que são uma das maiores influências da dupla de autores e atores desta britcom, David Walliams e Matt Lucas), «Little Britain» é uma sátira repleta de non-sense a diversos aspetos da sociedade e cultura britânicas. Utilizando um humor mordaz, negro e provocador (em resumo, um humor britânico), um estranho indivíduo encarregue de fazer a voz-off deste pseudo-documentário guia-nos em sketches que relatam vivências de diversas figuras em variadas situações do dia a dia, apontando ou para a crítica direta aos aspetos mais ridículos da cultura da Grã-Bretanha, ou para a estupidez pura e dura, mas que fornece sempre grandes quantidades de gargalhadas ao espetador. 

Na série marcam presença regular diversas personagens, que se tornaram inesquecíveis para os seguidores da série. A adolescente problemática Vicky Pollard e a dupla Lou e Andy são apenas dois exemplos das grandes figuras fictícias de Walliams e Lucas que conquistaram fama à escala mundial. «Little Britain», tal como a maior parte dos programas produzidos em Terras de Sua Majestade, não necessitou de mais do que três temporadas, num total de vinte e três episódios (o equivalente ao que uma série americana mais comercial – e menos criativa – gasta em apenas uma temporada) para conquistar o seu espaço de culto e de admiração durante o seu tempo de antena na BBC, entre os anos de 2003 e 2006. 

O sucesso da série estendeu-se a anúncios de publicidade e a diversos artigos de publicidade, mas a popularidade além-fronteiras só foi completamente provada com o convite feito pela cadeia americana HBO em 2008 a Walliams e Lucas para fazerem mais uma fornada de meia dúzia de episódios de «Little Britain» em que os diversos bonecos dos dois comediantes seriam transportados para os EUA. Apesar de ter perdido alguma qualidade em relação ao produto original, «Little Britain USA» mostra ser uma boa sequela do seu homónimo britânico, que já figura entre as melhores séries britânicas de sempre.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O Arrependido (Out of the Past)


Aclamado por muitos como um dos melhores filmes americanos de sempre, e por outros como um dos expoentes máximos desse género cinematográfico tão interessante, abrangente e empolgante que dá pelo nome de film-noir, «O Arrependido» trata-se de uma obra que se torna um perfeito exemplo de todas as potencialidades que esse género tem para oferecer aos seus apreciadores, sendo, provavelmente, um dos melhores case-studies para quem quiser principiar-se a descobrir o film-noir. Uma autêntica peça de museu, não por dever estar exposta numa vitrine para as pessoas olharem sem grandes atenções e seguirem em frente para os outros elementos do espólio, mas porque é um filme que faz parte da mitologia do cinema americano e de toda a linguagem da Sétima Arte que o país desenvolveu durante a década de 40, aquela que é para mim a década "doirada" da cinematografia do Tio Sam. Filmes como «Pagos a Dobrar», «Fúria Sanguinária», e este «O Arrependido», carregam uma importância a nível histórico e documental bastante significativa, que nos faz conseguir perceber a situação do povo americano naquela época e de como (e desculpem o uso deste chavão) já não se fazem filmes assim hoje em dia... Ao contrário de países como Portugal, os EUA conseguem usar o seu Cinema para analisar a sua História, a sua maneira de pensar, e os seus costumes. Para os americanos, filmes como estes têm uma relevância tão grande como para nós possuem obras literárias como «Os Lusíadas» de Luís de Camões ou a «Mensagem» de Fernando Pessoa. E felizmente, a maioria destas obras conseguiram sobreviver ao tempo, e assim poderão continuar a ser vistas e apreciadas por novas gerações de entusiastas pelo Cinema.

«O Arrependido» é um filme que está tão "colado" ao film-noir, que apenas num ambiente noturno e sem qualquer tipo de luz natural a atingir o lugar onde pretenderem vê-lo, é que consegue ser captado em toda a sua essência. É uma característica que tem sido comum a, praticamente, todas as fitas pertencentes a este género que eu já pude ver até hoje, mas esta foi a primeira em que testei essa minha teoria mental, visto que os outros todos vi sempre em sessões da noite caseiras. Apesar de ter fechado a persiana do meu quarto e ter "extinguido" qualquer tipo de luz que atingisse os meus aposentos e de ter ficado num quase-completo estado de escuridão, senti que não estava a fazer algo que me auxiliasse a ver perfeitamente bem «O Arrependido». Parece que só à noite é que as personagens cinematográficas ganham verdadeiramente vida, realidade e emoção, assim como os ambientes em que estão inseridas e as situações com que se vêem envolvidas. Um filme pertencente ao film-noir, se visto em condições apropriadas, trata-se de um visionamento que poderá permanecer para sempre na memória do espetador (isto se - obviamente - o filme a ser visto for do agrado desse indivíduo). Mas é muito interessante sentir, depois de preparadas bem as condições para o visionamento, sentir toda a realização do filme, e principalmente, de notar aquelas particularidades que são indissociáveis do film-noir, como as profundas sombras que marcam a visão que teremos de um qualquer personagem (um pormenor artístico retirado dos filmes expressionistas alemães dos anos 30, se não estou em erro...) e os engenhosos e intrincados planos de câmara que constituem cada cena desta esplendorosa obra cinematográfica.

«O Arrependido» foi uma produção da RKO, um estúdio de Hollywood que, à época, constituía um dos pontos fulcrais da indústria cinematográfica americana. Era na RKO que se encontravam muitas das grandes estrelas de Cinema dos EUA daquela era. Caso disso é, por exemplo, a mítica atriz Katharine Hepburn, que foi dada a conhecer ao Mundo pela RKO, protagonizando uma série de filmes para a empresa e que marcaram os seus primeiros anos de uma gloriosa e versátil carreira na representação. E em «O Arrependido», temos como protagonista nada mais, nada menos, que o Grande Robert Mitchum, que no filme interpreta o papel de um ex-detetive privado que vê o seu passado a chocar com o presente quando recebe a visita do seu último cliente (interpretado por Kirk Douglas, num dos primeiros papéis da sua carreira, e que merece ser atentamente analisada) e que é a última pessoa que ele gostaria de rever. Com esse reencontro, ficamos a perceber como o proprietário de uma pequena estação de serviço numa aldeola dos EUA teve um passado tão obscuro e misterioso, envolvendo-se numa história de amor e de intrigas de proporções inimagináveis, ao apaixonar-se pela esposa que esse cliente lhe pagou para encontrar. Por várias vezes temos conflitos bastante profundos entre o passado e o presente da ação da obra, que são ainda mais densos com a série de intrincadas armadilhas que cada um dos três personagens prepara cuidadosamente para atingir os outros dois. E no fim de contas, quem será o mais esperto e levará a melhor?

Este filme é constituído por um argumento complexo, repleto de diálogos fabulosos e de situações inesquecíveis que provam a inteligência dos autores de «O Arrependido», dos seus atores (Robert Mitchum interpreta um galã cheio de estilo, ao melhor nível dos heróis - ou anti-heróis, em certos casos - que as obras do film-noir deixaram para a posteridade) e também do realizador Jacques Tourneur (um veterano da RKO que, antes de «O Arrependido», já tinha dado que falar com filmes produzidos para esse estúdio e que primavam pela criatividade e pelas diversas inovações que trouxe ao género de Terror, como os dois clássicos «A Pantera» - «Cat People» - e «Zombie» - «I Walked With a Zombie»), que sabe apropriar-se das condições que lhe foram fornecidas e aproveitar ao máximo todas as suas potencialidades. Apesar de eu não conseguir colocar este filme num patamar de excelência como outros grandes marcos do film-noir (embora esteja muito perto, na minha opinião, de atingir o topo da qualidade cinematográfica), «O Arrependido» é um filme cujo visionamento vale por muitas obras da atualidade. Nem só de filmes perfeitos vive o Grande Cinema, e este filme é um perfeito exemplo de que a arte cinematográfica é uma arte que deve ser mais valorizada pelo público e pelas televisões nacionais. Fossem exibidos filmes com esta qualidade mais vezes no pequeno ecrã e talvez a cultura e hábitos cinematográficos de toda a nossa nação fosse um bocadinho diferente...

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Boa Noite, e Boa Sorte


Uma ode à liberdade de expressão e à capacidade e poder do diálogo para a transmissão de ideias, «Boa Noite, e Boa Sorte» é um grande drama político que pega na história real de um dos mais prestigiados jornalistas de sempre, Edward R. Murrow, um homem exemplar, tanto na coragem que teve de descortinar diversas polémicas e verdades escondidas da sociedade americana, como na capacidade de não desistir de defender e promover os ideais e os valores que achava mais corretos dentro da ética jornalística (ou seja, do verdadeiro jornalismo, conceito este que me parece ter ficado meio perdido nos dicionários poeirentos de algumas redações de certas publicações da imprensa, algo notório não só em Portugal, como também a nível internacional...). E esta atitude manteve-se sempre, mesmo nas piores alturas, em que Murrow e seus colegas da estação televisiva CBS arriscaram-se a perder o emprego, e mesmo até se o preço a pagar para se descobrir a verdade tivesse que ser demasiado elevado...

O filme relata um desses casos desta segunda opção: a "batalha" travada entre Murrow e o senador McCarthy, o indivíduo responsável pelo que é conhecido, nos nossos dias, como "Caça às Bruxas", uma época de fanatismo e inteligência saloia que perseguiu o povo americano durante vários anos (e que surtiu efeito em diversas personalidades icónicas do Mundo das Artes - veja-se o caso de Charles Chaplin, acusado - injustamente - de ligações às atividades do partido comunista americano, levando-o a exilar-se do país que lhe deu a fama e a fortuna). Murrow tentou chamar a atenção de um país cujo pensamento ficara "adormecido" pelas investigações e técnicas muito pouco normais do McCarthyismo na "luta" contra o comunismo nos EUA. Uma tentativa que deu certo, e que é ainda recordada hoje em dia, como um dos investigações jornalísticas mais emblemáticas e estudadas do século XX.

«Boa Noite, e Boa Sorte» trata-se de uma espantosa crítica sobre o perigo de se ser honesto e das consequências de se querer descobrir e divulgar a "verdadeira" verdade jornalística. George Clooney realiza um filme exemplar, com o ator David Strathairn a vestir-se da cabeça aos pés desta lenda da televisão que é Edward R. Murrow. Apenas reclamo não ter havido, pelo menos, alguma informação adicional sobre o que se sucedeu após os "confrontos" entre Murrow e McCarthy (fica tudo um pouco superficial), mas além disso, penso que não há mais nada de relevante para criticar. Destaque ainda para a escolha do preto e branco para este filme, fator que assenta muito bem no mesmo, visto que nos recorda, quase num ambiente de "film-noir", uma época que os EUA nunca poderão esquecer...

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sábado, 5 de janeiro de 2013

(Re)descobrir uma grande comédia


Vasco Santana e Ribeirinho, dois dos melhores atores portugueses de sempre, no filme «O Pai Tirano», que a RTP Memória fez o favor de retransmitir durante a tarde de hoje (é a milionésima vez que a fita é emitida na televisão, mas vale sempre a pena revisitá-la) e que para mim é a melhor das comédias portuguesas dessa "época de ouro" do nosso cinema. Uma comédia ligeira de costumes, mas que ganha por manter a graça e o "timing" de grande parte dos gags humorísticos apresentados, totalmente inesquecíveis. Um magnífico elenco de atores numa história sobre um grupo de teatro amador e todas as peripécias que enfrenta para levar uma peça ao palco. Ah, e também aproveitam para criar algumas confusões acidentais, que causam algumas confusões entre a ficção e a realidade daquele ambiente. Pouco mais tenho a dizer sobre ela. Apenas que sei muitas partes de cor e este revisionamento me fez perceber a verdadeira importância desta comédia para mim. E acho que já está na altura de meio mundo deixar de desvalorizar estas comédias, e perceber o seu importante papel na sociedade e na cultura do nosso país...

O Inferno na Terra (Stalag 17)


Se houve um filme que me surpreendeu, nos últimos tempos, em termos de "não-estava-nada-à-espera-de-algo-assim", esse filme é «O Inferno na Terra», uma comédia hilariante cuja tradução tuga do título nada tem a ver com a obra em si (para não variar...), que mostrou ser um filme muito interessante por, praticamente, toda a parte cómica que o constitui, continua a fazer rir, com gags e pequenos "sketches" que usam alguns dos estilos e mecanismos humorísticos que, na atualidade, muitos programas e filmes de comédia tentam a sua sorte (na sua maioria, sem sucesso). Em poucas palavras, «O Inferno na Terra» pode ser descrito como um divertidíssimo, inteligente e arriscado filme, para a época em que foi feito, onde o cinema de guerra era visto não tanto como uma boa matéria para se fazer humor ou filmes não tão propagandísticos ou melodramáticos. Mas obviamente que há mais, muito mais, para se dizer sobre esta fantástica e surpreendente obra, que ainda tem muita graça e que consegue pôr toda a gente bem disposta,  visto que dispõe de piadas que abrangerão grande parte dos gostos de cada um.

Realizado pelo mítico Billy Wilder (autor de obras consagradas como «Pagos a Dobrar» e «Os Homens Preferem as Loiras»), «O Inferno na Terra» é uma divertida comédia, com alguns toques de drama, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar da seriedade do tema, o mesmo é retratado com simplicidade e humor, através da história de um campo de prisioneiros americanos, raptados pelas tropas nazis durante o conflito. Em vez de nos querer dar uma perspetiva depressiva sobre a guerra (que em alguns filmes é necessária, admito, mas neste não), o filme consegue-nos entreter em grande, sem nos deixar também aqueles complexos de culpa (apesar de, por vezes, e se bem utilizados, esses ditos complexos sejam essenciais que o espetador obtenha de algumas obras cinematográficas. Mas volto a repetir: deste filme isso não é necessário). A brincar se dizem coisas sérias, e o filme consegue cumprir este antiquíssimo chavão de uma forma brilhante e muito inteligente.

Com a sua interpretação em «O Inferno na Terra», o excelente ator William Holden (que se tornou - e bem! - num dos grandes ícones de sempre da gigantesca e complexa indústria de Hollywood) recebeu o seu primeiro - e único - Prémio da Academia. Sendo um dos grandes génios da representação do Cinema norte-americano (veja-se filmes emblemáticos como a crítica ao jornalismo televisivo «Network - Escândalo na TV» e o western incontornável e insuperável «A Quadrilha Selvagem», para além de muitas outras obras que marcaram a História da Sétima Arte), Holden interpreta, neste filme, uma personagem irónica e sarcástica: o sargento Sefton, um fala-barato que faz diversas negociatas com os guardas alemães para conseguir obter alguns benefícios especiais. E é por ser tão "amiguinho" dos nazis que os seus colegas de camarata, depois de dois deles terem sido mortos numa fuga altamente secreta, o considerarão como o "bufo" do campo, o indivíduo que revela todos os pormenores e historietas que se passam dentro da camarata, para os nazis poderem controlar os americanos a cada passo que estes dão. Contudo, apesar de querer parecer sempre que está contra os seus companheiros de pátria, o sargento Sefton não perdeu o seu patriotismo, e toda a história que se desenrola e o ódio que os seus colegas têm para com ele (um ódio injustificável, como se verá) e que vai crescendo, criam uma atmosfera de guerra que podemos ver poucas vezes assim retratada em filme. Interessa mais as relações humanas que se constroem dentro do campo, e todas as cenas cómicas (muito bem engendradas) e não a guerra em si. Até os próprios alemães estão mais ou menos bem com aqueles americanos (têm uma simpatia falsa, mas ao menos não são como os nazis dos outros filmes, que não falam inglês e que não dizem piadas), e tenho de destacar a personagem do Grande Otto Preminger (um excelente ator que é, hoje em dia, mais recordado pela sua carreira como realizador - e que eu espero conhecer muito em breve, com alguns dos seus melhores filmes), que neste filme é Oberst von Scherbach, o nazi que controla e tenta sempre eliminar qualquer tipo de rebelia entre os seus prisioneiros.

Resumindo e concluindo, se há um filme de guerra esquecido, mas que deve ser visto, é «O Inferno na Terra». Não sendo um relato detalhado do conflito, que se passa dentro do mesmo (só vemos o dito campo de prisioneiros americanos, mais nada), uma ideia que algumas pessoas pensam que tem sempre de se suceder em obras cinematográficas que abordem a II Guerra Mundial, «O Inferno na Terra» é uma excelente comédia que, no meio dos risos, alerta para alguns dos dramas da guerra, de uma forma leve mas não menos profunda. É um filme que nos faz sentir bem, e que nos faz entender que aquela velha máxima ainda tem validade: mesmo nas situações mais complicadas, nunca faltam razões para se sorrir. Um filme para rir e para perceber como o Cinema pode ultrapassar barreiras geracionais. Fabuloso!

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

É um Mundo Louco (pelo menos nas caixas de comentários)

Costumo visitar regularmente os sites de variados jornais nacionais e internacionais. Gosto particularmente de encontrar notícias que, normalmente, não encontraria noutras fontes, como no caso da televisão ou mesmo dos jornais impressos (e nisto estou a falar mais de novidades sobre o mundo das Artes, nomeadamente - e obviamente - do cinema e da televisão). E normalmente consigo ficar surpreendido com a quantidade de material jornalístico que descubro, e com o atraso demasiado com que costuma chegar à comunicação social portuguesa. É giro. É um hábito "geek" meu, mas é giro.

Mas ainda mais giro (e isto já não tem, em si, nada de "geek") é ver as caixas de comentários de certas notícias desses sites da imprensa. OK, não são só de algumas notícias, são de praticamente todas! É interessante como a mente humana (e muitas vezes anónima - é preciso ter "real guts" para se assinar com o verdadeiro nome algumas das pérolas que tenho vindo a descobrir, nos últimos tempos, nos recantos da internet) consegue produzir textos tão bons e inqualificavelmente impressionantes, como fizeram os grandes vultos da literatura universal (que não vou estar aqui a mencionar, porque este é um epíteto muito subjetivo - há quem prefira dar esta honra, por exemplo, a George Orwell, mas poderá haver quem se sinta com a maior das convicções para premiar, com esta distinção, o José Rodrigues dos Santos...), e depois, um monte de lixeira tão má e inqualificavelmente pestilenta, que é tão execrável que se torna boa.

O que eu pretendo dizer é que seria um bom remédio para a disposição, para muita gente, apenas abrir, a título de opção, o site do Diário de Notícias, e ir "folheando" virtualmente as notícias do dia, estando com atenção aos "geniais" e "imperdíveis" comentários que maléficos utilizadores, portentores de uma vilania atrozmente assustadora (ou pura e simplesmente, indivíduos com mais nada para fazer da vida), deixam para a posteridade no grande mundo da Web. Muitos nem se dão ao trabalho da notícia, outros apenas querem ir insultar, sem grandes argumentos (ou sem qualquer tipo de argumento válido - é o que costuma mais acontecer), o alvo da mesma, e outros ainda gostam apenas de mostrar o ar da sua graça, assinando uma série de comentários em notícias distintas com o mesmo pseudónimo (mas querem ser o quê? Os novos Zorros do século XXI, que em vez de se defenderem com capa e espada, utilizam o mouse? Francamente...).

Um exemplo de tudo isto é esta notícia, que fala da saída de Fernanda Freitas da condução do programa «Sociedade Civil» na RTP2. Este é apenas mais um sinal da decadência permanente do segundo canal do Estado, mas... debrucemo-nos sobre os recados dos utilizadores. Temos um Coiso, um Cão, uma Badocha e Badalhoca , enfim, um divertido e acutilante rol de "personagens" que mostram as suas opiniões sobre a vida, e sobre esta notícia propriamente dita. Vejam se eu não tenho razão de que há mais motivos para rir nestas notícias online do que na «Casa dos Segredos»! E avanço com uma ideia, que qualquer editora de best-sellers sob pressão adorará pegar (olhem os direitos de autor!): uma compilação com as melhores tiradas da net. Devem existir lotes delas, mas subordinadas ao tema «caixas de comentários de jornais», penso que não, se não me falha a memória. É uma grande falta na nossa "cultura", derivada mais do caixote do lixo do que alguma das correntes culturais de que dispomos no nosso dia a dia.

Eu não sou grande especialista em "censura" de comentários. Desde há três anos e alguns meses, altura em que inaugurei este blog, poucos foram os recados deixados por leitores que tive de eliminar e não deixar visíveis. Eram insultuosos, mas mais do que isso, não tinham sentido. Eram frases que tinham tanta validade como as injúrias que os garotos dizem uns para os outros ("És parvo!" "Cala-te, tu é que és", "Quem diz é quem é oh palhaço!", e por aí adiante...). Mas nos jornais, essa censura não existe, ou se existe é muito pouco atenta ao que se escreve. E enquanto a proibição não chega aos sites da imprensa, aproveitem para tirar uns momentos de descanso e para rirem a bom rir com a notícia que neste post mencionei, e muitas outras que pela internet estão espalhadas. Há para todos os gostos, apesar de, por várias ocasiões, uma notícia sobre a estreia de um filme americano acabe sempre por se falar no Primeiro Ministro do nosso país. Mas vale a pena "explorar" este vasto "continente" informático, garanto-vos!

E para terminar, citando Ferreira Fernandes, que escreveu uma crónica (que pode ser lida aqui) sobre estes comentários aos jornais on-line, e que descobri quando estava a pesquisar sobre o tema: "O género humano aprendeu há muito que o falar tudo é para malucos e por isso introduziu regras no falar.". Pois é verdade, mas enquanto houver gente rude neste grande mundo virtual, haverá sempre motivos para cada um dar umas gargalhadas com as patetices que essa malta gosta de divulgar ao Mundo. E muito mais no facebook ou em qualquer outra das milhares de redes sociais que existem, as caixas de comentários dos jornais proporcionam momentos de hilariedade de proporções tão épicas que todas essas redes ficam apenas reduzidas à condição de punchlines sem graça de um qualquer programa late-night. Mas é como eu digo, ainda há motivos para sorrir!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Quando o Diabo Reza - Um divertido romance


«Quando o Diabo reza» é um divertido livro da autoria do consagrado escritor português Mário de Carvalho. Um romance repleto de personagens caricatas e hilariantes e com uma escrita que se aproxima muito da maneira de falar de cada uma delas. A história gira à volta de dois grupos distintos, mas que veem o mesmo objetivo à frente: dinheiro. As "massitas" do proprietário de umas quantas drogarias, e que se torna   um alvo a alcançar por um trio de criminosos de pouca monta (Abreu, Bartlo e Cíntia), mas também pelas duas filhas (Ester e Beatriz) do idoso proprietário de todos esses estabelecimentos. Enquanto que os três primeiros preparam minuciosamente um golpe para conseguirem sacar o dinheiro àquele indivíduo, as duas filhas sonham com altos voos, caso o Pai lhes deixe a fortuna por herança.

Um romance surpreendente, vindo de um autor muito versátil e que aposta sempre em fazer algo completamente diferente, a cada novo livro. E com «Quando o Diabo Reza», a aposta ficou ganha, pelo menos para mim. É um livro que se lê muito rapidamente e que contém muitas passagens inteligentes e inesquecíveis. Um livro muito aconselhável para todos, muito acessível e muito bem escrito. Vale muito a pena ver, com este livro, a grande criatividade e imaginação de Mário de Carvalho!

Brother - Irmão


O ano de 2000 foi marcado por diversos acontecimentos cinematográficos de valor. Um deles poderá ter sido, a meu ver, a passagem do célebre "Beat" Takeshi Kitano, realizador, escritor, ator, apresentador, etc etc etc, pelos Estados Unidos da América. Do resultado desse cruzar de culturas surgiu «Brother - Irmão», um thriller no estilo a que Kitano habituou os seus seguidores e fãs das abordagens, na sua filmografia, à "yakuza", a máfia japonesa. O filme é a prova de como a sagacidade e a visão oriental do cineasta conseguem agradar além-fronteiras e impôr-se, num país dominado por uma cultura cinematográfica própria e que domina, praticamente, a distribuição de filmes em todo o Mundo. Apoiado por um grupo de profissionais do cinema americano que souberam perfeitamente respeitar os objetivos de Takeshi Kitano com este «Brother», o realizador criou mais uma grande história para juntar ao seu vasto (e complexo) currículo artístico, com uma história que volta a envolver crime, negócios obscuros e violência (não sendo banal e sim, estilizada ao jeito que Kitano caracterizou a sua filmografia).

«Brother - Irmão» é uma espécie de versão interracial de «O Padrinho», onde o confronto de culturas (a japonesa e a americana) acaba por ser um dos primordiais pontos-chave de toda a trama, sendo mesmo quase uma personagem autónoma, que condiciona as ações e comportamentos de todos os personagens do filme. Yamamoto é um membro da yakuza que, ao refugiar-se nos EUA após uma guerra da dita máfia no Japão, reencontra o meio irmão, um "dealer" da zona e que dá poucos motivos de orgulho a Yamamoto. Contudo, é a presença do gangster nos "states" que fará com que ele, o seu familiar e os seus amigos/colegas de "profissão" se juntem a uma organização criminosa local, que a pouco e pouco começará a crescer, travando uma contínua e sangrenta guerra com a máfia americana. Um dos amigos do irmão de Yamamoto torna-se um grande companheiro deste, que chegado a uma terra desconhecida e sem saber falar praticamente inglês, encontrará nele um apoio e um guia para perceber tudo o que se passa à sua volta, conseguindo entenderem-se os dois sem precisarem de falar muito um com o outro.

«Brother - Irmão» é talvez um dos filmes menos apreciados de Takeshi Kitano. Alguns críticos e especialistas na Sétima Arte acusaram a incursão americana como o principal fator que motivou o falhanço deste filme. Contudo, o mesmo não tem uma nota má de todo no IMDB (está no número 7) e conseguiu agradar a muitos fãs do Cinema do multifacetado artista japonês. Repleto de cenas de violência gráfica, mas mostrada de uma maneira algo poética (e que faz, por um lado, lembrar as cenas violentas de «O Padrinho»), mas talvez demasiado explícita e repetitiva, percebo que algumas pessoas tenham considerado o filme algo cansativo e contínuo por insistir, por vezes, na mesma tecla. Não é um filme para todos os gostos, e mesmo na minha opinião, fiquei com uma impressão algo enjoativa de uma ou outra cena. Mas penso que a demasia da violência possa ser apropriada para o contexto do filme. Provavelmente Kitano pretende, com o uso dela, mostrar a fidelidade e o fanatismo com que os membros da yakuza levam a sua posição nesta dita organização, algo que é real e que inúmeras reportagens escritas e televisivas têm vindo a mostrar ao longo dos anos. E esta violência fez-me alguma impressão no bom sentido, porque me pareceu ser real, e não plástica como em muitos filmes americanos. É a violência no estilo seco e perturbador de Takeshi Kitano, que não precisa de nos mostrar tudo Tintim por Tintim para acreditarmos no que estamos a ver. E isso é obra.

Contudo, apesar da controvérsia gerada pelo filme além-atlântico e do estilo em que é filmado, «Brother - Irmão» é um filme que vale pelo seu visionamento. Traz uma bonita história sobre a amizade e a lealdade, repleta de realidade (a experiência pessoal de Takeshi Kitano foi usada pelo próprio para relatar as atitudes e preocupações de Yamamoto e companhia) e com a qual nos podemos identificar, apesar de envolver um universo que nos é completamente distante. Com «Brother - Irmão» regressa a já "milenar" colaboração entre Kitano e o realizador Joe Hisaishi, que compõe, para não variar, uma extraordinária e poética banda sonora, que dá um tom muito oriental a um filme que se passa, na maioria da sua duração, num país ao qual não costumamos associar os sons e melodias que escutamos nesta obra. De salientar também a grande e marcante química entre "Beat" Takeshi e Omar Epps, o ator que interpreta o amigo americano de Yamamoto, e que hoje em dia é mais conhecido pelo seu papel na popular série «House M.D». A amizade que se constrói entre os dois criminosos tem o seu quê de comovente.

Por fim, é importante não esquecer a forma como Takeshi Kitano vai filmar esta história dramática (com alguns toques de comédia) nos EUA, sem ter de se submeter às "regras" da cinematografia do país, não se esquecendo, contudo, da forma de falar e de socializar dos americanos. Kitano mantém-se igual a si próprio, utilizando o seu estilo de Cinema único e inimitável, repleto de técnicas e características peculiares e que constituem a sua visão da Sétima Arte. «Brother - Irmão» não é um filme para todos os gostos, mas que vale o seu visionamento e que sabe agradar a quem o quiser ver. Sem esquecer as suas origens, "Beat" Takeshi conseguiu, ao longo dos anos, suscitar o interesse de um público muito mais vasto e de proporções internacionais, e que esperam, em cada novo filme do realizador, uma história e uma visão cinematográfica diferente da que estão mais habituadas. E «Brother - Irmão» cumpre essa premissa, sendo mais uma prova da versatilidade, da criatividade e da internacionalidade do Cinema de Kitano.

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