sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O Homem das Duas Faces (The Man in the Glass Booth) [1975]


«O Homem das Duas Faces», um filme realizado por Arthur Hiller (talvez um dos títulos mais prestigiantes da sua não-tão bem recheada filmografia) a partir da peça homónima de Robert Shaw (mais conhecido como ator - foi Henrique VIII em «Um Homem para a Eternidade» e teve outros papéis memoráveis em filmes como «A Golpada» e «Tubarão»), esteve incluído na segunda série de fitas das produções do American Film Theatre, um serviço de Cinema por subscrição que durou duas temporadas e que teve um objetivo corajoso, popular na época e inovador, e que nunca mais se voltou a repetir: filmar o Teatro, sem perder o espírito das peças adaptadas, através do auxílio de grandes realizadores e atores a participarem nos mesmos. Hoje em dia, os filmes do AFT têm o estatuto de lenda, e por muitos anos foram difíceis de encontrar e de visionar pois estiveram muito bem escondidos do público. Contudo, recentemente a coleção de catorze títulos deste projeto dirigido por Evy Landau foram lançados no mercado de home vídeo (e apenas seis deles - mas que são dos mais conceituados - foram editados em Portugal pela Unimundos, e que estão agora nas lojas a preço de saldo, incluindo «O Homem das Duas Faces») e podemos contemplar o espírito destas obras e a qualidade dos seus textos e das suas produções, muito bem patentes, de uma forma exemplar, nesta fita, protagonizada por Maximillian Schell (nomeado ao Oscar de Melhor Ator por esta excecional performance) e com argumento adaptado de Edward Anhalt. «O Homem das Duas Faces» é um drama perturbador sobre o Holocausto e os seus efeitos na sociedade muitos anos depois de ter ocorrido, porque, apesar de já ser uma coisa do passado, continua a suscitar muitas tristezas e problemas no presente. No filme podemos analisar um retrato profundo da personagem principal, Arthur Goldman, um judeu rico instalado em Nova Iorque... ou um oficial nazi responsável pela morte de milhares de judeus que se refugiou sob uma identidade falsa nos Estados Unidos da América. A dúvida instala-se constantemente, e fica ainda mais persistente quando vemos Schell a ser tão convincente nos dois "papéis" que representa ao mesmo tempo. Mas quem será realmente aquele alemão? Uma vítima das traumas do Holocausto ou um orgulhoso monstro da tragédia em que esteve profundamente envolvido? Acho que, até ao final do filme, é impossível ter-se a certeza disso. E essa característica dúbia de Schell dá uma força maior a «O Homem das Duas Faces» porque, se optarmos por optar num dos lados da questão, conseguimos ter razão (tanto Arthur Goldman é paranóico e obsessivo pelas desgraças que o nazismo trouxe, como o criminoso nazi é convincente no seu relato dos crimes que cometeu, relato esse feito de uma forma orgulhosa e provocadora - qual deles é o verdadeiro Homem?). Com alguns toques de humor, o filme quer deixar uma questão social por explorar pelo próprio espectador, pelo rasto que a tragédia do Holocausto deixou e pela maneira como hoje vemos as consequências que o mesmo trouxe para a Humanidade.
 
 
O ponto mais alto de «O Homem das Duas Faces», que tanto tem de revelador como de fascinante, é mesmo a gloriosa interpretação de Maximillian Schell no papel principal, que deixa uma impressão muito forte nos espectadores. Os ecos do passado fazem as questões do presente e desta personagem, que esconde (ou talvez não) a sua verdadeira identidade são levados até um julgamento em Israel, onde no meio de uma audiência composta por judeus (muitos deles sobreviventes do nazismo), Goldman revela a sua "persona" nazi, que tanto tem de real como não (e agora eu já fiquei confuso com o que estou para aqui a escrever). O filme está consistentemente realizado por Arthur Hiller, que soube manter o ritmo da peça e dos formalismos do Teatro com o espírito do Cinema, aliando estas duas artes de uma forma muito bem conseguida, criando uma obra mais complexa do que se possa imaginar, e que deve ser vista de uma forma objetiva, não se deixando levar pela impressão dos relatos feitos pelo homem na parte em que se veste de nazi, que não está caricaturado mas sim, assustadoramente credível. Mas é impossível analisar este filme sem revelar algum do seu material, e por isso, mais vale ficar por aqui, porque já dei um "cheirinho" alargado da narrativa. Concluo dizendo que «O Homem das Duas Faces» é ainda um filme semi-oculto, mesmo com a disponibilidade que os filmes do AFT estejam hoje no mercado, mas que é merecedor de visionamento. Uma obra muito bem pensada, inesquecível e arrebatadora, que comove e nos faz refletir sobre as múltiplas máscaras que o ser humano pode utilizar para enfrentar ou para esconder alguns dos seus problemas mais obscuros...
 
* * * * 1/2

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