Um Criado Ao Seu Dispor (Room Service) [1938]


Comédia esquecida e subvalorizada dentro do vasto - e riquíssimo! - espólio humorístico deixado pelos formidáveis Irmãos Marx, «Room Service» está ao nível dos melhores filmes do grupo no que diz respeito à arte da gargalhada. Aqui já não vemos o irmão Chico, o membro mais tímido e apagado dos Marx (não era ele que estava encarregue das grandes cenas cómicas destes filmes), mas a energia inigualável e indissociável do estilo perpetuado por Chico, Groucho (o impagável Groucho, sempre com resposta na ponta da língua!) e Harpo Marx continuou e perdurou, felizmente, para a memória da Comédia, e para a memória do Cinema. Em «Room Service» há espaço para se gozar com a seriedade do drama cinematográfico da época, numa história que envolve teatro e a grande organização e produção que das artes de palco, e que faz deste filme uma grande comédia de enganos altamente construída como os grandes clássicos deste género humorístico, e que muito se assemelha ao ritmo de uma peça de teatro ou, se preferirmos fazer comparações mais atuais, à estrutura de algumas boas "situation comedies" que foram exibidas nos últimos tempos. Em «Room Service», todos precisam de dinheiro porque nenhum dos "heróis" da trama o tem, e ficará carregado de sarilhos se não conseguir resolver essa questão, que faz a génese do filme, da sua história e dos rumos (alguns deles ainda muito originais hoje em dia) que esta toma. Constantemente eles pensam que conseguiram encontrar a salvação para os seus problemas, mas depois nada se conseguiu resolver, e temos apenas mais uma razão para rir a bom rir, com mais cenas e situações novas pelas quais os Marx e os restantes atores do filme (cada um com as suas particularidades cómicas) têm de "enfrentar"... sempre da forma mais engraçada possível. Nós, espectadores, sabemos sempre mais do que as personagens de «Room Service», mas é impossível não se ficar deliciado com as peripécias vividas por um tão caricato elenco, numa tão caricata narrativa.


«Room Service» foi o primeiro filme que vi dos Irmãos Marx (e este revisionamento soube ainda melhor, porque não me lembrava de tantos momentos emblemáticos desta comédia), e pode ser uma comédia pouco excêntrica e histérica (no bom sentido), se for comparada, por exemplo, a «Duck Soup», a obra maior do grupo, mas é um filme muito divertido, carregado de surpresas e mais surpresas, e que tem cenas que são verdadeiramente de antologia cómica. Se bem que possua uma história de amor mais desinteressante, esta apenas serve como paisagem e como possibilidade para os Marx explorarem as suas capacidades, numa obra que implica mais comédia linguística do que, propriamente, o humor mais físico e "slapstick". Contudo, o timing, essa ferramenta tão preciosa para o humor, está vivamente presente e é notável a forma como os Marx conseguem fazer tanto com tão pouco: para eles, qualquer movimento, qualquer forma de falar e qualquer reação pode ser usada para fazer rir, e eles fazem-no como ninguém mais soube fazer. «Room Service» é uma comédia mais certinha, medida e rigorosa do que os Marx habituaram os seus fãs em anteriores e posteriores fitas, mas há espaço para a caricatura e os exageros tão bem trabalhados pelos irmãos. Com alguns erros técnicos muito visíveis, a nível da história e da construção de uma ou outra cena, «Room Service» vale pelo poder dos Marx e pela transformação que dão a um filme que, sem eles, nunca teria passado despercebido da cena hollywoodiana. É uma fita não só aconselhável aos fãs de um dos grupos cómicos mais famosos de sempre, como também a todos os pessimistas da comédia clássica e "antiquada". Experimentem, porque talvez serão capazes de se surpreender...

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Comentários

  1. Os Marx estão entre os meus heróis do humor. Ainda tenho que lhes dedicar um ciclo. :)

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    1. Farias muito bem e eu apoio essa ideia! Eles merecem mesmo! :)

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