domingo, 29 de setembro de 2013

Às Portas do Inferno (Rashômon) [1950]


Akira Kurosawa teve em «Rashômon» (título com uma tradução portuguesa aparentemente improvável, porque o epíteto original referencia o local onde a história é contada - mas não será que a adaptação tuga tem segundas intenções, pelo menos, filosóficas? Talvez depois de se ver o filme se possa pensar melhor nesse assunto) o seu primeiro êxito internacional. Foi nomeado para um Oscar pela direção artística, tão bem executada, e recebeu ainda o primeiro prémio de Melhor Filme Estrangeiro da História da Academia de Artes e Ciências dos filmes (quando ainda não existia categoria para tal honra - daí que «Rashômon» tenha sido galardoado com um "honorary award" - a distinção só seria criada na edição do ano de 1957), além de que foi o vencedor do prestígio maior do Festival de Veneza, o Leão de Ouro. «Rashômon» é uma história que toma vários rumos e que pode abranger várias conclusões completamente distintas. Uma história bizarra e complexa vivenciada por duas personagens, que mal conseguem acreditar naquilo que viram e que irão contar a um terceiro e desconhecido interveniente, ao longo da ação do filme, revendo em flashbacks o julgamento de um assassinato (que uma das duas personagens contadoras do sucedido testemunhará em tribunal) e, em flashbacks dentro destes flashbacks, as visões dos quatro arguidos, as interpretações e perspetivas que cada um deles tem do caso, tal como se se consideram culpados ou não do terrível crime que está em discussão. Temos um homicídio, ocorrido em circunstâncias já anormais, e as histórias de cada um dos julgados ainda tornam este cenário ainda mais anormal, porque nenhum deles tem uma história que coincida com a dos outros três nem sequer em algum pequeno pormenor! Nesta sua primeira obra de renome mundial, que o elevou ao patamar dos grandes cineastas (apesar de no Japão, seu país de origem, a fita não ter sido lá muito bem recebida), Kurosawa constrói um mistério profundo e complicado, que se alimenta dos espectadores e das emoções que lhes consegue transmitir e, mais importante ainda, das ilusões em que cada um de nós cai, em cada uma das perspetivas filmadas e que, pensamos nós, a cada uma delas, que esta é que pode ser a que está mais próxima da Verdade... mas lá no fundo, todas têm fundamento para serem confiáveis, e ao mesmo tempo, são muito pouco credíveis. Há interesses pessoais em jogo e o que está em causa é que se descubra, afinal, quem é o culpado do assassínio. Será que iremos saber, nesta história tão labiríntica e tão cuidadosamente filmada e adaptada para o ecrã?


Em «Às Portas do Inferno» temos samurais, uma banda sonora majestosa, imperial e fortemente oriental (e tão bonita que é!), e códigos de honra tão rígidos e minuciosos que nos intrigam, por serem tão especialmente marcados por uma cultura que nos está tão distante, mas que sempre queremos ter a oportunidade de poder conhecer melhor. A câmara dinâmica e movimentada de Kurosawa, que sabe exatamente o que pretende de cada situação e de cada imagem que a melhor pode captar e que nos sabe, tal como Kurosawa quer, manipular (no bom sentido, porque todo o Cinema, senão toda a Arte, é o engenho de bem manipular) o espectador, fazendo-o ficar com a sensação de que quanto mais sabe, mais confuso se está a sentir em relação ao que são os "verdadeiros" factos da questão, e quais são as coisas que estão a ser facciosas em cada uma das versões contadas no julgamento. Será que duvidamos, também, da humilde testemunha que nos "faz" o favor de, por intermédio do desconhecido que chega para se abrigar da chuva e fica ao corrente desta estranha ocorrência, nos dizer tudo o que se passou, tintim por tintim, apesar de ele não ter nada a ver com o caso? «Rashômon» é por tudo isto uma obra prima com uma grande força poética e humana, que nos questiona a fé que temos nos seres humanos e na humanidade em geral. Os verdadeiros valores estão a desaparecer cada vez mais, é o que nos parece... será que ainda subsiste por aí algum indivíduo que não põe a sua proteção pessoal acima do bem comum? Existem pessoas em que ainda podemos confiar? «Rashômon» é um filme sobre a bondade e a verdade humanas que, por mais raras e aparentemente inexistentes que possam parecer, andam sempre por aí, "representadas" por pessoas que só querem o bem de todos os que os rodeiam. Mais do que uma obra prima do crime e da psicologia da mente humana, este é um conto fabuloso sobre o espírito e a alma dos homens, sempre posta à prova nos momentos mais difíceis e que aí, verdadeiramente, testamos quem é que as pessoas realmente são, porque ficam desprovidas de máscaras, personalidades ou apoios em certos grupos ou interesses egoístas. Com grandes atores que dão ao filme uma invulgar e fascinante frescura a todo o conjunto (alguns dos atores seriam "peças" frequentes dos filmes de Kurosawa, como Toshirô Mifune e Takashi Shimura - dois artistas que devem, praticamente, toda a sua fama aos personagens que interpretaram nas fitas do cineasta japonês mais conceituado no mundo inteiro) e toda uma mestria cinematográfica ímpar e que continua impossível de ser ultrapassada, «Às Portas do Inferno» alia o melhor de dois mundos: a Arte do Cinema e o Homem, que a torna possível, juntando as possibilidades da Arte com a simplicidade que faz a alma e os problemas dos seres humanos.

* * * * *

P.S - Aqui podem ver o filme completo legendado em PT-BR no Youtube.

1 comentário:

  1. Agora deste-me vontade de voltar a ver o filme.

    Foi de facto o primeiro filme japonês a ser reconhecido no Ocidente, e talvez merecidamente.

    ResponderEliminar

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).