Cerromaior: Manuel da Fonseca e o Alentejo


Do autor de «Seara de Vento» que é, provavelmente, a sua narrativa mais conhecida e estudada, «Cerromaior» é um romance rural de Manuel da Fonseca, onde várias temáticas são postas em confronto num Alentejo atrasado, conservador e onde estranhas pessoas, com vidas estranhas, deambulam pela aldeia que dá nome ao livro, e em outras que a rodeiam. Esta obra foi ainda alvo de uma adaptação cinematográfica, da autoria de Luís Filipe Rocha, estreada no ano de 1981, e que teve algum considerável sucesso. «Cerromaior» é a história de Adriano, um rapaz que vive na aldeia mas que ambiciona regressar a Lisboa para completar os seus estudos, coisa que os seus familiares e as suas obrigações patrimoniais o impedem de executar. E em Cerromaior conhecemos todo um rol de personagens que conhecem Adriano, ou trabalham para os seus primos, ou que simplesmente habitam o mesmo espaço que este moço, que deambula pelas ruas da aldeia desgostoso da sua vida. «Cerromaior» é também uma crítica política, tendo sido, por isso, um romance impiedosamente cortado pela Censura, e que o autor tentou reconstituir, na sua originalidade, nesta edição da Caminho. Uma obra interessante, com alguma chama literária e situações muito bem relatadas e escritas, mas que sabe a pouco. Mas felizmente ficamos com a memória viva destas personagens que, felizmente, estão muito bem e credivelmente construídas (não fosse este um romance neorrealista - aliás, Manuel da Fonseca é um dos nomes maiores desse género na literatura portuguesa), num ambiente tão tipicamente português, numa região do país que foi e continua a ser, de maneiras diferentes obviamente, vítima de certos atrasos que o progresso do resto da "Lusitânia" não consegue trazer para o Interior e para as zonas mais rurais...

Comentários