Os 3 Padrinhos (3 Godfathers) [1948]


«Os 3 Padrinhos» é um clássico natalício das televisões americanas, sendo exibido regularmente nessa quadra por uma qualquer estação do pequeno ecrã para deleite de muitos nostálgicos e cinéfilos fãs de John Ford. Contudo, esta fita não tem um décimo da mesma fama que, por exemplo, «Do Céu Caiu Uma Estrela», que apesar de estar menos ligado ao Natal do que esta fita com John Wayne, conquistou e continua a conquistar muita gente ao longo das décadas (a diferença de pontuações entre os dois filmes no Internet Movie Database é prova disso). Mas alusões injustificáveis de serem feitas à parte, essas são duas obras que não podem ser comparadas (além de serem de anos, distribuidoras e autores completamente diferentes - enquanto o filme de Capra apela mais a uma moralidade que assenta bem nos cenários simples e na história mágica protagonizada por George Bailey, John Ford filma o seu western com grande espectacularidade, não se esquecendo do tipo de material que tem em mãos), e se «Os 3 Padrinhos» não é uma obra prima da História do Cinema, é ao menos um filme muito agradável, bonito e poético, e que transporta para o Mundo do "farwest" a história sagrada do nascimento do menino Jesus. É o western da demanda de três foras-da-lei (que são como os reis magos, mas sem o ouro, o incenso e a mirra) que, no meio das grandes paisagens americanas, tentam escapar às autoridades depois de terem assaltado um banco, e tentarem sobreviver com muitos poucos recursos em locais quase desertos. E a dada altura, algo inesperado acontece: ficam com um bebé em mãos, filho de uma mulher que encontraram no caminho e cujo marido desapareceu e que deixou os dois em fracas condições alimentares e físicas. E será para eles uma tarefa muito complicada, conseguir levar o menino a boas mãos, num ambiente tão dramático que irá pôr em risco a vida destes três bandidos  (Robert, William e Pedro - John Wayne, Harry Carey Jr e Pedro Armendáriz, respetivamente) que, afinal, têm um coração de ouro. Porque o amor, quase parental, que ganharam a Robert William Pedro (sim, o garoto fica com o nomes próprios dos três ladrões), irá levantar-se a favor do desejo que eles têm de poder, novamente, voltar às suas vidas e às suas "rotinas". O bebé é uma oportunidade dos três se regenerarem e perceberem os males que cometeram no passado, e ao fazerem esta boa ação, acabam mesmo por mudarem a sua atitude em relação ao Mundo, e a Deus. Com algum humor (como os momentos em que Robert, William e Pedro tentam perceber como é que devem cuidar do pequeno), «Os 3 Padrinhos» é uma história séria, uma reinvenção convincente do nascimento de Cristo num ambiente que não poderíamos imaginar à primeira vista.


Apresentado com uma impecável qualidade de imagem na edição DVD (quase impossível de ser vista, num filme que tem sido tão esquecido ou desvalorizado entre tantas outras obras de John Ford e/ou John Wayne), «Os 3 Padrinhos» preserva a excelência da sua fotografia e da realização de Ford. Só ele soube captar as paisagens americanas desta forma (outros exemplos são os mais celebrados «The Searchers» e «My Darling Clementine», e também, de uma forma menos presente mas igualmente comovente e espetacular, «O Homem que Matou Liberty Valance»). E apesar de ser demasiado simplista nos diálogos e nas interpretações em alguns momentos, tem noutros grandes motivos de júbilo, graças à rara beleza e à sensibilidade de certas cenas e situações. «Os 3 Padrinhos» ensina-nos que todos os homens têm a bondade de si próprios, apesar de muitos não gostarem de a utilizar. Outra coisa boa deste filme é a música, épica tal como as suas imagens e os seus planos magistrais, com muito de líricos e de encantadores. É eternecedor ver esta fita, que tendo religião e o poder de Deus (ou da sua ausência) no Homem como pontos de considerável importância, acaba por tocar a todos nós, porque o sentido ético de Humanidade e a Humildade residem em todas as crenças e sociedades (ou pelo menos deveria existir). Com algum exagero no drama à total maneira americana (tinha de ser - mas felizmente isso não estraga a obra), «Os 3 Padrinhos» é, contudo, um filme tocante e puritano, e que deveria ser desenterrado do baú das memórias de muita gente. Há que apreciar uma obra e as coisas boas que possui, e esta, não sendo uma obra original e inovadora, nem um dos títulos mais relevantes da extensa e variada filmografia de John Ford, é um achado cinematográfico precioso e poderoso, onde a história dos três homens é a história do Homem e das coisas pequenas que, afinal, acabam sempre por ter maior importância do que aquelas que ocupam mais espaço do nosso dia a dia e que ocupam mais a nossa cabeça, alheada do que é simples em detrimento das complicações e dos stresses do quotidiano. «Os 3 Padrinhos» é Ford e Wayne numa interessante colaboração, que é uma delícia visual (e volto a repetir - a qualidade da imagem, em termos de cópia, é formidável) e sentimental que não pode ser esquecida.

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