O Grande Escândalo (His Girl Friday) [1940]


«His Girl Friday» é um filme sobre jornalismo e jornalistas (e que tem uma historieta de amor lá pelo meio), baseado numa peça de teatro, «The Front Page» (que teve três adaptações cinematográficas até hoje, sendo esta a segunda, e a última foi assinada por Billy Wilder, sendo uma das suas últimas obras), ambientado no "período negro" passado por essa profissão (não estará num segundo período assim, hoje em dia?), como nos alerta a sua nota introdutória. Fala-nos, mais do que tudo, dos ideais da imprensa e das pessoas que fazem a imprensa, e que, contaminados ou não pela ideia de obter lucros ou por, simplesmente, continuarem a seguir as suas vidas sem quererem saber do impacto daquilo que querem fazer no jornalismo, fazem o seu trabalho nas mais diversas áreas, e para os mais diversos públicos. Se bem que a ação se centra nas personagens interpretadas por Cary Grant e Rosalind Russell, um homem e uma mulher divorciados, mas que continuam marcados pelo seu passado e pelo caráter um do outro: Walter Burns, um viciado na Notícia e na sede de se criar a Notícia, e Hildy Johnson, uma grande jornalista desejosa de se demitir para poder livrar-se de todo o ambiente frenético e stressante da imprensa e casar-se com a pessoa que ama. Walter vai fazer tudo para reconquistar Hildy, ou pelo menos, para não a perder de uma vez para sempre, e tentará constantemente estragar a vida aos dois noivos graças a toda uma série de esquemas trapaceiros, que levam a que os planos do casal tenham de ser alterado por diversas, e divertidas, circunstâncias. E lá no fundo, nós simpatizamos com Walter Burns, apesar das suas intenções muito egoístas e caricatas... Com um humor ácido e inteligente característico das grandes "comédias sofisticadas" dos anos de ouro de Hollywood (tal como «Casamento Escandaloso», de George Cukor e que tem também Cary Grant no elenco), «His Girl Friday» prima pelo timing perfeito dos seus atores, das suas ações e dos seus diálogos, mas também pela elevada, e refinada, sátira social que está retratada nesta narrativa, sendo também uma mordaz crítica ao jornalismo e ao uso da objetividade (muitas vezes criada para fazer fações subjetivas dentro de uma Verdade e, consequentemente, uma manipulação enganosa dos acontecimentos) pelos senhores dessa profissão, tal como o sensacionalismo tão lucrativo para jornais e revistas, e que continua hoje a ser o pão nosso de cada dia da comunicação social. No filme, um grande acontecimento nacional irá suceder-se e tornar ainda mais frenético o dia destes personagens, e condicionará tudo o que irá acontecer. É o jornalismo sempre de encontro à realidade dos factos, factos esses que quer seguir segundo a segundo. 


Em «His Girl Friday», a velocidade com que as personagens falam (e que inspirou Quentin Tarantino para algumas cenas do clássico «Pulp Fiction») pode ser comparada à velocidade como o jornalismo e o palpitar dos acontecimentos noticiosos influencia o rumo das personagens. É uma característica curiosa, principalmente se se notar que este filme é de 1940, e que o cinema sonoro era ainda uma invenção muito recente. Este é daqueles filmes que aproveita a potencialidade do som ao extremo (e ainda bem!), proporcionando uma série de diálogos bastante inspirados, sempre proferidos no momento certo e que sempre encantam o espectador. Além de dissecarem a matéria noticiosa até ao mais ínfimo pormenor e de escreverem "falsas" verdades, os jornalistas do filme são vistos quase como "robots" do jornalismo, que só têm olhos para colher tudo o que possa captar os leitores e que olham, indiferentes, perante a tragédia iminente que eles próprios estão a seguir, mas as consequências para os "alvos" pouco lhes importam saber. E é curioso como um filme tão mordaz e irreverente pudesse ter sido feito assim nos anos 40! Num ritmo imparável e impagável, que proporciona a esta obra um bom punhado de cenas verdadeiramente grandiosas e inesquecíveis, onde as coisas se sucedem umas atrás das outras, «His Girl Friday» é um dos expoentes máximos da tradição americana, quando esta sabia renovar-se e não como hoje em dia, que parece que gosta de voltar sempre às mesmas fórmulas e aos mesmos "vícios" narrativos e cinematográficos. No tempo de «His Girl Friday» inventou-se de tudo com todos os meios, e felizmente, estas magníficas fitas ficaram para a posteridade. Com uma fascinante e absorvente montagem, tão bem acompanhada pelo génio de Howard Hawks e a sua habilidade com a câmara, que faz com que ela seja uma das protagonistas do filme, fazem do mesmo uma obra ímpar no Cinema americano. E no meio de interesses pessoais, prevalece uma inteligente e perspicaz forma de ver o mundo com estas personagens que tão bem representam alegorias do género humano, e que continuam extremamente atuais. É um filme que podia ser feito hoje, numa época em que o poder da novidade e do lucro da mesma é tão ou mais intenso do que nos "forties", dado que agora temos tantos meios de comunicação para explorar. 


Para uns é humor constante, o que há em «His Girl Friday», mas talvez se virmos com mais atenção, percebemos que, mais do que provocar gargalhadas, a fita de Hawks dá umas boas e constantes facadas na sociedade dos "states", onde tudo faz com que se suceda um "gran finale" que tanto tem de "happy ending", como também de final não-tão feliz ao nível social. Muitos filmes deste tempo terminavam com finais deste género, mas quantos é que nos conseguem fazer pensar sobre a maneira como tudo acabou, tal como «His Girl Friday» nos provoca? Não é algo que foi feito para dizer "OK, ficou tudo bem, fim da história, passemos ao filme seguinte"! Talvez Hawks incluiu no filme uma subtil ironia sobre a humanidade e a maneira como desistimos do que queremos verdadeiramente para a nossa vida, em função do que os outros querem, ou devido ao que o coletivo espera de nós. Talvez não haja isto em «His Girl Friday» e eu esteja só a inventar significados que não existem... ou talvez não. O que é certo, é que esta é uma grande comédia, muito virada para a sociedade e que toca a todos. E não é preciso ser-se jornalista para se apreciar esta maravilha.

* * * * 1/2

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