Johnny Guitar [1954]

 
O filme de eleição do crítico de Cinema e histórico diretor da Cinemateca Portuguesa João Bénard da Costa (cinéfilo por excelência), «Johnny Guitar» é um western inegavelmente original, marcante e pioneiro, porque não cede ao cansativo, lucrativo e gasto padrão americano da época em que foi feito, em que este género cinematográfico dominava no país e as temáticas implicavam um conservadorismo maior e uma constante repetição de histórias e situações (índios contra a cavalaria, cavalaria contra os índios... obviamente que há muitas - e boas - exceções à regra: «Rio Bravo», «O Comboio Apitou Três Vezes», «O Homem que matou Liberty Valance», «My Darling Clementine», etc). E porquê a sua originalidade? Isso deriva, desde logo, pelo facto de quem protagonizar esta "coboiada" ser uma mulher, e logo uma Grande atriz (Joan Crawford) que enche o ecrã de uma forma arrebatadora. Depois, há Nicholas Ray, o célebre e criativo cineasta que, um ano depois, realizaria o filme que tornaria James Dean num símbolo ainda maior da juventude dos anos 50 e 60 (e de muita miudagem de hoje em dia - que, propriamente, nunca viu as três fitas com este ator, mas adora-o mais pela imagem dele, propagandeada por frases nas redes sociais e montagens de e-mails), «Fúria de Viver» («Rebeld Without a Cause») e que, quatro anos antes, dava a Humphrey Bogart um dos melhores papéis da sua carreira com «Matar ou Não Matar» («In A Lonely Place»). Já estes dois títulos têm uma coisa em comum com «Johnny Guitar», e que mostra as ideias e as mensagens que Ray queria passar para os seus espectadores nos anos áureos da sua carreira: a rebeldia em relação a Hollywood, tanto no facto de, no filme com Dean, abordar a problemática "Pais e Filhos" do ponto de vista dos segundos, não idealizando uma poesia de "oh meu Deus, nos EUA tudo é perfeito", tanto na história com Humphrey Bogart, onde Ray critica Hollywood graças à história de um argumentista cinematográfico e das dificuldades impostas pelo seu trabalho e pelos seus "financiadores". E em «Johnny Guitar», Vienna (Crawford), a proprietária de um pequeno "saloon", com bebida e jogos, e que domina toda a ação do filme e todos os outros personagens (inclusivamente, aquele que dá título à fita - um ex-pistoleiro agora transformado em guitarrista, contratado por Vienna para animar o "saloon Vienna's", mas que está ligado a ela sob circunstâncias misteriosas, interpretado por Sterling Heyden, um ator sobrevalorizado mas que fez outros desempenhos memoráveis em «Dr. Strangelove» e «O Padrinho», por exemplo -, e talvez assim chegaram a esse nome para o filme por acharem que Vienna não seria um nome tão sonante para intitular esta obra prima), que dela dependem para "sobreviver"... na tela. «Johnny Guitar» é uma história de amor(es), enganos e oportunismos, onde a memória do tempo e do passado deixa uma mágoa muito grande ao presente, e acaba por influenciar muito Emma (Mercedes McCambridge), a "vilã" da trama, que pretende, sem olhar a meios, arruinar e destruir o legado de Vienna.
 
 
Com uma banda sonora fascinante (de Peggy Lee - que canta a canção do filme - e Victor Young) e uma fotografia  magnífica (da autoria da visão de Harry Stradling, que antes trabalhou em alguns clássicos iniciais de Alfred Hitchcock - dos primórdios da época de ouro de fama e glória do realizador "Mestre do Suspense" -, como «Jamaica Inn» e «O Sr. e a Sra. Smith», e depois de «Johnny Guitar, em musicais como «My Fair Lady - Minha Linda Lady» e «Hello, Dolly!», que popularizou a canção homónima e recordista de vendas cantada por Louis Armstrong), e o uso muito expressivo da cor, que Ray voltaria a por em prática, e ainda bem, noutros filmes posteriores (como «Rebeld Without a Cause»), «Johnny Guitar» é um clássico do Cinema, e um clássico dos Grandes e imortais Westerns criados por Hollywood, que ainda funciona, ainda maravilha, ainda fascina e ainda rejubila no ecrã. Os fabulosos diálogos e toda a atmosfera do final de uma era e início de outra (com a chegada do caminho de ferro, que irá mudar aquela cidade para benefício de Vienna, que deseja enriquecer com o desenvolvimento que este meio de transporte vai trazer para aquele local - e para ódio de Emma, que perde cada vez mais escrúpulos e racionalidade, à medida que a rivalidade que sente para com Vienna aumenta), tão bem filmada com o espírito épico e poético (com a câmara a apanhar viva e atentamente todos os pormenores dos cenários, das interpretações e do argumento) e a montagem excecional do filme... tudo isto faz de «Johnny Guitar» uma fita onde tudo bate certo, onde a receita final sai sensacional, onde o Cinema ganha aquela dimensão rara que poucos conseguem alcançar. Se Joan Crawford, disso não haja dúvida, é a mulher mais importante dos westerns (e a sua Vienna, uma das mais ricas personagens de toda a cinematografia norte-americana), menos prestigiado não fica todo o restante elenco (no qual, para além dos outros co-protagonistas já citados, podemos ver algumas aparições curiosas, como Ernest Borgnine - que mais tarde faria «Doze Indomáveis Patifes» e «A Quadrilha Selvagem», de Sam Peckinpah), escolhido a dedo para obter a qualidade que o filme nos proporciona de uma forma tão fantástica.
 
 
«Johnny Guitar» é o melhor exemplo do classicismo à la EUA, sem ser "clássico" no sentido do termo de "filme-velho-que-perdeu-o-interesse-e-que-só-serve-para-nostalgia". É um filme que, espero eu, se torne eterno. E se aguentou mais de meio século e continua a ser excecional, mais umas gerações deve, pelo menos, conseguir continuar a atrair. É um filme que, apesar de não ser um épico que consome grandes milhões de dólares como Hollywood fazia na altura (e que hoje continua a executar, só que agora têm efeitos especiais pelo meio), consegue sê-lo com muito pouco. Porque toda a excelência dos escassos recursos existentes possibilitou que isso acontecesse. Repleto de tensão, onde os dois lados da medalha são postos em confronto (a população e a alienação da mesma por parte de Emma, VS Vienna, Johnny Guitar e um grupo de bandidos que a ela prestam serviço), «Johnny Guitar» é um espetáculo de filme, com uma das personagens mais enigmáticas, fascinantes e inesperadas da Sétima Arte, e que tentou abrir um espaço merecido para as mulheres no mundo do Cinema, dando a Joan Crawford um papel sério, muito humano, e que poucas atrizes, na época, conseguiriam conquistar. E no meio de tantas frases emblemáticas e tantas cenas memoráveis, a duração de «Johnny Guitar» passa num instante. É pena, pois para mim, tornou-se um daqueles filmes que nunca gostaria que tivessem um fim. Ficaria a assistir a Vienna, Johnny, Emma, durante muito, muito tempo. Eis o melhor do Cinema.
 
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P.S - E há tanto mais para se falar sobre esta obra prima, em termos sociológicos e simbólicos, e as representações alegóricas de cada personagem... infelizmente não tenho jeito para isso. Ficam aqui as palavras do próprio João Bénard da Costa. Talvez serão mais esclarecedoras do que este meu artigo.


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