sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Último Hurra (The Last Hurrah) [1958]


Não é um dos filmes mais prestigiados do Mestre John Ford, mas pode ser colocada junto das suas melhores obras: «O Último Hurra», provavelmente um dos filmes mais políticos da filmografia de Ford, traça um paralelo entre as campanhas do protagonista Frank Skeffington com o impacto dos meios de comunicação social. Algo que voltaria a ser repetido numa obra prima posterior do cineasta, só que noutra época e noutro contexto: «O Homem que Matou Liberty Valance». Mas a história do mayor que luta para conquistar o seu quinto mandato, e cuja campanha vai ser prejudicada pelos interesses que geram o grande jogo da vida política, é também uma obra que se empenha em retratar a sociedade americana de uma maneira acertada, sem deixar de possuir os conservadorismos do Cinema clássico. Não sempre são precisas rebeldias para se criticar um tempo e um país - a inteligência e a astúcia com que se faz a crítica, como é o caso de «O Último Hurra», é que prevalece. Protagonizado por Spencer Tracy (note-se que o ator considerava esta sua performance superior à de «O Velho e o Mar», que também tinha interpretado nesse ano de 1958, mas a Academia acabou por nomeá-lo neste papel...), e acompanhado por outros "Monstros" americanos do Cinema (como Pat O' Brien e Basil Rathbone), vemos como a luta pelo Poder motiva ódios, invejas e malícias injustas. Serve tudo isto para nos relembrar que as questões dos problemas atuais da política não são assim tão recentes, e o notável argumento de Frank S. Nugent (um dos guionistas maiores de Hollywood, que assinou o argumento de outras tantas fitas de John Ford, como «The Searchers», «The Quiet Man» e «3 Godfathers»), que tem uma sensacional qualidade de diálogos e de sensibilidade atribuída ao caráter das personagens. Parece-nos, a princípio, que algumas figuras de «O Último Hurra» são de "plástico", mas ao longo da narrativa, vamos percebendo que essa plasticidade não é acidental, ou que se deve ao hábito Hollywoodiano de criar personagens vazias e estereotipadas. Alguns secundários do filme não parecem de plástico: são mesmo assim, porque para nada servem ou porque o mundo é aparentemente "plastificado", e acabam por estragar a normalidade das coisas, e o rumo certo que o destino dos protagonistas deveria tomar em circunstâncias menos acidentadas.


«O Último Hurra» é o desfecho da vida política de Frank Skeffington: o político diz que esta é a última vez que concorre ao cargo, e convida o seu curioso e perspicaz sobrinho jornalista para acompanhar a jornada da feitura de toda a campanha. Skeffington é o político carismático com que todos gostamos de simpatizar: uma figura humana e politicamente ideal, que faz falta a toda e qualquer sociedade, que carece cada vez mais de pessoas como ele. Mas não é um ser humano perfeito: ele admite as partidas irónicas que faz aos seus adversários e os esquemas que leva a cabo para demonstrar o seu potencial junto dos poderosos que o querem espezinhar, e que põem à frente de tudo os seus interesses pessoais e os ódios de estimação que lhes dão alguma comichão na cabecinha. Frank sabe de cor e salteado todas as manobras e fintas políticas para ganhar votos, mas destaca-se dos outros por ser uma figura forte naquela pequena cidade. E não precisou de distribuir espremedores de sumo e secadores de cabelo pela população para atingir esse estatuto... 


«O Último Hurra» acaba por elevar-se ainda mais do que se estava à espera: de um fenomenal drama político passa também para um drama sentimental e filosófico sobre a condição humana, e tudo graças às grandes interpretações do elenco e das situações tão bem escritas por Nugent, filmadas de modo coerente e versátil por John Ford. A fortíssima carga emocional que o filme acarreta a dada altura (lágrimas podem estar a escorrer do rosto do espectador sem que ele dê por isso) dá uma nova perspetiva, quase divina e transcendental, à figura simpática de Frank Skeffington. E «O Último Hurra» é, no seu todo, uma obra de grande sensibilidade narrativa, interpretativa e cinematográfica, apontando todos os males da sociedade americana com os ataques mais simples, que são contudo os mais profundos e diretos. Um dos grandes filmes esquecidos de John Ford, inesquecível e fundamental, que tem tanto de amargura como de candura, ao mostrar-nos que, no meio de todos os males da Humanidade, são sempre os homens mais fortes que ficam na nossa memória. 

* * * * 1/2

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