segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Antes da Meia-Noite (Before Midnight) [2013]


Nove anos depois de «Before Sunset», e 18 anos após o primeiro encontro em «Before Sunrise», Céline e Jesse voltaram aos Cinemas com «Before Midnight». Refletindo a crise da meia-idade e do facto das duas personagens terem já passado a barreira dos quarenta, esta dupla de personagens constitui um caso raro no Cinema contemporâneo: são poucas as histórias que conseguem captar tanto o espectador como a evolução e a comédia dramática da relação dos dois de nove em nove anos. A paixão de milhões de admiradores por esta trilogia vai para além do próprio Cinema, porque é para muitos um conjunto de obras que lhes diz muito e a que é impossível classificar. E não é preciso nada muito complexo para explicar o fenómeno de culto da saga «Before»: este terceiro capítulo mantém o espírito dos outros dois, pontuando com longas conversas (e poucas cenas, que são muito grandes em extensão e algumas delas não têm qualquer corte - veja-se com atenção o quão difícil deve ter sido preparar uma das primeiras cenas, a da viagem de carro depois de terem ido deixar o filho de Jesse, que ouvimos falar em «Before Sunset», e onde vemos apenas Céline e Jesse com as conversas banais e profundas quase em "tempo real" que, confessemos!, já tínhamos saudades de reencontrar) e com estes constantes confrontos com a nossa perspetiva das coisas. É que, tal como eles, os espectadores cresceram, ficaram mais velhos e viveram novas experiências, e continuamos desde sempre a pensar na nossa realidade. Contudo, a idade dá-nos novas opiniões e reflexões que, noutras etapas da nossa existência, não seríamos capazes de perceber. «Before Midnight» dá um salto existencial em relação aos seus antecessores (tal como «Sunset» fez com o primeiro filme - a filosofia aumenta de capítulo para capítulo), mostrando-nos como é interessante ver o que mudou e o que ficou nas personagens, no seu relacionamento (e algumas coisas são verdadeiramente insólitas) e no seu caráter. As coisas não estão na mesma, e talvez o charme deixado pelo final da segunda fita pudesse dar a entender um final eterno e onde no qual tudo era Cinema... mas esta nova sequela mostra-nos que «Before...» não quer ser uma história a que se possa chamar "uma coisa que só acontece nos filmes". Querem aproximar-se cada vez mais de nós, espectadores, com dilemas e situações cada vez mais intimistas e fascinantes. E conseguem mesmo essa aproximação!


Em «Before Midnight», Jesse e Céline têm agora duas filhas gémeas em comum e uma vida mais complicada, com problemas e dilemas ausentes dos primeiros dois filmes e do facto de ambas as personagens já não serem jovens como antes. Céline está mais cínica, e Jesse um pouco mais preocupado e sério devido às múltiplas questões familiares e sociais que tem de resolver. A mudança de tom é tão grande que até as conversas perdem algum do grande humor que as caracterizou nos outros dois filmes, e aqui ganham uma tensão e um drama que antes não iríamos associar ao "maravilhoso" mundo deste casal. Com a paternidade em grande destaque, a obra mostra como as ideias racionais e deliciosas dos dois personagens permanecem intocáveis, mas entretanto, o Amor que têm um pelo outro pode estar muito fragilizado. O poder do filme reside no poder destes seus dois protagonistas, e se bem que para uns este capítulo tornou-se uma desilusão (porque queriam que o "conto de fadas" durasse para sempre, o que, nesta visão mais realista das coisas, é quase impossível), talvez este seja a parte mais incisiva e verdadeira da trilogia. O humor tem outro papel: não o de progredir uma relação que está a crescer amorosamente, mas de a conseguir ao menos manter essa relação, que pode acabar ou partir-se ainda mais com pequenas coisinhas que prejudicam o casal. E não será isto um retrato das vivências humanas atuais, onde talvez se faça tudo para complicar e encurtar relações, sem se olhar a meios e por vezes sem se aperceber dessa intenção (e sabendo que, ainda ais, as novas formas de comunicar e de se relacionar deveriam ajudar a manter as relações - só que parecem que ajudam a destruí-las também)?  


«Before Midnight» é um filme tão bonito como os seus antecessores, e compará-los entre si é uma tarefa inglória, para não dizer injusta. Se bem que a solo não seria um filme tão singular, como é ao pertencer a esta continuidade (que, esperamos, não acabe aqui!), é mais um volume inesquecível de uma história humana que vai continuar a chamar novas gerações, independentemente das idades e feitios de cada espectador. As conversas ganham um tom com o seu quê de "seinfeldiano", e encontramos mais background e personagens secundárias do que em «Sunrise» e «Sunset». Mas o centro continuam a ser os maravilhosos Ethan Hawke e Julie Delpy, que voltam a brilhar com magníficas performances, que dão uma nova vida às suas personagens e que mostram o que é que uma figura ficcional deve ser: um trabalho em constante progresso e evolução, que é condicionada pelas constantes e velozes mudanças trazidas pelo tempo e pelo espaço. Mais uma vez, Richard Linklater transpõe, sem muito trabalho de câmara (porque aqui não é esse o ponto fulcral), o estado das suas personagens, que entram em algumas discussões agressivas e revelam sentimentos que nunca lhes conseguimos decifrar anteriormente, porque ao chegar a esta idade, eles apercebem-se, na ficção, de algo que nós também sabemos na vida real, mas que queremos esquecer, por estarmos a ver um filme: é que a existência não é feita de finais ficcionais. Com novamente as relações humanas em todo o seu esplendor, «Before Midnight» dá-lhes até um novo tom, incluindo-lhes um recheio novo, que inclui temas-chave da experiência do ser humano e que ao qual nem a criação artística pode escapar. E olhando em retrospetiva, podemos ver que os três filmes têm uma coisa em comum: a sensação poética e mágica com que nos deixam no final. Só que nos últimos momentos de «Before Midnight» encontramos uma poesia diferente, que nos pode deixar tanto tristes ou alegres, ao prevermos o que vai depois acontecer às duas personagens preferidas de meio mundo e arredores. Algum dia tudo terá de acabar... ou talvez não. É que apesar de ser uma história, com princípio, meio, e fim, sabemos que esta não deve ter um "fim" como é vulgarmente designado, nem queremos que tudo isto acabe. E, com melhores ou piores notícias para nos darem, esperamos voltar a ver o par Jesse e Céline daqui a nove anos.

* * * * 1/2

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