terça-feira, 10 de setembro de 2013

Django [1966]


Um homem segue o seu caminho, levando consigo um caixão, com um ar discreto e sem ter más intenções. É assim que começa «Django», com aquela música inicial que imortalizou este filme de Sergio Corbucci e que originou tantas sequelas não-oficiais, um segundo volume original, com o mesmo ator deste primeiro (Franco Nero) e, há pouco tempo, um "filme-homenagem" de Quentin Tarantino («Django Libertado»). Estaremos à espera de um filme épico, carregado de grandes momentos cinematográficos como, por exemplo, fizeram os famosos "western spaghetti", realizados por Sergio Leone, que tornavam cada movimento de câmara ou de qualquer um dos atores um pretexto para se criar autêntica poesia visual? Não tanto, mas temos em «Django» uma boa fita. É a única obra deste género cinematográfico que foi filmada em 4:3, ao contrário do que se poderia esperar em filmes que necessitam tanto apoio na qualidade da câmara e no que o olhar do espectador pode captar através do mesmo. Mas «Django» é o início da lenda, e de um sem-número de imitações e/ou tributos, que rondam mais de três dezenas (pelo menos, são as que se têm conhecimento hoje em dia - podem estar ainda muitas "cópias" obscuras por descobrir!), e, pelo que se tem dito na comunicação, um terceiro filme com Franco Nero (e que brilhou também num pequeno cameo no «Django» de Tarantino - e digamos, a única coisa que os dois filmes têm em comum é a larga dose de violência) que, com o passar dos anos e com uma idade mais avançada do que a que tinha em 1966, irá protagonizar Django a ajudar o Cinema a recriar as suas histórias para o ecrã. Não deixa de ser uma premissa interessante e que possa ser capaz de funcionar, mas vale a pena ver de perto o filme original e testar a imaginação de Sergio Corbucci. Se com o desenrolar das décadas, «Django» passou de filme híper-violento para filme violento (gostos e mentalidades são outras, mas mesmo assim ainda consegue ser uma fita chocante - e com partes demasiado objetivas violentamente, que retiram Hoje algum impacto), a sua história, o estilo da mesma e o carisma do seu personagem principal, que levou a que fosse tantas vezes imitado e copiado (mas, digamos, nunca ultrapassado - sobrevive o mito de Franco Nero apesar de todas as recriações, com atores completamente diferentes) continuam memoráveis, num universo onde todos os americanos falam italiano, mesmo os mexicanos (estão confusos? Pois bem, imaginem um russo que vá ver o «Dr. Jivago», de David Lean e veja todas as personagens a falarem um inglês perfeito na era do czarismo - tudo é possível no Cinema). E aconselha-se vivamente a que ouçam a versão italiana original do que a dobrada em inglês, porque não é nada credível (ao contrário do que Leone conseguiu nos seus filmes - também por ter sempre um ou outro ator americano no elenco), e o idioma italiano até tem a sua musicalidade em «Django».
 
 
Co-produção de raízes europeias, «Django» pega em dois temas delicados e aborda-os de uma maneira extremamente interessante, de duas perspetivas distintas: o machismo (logo patente numa das primeiras cenas do filme, com a tortura dos mexicanos a Maria, uma mulher que será salva, de uma maneira "incrível", por Django) e o racismo (patente nos diversos ódios, conflitos e inimizades provocadas entre os americanos do Sul e os mexicanos, que querem passar a fronteira, mas que são impedidos pelos primeiros; e ainda a disputa entre América do Norte e América do Sul, mesmo que a Guerra Civil já tivesse terminado - «Django» passa-se no pós-conflito). E Django mostra-se um implacável pistoleiro (mas, e como todos os heróis dos westerns - quer com esparguete, quer sem a presença do mesmo -, é um pistoleiro sanguinário do Bem, que protege os mais fracos... ou talvez não, mas é uma personagem com quem simpatizamos, independentemente do que decida fazer) e, com tanta pancadaria visual, personagens caricatas (como o malvado coronel Jackson e os seus divertimentos muito pouco humanos, mas muito dados à crueldade - um dos "sanguinários maus" da trama) e as dúvidas que a personagem levanta aos espectadores (Quem é Django? O que é que ele leva naquele caixão sujo?) tornam o filme ainda mais relevante, para além do contexto histórico e cinematográfico que carrega (é um dos símbolos maiores do western spaghetti - apesar de não ser tão "dirty" como outros filmes do género -, e foi feito no mesmo ano que a obra prima «O Bom, o Mau e o Vilão», de Leone - com outro "sanguinário bom", Blondie, interpretado de uma forma inesquecível por Clint Eastwood) e, claro, da cativante mise-en-scène de Sergio Corbucci, que pega no seu herói forte, decidido, corajoso e invencível (e que se está nas tintas para as opiniões sociais e políticas dos que o rodeiam) e torna-o num mito do Oeste... italiano, marcante e invulgar. Talvez Hoje seja dispensavelmente gráfico e incredível em alguma violência, e algumas técnicas excessivas e descontroladas de câmara não ajudam a uma melhor qualidade de «Django», mas está aqui uma boa obra, que mostra como os dois lados de uma mesma medalha no meio de tanta carnificina, com uma vingança como propósito final. Uma vingança emocional que transcende qualquer raça e credo... isto na opinião de Django e das suas "pistolices", no meio de tanta ação com o Rambo dos westerns (mas com apenas uma única diferença - Django sabe falar como deve ser) que proporciona alguns momentos de antologia (e apesar da sua violência ser um ícone, muitas das partes mais surpreendentes da fita não residem no uso da força), num filme que vale tanto pelo seu legado como pelo facto de ser uma boa obra, carregada de uma banda sonora épica, muito "eniomorriconinesca". Com mais fama do que qualidade, é certo, «Django» é, contudo, um filme incrível, com mensagens sociais (onde o quase-genocídio de uma cidade se faz por causa de coisas tão ridículas e inúteis - quão diferente é na atualidade? Nada!) e que todos deveriam ver, principalmente se gostaram de «Django Libertado» ou dos filmes de Sergio Leone. E a música não vos vai sair da cabeça durante algum tempo...
 
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