O Grande Gatsby [1974]


São poucos os filmes que conseguem obter uma reação tão mista do público e da crítica como a versão de 1974 da magnífica obra literária «O Grande Gatsby», de F. Scott Fitzgerald, realizada por Jack Clayton e com um argumento do inigualável Francis Ford Coppola. Por alguns muito estimado, por outros completamente desprezado, e para outros ainda tornou-se um filme esquecido, aborrecido, vítima do remake de 2013 de Baz Luhrmann, cheia de efeitos 3D e modernices para o século XXI, que apagou da memória dos espectadores a versão dos anos setenta. Contudo, e apesar da insistência de muitos para a não-visualização deste «O Grande Gatsby», acompanhada por uma pontuação muito fraca no Internet Movie Database (um daqueles sítios da web onde podemos ver coisas tão subjetivas, mas também tão forjadas e ridículas, como «Os Condenados de Shawshank» estar à frente de «O Padrinho», em termos de qualidade), parece que há ainda uma grande resistência para que este filme não seja visto. Mas eu fiz este "esforço", e fiquei surpreendido. Um filme não pode ser comparado ao livro que o adapta - comparações desse calibre acabam por conduzir a ideias erradas e a factos... incomparáveis -, mas se há algo que esta versão de 74 tem a ganhar é a proximidade que tem com a obra de Fitzgerald. Muito por "culpa" do exímio argumento de Coppola, que capta muito bem todo o espírito da época e todo o conteúdo cinematográfico que as ideias do escritor possuíam, dos cenários lindíssimos e tão característicos da crítica/sátira imposta por Fitzgerald a partir da sua história contada, na primeira pessoa, por Nick Carraway, e por alguns dos atores que protagonizam o filme de uma forma exemplar (Nick, aqui interpretado por um ator menos conhecido do grande público, mas cujo rosto, na atualidade, é irreconhecível, consegue ter um papel de destaque na fita - falo de Sam Watersn, que também entrou em dois grandes filmes de Woody Allen, «Hannah e as suas Irmãs» e «Crimes e Escapadelas», e foi nomeado para o Oscar pelo seu papel em «Terra Sangrenta», de Roland Joffé). Robert Redford e Mia Farrow são Gatsby e Daisy (Farrow que merecia pelo menos uma nomeação da Academia, não por encarnar Daisy, mas por ser ela, na perfeição - porque se Gatsby pode ser uma personagem enigmática e entendida de várias maneiras, Daisy, graças ao seu ego irritante e algo chocante, consegue ter uma única interpretação plausível, e Farrow captou-a de uma forma brilhante. Mas convém não esquecer a incrível performance de Redford!), o par romântico que volta a encontrar-se tantos anos depois, com Gatsby, já milionário, a querer voltar a conquistar o coração da sua ex-namorada, tão falsa, hipócrita e oportunista. O romance caracteriza um tempo e as andanças dos "roaring twenties", ou "loucos anos 20", em português. E o filme faz uma viagem mágica no tempo, dando "carne e osso" às personagens criadas por Fitzgerald (tão bem caracterizadas fisica e psicologicamente, na sua maioria), sendo mesmo exemplar e digno de ser visto.


Apesar de ser um filme onde notamos uma preocupação acentuada dos técnicos em relação ao guarda roupa e aos figurinos (quiseram tornar, o mais credível possível, a recriação daquela década tão misteriosa na História dos Estados Unidos da América), além dos pontos fortes que já mencionei anteriormente, «O Grande Gatsby» sofre por ser baseado nesse livro homónimo, que conquistou um patamar tão excecional de reputação e de reconhecimento na cultura mundial que é impossível de suplantar. Filmes como «O Padrinho», «Laranja Mecânica» e «Psycho», só para citar três exemplos famosíssimos, são casos onde o Cinema conseguiu igualar, em termos de popularidade, ou mesmo suplantar, a Literatura. Mas este filme, tal como todas as adaptações que já se fizeram a partir dele e que se farão num futuro próximo (o problema não é desta versão em si, mas do poder inestimável da obra literária, que afetará toda e qualquer recriação cinematográfica), não consegue libertar-se do fardo do livro, não consegue ser o filme "por si só", mas apenas "o filme do livro". É o que dá pegarem em clássicos inestimáveis das letras mundiais, mas esta versão de 74 vale mesmo a pena, apesar disso, pela tão-grande aproximação que tem com as ideias originais de Fitzgerald (oh não! Estarei eu também a fazer comparações entre livros e filmes que tanto critiquei há umas linhas atrás?!). Pode ter uma montagem por vezes abusiva e descontrolada, e certas porções de "acting" de alguns atores secundários que não funciona, ou que está simplesmente mal trabalhado (com muito exagero dos seus movimentos, em alguns planos completamente desnecessários que podem, para muitos, tirar algum ritmo à narrativa e ao que verdadeiramente interessa na fita), mas é uma delícia de filme, cheio de dança, música, festas e autêntica poesia visual (nas cenas entre Gatsby e Daisy, que têm tanto de trágico como de idílico, é completamente notória), além de que a cena do climax, por exemplo, e as consequências que esta traz, conseguem acentuar melhor todo o aspeto crítico que Coppola retirou do romance e quis passar eficazmente para o Cinema. No fim de contas, este «O Grande Gatsby» é uma boa adaptação, e não conseguindo fugir desse "rótulo" (repito: com um livro destes como "alvo" isso é impossível!), torna-se aos nossos olhos um filme inteligente e criativo, e que deve ser urgentemente "recuperado" da memória dos cinéfilos e dos críticos. É que temos em mãos um filme algo subvalorizado...

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Comentários

  1. Parabéns Rui por mais uma super, super crónica cinematográfica. É interessante ver um miúdo de 17 anos a falar como um crítico especializado sobre filmes que a juventude atual nem sequer imagina que existem.
    Por isso, só te posso dizer...continua com este projeto, estás a ir muito bem.

    Quanto ao filme em si, concordo com quase tudo que escreveste. É um filme muito fiel ao livro original, mas é falhado nalguns pormenores. E claro a versão atual está na berra, fazendo com este pequeno filme de quase 40 anos seja remetido para um remoto canto da nossa memória.

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    Respostas
    1. Muito Obrigado Cristina! Espero continuar nos próximos tempos, mesmo que de forma não tão contínua... Mas entretanto já tenho 18... :p

      Não é um filme perfeito mas até é bom, e pus na crítica aquelas que, para mim, foram as maiores falhas desta obra, que vale a pena ser ressuscitada, apesar do hype da do senhor Luhrmann! :)

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  2. É uma adaptação melhor do que lembrava. Revi ontem, e até gostei, achei um bom antídoto ao barroquismo e pompa da versão recente do Luhrmann.

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