O Círculo Vermelho (Le Cercle Rouge) [1970]


Çakyamuni, o Solitário, aliás Siddhartha Gautama, o Sábio, aliás, o Buda, pegou num pedaço de giz vermelho, desenhou um círculo e disse: “Quando os homens, mesmo sem querer, acabam por se encontrar um dia, tudo pode acontecer a cada um deles e podem seguir caminhos diferentes, mas chegará inevitavelmente o dia em que se encontrarão no Círculo Vermelho.”

«O Círculo Vermelho», o penúltimo filme do realizador francês mais "noir" de sempre, Jean-Pierre Melville (que encerrou a sua obra com o não tão aclamado «Cai a Noite Sobre a Cidade»), é mais um ponto-chave da sua filmografia e uma das suas obras mais influentes e reconhecíveis, não só pelo grande elenco que possui (desde logo pela presença do "repetente" Alain Delon, aqui tão cool e brilhante como em «O Ofício de Matar», até às algo improváveis aparições de Gian Maria Volonté - que foi o vilão enfrentado por Clint Eastwood nos dois primeiros tomos da "Trilogia dos Dólares", de Sergio Leone -, Yves Montand, que aqui está verdadeiramente excecional, e André Bourvil - se tiverem visto «A Grande Paródia», a comédia que o ator protagonizou com o impagável e genial Louis de Funès e que se tornou num dos maiores sucessos de bilheteira da História do box-office e da cultura francesas, ficarão espantados com a carga do seu personagem, o polícia Mattei, neste filme de Melville), como também pelo seu elevado simbolismo (presente logo no início, tal como «Le Samourai», pela citação inicial atribuída a uma figura célebre, mas que é da autoria do cineasta) e pela inegável qualidade de diálogos e da mise-en-scène. Numa história de corrupção, assaltos e de permanentes jogos de "gato e rato", «O Círculo Vermelho» é uma "imitação" do estilo usado e abusado pelo Cinema Americano (e que tanto influenciou Melville) mas que aqui, originou algo novo, incrível e espantoso, que ajudou a criar o estilo cinematográfico que caracteriza um dos maiores nomes do Cinema francês no geral e da "Nouvelle Vague", ou pelo menos, de uma nova onda de "mexer" na câmara, em particular. 

 
«O Círculo Vermelho» é um grande filme policial pelo grande "style-director" europeu que o elaborou, que mantém, ainda hoje, o lado "cool" e fascinante das suas personagens e das suas estranhas formas de estar no mundo. Melville foi o único homem do Cinema que realizou, à letra, fitas em jeito de "film-noir" coloridos, cor essa de tonalidades frias e pouco amistosas (alguns chamam-lhes o lado "blue" do "noir"), que dão ainda uma maior potência à carga sombria de toda a obra, já para não falar da invulgar, mas exuberante, iluminação, usada com fins puramente estéticos e artísticos de forma muito inteligente a nível técnico, da montagem "agressiva" e muito bem executada (com momentos que são de pura genialidade!) e da bonita, profunda e provocante, para além de fantástica, banda sonora, resultante de uma espécie de cocktail entre dois estilos musicais - mais propriamente, o blues e o jazz mais inventivo e improvisado. «O Círculo Vermelho» é um filme inovador que continua a cativar-nos por duas coisas: enquanto cinéfilos, adoramos uma obra exímia na técnica e no espírito cinematográfico (aquela fragrância especial e única que só a Arte das Fitas consegue passar a quem as vê), e enquanto espectadores, vibramos com uma história muitíssimo bem contada como esta e com personagens tão complexos que só nos deixam ainda mais curiosos e viciados na trama e que, também, nos suscitam algumas interessantes dúvidas, como: Será que Corey, Jansen, Vogel e mesmo Mattei são "maus" (na definição de "mau" dos "film-noir" não é a mesma coisa que vilão, atenção!) por natureza ou têm, pura e simplesmente, algo a esconder, nesta obra onde ninguém sorri ou onde nenhum homem tem razão para estar contente (o único momento que me recordo de ter visto alguém sorrir na obra foi nas cenas em que Mattei, quando chega a casa, fala e dá de comer aos gatos)?


«O Círculo Vermelho» foi feito com calma e precisão, e talvez peca apenas um pouquinho por ser demasiado longo e "enche-chouriços" com certas cenas que desvanecem o espírito e o lado "cool" criado pelos melhores momentos da trama, aquela sensação de espetacularidade que um filme como «Le Samourai» me proporcionou verdadeiramente e que me deu a conhecer algo de completamente novo para a minha ainda grande ingenuidade cinéfila. Mas tudo culmina num incrível final que me fez ficar boquiaberto, ao pensar no que tinha visto até então e que, de nenhuma maneira, poderia imaginar que fosse assim que tudo pudesse terminar (pelo menos, na forma como as coisas nos são reveladas, no destino de todas as personagens principais). «O Círculo Vermelho» é uma obra onde a atmosfera é Grande e onde Melville explora ideias e conceitos versáteis que ajudaram a fazer do Cinema aquela Arte tão vasta e interessante como conhecemos hoje. E mesmo que não pareça, e ao contrário de muitos "noirs" americanos, há aqui uma grande e subtil filosofia que nos faz ligar a citação inicial, falsamente (e propositadamente) atribuída a Buda, a toda a história. Será este um filme sobre as ironias do Destino, neste grande Círculo onde muitos de nós se cruzam sem terem previsto isso antes, devido a uma série de acontecimentos que ditam o rumo do futuro e o caminho que seguiremos nas nossas vidas?

* * * * 1/2

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