O Grande Salto (The Hudsucker Proxy) [1994]


«O Grande Salto» é uma pérola mais ou menos bem escondida na filmografia dos irmãos Coen. É um filme divertido, simples e com algumas cenas repletas de imaginação e de magia cinematográfica, como a dupla de realizadores/argumentistas nunca tinham feito antes, misturando uma( música grandiosa (e que me fez recordar os clássicos natalícios - ou pelo menos, a banda sonora de muitos deles - pelo seu tom quase "doce" e mágico) com uma história que envolve o passado e o futuro... ou talvez não. Pelo menos é a ideia que o monólogo inicial, proferido em voz-off por uma das personagens secundárias do filme (que acabará por ser, de uma maneira interessante, um dos pontos-chave da trama), nos pretende transmitir, tal como o slogan da Hundsucker Industries (a empresa onde se desenrola o filme), "O Futuro é Agora". Mas depois percebemos a pouco e pouco como «O Grande Salto» é um filme parvo. Um filme parvo que, em dadas alturas, atinge o nível do ridiculamente parvo. Mas que não deixa de ser encantador. O IMDb e a Wikipédia classifica esta comédia dentro do género dos filmes "screwball", que tendem a cair para as piadas mais simples e básicas e, na maior parte dos casos, sem graça. Só que esta obra é parva no bom sentido. A parvoíce de «O Grande Salto» está num nível, para mim, de qualidade como está o non-sense revolucionário dos Monty Python, e que tanto me faz rir. Não sendo um filme propriamente hilariante, «O Grande Salto» tem as emoções no sítio certo, provocando risos e sorrisos com uma história com algo de inteligência  e, também, algo de vulgar - a estrutura é muito normal, e sabemos desde o princípio que (e espero que isto não seja nenhum spoiler...?) tudo vai acabar bem e adivinhamos, logo no primeiro momento em que a miúda do filme aparece, que o protagonista (Tim Robbins) vai ficar com ela. Mas esta simplicidade e normalidade é apenas um pretexto para os Coen fazerem um filme à la Coen, e que foi o primeiro projeto de maior orçamento feito pelos Irmãos.  A narrativa vai buscar os moldes aos clássicos americanos, que contavam histórias com moral e que pretendiam ensinar alguma coisa aos espectadores. E a moral é simples: a felicidade não se compra, nem que tenhamos todo o dinheiro do mundo, e esse vil metal, na maior parte das vezes, só acaba por trazer aborrecimentos a quem tem de tratar dele em grandes quantidades (e sim, esta expressão pode ter vários sentidos e não estou a falar em desfalques nos bancos! Isto tem a ver mais com falcatruas económicas empresariais). «O Grande Salto» é um filme que, criticando e satirizando a burocracia e o mundo da economia e da gestão e apelando à simplicidade dos simples, torna-se uma boa proposta de verão, e também, de comédia inteligente e, ao mesmo tempo, com muita parvoíce, e que possui, ainda, um toque de humor em jeito de desenho animado.


«O Grande Salto» mostra uma estratégia de um grupo de empresários para manterem a Hudsucker após a morte (bizarra) do seu fundador. E Massburger (Paul Newman), um inescrupuloso homem de negócios, dá a ideia de colocarem um idiota como diretor dos destinos da empresa para este a arruinar e, assim, as ações da empresa poderem ser compradas a baixo preço após a ruína, evitando que a marca caia nas mãos de qualquer cidadão, intenções essas a do senhor Hudsucker. É assim que entra na história Norville Barnes (Robbins), um jovem à procura de trabalho que será o bode expiatório da Hudsucker, mas que, com as suas invenções (uma em particular - uma pista está no poster do filme), irá virar os planos dos empresários do avesso. Contudo, Norville acabará por não conseguir controlar a sua nova vida empresarial, e os resultados podem ser dramáticos. Aliás, a sua criatividade e a sua vida pessoal, tal como em tantos casos que a vida real nos mostrou, começam a ficar afetados pela cor do dinheiro... «O Grande Salto» é um caricato conto social que nos quer ensinar algo sobre a vida que está lá fora e de todos os perigos e idiotices que a circundam. O filme tem uma estrutura muito habitual em termos de forma mas é uma delícia de visionamento, principalmente quando a história ganha uns certos contornos mágicos e com o seu quê de encanto e de fantasia, culminando num final com muito de nonsense. Mas não se pode estar com expectativas para se ver uma comédia destas, e especialmente, quando é feita pelos Irmãos Coen (aliás, "expectativa" é uma palavra que pode destruir qualquer peça cultural e artística que existe ou está por vir ao Mundo). O espectador tem de se deixar levar pela simplicidade de «O Grande Salto» e pela simpatia e empatia que as personagens nos transmitem, apesar da caricatura constante que é feita com algumas personagens e situações. Não é o mais fascinante filme dos Coen, nem precisa de o ser para mostrar-se, aos nossos olhos, como um filme singular na carreira dos dois cineastas.

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