Bananas [1971]


«Bananas» é uma comédia anárquica de Woody Allen e um dos seus filmes mais apreciados pela classe humorística portuguesa e americana, ou pelo menos, pelas pessoas aspirantes a tal carreira profissional. Depois de «Take the Money and Run», um falso documentário sobre um assaltante que falha constantemente a cada novo plano que executa, Allen volta à realização ao enveredar por uma sátira total que, para muitos, tem algo de política, mas para o próprio autor, é apenas uma simples comédia. Há quem diga que seja uma homenagem a «Duck Soup», dos irmãos Marx, pelo completo disparate absoluto que reina na história de Allen e de Mickey Rose. Mas aqui vemos também os inícios do neurotismo e da persona cinematográfica que caracterizou o cineasta nos anos seguintes, em projetos marcantes como «Annie Hall», «Manhattan» ou «Hannah e as suas Irmãs» e que, para muita gente, é o homem que, na atualidade, refaz o mesmo gilme todos os anos (nas suas opiniões, Allen limita-se a mudar os atores e o título das fitas. De resto, tudo se mantém). E além disso, «Bananas» é ainda um filme provocante e que foca alguns temas tabus da sociedade americana/mundial. Sendo um filme improvável na forma e na sua estrutura, que possui alguns toques de puro amadorismo e experimentalismo cómicos, «Bananas» não é dos melhores filmes de Woody Allen, mas é uma peça de coleção para os fãs e um momento de surpresa para as pessoas que têm ideias erradas sobre o Woody da atualidade. Talvez agora a classificação de M/18, atribuída ao filme pela distribuidora portuguesa do mesmo, não faça sentido se fizerem o seu visionamento. Mas continua uma obra irreverente e com muito boas ideias, sempre no grande estilo de Woody Allen. A loucura chega a níveis extremos nesta comédia, que parodia televisão, sensacionalismo, relações, amores e política (é inegável dizê-lo, mesmo que não seja de uma forma tão crítica como alguns a pintam). «Bananas» é um daqueles filmes de Woody Allen onde o non-sense, em quantidades moderadas, está bastante presente, tanto na realidade da américa como no sistema totalitário em que a persona do comediante vai parar a páginas tantas da fita. Muito irónico e sarcástico, «Bananas» é uma autêntica rebaldaria cómica, com sketches atrás de sketches guiados por um fio condutor, por vezes levado a exageros "exagerados", mas que é bastante apelativa, desconcertante e imaginativa. Porque antes dos filmes mais complexos, Allen fez coisas parvas (no bom sentido) como este filme e um ou outro que se lhe seguiriam...


O que há em «Bananas» que é verdadeiramente extraordinário são as punchlines de Woody Allen que, aqui, são mais eficazes do que o habitual. Ou pelo menos, para a minha pessoa assim foram. Aqui, o amor é visto de uma forma diferente, mais explícita e distinta da psicologia que caracterizará as investidas cinematográficas posteriores de Allen (e, por consequência, os prémios que recebeu - e que continua a receber - por esse mundo fora), sem pudores ou constrangimentos, explorando o interior dos pensamentos e ideologias da personagem tão preocupante e irritante que é interpretada por Allen. Pecando mais por ter cenas inconsistentes (com gags demasiado curtos e outros que perderam a sua graça por meros erros formais - já para não falar nas demasiadamente notórias e incríveis falhas de sonoplastia), uma realização não muito segura e convicta, e por estar já muito datado visualmente (podia ter sido feito tanta coisa com menos técnicas de filmagens, neste caso específico), «Bananas» é uma reflexão sobre a frustração do ser humano no mundo, e da sua falta de adaptação a muitas situações e a muitos carácteres de outros indivíduos, de uma forma patética e hilariante. É uma farsa, é uma comédia, é uma experiência humorística boa e reveladora do génio de Woody Allen e de tudo o que ele iria fazer daí para a frente. Na política, na vida e no amor, há sempre quem nunca consiga levar a melhor e que acabe por se rir da sua própria condição existencial, ou pelo menos, fazer os outros rir com a mesma. No fim as coisas podem mudar, mas o mundo e as pessoas nunca mudarão, e para nos consolarmos temos sempre a boa e velha gargalhada. Filme satírico mordaz e irreverente, que ridiculariza o ridículo da existência humana, «Bananas» é um filme cheio de energia, que satiriza tudo e todos, da autoria de um senhor que mal sabia o que o esperava no mundo do Cinema. Nada sabia Woody Allen do que estava para vir nas décadas seguintes. Talvez ele pensasse que faria sempre filmes como este. Felizmente ele desenvolveu-se, mas ficam as memórias do passado e o espelho de uma das mais ricas etapas profissionais de um dos mais geniais comediantes da contemporaneidade, tão bem ilustradas em «Bananas». 

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