sábado, 19 de outubro de 2013

Oldboy - Velho Amigo [2003]


Em vésperas de estrear o remake americano (assinado por Spike Lee e protagonizado por Josh Brolin), vale mesmo a pena visitar o filme original «Oldboy», porque desse não se pode ter dúvidas em relação à sua qualidade. Muito mais peculiar e sedutor do que qualquer imitação que se possa ser feita, por ser de uma cinematografia diferente e não tão sujeita a "plasticismos" como muita vezes vemos no circuito de Hollywood, «Oldboy» é uma obra vinda da Coreia do Sul e que, tendo sido feita há dez anos, continua ainda uma fita potente, aflitiva para o espectador, surpreendente e emocionante. É um thriller de cortar a respiração (e este cliché das críticas de cinema não é mencionado nesta só porque fica bem quando é relacionada com esse género cinematográfico, é porque é verdade também: «Oldboy» faz o público ficar de boca aberta e entusiasmado com cada novo passo original, brilhante e, em certos momentos, comovente, que a sua narrativa toma. A história fala de Oh Dae-Su, um homem que acorda e não sabe onde está, nem porque foi parar a um sítio desconhecido, nem como é que tudo se sucedeu. Por ali, num quarto fechado onde tem como companhia apenas uma TV, passa muito tempo (ou seja, vários e longos anos, para sua tristeza e simultânea fúria, principalmente porque, durante a sua longa estadia no dito quarto, a sua mulher morreu e a sua filha partiu para longe, e ele será acusado de um crime que não cometeu) e depois, sai de lá de repente, ainda cheio de coisas por esclarecer. E, tal como ele, nós pouco sabemos desta situação tão invulgar e que vem desprovida de qualquer explicação, e que nos faz ter tantas questões para responder, questões para as quais nunca encontramos resposta porque não encontramos os meios que precisamos para as dúvidas desaparecerem. O mistério prossegue e cada vez ficamos mais apavoradas, à medida de Oh Dae-Su descobre e nos mostra mais novos pormenores que podem esclarecer as dúvidas, conduzindo a um final que tem tanto de estimulante, como de profundamente arrebatador. No fundo, tudo foi milimetricamente bem planeado, e nada foi posto ao acaso. É tudo um plano com um certo objetivo, com o seu quê de assustador e de preverso e chocante, que faz a parte do thriller do filme tão ou mais intensa que muitas outras obras incluídas nesse género.


«Oldboy» é uma obra prima moderna, daquelas que fascina metade do mundo e que é repudiada pela outra, talvez mais ao seu estilo pouco usual, brutal, bizarro até, e aparentemente indisciplinado, muita gente tenha ficado de pé atrás, e ainda por cima, por ter sido Quentin Tarantino quem ajudou a internacionalizar o filme, algo que é usado por muitos para explicar porque não gostaram desta obra (e os seus gostos cinematográficos são muito invulgares, diga-se de passagem). Mas é um filme a que ninguém consegue ficar indiferente, ou pelo menos, não deve haver uma alminha sequer neste mundo que tenha continuado a ver da mesma maneira depois de visionar «Oldboy». E se pusermos a violência, controvérsia e o brilhantismo causado por essa violência e essa controvérsia de parte, o filme pode ser visto como uma espécie de «O Conde de Monte Cristo» moderno, mas com muito mais sangue, violência (expressa de formas tão marcadas e surpreendentemente icónicas nas cenas que envolvem um certo martelo) e reviravoltas inesperadas no argumento e nas personagens do mesmo. A vingança é um prato que se serve frio e são muitos os que querem dar esse prato para os outros provarem... com uma fascinante banda sonora e uma impecável montagem e mise-en-scène, «Oldboy» é um filme esteticamente forte e arrepiantemente construído, repleto de suspense e twists avassaladores (não só de "pressão" dramática ou emocional, como também nas pequenas atitudes que Oh Dae-Su tem no seu contacto com o quarto ou quando regressa, mais tarde, ao mundo real/exterior), sensacional pela sua expressividade e, mais importante até, pela forma inovadora que dá à sua expressão, ao seu conteúdo e ao seu estilo muito próprio e único. Depois de «Oldboy», o Cinema não pôde voltar a ser o mesmo e, com ou sem remakes e reinvenções de um conceito que surgiu originalmente num manga japonês (e de que o filme adapta) e que tão bem foi transposto para o grande ecrã, utilizando meios muito originais, é esta a obra que marcou o público e a história de obsessões, amor e família, que transporta tão eficazmente. «Oldboy» é uma fita de culto, uma obra cinematográfica aplaudida de pé por aqueles que não têm grande influência na imprensa especializada, mas que gostam de ver bons filmes. E fizeram bem.

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2 comentários:

  1. Não poderia estar mais de acordo. Um filme para ver e, sobretudo sentir até às entranhas. Bom texto. Se me permites: http://caminholargo.blogspot.pt/2012/11/oldboy-oldeuboi-2003.html

    Cumprimentos,
    Jorge Teixeira
    Caminho Largo

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    1. Permito pois Jorge! :) O teu texto é muito mais adequado ao espírito do filme do que este meu textito. Obrigado e um abraço!

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