domingo, 22 de setembro de 2013

O Buraco (Le Trou) [1960]


«Le Trou» é um inigualável filme que mostra como se faz uma grande evasão da cadeia. Sendo uma obra muito conceituada entre as maiores do Cinema francês e europeu e inovador em muitos campos (inovações essas que, felizmente, parecem continuar a ser surpreendentes e cativantes para o nosso olhar), e tendo sido realizado pelo inventivo cineasta Jacques Becker (que, graças a um “meeting” com King Vidor – autor de «Morte ao Sol» e «Vontade Indómita» - ganhou um interesse maior e mais criativo pelas artes das Imagens em Movimento), «Le Trou» tem toda a sua ação localizada no interior da prisão de “La Santé” (salvo raros momentos exteriores da fita), onde convivemos com todo o dia a dia da cadeia e onde presenciamos diversas situações que lá se sucedem com alguns dos presos, que tanto nos parecem ser culpados como inocentes dos crimes pelos quais foram acusados – talvez não temos dados suficientes para avaliar a situação dos poucos secundários que preenchem, em certas cenas, algumas partes do filme. Mas depois, centramo-nos no essencial, numa cela específica onde estão lá metidos quatro condenados (Manu, Geo, Rolland e Monseigneur) e onde entra um novato (Claude Gaspard), que serão a elite de anti-heróis que protagonizará a narrativa, graças às suas andanças e planos engenhosos para fugirem daquela prisão, aparentemente tão segura, indestrutível e invencível. «Le Trou» é uma “Grande Evasão” à francesa, onde não interessa o fim mas a forma como a ele se chega (apesar do desfecho do filme não ser nada dispensável ou desinteressante). Num clima de camaradagem, que povoa as mentes dos quatro reclusos e do novo que chega e que fará parte do plano de fuga astuto e brilhante, vemos os hábitos dos presos e as maneiras que utilizam para passar o tempo, e ainda os esquemas que utilizam para conseguirem disfarçar – e bem! – qualquer indício das suas investidas de escape dos polícias vigilantes que, constantemente, invadem as celas para as inspecionarem. «Le Trou» mostra-nos também as condições de vida dos “sócios” da cadeia e a alta segurança que lá impera e que mostra ser (aparentemente) impossível conseguir fugir com êxito de todo aquele pesado (mas ao mesmo tempo, caricato e peculiar) ambiente. Claude conhece os seus novos colegas que, a princípio, lhe são um pouco hostis e desconfiam dele por várias razões. Contudo, a pouco e pouco ele integra-se no grupo e ajudará a que esta grande escapadela prisional possa ser concretizada.


Com alguns pontos de humor, e com drama muito bem polvilhado, «Le Trou» é um daqueles filmes que tem, em todos os seus elementos, algo para ser deslumbrado e maravilhado. Desde a montagem à iluminação, passando pela fotografia e pelos seus atores que, quase diria eu, estão a fazer um trabalho meio neo-realista, à moda italiana (não se pode dizer que alguns dos intérpretes têm ar de serem grandes atores profissionais – talvez são pessoas que viveram mesmo este tipo de situações na sua vida real, o que acontece pelo menos com um deles, Jean Keraudy, que faz uma pequena introdução ao filme e que esteve mesmo envolvido nesta tentativa de evasão, levada a cabo no longínquo ano de 1947), encontramos aqui a razão de ser e de existir do Cinema, que justificam a sua grandeza e a sua forma de lidar com o Mundo e com as imagens, de pontos de vista que tornem as imagens do ecrã totalmente extraordinárias – como é o caso de «Le Trou», uma história verídica, contada de uma forma próxima e palpável com a realidade dos factos, adaptada do romance de Jean Giovanni (que auxiliou, também, na escrita do argumento e da elaboração dos fabulosos diálogos do mesmo). Aqui vemos o Cinema em todas as suas potencialidades, utilizando os seus meios e todas as oportunidades que os mesmos deram para as filmagens e para os atores, que pensam verdadeiramente no que estão a fazer, que planeiam muito bem cada um dos seus movimentos e que a câmara segue, com a maior das curiosidades, a cada novo passo que dão. É curioso porque a câmara quase que fala connosco e, qual Alfred Hitchcock francês, Jacques Becker aproveita-a para surpreender e cativar o espectador com cada meticuloso pormenor da trama e do elaborado plano de fuga.


«Le Trou» é um filme engenhoso, com planos astuciosos e uma montagem altamente provocante, no bom sentido do termo, nas emoções que quer provocar nos espectadores. Repleto de brilhantismo e de originalidade, a fita não utiliza os seus meios para atingir apenas os fins, mas para alcançar todas as metas que esta história tem e as técnicas que o seu realizador quis explorar com a mesma. Pela agilidade da câmara e pelos movimentos furtivos, mas inteligentes, dos atores, tão bem “orquestrados” (que termo curioso que aqui usei, visto o filme não ter banda sonora, por outro lado) por Jacques Becker, «Le Trou» faz lembrar as proezas de Robert Bresson com os assaltos de Michel, a personagem interpretada por Martin LaSalle em «O Carteirista» («Pickpocket»), feito um ano antes do filme de Becker. Esta é uma obra onde tudo bate certo: cada cena, cada plano (de realçar aquele pequeno momento, quase no final do filme, onde uma reviravolta inesperada é revelada - talvez fosse um pouco óbvia, em termos logísticos, mas a forma diz tudo!), cada ângulo, cada frame. Talvez seja uma obra que surge graças às inovações trazidas pela Nouvelle Vague («O Acossado», o primeiro filme de Jean-Luc Godard e um dos mais influentes da sua filmografia, saiu também nesse ano de 1960) e a sua nova forma de ver e fazer Cinema, nesta excelente história de anti-heroísmo que diz muito ao mundo contemporâneo. 

* * * * *

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).