terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O Jogador (The Player) [1992]


Foi o regresso do realizador Robert Altman à ribalta, depois de uma década de filmes menos aclamados e distribuídos no panorama cinematográfico: foi «O Jogador» que deu um novo e tão-esperado salto na carreira do cineasta, que depois não pararia de surpreender (ou de desiludir, em certos casos - mas o que interessa é que, depois deste filme, nunca mais voltou a estar "apagado" da indústria). É quase um filme autobiográfico, este que critica o feroz sistema de Hollywood, que cria e destrói tão facilmente as mentes criativas que definem a sua marca cinematográfica, que pretende regular-se mais pelo dinheiro do que pela originalidade, cada vez mais urgente. E Altman dizia até que, em comparação com a realidade, esta foi um retrato "muito suave" do que se passa na "meca" do Cinema americano. Com pequenas subtilezas de argumento e de mise-en-scène que não podem ser deixadas de parte por qualquer espectador, e que fazem a genialidade deste filme tão relevante da contemporaneidade (veja-se com atenção o plano-sequência que abre o filme: com sete minutos e quarenta e sete segundos, Altman faz uma espécie de "mosaico", algo que caracteriza muitas das suas narrativas em movimento, com várias pequenas críticas e sátiras a figuras-tipo e situações vulgares de Hollywood, aproveitando também para homenagear a famosa cena inicial de «Touch of Evil» de Orson Welles, e também a fabulosa inovação trazida por Hitchcock com as longas cenas sem cortes de câmara em «A Corda» - e mais adiante fará muitas outras referências cinéfilas). É no meio de favores, chantagens e perdições que se faz o trabalho do Cinema, e Altman ataca de forma mordaz e acutilante todas as coisas que ele próprio conheceu muito de perto, graças à sua enorme experiência nos filmes. É a história do domínio da moeda e das empresas sobre cada um de nós, de maneira abusiva e descontrolada, e que acaba por se refletir na cultura de cada país. Nos primeiros minutos de «O Jogador» ouvimos alguém dizer: "Your Hollywood is dead". E não será esse, afinal, o grande mote desta película, que fala de uma indústria que devia revitalizar-se mas que, afinal, parece que gosta de viver e lucrar a partir da sua morte decadente (se bem que haja certas exceções à regra)? 


Imparavelmente sarcástico, «O Jogador» é a implacável história de Griffin Mill (Tim Robbins numa maravilhosa performance, que se transforma em múltiplas facetas durante a fita), um senhor de Hollywood que é chantageado por um argumentista que viu um argumento seu rejeitado pelo protagonista, e que se aproveitará das fraquezas de Griffin (e do facto de ter cometido um crime) para tentar alcançar o seu objetivo. Mas qual é que será, entre tantos rejeitados? E será que o Poder tem nesta ficção o mesmo "poder" que tem na vida real? Com muita inteligência e piadas implacáveis, o filme acusa a "reciclagem" dos filmes que Hollywood faz constantemente (e que continua a passar por esse processo "criativo"), onde os pequenos recebem falsas esperanças pelos grandes chefões. E podemos encontrar vários atores e realizadores conceituados a fazerem pequenos cameos na obra de Altman, talvez para se mostrarem como iguais signatários do manifesto que o cineasta assinou com esta fita. É surpreendente, é brilhante e, em certos momentos, chega mesmo a ser chocante. A tensão e o thriller crescem, culminando numa obra feita com mestria e sabedoria, e que, de tão inteligente que é, acaba por ser uma obra que goza consigo própria e com as convenções que nela estão inseridas. Aqui tudo é alvo de crítica, desde o mais simples e corriqueiro até às características mais sombrias, negras e profundas de Hollywood, dominada pelas influências e pelos ditames do incerto e sempre inseguro "box-office". De uma pequena comédia simpática e satírica, caminhamos para um filme que nos deixa um sabor amargo na boca e que vai para além do seu próprio conteúdo, onde vemos que vender as ideias em troca de sucesso não compensa tanto quanto as manobras que Griffin Mill utiliza para manter o seu poder no estúdio. Acabamos por ter um filme dentro de um filme e uma crítica dentro de uma crítica, pelo que os minutos finais nos indiciam, que podem ser um final "feliz"... ou até macabro, que talvez nos faça pensar a grande realidade e simbolismo que esta história contém, com as coisas que nos faz perceber no seu desfecho. Se fosse mais visto hoje em dia, talvez «O Jogador» poderia ter ajudado a alterar certas mentes luminosas que povoam o mundo do Cinema gasto e reciclável, que abunda cada vez mais nas terras da senhora Holly. Para salvar Hollywood, é necessário primeiro desconstruí-la...

* * * * 1/2

2 comentários:

  1. Sem dúvida um dos melhores filmes de Altman, gosto do vibe film-noir.

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    1. É um grande filme muito subtil e brilhante! :)

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