The Mist - Nevoeiro Misterioso [2007]


Se «The Mist» não tivesse sido realizado por Frank Darabont, o homem que trouxe pérolas do Cinema Americano dos finais do milénio passado como «Os Condenados de Shawshank» e «The Green Mile - À Espera de Um Milagre» (e convém também não esquecer o subvalorizado «The Majestic» com Jim Carrey, numa das poucas ocasiões em que o ator agarrou um papel verdadeiramente dramático), eu não teria visto este filme, uma história de terror e ficção científica baseada, mais uma vez, numa criação de Stephen King (cujas adaptações cinematográficas da sua obra são incontáveis, pelos mais diversos cineastas - mas Darabont é o que mais se destaca). Porque «The Mist» tem muita coisa dentro de si que faz o que eu não gosto que seja posto em prática no Cinema. Mas não me deveria ter surpreendido, pois o cartaz e a sinopse da fita já dão uma ideia disso. Fui apenas atrás do nome de Darabont, e assim, tive uma das grandes desilusões cinematográficas dos últimos tempos. É um filme repleto de coisas óbvias e previsíveis, construído através de personagens que, na sua maioria, não funcionam da melhor maneira (ou que apenas servem para gritar - ui, que assustam tanto, tal como a forma como todos os atores dizem constantemente palavrões de uma forma muito expressiva, sim, porque em situações de drama e de perigo como esta o que é mais provável é que, de repente, salte a língua a toda a gente - ou para serem vítimas rápidas dos estranhos bicharocos que estão no meio do nevoeiro que assola uma cidadezinha americana) e com situações que - e isto é estranho, estando a falar de um filme incluído no género de "terror" - me aborreceu em certas partes. O Cinema vale por si próprio e não pelos adereços que se lhe possam colocar, e parece que «The Mist» quer viver dos acessórios e não das potencialidades que a Sétima Arte fornece aos espectadores. Mas depois é curioso que «The Mist» pretende ter a parte do suspense e do horror como capa para dar ênfase a uma psicologia intensiva da maioria das personagens vazias e da narrativa, só que infelizmente só consegue fazer isso de uma forma razoável - e que torna este mote a parte que, para mim, foi a mais interessante do filme. O slogan do filme é "o medo muda tudo", e talvez fosse essa a principal ideia a passar por King e pela adaptação de Darabont, quando o caos da cidade começa a fomentar o pânico dos seus habitantes e a aumentar o fanatismo religioso de alguns deles, movidos por uma guru extremista que diz que aquela praga de insetos gigantes forma o Apocalipse há tanto prometido. Mas à exceção dessa algo interessante parte de reflexão proporcionada por «The Mist», este não deixa de ser um filme de pipoca, com muitas subplots desinteressantes que tentam, sem sucesso, dar mais algum fôlego à história insípida e que caberiam na perfeição na secção "Deleted Scenes" das edições DVD e Blu-ray do filme. Com um modo de filmar muito amador, ou pelo menos, pseudo-amador (parece que é o que está na moda hoje em dia. Isto não é "Nouvelle Vague" nem nada, é apenas uma tentativa de tornar as coisas num documentário muuuuito credível), «The Mist» sofre por ser mais um filme de espetáculo, e por este espetáculo não ser bem feito, do que um filme em todas as suas vertentes. Mas é preciso ser sincero, porque falei de pipocas: talvez «The Mist» fosse daquelas fitas que desse maiores emoções no Cinema. Mas a narrativa continuaria a ser um grande alvo de críticas pela minha pessoa, e mesmo assim, não perderia a sua veia de telefilme do canal Syfy.


«The Mist» é um filme sobre uma catástrofe inesperada, que obriga a que um homem e o seu filhote fiquem presos num supermercado, juntamente com tantas outras pessoas (incluindo o seu vizinho que é "um grande advogado" e por isso é ultra-espetacular, apesar de só saírem asneiras quando abre a boca), à espera que chegue a bonança. Só que ela tarda muito, e depois vão morrendo uns quantos pelo caminho e aparecem monstros muuuuito assustadores (cujas vítimas que causam têm tanto de aterrorizador como de hilariante - e isso não é suposto num filme de terror, pois não?) que vão matando uns quantos pelo caminho e aumentando o fanatismo de outros tantos. Em «The Mist» vemos como o Homem muda nas situações mais extremas e como as pessoas tendem mais a divergir do que a entenderem-se em casos de perigo. Mas com tantos clichés e berros a parte razoavelmente boa do filme fica um pouco tapada pela tamanha superficialidade que transporta no seu conteúdo e na sua forma. Mas como «The Mist» é uma obra com um orçamento considerável, ao menos conseguiram pagar a bons atores para interpretarem os seus papéis, que variam entre o algo-consistente e o nada-consistente, rodeados por um sem-número de lugares comuns e com as coisas tão habituais e gastas que, ao que parece, são as que andam a sustentar o Terror há demasiado tempo. O grande problema do filme, contudo, é querer ser, ao mesmo tempo, muito profundozinho filosoficamente, e muito claro e objetivo cinematograficamente. Essas duas facetas tão contraditórias fazem com que «The Mist» acabe por ficar ainda mais prejudicado. Além de querer parecer ser uma versão moderna de «Os Pássaros» de Hitchcock, mas não conseguiu aprender o que esse filme tinha de bom em termos de terror: conseguia assustar, de uma forma potente e extremamente eficaz, com pouco e com o mais íntimo do ser humano, sem precisar de muitas extravagâncias visuais...


Mas, e porque há sempre um "mas" (e porque em todos os filmes menores há sempre coisas boas para serem aproveitadas, mesmo que sejam um dos maiores pedaços de ridicularidade da História), «The Mist» consegue ser cativante, e os seus atores, que conseguem, até, ter boas interpretações com personagens tão fraquinhas, dão uma força interessante a um filme que teria tudo a perder se não fosse o seu elenco. E a viragem que «The Mist» tem na sua parte final também é algo curioso: talvez esperasse um "happy-ending" inconsequente, posto à última da hora, para não deixar o espectador com um certo remorso na consciência, mas... é exatamente o contrário que se sucede aqui! OK, as últimas palavras do ator principal não precisavam de ser proferidas de uma maneira tão exagerada, mas a ideia resulta bem, porque acaba por dar um final "necessário" para a horrível situação apresentada e pelas poucas escolhas psicológicas que são dadas ao protagonista. Ele não poderia esperar uma reviravolta tão rápida nos acontecimentos... «The Mist» não é um filme totalmente mau, mas também não acaba por se tornar em algo de verdadeiramente interessante empolgante. Mas no meio de tantas falhas possui algumas pequenas coisas boas, e é isso que acaba por importar. É um filme mediano, com uma ou outra ideia interessante.

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