Blade Runner - Perigo Iminente [The Final Cut - 2007]


Agora sim, fiquei completamente admirado com o universo de «Blade Runner», oriunda da imaginação de Philip K. Dick (cujo livro, «Do Androids Dream of Electric Sheep?», foi o mote para este filme - se bem que a inspiração no mesmo seja muito vaga) e da visão cinematográfica poderosa de Ridley Scott. Se há uns tempos, ao ver a primeira Director's Cut, dos anos 90, fiquei aborrecido e escrevi umas palermices sobre a tão-grande variedade de versões que existem do filme, pretendo agora fazer justiça, depois de ter visto a "Final Cut" de 2007, a versão definitiva do filme de Scott e a sua preferida. É que «Blade Runner - Perigo Iminente» é um daqueles casos de Hollywood cuja trama de bastidores e de "making-of" dava até para fazer outro filme à parte (ou pelo menos, um extensíssimo documentário de três horas sobre todos os aspetos desta magnífica obra prima - documentário esse que está incluído como extra na edição nacional DVD e Blu-ray desta versão final do filme, supervisionada por Scott), e na altura não pude perceber isso porque não fiquei ultra-fascinado pela fita para querer pesquisar sobre este assunto. Mas, ao longo do ano que passou entre a primeira vez e este revisionamento, várias vezes pensei no filme e na maneira como fui injusto para o mesmo, e que talvez o tivesse visto de uma forma muito superficial (apesar de não fazer isso com obras cinematográficas desta complexidade). Mas voltei a «Blade Runner», e percebi como foi diferente. Ver esta versão, com uma imagem espetacular, um espírito futurista e filosófico revisto e ressuscitado tal como o realizador o pretendia (e que ficou apagado da primeira "Theatrical Cut", completamente aniquilada pelos estúdios, que para tornarem «Blade Runner» mais acessível ao grande público, e logo, mais rentável e "blockbusterável", destruíram a filosofia e a poesia do filme para dar lugar a um romance pitoresco futurista com final feliz e nada fica mal), e perceber melhor e ficar maravilhado por todo o filme - e por tudo o que me escapou por causa de um visionamento descuidado (e, sejamos sinceros, a Director's Cut dos 90's tinha uma imagem muito fraca), revitaliza a classificação que lhe atribuí inicialmente. Foi a nota máxima, tal como vou atribuir agora à Final Cut, mas além disso este tornou-se um dos filmes da minha vida.


«Blade Runner - Perigo Iminente» é adorado por muitos, e agora percebo porquê. Foi preciso crescer um ano para percecionar isso no sentido literal da coisa. Uma referência para muitos cineastas e para muitos críticos (faz parte do top 100 de ambas as listas lançadas pela revista Sight and Sound no ano passado), é uma das maiores obras de culto do Cinema Americano e, na opinião dos especialistas, o filme mais pessoal de Ridley Scott, que deixa aqui um testemunho imortal para a Sétima Arte. «Blade Runner» é uma obra cinematográfica marcante pelo seu conteúdo visual, narrativo e intelectual (onde uma larga componente filosófica e simbólica, que atribui significados a todos os frames e pormenores que vemos no ecrã, dá um espírito fantástico à narrativa de Rick Deckard - Harrison Ford). E a segunda vez que o vi foi, efetivamente, a primeira: esta versão de 2007, que dá melhoramentos às imagens futuristas de «Blade Runner» (sem cair nos exageros frequentes que George Lucas faz aos seus «Star Wars», fazendo alterações de cada vez que os filmes são novamente relançados no mercado home-video) e dá a esta fita todo o esplendor que tem de ter para ser devidamente apreciada. Além de dar mais valor, agora, ao papel da "Director's Cut» quando se dão estes casos culturalmente chocantes de sucessivos retalhamentos a obras de arte por parte de terceiros (mas continuo a desprezar totalmente as DC's criadas apenas para dar mais lucro ao filme - como por exemplo, a versão do realizador de «Donnie Darko», que de versão-original-que-supostamente-deveria-ter-ido-parar-aos-cinemas-mas-não-foi-por-vontades-alheias nada tem, e trata-se simplesmente de uma versão mais simples e explicada do que a original), porque se estas não existissem, e se o mercado não permitisse a sua existência, teria de ficar pela obscura versão de cinema original de «Blade Runner», com uma voz-off forçada e um final feliz metido à última da hora para o filme ser mais simples, banal e nada desconcertante ou cerebralmente enriquecedor. E há tanta para coisa para ver, ouvir e sentir nesta demanda implacável em que o detetive Deckard entra para encontrar os replicantes (Rutger Hauer tem um desempenho extraordinário como um deles - e proporcionou uma emblemática e extraordinária cena, envolvendo lágrimas na chuva), em jeito de film-noir retro-futurista (sim, é giro ver como nos anos 80 imaginariam os computadores do século XXI, entre outras coisas mais), inesquecível, inacreditável e obrigatório. «Blade Runner» é o filme de uma vida, de várias vidas. E Harrison Ford pode ter interpretado, na tela, personagens tão emblemáticas como Han Solo ou Indiana Jones, mas é Deckard que o torna intemporal, numa interpretação repleta de força e de complexidade psicológica. Há muito para dizer sobre «Blade Runner», mas infelizmente eu não sou a pessoa indicada para o fazer. Não tenho grande coisa a escrever sobre uma fita que me diz muito mais ao olhar, que ficou mais uma vez fascinado pela beleza da película de Ridley Scott, tão bem acompanhada pela banda sonora magnífica e inspirada de Vangelis, que tem neste filme uma carta de amor confessional à arte que adora, a das imagens em movimento.

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