domingo, 13 de outubro de 2013

Inherit the Wind [1960]


Yes. The individual human mind. In a child's power to master the multiplication table, there is more sanctity than in all your shouted "amens" and "holy holies" and "hosannas." An idea is a greater monument than a cathedral. And the advance of man's knowledge is a greater miracle than all the sticks turned to snakes or the parting of the waters.

Stanley Kramer foi um realizador que quis fazer filmes que fizessem a audiência pensar: «O Julgamento de Nuremberga», sobre o caso dos oficiais nazis que cometeram crimes contra a humanidade, «Adivinha Quem Vem Jantar», envolvendo crenças familiares, e «O Mundo Maluco», que retrata diversas situações cómicas e atribuladas na sociedade contemporânea, são três exemplos dessa componente que influenciou muito a filmografia do cineasta. «Inherit the Wind» é outro desses emblemáticos casos. Pegando no famoso "Monkey Trial" de 1925 (que se tornou numa peça de teatro, que serviu de base para o filme - e o realizador fez uma estreia do filme na cidade onde ocorreu o dito "Trial"), que pôs em causa o criacionismo e o evolucionismo, e o facto das pessoas poderem ou não pensar pelas suas próprias cabeças, Kramer faz uma alusão subtil aos tempos conturbados que se viviam na época, marcados pela "caça às bruxas" do McCarthyismo. O resultado é uma obra que criou e continua a criar polémicas e que alertou consciências para a liberdade de expressão e pensamento. «Inherit the Wind» toma a posição inteligente de não tornar um dos lados da medalha certa e a outra errada, dissecando completamente as razões que levam umas pessoas a acreditarem no criacionismo, e outras pessoas a apoiarem-se na teoria da «Origem das Espécies» de Charles Darwin. A questão ainda consegue ficar mais complicada do que isso, quando se põe em causa a proibição de se ensinar essa teoria nas escolas, o que leva ao julgamento que põe em dúvida a culpabilidade ou a inocência de um professor, que arriscou, numa terra conservadora de nome Hilsboro (que prefere ficar atrasada no tempo e não evoluir, sequer, na tolerância religiosa ou de pensamento dos seus habitantes - algo que fica desde logo patente na música que abre o filme, que tem por letra: Dê-me a religião antiga, é boa o suficiente para mim), ensinar aos estudantes o evolucionismo. Como é que uma entidade pode dizer qual das teoriias está certa, quando na realidade, não temos a certeza definitiva de nenhuma delas? Talvez a resposta para a criação do Mundo esteja ainda mais longe do que pensámos, distante do que a ciência ou as crenças possam supor, e nem fanatismos de qualquer dos lados da medalha possa ter solução para isso... 


Spencer Tracy é Henry Drummond, um grande advogado que chega a Hilsboro para defender o pobre jovem professor que tem toda a aldeia contra ele, e que terá alguns momentos de grande superioridade artística neste filme. Fredrich March é Matthew Harrison Brady, o advogado da acusação, um indivíduo muito popular na aldeia e o "guru" dos fanáticos da mesma, que não olham a meios para impor a sua visão das coisas - quando chega a Hilsboro tem uma receção digna de presidente dos EUA, com toda a gente a recebê-lo, a aclamá-lo, a rir-se das suas piadas e a tratá-lo como um ser superior e divino! - e que, com Spencer Tracy, tem outros tantos momentos gigantes desta obra. E Gene Kelly (talvez a surpresa deste elenco - como é que seria possível pensar que poderíamos ver o dançarino de «Um Americano em Paris» e «Serenata à Chuva» a conseguir ser tão sério num filme assim, e a dizer frases como: A função do jornalismo é confortar os doentes e adoecer os confortados...) é um sarcástico, perspicaz e caricato jornalista que vê as situações que se desenvolvem naquela pequena aldeia com uma ironia muito aguçada, porque está desacreditado de tudo aquilo e acredita apenas no valor do Homem, fora do "rebanho" em que está inserido, e que glorifica o professor, preso e pronto a ir para tribunal, nos artigos que envia para o seu jornal. O caso movimenta muitas pessoas, opiniões e protestos (alguns de um fanatismo exageradíssimo), e o acusado, perante tantas ameaças de um povo irracional e que leva tudo até ao maior dos extremos, mantém-se firme na sua ideia e não desiste do seu objetivo para, em troca, poder ser considerado inocente. Ele ensina-nos que não devemos vender-nos perante a maioria, mesmo que isso implique grandes complicações. Conformismo nunca leva ao progresso, e se o Homem nunca quisesse sair do seu comodismo e do seu "ninho", muita coisa não teria sido alterada, para o bem ou para o mal, na Humanidade... e talvez, este filme nunca tivesse sido feito! E lá está, também foi necessária coragem do estúdio, de querer adaptar uma obra tão polémica (mas que poderia ser tão lucrativa) é também de louvar, isto se virmos mais uma vez a época de fanatismo em que «Inherit the Wind» foi lançado pela primeira vez nos EUA.


«Inherit the Wind» é uma poderosa reflexão sobre o poder da comunidade sobre o indivíduo, e pela maneira irracional com que, muitas vezes, certos grupos de pessoas se deixam guiar pelos seus líderes, nunca pensando verdadeiramente naquilo que eles acreditam ou naquilo que eles lhes levam a executar na sociedade. É um filme audaz, onde Stanley Kramer acertou muito bem naquilo que quis retirar do "Monkey Trial" e da referida peça (que, de tanto sucesso que teve - e de tanta controvérsia que continua a gerar - é ainda reposta várias vezes por diversas companhias de teatro espalhadas por toda a América do Norte). Não se debruça tanto sobre a fé, mas sim no modo em que a mesma é utilizada pelos crentes, que muitas vezes, nas "mãos erradas", pode causar ações que se contradizem completamente com os princípios de qualquer verdadeira religião: a intolerância e a falta de compreensão para com o próximo. «Inherit the Wind» não é, por isso, um filme anti-religião nem anti-darwinismo, e apenas mostra que ambas as coisas podem convergir para o mesmo lado e que não é por se acreditar mais na Evolução que se perde a crença, como apregoa Brady em várias partes da fita. «Inherit the Wind» mostra-nos o poder das influências (e, em contraste com o presente da feitura do filme, o poder dos poderosos que fizeram meio mundo americano acreditar no fanatismo de McCarthy) e a forma como uma voz inteligente e estruturada se pode distinguir no meio da multidão (os diversos discursos de Drummond nas cenas do longo e intenso julgamento são disso exemplo - e que são a parte mais conceituada do filme -, com o advogado a conseguir mexer na opinião de muitas das pessoas que assistem à sessão naquele pequeno tribunal). Esta é uma obra que "parte a loiça toda", onde vemos a verdadeira Justiça a ser e a não ser posta em prática, com as palavras sinceras do extraordinário, astuto e inteligente argumento, que nos mostram que o debate religioso (ou nem tanto) continua muito marcado nos nossos dias. Mas a crença serve para confortar e não para criar medo nas pessoas, como algumas personagens pensam acreditar. Filme ainda muito atual, carregado de uma força espantosa e de uma emoção surpreendente, «Inherit the Wind» quer ser uma obra vista por toda a gente e que, independentemente das crenças, faça os espectadores pensarem sobre várias temáticas. E consegue fazer isso de uma forma arrasadora. É uma fita sempre atual, sempre provocadora, e sempre excecional.

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