domingo, 15 de setembro de 2013

Manhattan [1979]


Woody Allen não ficou satisfeito com o resultado final deste seu filme, «Manhattan», e pediu até à sua distribuidora que o não lançasse. E nas suas próprias palavras, anos mais tarde, referiu-se a este filme dizendo: "eu só pensei: nesta altura da minha vida, se isto é o melhor que consigo fazer, eles não deviam dar-me dinheiro para fazer filmes". Contudo, o cineasta americano, que hoje já realizou mais de quarenta filmes, não poderia imaginar o quão popular e reconhecido seria esta sua obra, tida como uma das suas melhores. «Manhattan» é um daqueles casos felizes em que a opinião do público diverge com a opinião do artista do "produto" artístico em questão, e ainda bem. «Manhattan» constitui, além de uma belíssima ode à cidade que dá nome à fita, tão bem ambientada pelos sons da autoria de George Gershwin (regravados propositadamente para o filme, algo que não é muito comum na filmografia de Woody Allen - ele muitas vezes limita-se a ir rebuscar os clássicos sonoros que tem bem guardados nas prateleiras lá de cada), uma das obras mais duradouras e inteligentes do seu autor. "Vítima" de um culto gigante e de uma identificação constante por parte dos seus fãs (já para não falar do estatuto de ícone conquistado pela imagem que ilustra o cartaz do filme), «Manhattan» é um dos grandes tesouros de Woody Allen, e mesmo um dos seus filmes mais bem conseguidos. Mesmo que ele continue a achar o contrário. Filmado a preto e branco e, caso raro em Woody Allen, no formato "ultra widescreen" (em CinemaScope é que esta obra ficaria espantosamente deslumbrante), «Manhattan» é protagonizado por um dos mais famosos neuróticos/personas de Woody Allen (Isaac, um argumentista e escritor com demasiados problemas na sua cabeça), uma pessoa algo irresponsável (com os outros, nunca consigo mesmo - daí ser também egocêntrico), cheio de complexos sobre si e sobre tudo o que o rodeia, e que se mete e intromete numa história de amores, desamores e filosofias da vida e do próprio romantismo, com uma inspiração rara que podemos ver e encontrar no autor e no próprio Cinema Americano deste e doutro tempo. É também um retrato das relações humanas (e, se há um autor que soube mesmo tratar a realidade na Arte das Fitas, é Woody Allen, sem sombra de dúvidas - nunca os diálogos foram tão reais e tão "palpáveis" para o espectador como em muitos destes seus grandes filmes), tal como muitos outros feitos por Allen, mas é um dos seus melhores porque é um dos mais inteligentes, que não se limita a chegar a um fim depois de uma série de consequências que o fazem acontecer: «Manhattan» tem muito mais do que isso na sua parte humana, e que vai muito para além das deliciosas "quotes" proferidas pelas personagens e tão bem escritas por Allen. «Manhattan» é uma obra extremamente filosófica e profunda, que serve como um perfeito guia de estudo para diversas disciplinas académicas, para além de ser um guia para a própria existência do Homem e do seu valor no quotidiano. A peça da Vida está toda neste filme e em todos os brilhantes momentos que nela podemos contemplar.


Isaac, de quarenta e um anos, tem uma namorada, Tracy, muito mais nova que ele (17). Ele é um tipo que não sabe o que fazer e que está encurralado por todos os lados, quer profissional quer emocionalmente (porque depois ainda se apaixona pela ex-amante - Diane Keaton - do seu melhor amigo), e tudo porque deixa a Razão meter-se demasiado nos seus instintos. Será isto mesmo assim? Talvez sim, talvez não, mas «Manhattan» lida muito com a racionalidade humana e com as consequências que o seu uso excessivo e não moderado podem trazer a quem dela dependa. Porque se o ser humano vive, principalmente, de emoções, como podemos equilibrar a nossa cabeça com aquilo que sentimos verdadeiramente, criando as coisas que fazem a vida valer a pena (uma das coisas com as quais Isaac se questiona, ao longo do filme). Emoções essas que (para além do papel da cultura e da sociedade a que pertencemos) condicionam os nossos gostos pessoais (discutidos de uma maneira muito séria em alguns momentos de «Manhattan», principalmente quando as personagens de Allen e de Keaton - uma das suas mais refinadas musas cinematográficas do cineasta - se confrontam... culturalmente) e as tendências que temos para analisar, ou "preconceitualizar", certas obras ou produtos mesmo sem os conhecermos devidamente. «Manhattan» fala por isso, também da Arte e da aderência à mesma por parte das pessoas. Talvez Allen pusesse aqui em confronto os gostos dos próprios espectadores dos seus filmes e dos motivos que os levam a ver cada nova fita que realiza, e por isso este é um daqueles tesouros do realizador que têm tudo o que gostamos no génio cómico americano. A fotografia é fantástica, neste retrato sociológico da América, onde os tons escuros e "incolores" retratam de forma perfeita o aparente caos da cidade de Manhattan e do caos do ser Humano, ordens por decifrar agora e sempre, parafraseando José Saramago. Em «Manhattan» contrastam-se a beleza das imagens e da música com a rutura, ou a turbulência, das diversas relações, amorosas ou de amizade, que nos são apresentadas. Numa cidade em constantes mudanças, onde os pequenos problemas ocupam o espaço daquilo que verdadeiramente importa (na opinião de cada um, claro), «Manhattan» é uma obra muito inteligente que, a par de «Hannah e as suas Irmãs», é a melhor narrativa de Woody Allen como espelho da sociedade contemporânea, sendo um filme que deve ser visto com mais atenção na parte do "coração" e que toca ainda mais os grandes fãs do realizador. Uma das coisas que faz a vida valer a pena, é ter a oportunidade de ver obras como esta.

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2 comentários:

  1. Ricardo Silva16/9/13 13:09

    É um filme bem bom mas está bem longe de outras obras dele.
    Neste caso, concordo com o Woody Allen.

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    1. Mas ele gosta de muito poucos dos seus filmes. Uns dois ou três, onde conseguiu fazer o que queria, como em «A Rosa Púrpura do Cairo», por exemplo.

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