sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Bullitt [1968]


Uma lendária perseguição de carros (altamente bem montada e executada, que  ainda hoje faz roer de inveja qualquer grande cena cheia de aparatos visuais recorrentes nos múltiplos tomos de «Velocidade Furiosa» e afins), a escolha para preservação no American Film Registry (dedicado à conservação da memória dos filmes culturalmente, historicamente e esteticamente significantes) e o ator Steve McQueen: eis, de uma forma muito redutora, o que representa o filme «Bullitt», realizado por Peter Yates, para os dias de hoje. Há mais para dizer e, sobretudo, para ver nesta obra tão tipicamente americana, mas tão deliciosamente interessante. «Bullitt» foi o filme que tornou McQueen numa verdadeira estrela pop. Sim, já tinha sido feita «A Grande Evasão», e é ainda a sua fita mais celebrada e reconhecida, mas foi aqui que o ator teve a personagem mais marcante da sua filmografia (o polícia Frank Bullitt), que vive de um mais ou menos intenso "character study" ao longo da narrativa. Quer se goste ou não, é inegável que «Bullitt» é um marco do Cinema Americano e do entretenimento feito por um país que é o melhor a saber dar aos espectadores o que eles querem ver, se bem que, muitas vezes, isso aconteça de forma absolutamente inesperada e que nos faz querer visionar outras coisas (e «Bullitt» joga com essas partidas de entretenimento muito bem). É uma fita muito cool, carregada de ação e de uma história mais ou menos intrincada, que vive mais de tudo o que a rodeia: os atores (encontramos Robert Duvall num papel bastante secundário, como condutor de um táxi que poderá ser importante para o caso que Frank terá que resolver e que envolve muitos interesses económicos e judiciais), a realização, a assombrosa banda sonora de jazz... todas as partes técnicas que envolveram a produção deste filme e que estão mesmo muito bem trabalhadas. Numa história que envolve uma estranha e secreta Organização, que parece dominar todos os que nela trabalham ou que já não lhe estão nada associados, tudo se atribula com uma testemunha que quer denunciar os crimes do sistema deste grupo económico. O objetivo de Bullitt e dos seus comparsas é proteger o homem acusador até ao julgamento que se realizará dentro de dias... Será que vão conseguir?


«Bullitt» é um clássico do grande cinema de ação à americana e um exemplo brilhante da Arte da Montagem. Um filme como este pode não ser brilhante a nível cinematográfico, mas é inegável a sua qualidade técnica e a preocupação do realizador e da sua equipa em tornar a obra o mais proveitosa possível para os espectadores. As perseguições e o ritmo acelerado da história continuam imparáveis, e o mito de Steve McQueen (a sua voz, grave e aparentemente neutral ao que o rodeia, é marcante, para além do lado apático da sua personagem, para quem violência e morte são constantes do seu quotidiano profissional - e que às quais atribui pouca importância) também não fica esquecido, se se visionar «Bullitt» na atualidade, também muito por culpa da parte de poder económico e judicial que está em causa e que, "acidentalmente", nos faz refletir nos perigos da realidade em que estamos inseridos. Tem uma história de amor desnecessária? Tem. Possui alguns clichés gastos e desprezíveis? Possui. Mas é um bom filme, repleto de grandes ideias, e que continua a suscitar interesse, mais pela personagem do que pela narrativa, é certo (que serve mais de complemento à psicologia aprofundada que se faz de Frank Bullitt). «Bullitt» é um filme "pop" e um ícone da "pop" do século passado, que assenta que nem uma luva às necessidades de muita da "pop" dos nossos dias.

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