Há Festa na Aldeia (Jour de Fête) [1949]


Antes de «As Férias do Senhor Hulot», «O Meu Tio» e «Playtime - Vida Moderna» (considerado, por muitos, a obra prima do cineasta), Jacques Tati fez «Há Festa na Aldeia», um projeto ambicioso em termos cómicos, narrativos e cinematográficos, que permanece um brilhante e bonito filme, marcante na História da Sétima Arte em geral, e no cinema europeu em particular. Nomeado para o Leão de Ouro do Festival de Veneza com este seu trabalho, que saiu do certame com o prémio internacional para o Melhor Argumento, Tati já não estava longe de alcançar a fama e a reputação mundiais que se consolidaram, efetivamente, com «O Meu Tio» (e que se desvaneceram daí para a frente, principalmente com o desastre que lhe deu o fracasso de «Playtime»), que lhe valeu um Oscar para Melhor Filme Estrangeiro, mas «Há Festa na Aldeia» permanece o seu filme mais esquecido, entre os "grandes", mas também como um dos mais apreciados e acarinhados (voltou há pouco tempo aos Cinemas franceses na versão a preto e branco restaurada - a que está disponível em Portugal é a filmada a cores, restaurada de uma forma muito pouco conseguida há alguns anos, e que corresponde às intenções originais do realizador. Mas como foi executada em meios tão escassos e fracos, muito pouca da sua qualidade conseguiu ser salva, e até mete dó ver este filme nesta versão colorida. Esta "cut" é antecedida por uma introdução com pouco menos de um minuto que explica as circunstâncias históricas e das filmagens desta obra. De destacar o som do filme que, ao contrário da imagem, está absolutamente impecável), pela sua candura, pela sua (aparente) inocência, pelo seu tom irreverente e crítico que continua a fazer sentido hoje, mas talvez de um lado oposto (porque infelizmente, aldeias tão animadas e divertidas como as que François, o carteiro interpretado por Tati, percorre na sua bicicleta para entregar o correio, estão a desaparecer - e nem preciso de abordar o caso português, pois não?). Contudo, é difícil não se rir, ou pelo menos, sorrir, com as tropelias sempre acidentais do desastrado François, alvo de chacota permanente por aqueles lados da França, e ainda mais depois de ser exibido, no dia da festa da aldeia, um documentário sobre os métodos inovadores e altamente avançados que os Estados Unidos da América utilizam para dar aos seus carteiros as condições necessárias para atenderem ao rápido, estiloso e excessivo "american way of life".


Com múltiplos "gags" e piadas visuais em cada pormenor cómico (algo que Tati viria a aperfeiçoar de filme para filme, culminando nessa sucessão imparável de "desastres" provocados pelo Senhor Hulot em «Playtime»), «Há Festa na Aldeia» é a revelação em força do génio cómico de um dos maiores humoristas de todos os tempos. Comédia de costumes, tradições e mentalidades, todas elas representadas, de forma alegórica, em cada uma das pitorescas personagens que entram em cena nas peripécias de François (e no seu desejo de cumprir o seu trabalho com a rapidez e a eficácia dos americanos), desde a senhora idosa que sabe tudo de todos os habitantes daquele espaço ao feirante que faz olhinhos a uma moça da aldeia - apesar de ser casado e a sua esposa estar constantemente atenta a ele -, o filme mostra como o domínio das "forças" americanas ou, pelo menos, da cultura deste país para aquela aldeia, acaba por ter uma influência enorme na maneira, algo ingénua e distante, que algumas das pessoas têm de tudo o que lhes é exterior e desconhecido. Mais do que um filme humorístico, «Há Festa na Aldeia» é uma obra social, que ao retratar, de forma engraçada e hilariante, o dia a dia de uma aldeia francesa, acaba por ser todo um espelho do país e das consequências da II Guerra Mundial. Jacques Tati continuaria a experimentar a sua inventividade cinematográfica nos anos posteriores, e a cativar cada vez mais espectadores graças a ela, e apesar de, provavelmente, «Há Festa na Aldeia» ser o seu filme mais acessível, não deixa de ser o menos inteligente. Acompanhado por uma pitoresca (e "orelhuda") banda sonora e por uma mise-en-scène cuidada e segura, «Há Festa na Aldeia» tem, na sua parte cómica, toda uma inspiração para dezenas de filmes posteriores, mas nunca será possível de ser imitado. Afinal, esta obra vem de um tempo em que a comédia se fazia com graça e onde se preparava, com a maior das cautelas, todas as cenas e planos para atingir o espetador, ao nível "gargalhal", o maior número de vezes possível, sem se tornar maçador ou repetitivo. E ainda bem que está muito bem guardada e que "ressuscita", de quando em vez, para poder ser redescoberta por mais pessoas e cinéfilos. Antes do sucesso do Senhor Hulot, houve o carteiro François e a sua falta de capacidade em afirmar-se perante os outros habitantes desta alegre aldeia, em «Há Festa na Aldeia», um filme simpático, encantador e satírico, onde aprendemos uma lição que tarda ainda hoje a ser compreendida: nenhum país é comparável a outro. E neste caso, França não é Hollywood...

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Comentários

  1. Só por curiosidade: quando e como surgiu este teu gosto por cinema clássico? Achas que, considerando a tua idade e os teus gostos, fazem de ti uma exceção?

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    1. Desde sempre que gosto de coisas "que não são do meu tempo". Não fazem de mim uma exceção nem é isso que pretendo ser. Só vejo o Cinema que quero ver, não o que os outros acham giro ver, e fico feliz pelas coisas que descubro! :)

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