sábado, 2 de novembro de 2013

História de Gangsters (Miller's Crossing) [1990]


«História de Gangsters», um dos melhores filmes dos irmãos Coen, é uma curiosa e potente incursão da dupla de cineastas pelo universo dos filmes de crime que dizem tanto à alma da Sétima Arte americana (desde James Cagney e Edward G. Robinson aos mafiosos de Martin Scorsese, passando também pelas tentativas mais recentes de ressuscitar o género, como «Inimigos Públicos» ou «Força Anti-Crime»), que filmam os criminosos à sua maneira, ou seja, com todo aquele tom negro e arrebatador que caracteriza os seus filmes mais bem conseguidos (sim, porque mesmo que eles sejam muito bons a fazer comédia, é o lado "noir" dos Coen que mostra a verdadeira genialidade da sua cinematografia - veja-se o caso mais representativo e verdadeiramente "obra primaico", «Blood Simple - Sangue por Sangue»). O que os irmãos fazem é revitalizar o género, que muitos insistem em considerar (injustamente) datado e despropositado, não pegando no estilo de outros autores que trabalharam os gangsters no Cinema (para além de Scorsese saliente-se Raoul Walsh, Billy Wilder, Michael Curtiz, Francis Ford Coppola, entre outros), mas trabalhando-o com todas as suas marcas de estilo e acrescentando outras. «História de Gangsters» é talvez um misto entre o drama repleto de diálogos à David Mamet e a profundidade e a tragédia do primeiro capítulo de «O Padrinho». Este é talvez um dos títulos mais convincentes e perturbantes dos Coen, e está cheio de veteranos das suas fitas (John Turturro, Steve Buscemi, etc) e algumas excelentes aquisições (como Albert Finney e Gabriel Byrne), grandes diálogos e grandes personagens num mundo obcecado com a corrupção e o jogo de interesses pessoais que rodeia cada uma das "sub-plots" em jogo, interesses esses que acabam quase inevitavelmente em grandes festins de pancadaria e de tiro ao alvo. Ética não é uma palavra que conste no dicionário de «História de Gangsters», nem no caráter de nenhuma das suas personagens (umas mais hipócritas do que outras), que são acompanhadas por uma grande música (composta por Carter Burwell, que fez também as melodias para outras fitas dos Coen) e uma impecável cinematografia, que ambientam tão bem esta história de máfias irlandesas durante os tempos áureos (ou dramáticos) em que a Lei Seca estava em vigor nos Estados Unidos da América.  


Dois líderes e o capanga de cada um deles, eis a temática central de «História de Gangsters», que maneja muito bem todas as circunstâncias e brigas que envolvem cada um dos dois gangues mafiosos. Tom (Byrne), o "caporegime" de Leo (Finney) é o protagonista do filme e quem vai estar a comandar, no meio de algumas mentiras e resoluções duvidosas, uma série de planos para se livrar de alguns problemas financeiros e pessoais (que incluem um "affaire" extra-conjugal com a mulher do seu chefe). Ele é uma espécie de Rick do «Casablanca», mas em versão criminoso inconveniente. O filme possui um tom sarcástico, realista e sincero, através desta personagem que pouco se importa com a honra e o prestígio de quem o rodeia, e que só quer proteger-se no meio de uma encruzilhada de gangsters. Com um argumento dinâmico e uma ultra-violência que se opõe aos mais brilhantes momentos de pura beleza visual que o filme nos faz contemplar, «História de Gangsters» é uma obra fulminante onde nem tudo o que parece o é na realidade. A luta de poder entre os gangues é um bom pretexto para os irmãos Coen criarem uma das suas obras mais originais e geniais, com ideias completamente insólitas (algo típico nesta dupla de realizadores/argumentistas), que nos fazem rir quando não estávamos à espera, ou que nos fazem ficar impressionados quando não damos por isso. «História de Gangsters» é uma obra completamente recheada de pura adrenalina, com planos e cenas brilhantes (destaque-se, acima de todo o brilhantismo, o magnífico final) no mundo da corrupção clandestina do tráfico do álcool e das influências criadas por certos grupos ligados a essa venda ilegal de bebidas falsificadas. O filme é um festim para os admiradores dos Coen, dos clássicos filmes de gangsters com Cagney ou mesmo das obras mais recentes com estes criminosos. É uma fita deliciosa que é uma das mais criativas dos irmãos.

* * * * 1/2

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