Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution) [1957]


«Testemunha de Acusação» é mais uma peça fundamental da filmografia do realizador Billy Wilder, que aqui, decidiu pegar numa história da Dama do Crime Agatha Christie (que passou para teatro), a criadora da Miss Marple e do detetive belga "cabeça d'ovo" Hercules Poirot, para voltar à mesma (mas nunca repetitiva) fórmula de sucesso que traduz a fama e a excelência dos seus grandes filmes: uma realização ímpar, um argumento excecional e um elenco de luxo. Não vamos estar com mais rodeios, pois são estas as três peças-chave da grandeza do génio de Billy Wilder. Esta é uma fita que não versa sobre as relações humanas, pelo menos de forma amarga, sarcástica (sarcasmo podemos só encontrar no humor inglês muito presente nos diálogos das personagens e nas ideias de Christie) e irónica, como os clássicos «Quanto Mais Quente Melhor», «O Inferno na Terra» ou «O Apartamento», e aproxima-se mais do clima negro de «Double Indemnity», mas sem ser propriamente um film-noir. É uma espécie de obra cinematográfica de crime e mistério com mais luz e, o mais importante, com uma faceta grande de "courtroom drama", o género de fitas que se passam nas barras dos tribunais. E em «Testemunha de Acusação», além de toda a sua potente história, Billy Wilder volta a reunir não só atores de topo, como também monstros sagrados da Sétima Arte que, "como de costume", brilham como ninguém nas suas personagens, preparadas à medida para os seus gigantes talentos. Charles Laughton (que dois anos antes, se estreou como realizador com «Night of the Hunter», com a mais fabulosa interpretação de Robert Mitchum), um advogado veterano, arrogante e complicado, que quer voltar aos casos criminais, mais complicados e mais problemáticos para a sua saúde, e Marlene Dietrich, uma das peças chave da trama que vai estar em jogo no filme, são magníficos, marcando mais uma vez o seu lugar maior entre as elites de Hollywood. Laughton é a personagem divertida num caso que é só aparentemente simples, que vai subindo cada vez mais de complexidade aos nossos olhos, e que não nos vai fazer acreditar em tudo o que nos dizem. Mas no final, todos vamos ser enganados.


«Testemunha de Acusação» dá-nos cada vez menos respostas e cada vez mais perguntas para as quais não encontramos solução. De um filme ligeiro nos primeiros minutos, torna-se uma obra cinematográfica intensa e um objeto raro do Cinema Americano/mundial. Billy Wilder dissecou como ninguém a vida social através da simplicidade da câmara e da complexidade do que esta filma (isto no caso das cenas do julgamento - talvez haja muito mais para filmar em quatro paredes de um tribunal do que se possa pensar à primeira vista -, que envolve um homem que se diz ser inocente mas que tem tudo contra ele - será isto óbvio, como este meu pequeno resumo parece querer mostrar?). Apesar de algo sorrateira por vezes, a câmara é sempre viva e não se limita apenas a filmar as coisas, como nos mostra, e bem, a sua visão original daquilo que está a contar, não nos impedindo de ver os factos do caso com a sua subjetividade, levando-nos por vezes a enganos e ilusões no meio das revoravoltas e mais reviravoltas que a fita nos proporciona. Não sendo só um "courtroom drama", nem tão pouco um filme agridoce sobre a sociedade inglesa, este é um filme que combina isto e muito mais, num resultado final espantosamente eficaz e dificilmente possível de ser esquecido ou de desaparecer sem mais nem menos da nossa memória. Com um argumento sólido, repleto de tensão e inteligente, «Testemunha de Acusação» mostra como os advogados têm também de ser os atores da sua própria peça, representando um papel que, muitas vezes, é muito diferente do que a sua opinião nos pode transmitir. Tal como muitas outras personagens "wilderianas", há uma parte para cumprir na trama da sociedade, e muitas vezes, essa parte não poderá ser cumprida pela perceção dessas personagens de que há algo que tem de ser mudado... ou talvez não. Ou então, há ainda certas pessoas do Cinema do realizador que tendem a agir segundo o amor ou a pessoa que se ama, e não são poucas as vezes em que isso dá mau resultado. Este não é só um grande filme pelo seu todo e pela forma como todas as peças estão brilhantemente construídas, como também pela feitura do processo de ilusão, que nos leva constantemente para caminhos incertos e para segundas ou terceiras opções ainda mais duvidosas. E com a garantia de qualidade de Billy Wilder.

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