Kill Bill - A Vingança (Volume 1) [2003]


AVISO: Esta crítica terá ainda menos qualidade do que é habitual (sim, isso é possível! Eis a prova!). Mas é que o filme em causa não me permite escrevinhar algo melhor do que estas linhas vos podem oferecer. Há milhões de análises na internet desta fita. Sigam essas, valem mais a pena.

O primeiro tomo de «Kill Bill», que narra as peripécias de "A Noiva", a personagem criada por Quentin Tarantino que reinou por dois filmes do realizador (e que ao que parece, será a protagonista de um futuro volume 3), num misto de homenagem e exagero de toda uma série de referências captadas por Tarantino nas suas aprendizagens cinéfilas, talvez seja provavelmente o seu filme mais popular, mais até do que «Pulp Fiction», a sua melhor obra: «Kill Bill» é aquele filme que toda a gente conhece e que toda a gente utiliza para se afirmar como "alguém" entre outros conhecedores de Cinema. E, como grande parte das fitas de referência para o mundo da cinefilia, «Kill Bill 1» agrada e desagrada a vários níveis em cada espectador. E em mim, há mais para criticar do que elogiar nesta obra que marcou uma reviravolta inesperada na filmografia de Tarantino: a partir daqui, ele começou a dar mais valor aos efeitos que a câmara faz (e aos extremos a que pode levar as suas ideias tão malucas e, muitas vezes, descontroladas - em «Kill Bill 1» há todo um festival de descontrolo criativo) e, de quando em vez, lembra-se de regressar com os seus excelentes diálogos, tão sedutores e "orelhudos" (isso não acontece em «Kill Bill 1» - a única coisa que tenho, de momento, na memória, que ficou aqui registada na minha cabeça após o visionamento, foi o festival apalhaçado de pancadaria, que num filme dos Monty Python seria extremamente cómico, se bem executado claro, e que aqui destoa completamente), como se sucedeu com a sua mais recente investida, «Django Libertado» que, digo eu, é uma mistura entre a ultra-parva violência da história de «A Noiva», com a densidade narrativa das aventuras dos vários personagens de «Pulp Fiction». Aqui, a violência tem um nível tão bom e com tanta qualidade como qualquer sequência de ação de um qualquer filme do Steven Seagal, Van Damme ou outros que tais, ou até - imagine-se, visto que é este o único nome, dos três que mencionei do cinema de ação, que é mesmo homenageado! - das míticas cenas de artes marciais protagonizadas por Sonny Chiba (que dá uma perninha em «Kill Bill 1»), um dos alvos desta homenagem de Tarantino, que tem tudo tão bem feito como os clássicos de ação com muita testosterona (mas com não muitos idióticos esguichos de sangue, é necessário fazer-se a devida distinção) desses veteranos do género. A vingança d' "A Noiva" é apenas mais uma entre o diverso historial de situações sangrentas, provocantes e chocantes que preenche o imaginário criado por Tarantino nos seus filmes, mas aqui, mais do que nunca, os gostos bizarros do cineasta, e as coisas que só ele (e mais meia dúzia de pessoas no mundo) conhece, são "postos à prova": «Kill Bill 1» é quase uma sucessão de sketches (onde cada um deles só me deixou mais dúvidas em relação às verdadeiras intenções de Tarantino - para quê isto? Para quê aquilo? Para quê aquela sequência animada?), todos eles com intenções de criar algo novo através) do que o realizador conhece e adora no Cinema, e que o motivou a enveredar esse caminho para a sua vida profissional. Mas para mim, não é um filme que funcione lá muito bem, como já pude dar a entender por estas notas soltas que por aqui escrevi até agora...


Não consigo escrever nada que possa ser coerente e bem estruturado sobre «Kill Bill 1». O que aliás, vai de encontro ao que achei que o filme é: incoerente e mal estruturado (não na construção narrativa - que utiliza um processo de analepses e prolepses semelhante ao de «Pulp Fiction» - mas no conteúdo desta, que não dá um balanço certo e o espaço apropriado para a trama ser o mais desenvolvida possível pelos atores e pela equipa técnica), onde alguns pormenores e momentos sobressaem pela "coolness" da heroína interpretada de forma brilhante por Uma Thurman (isso não posso mesmo negar) e por vagas de inspiração mais efusiva de Tarantino ao escrever o argumento (ou seja, naquelas cenas onde a descrição do script não é só "há sangue e cabeças a rolar por toda a parte, numa alegria igual à sensação de se estar na plateia de uma edição especial do Big Show SIC, mas violenta" - um aparte interessante: e se Quentin Tarantino fosse um fã deste programa?). A grande cinematografia desta obra, mais a realização e a montagem, também auxiliaram a que eu não tivesse ficado com uma impressão negativa da mesma, tal como aquelas pequenas subtilezas cómicas dos diálogos que, apesar de estarem mais escondidas e de serem mais raras do que as anteriores explosões cinematográficas de Tarantino, não deixam de ser uma delícia quando captadas pelos nossos ouvidos, e a banda sonora repleta de momentos "roubados", no bom sentido ou mesmo à descarada, de grandes nomes (ou não) da música para Cinema é também bastante agradável, apesar do "gore" do senhor Quentin atingir, nesta fita, níveis que vão para lá do minimamente interessante ou relevante (e que se torna bastante cansativo e repetitivo), figuradas em batalhas apalhaçadas e com algo de estúpido, que fazem de «Kill Bill 1» um filme com mais estilo (e por isso, importância para a cultura popular) que sumo. E não quero estar a ferir suscetibilidades (e os milhares de fãs da saga - uns cinco ou seis devem ler estas linhas, ou menos até), mas se a obra não fosse de Tarantino passaria despercebida como muitos filmes de ação feitos em série ou de artes marciais fáceis e mal executadas. E é tudo o que eu tenho a dizer, e peço mais uma vez desculpa por esta análise tão nefasta e repugnante. É mesmo o que o filme diz à minha alma e que a escrita tentou passar, o mais próximo possível, da realidade. «Kill Bill 1» será, para a minha pessoa, apenas um filme interessante que não me permite conseguir escrever alguma coisa de jeito sobre ele (já o vi há mais de um mês e durante muito tempo tentei escrever isto e não saía nada... nesta tentativa fica isto e não volto a tocar no assunto!), mas que me fez ficar com vontade de ver a sequela. E isso é um facto.

* * * 1/2

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