Fugiu um Condenado à Morte (Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut) [1956]


De Robert Bresson, o realizador do excecional «Pickpocket» (que tornou um banal ato de vigarice em excecional arte cinematográfica), este é um filme não sobre carteiristas, mas sobre fugas da prisão. Como Bresson deixou claro no início do filme, numa nota introdutória, o seu objetivo com esta obra é "contar uma história real sem recorrer a enfeites". Há uma preocupação do cineasta em retratar a realidade, utilizando o Cinema e as suas características, mas sem deixar que a Arte domine a não-Arte. Claro que esta máxima é impossível de ser concretizada de uma maneira total, porque nunca a ficção pode dar a realidade, nem a realidade chega ao mundo do ficcional, e também porque nunca se podem substituir uma outra. Mas Bresson tenta cumprir as suas palavras ao máximo, e o resultado é uma brilhante película, engenhosa e iluminada pelo génio francês da Sétima Arte, que consegue, mais uma vez, pegar em pequenos nadas e dizer tudo o que quer transmitir com esta história sobre liberdade, acrescentando também mais algumas coisas que se vai lembrando pelo caminho (e que estão presentes nos pormenores de câmara, constantes ao longo do filme). Cronologicamente situado no tempo da Segunda Guerra Mundial, com a luta entre o Nazismo e a Resistência Francesa a ocorrer na clandestinidade, encontramos um campo de prisioneiros franceses em Lyon, prisioneiros esses que foram capturados pelos alemães ao serem apanhados em tentativas de derrube do regime de Adolf Hitler. Baseado nas memórias de André Devigny, que escapou de uma situação assim em 1943, Bresson manuseia elegantemente a câmara e toda a conjuntura social, estética e filosófica do drama dos prisioneiros e da esperança que todos alimentam em reencontrar as suas vidas, as suas famílias, e os seus "eus", facilmente destruídos ou quebrados nestes ambientes de sofrimento. Com uma poderosa banda sonora  (praticamente dominada pela essência da obra de Wolfgang Amadeus Mozart) que nem sempre está presente, mas que marca profundamente a narrativa, «Fugiu Um Condenado à Morte» é um testemunho vivo e forte do mundo, da guerra e da Arte do Cinema, contado pelo protagonista com um grande detalhe.


Mais do que um filme de relato real, «Fugiu um Condenado à Morte» é um filme para ser sentido de uma maneira especial, atenta aos movimentos da câmara que só Bresson sabe executar, e aos grandes momentos de mise-en-scène. Talvez irritado com as superficialidades de muita produção de Hollywood, Bresson tenha querido fazer o seu filme o mais puro possível e o mais próximo da realidade que o Cinema pode fazer. E conseguiu trabalhar aqui uma obra notável, onde se filmam os vazios, as angústias, a solidão e o drama do Homem em lugares e situações tão desumanas como é a do protagonista e dos seus companheiros - e muitos deles nem sobrevivem até ao fim daquele sofrimento. Quando vemos todas as ideias elaboradas por André a ganharem vida, graças às múltiplas e engenhosas tentativas de fuga que ele leva para a frente e que fazem as delícias dos espectadores, observamos todos os limites a que o Homem se submete para restaurar um dos seus dons mais valiosos: a liberdade e a integridade da sua pessoa. A obra de Bresson é uma reflexão surpreendente e majestosa sobre a Humanidade, ao ser confrontada com um dos crimes mais horríveis da História. Mas bate certo em qualquer tempo, em qualquer lugar, e em qualquer contexto. Uma fita repleta de força, vitalidade e audácia, que tanto nos comove como nos fascina, graças à sensibilidade humana retratada tão bem pelos pequenos nadas, que acabam por ser, pela medida como com eles lidamos, uma das coisas que tem mais significado tem no caráter de cada um de nós. Robert Bresson elaborou aqui um grande filme e uma grande peça de Cinema.

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