Também há falcatruas no mundo dos quadradinhos


Não bastam os lucros obtidos com os 24 álbuns originais (mais os esboços de um protótipo de um 25, o da «Alph-Art»), mais as primeiras edições das primeiras histórias do Tintin, mais todo o merchandising criado propositadamente para suportar os custos de inúmeras iniciativas culturais e/ou recreativas (canecas, t-shirts, outros livros, livros de livros e livros de livros de livros). Para a Fundação Hergé/Moulinsart, e para a Editora Casterman, nada disto chega.

Porque é que digo isto? Porque li uma notícia alarmante: contra a vontade do autor do repórter belga mais famoso da BD, a Casterman e a editora Moulinsart já planeiam lançar um novo livro do Tintin até 2053. A desculpa dada? É porque nessa altura a obra de Hergé e as suas personagens ficarão sem o domínio do copyright, e passarão para o domínio da populaça. 

E pensemos assim: Hergé deixou este mundo há exatamente 30 (trinta!) anos. Ou seja, se há alguém que não poderá lucrar mais com Tintin é o seu criador, que mencionou EXPRESSAMENTE que não queria entregar o seu mundo a outro qualquer autor de BD, pois o mesmo poderia distorcer todas as suas ideias, originais e acutilantes ainda hoje.

E qual é a solução das editoras interesseiras e sedentas? É ir contra a vontade do homem que, praticamente, lhes dá de comer, criando uma forma para ganharem mais dinheiro através dos livros originais, planeando criar uma nova história de Tintin até ao ano em que o copyright expire. Se houver alguma solução mais generosa, inteligente e humilde do que esta, gostava de tomar conhecimento da mesma.

O que mais me incomoda é a "lata" da Casterman e da Moulinsart e, mais precisamente, da viúva de Hergé. "Temos ainda muito tempo para pensar nisso", como disse ela. Então se têm, porque decidiram expor esta sua investida tão suja e malévola (ao nível cultural) em 2013? Queriam ser mesmo já descarados, ou foi tudo só para conquistar o coração de fãs ingénuos e materialistas, que ambicionam ter uma qualquer nova história do Tintin nas mãos mesmo que não seja da autoria de Hergé?

Não é só na banca nem na política nem no Estado que há sujidade de atividades. Agora, parece que o pobre Tintin vai ser vítima das atitudes financeiras das editoras que dele dependem para sobreviver (pelo menos hoje em dia - mas quem é que não nos diz que em 2053 isso já não seja assim?!). Explorem o material de Hergé até ao tutano nos próximos quarenta anos da maneira que quiserem. Criem mais linhas de roupa, calçado, sumos, iogurtes, bifes e filetes de pescada. O que quiserem. Mas fazerem isto é um atentado.

E não, isto não é só um indivíduo que está a maldizer porque cresceu a ler e a reler vezes em conta cada um dos álbuns de Tintin. Estou a falar de uma perspetiva séria e socialmente aceitável. As empresas editoriais podem ser mesmo mesquinhas e gananciosas, se quiserem, e isto é a prova. E parece-me que nenhuma das pessoazinhas que trabalha ou na Moulinsart ou na Casterman se deu ao trabalho de ler atentamente os livros de Tintin. Que eu saiba ele não é um representante dos grandes poderes económicos, nem dos interesses interesseiros de grandes marcas que se sustentam através da criatividade alheia.

Ou talvez fui eu que li mal os álbuns, não sei. Só sei é que neles não encontrei nada disso de todas as vezes em que neles peguei (e que continuo a pegar). Não encontro nas histórias fantásticas do Tintin motivos para expressar estas críticas que escrevo aqui, em relação às más atitudes de editoras de banda desenhada e quejandos de merchandising.

Se quiserem dou uma sugestão para essa vossa nova "aventura", para deixar mesmo o Hergé a dar voltas eternas na tumba: ponham o Tintin em Wall Street. E numa sequela, ele poderia vir cá a Portugal trabalhar como banqueiro. Só coisas finas e que são muito lúdicas para a pequenada.

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