Shaun of the Dead [2004]


Primeiro tomo da famosa "trilogia dos Cornettos" (cujo último filme, «The World's End», estreou este ano um pouco por todo o lado - menos em Portugal, como já se estava à espera...), «Shaun of the Dead» (o título português é demasiado mau para ser alguma vez mencionado nesta crítica) é uma interessante investida em retomar o espírito da comédia cinematográfica britânica para as tendências cinematográficas atuais e para as potencialidades criativas dos novos meios técnicos que o Cinema tem. Simon Pegg e Nick Frost, uma das duplas mais populares da comédia britânica (começaram brilhantemente no programa de sketches «Big Train» e «Spaced» foi a sitcom que deu a entender a grande química entre ambos - e este filme baseia-se em um dos seus episódios -, e que depois se estendeu a outros programas e filmes) protagoniza este filme de zombies que goza com o próprio género constantemente. Realizado por Edgar Wright (que também fez os dois outros seguintes volumes da trilogia), «Shaun of the Dead» mostrou que é ainda possível revolucionar a comédia no Cinema, e que não é ainda a televisão que domina toda a criatividade. Os três excêntricos filmes de Wright, Pegg e Frost deram uma nova frescura ao Cinema britânico e a ideias inovadoras que nunca tinham sido muito bem utilizadas para termos cómicos, mas que aqui resultam bem, e por vezes, de forma surpreendente. Numa história que se centra em dois amigos inseparáveis, Ed (Frost) e Shaun (Pegg), que danifica a sua relação amorosa por causa do espaço que dá a Ed, «Shaun of the Dead» é uma comédia romântica de zombies muito bem construída e engraçada, que depois se eleva a filme de terror pela quantidade de acontecimentos paranormais que acontecem na pequena cidade onde os dois moram, e que se torna numa pandemia mortífera que começa a afetar muitos dos que os rodeiam no quotidiano. Não sendo inovadora em cinematografia, é de louvar o esforço feito para que todos os elementos técnicos se conjuguem bem com os elevados disparates (com graça) do argumento do filme, sendo que a montagem joga admiravelmente com todo o ambiente de terror e de gargalhada proporcionado pela fita.


Se bem que a narrativa tenha uma estrutura demasiado lógica (devido à fórmula, esgotadíssima e repetidíssima, dos filmes de zombies), caindo muitas vezes numa previsibilidade excessiva (num argumento que parece querer ser a única coisa a sustentar todo o filme), «Shaun of the Dead» é uma obra que vale pelas boas piadas e pelos grandes atores que possui. É uma paródia engraçada, caricata e com alguns toques de brilhantismo e irreverência, e que, apesar da lógica, consegue brincar com os clichés dos filmes de terror, introduzindo-lhes novos elementos que os tornam mais interessantes. E por outro lado, tem clichés narrativos de que estamos à espera de ver (em todo o dramatismo que está inserido na narrativa), mas que vemos com delícia por causa das coisas boas que o filme nos proporciona. «Shaun of the Dead» é um filme onde temos de alinhar na estupidez do seu conteúdo e nos facilitismos que o mesmo nos provoca, para o podermos apreciar da melhor maneira possível. «Shaun of the Dead» é uma boa comédia, sem pretensões de ser mais do que aquilo que pode ser, aproveitando ao máximo a sua "pequenez" para criar um belo momento de entretenimento e de humor. Se fosse apenas um filme de zombies, talvez não seria sequer relevante no panorama cinematográfico, mas o toque de Wright, Pegg e Frost é que dá todo o espírito à fita que fez com que ela se tornasse muito popular (aliás, tal como os dois filmes seguintes da trilogia - pena é que por aqui as distribuidoras continuem de olhos fechados...). Repleto de dinamismo e, em parte, uma moral que parece ter sido recuperada dos filmes clássicos americanos (mas que é aqui reinventada para o século XXI), nomeadamente pelo foco na história da amizade forte entre Shaun e Ed, que nunca os poderá separar (e a amizade é também um denominador nos outros volumes da saga), «Shaun of the Dead» balanceia entre o drama, o terror e a pura comédia grotesca, "screwball" e/ou satírica (muito presente no final, que é mesmo a melhor forma de desfecho que poderia ser criada para um filme como este), e que deve ser visto com gosto e com boa disposição. E que, de tão simples, se torna uma interessante investida humorística que funciona e que é uma maravilha.

* * * *

Comentários