sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O Espantalho (Scarecrow) [1973]


Dois anos depois de ter apostado no ator Al Pacino como protagonista do seu anterior filme, «Pânico em Needle Park», uma história obscura e ainda muito atual sobre o mundo e o uso da droga (a obra que revelou verdadeiramente o intérprete e que levou Francis Ford Coppola a querer contratá-lo para «O Padrinho»), o realizador Jerry Schatzberg volta a ter Pacino num projeto seu, desta vez, uma trama cómica, com algo de drama, a ser co-protagonizada também por Gene Hackman. Ambos os atores já se tinham tornado conhecidos do grande público pelos seus papéis em fitas de grande êxito nas bilheteiras e igualmente vencedoras de Oscares (Hackman, em 1971, em «Os Incorruptíveis Contra a Droga» e o seu galardoado "Poppeye" Doyle, e Pacino no trabalho de Coppola, ao qual ofereceu uma poderosa performance como Michael Corleone no primeiro capítulo da saga da família italo-americana - facto curioso: no ano seguinte ambos os atores trabalhariam para Coppola, em dois projetos distintos estreados e nomeados para prémios no mesmo ano, «O Vigilante» e «O Padrinho - Parte II», respetivamente), mas não deixa de ser relevante a forma como se entregam, de corpo e alma, a este filme de não tão grandes dimensões cinematográficas, mas repleto de Humanidade. Talvez por isso o Festival de Cannes lhe tenha atribuído o Grande Prémio do certame, porque é nesse patamar que «O Espantalho» sai vencedor, além das grandes performances e do bom argumento que tanto possui de simbolismo como de encanto(s), sendo uma fita moralista, mas que não cai no domínio da "pieguice" por causa dessa sua faceta. Muito pelo contrário: tal como os clássicos realizador, por exemplo, por Frank Capra, esse ingrediente assenta-lhe que nem uma luva.


«O Espantalho» é a história de dois "outsiders" em busca de melhores dias: Lionel (Pacino) é um marinheiro, regressado a terra após cinco anos no mar, e Max (Hackman) é um ex-presidiário que sonha abrir um negócio de lavagem de carros, projeto esse para o qual investiu durante muito tempo, inclusive aquele que passou atrás das grades. Tal como muita coisa desta vida, as duas personagens encontram-se de uma forma que nenhuma delas esperava (e será que se trata de coincidência ou de uma mera atuação do Destino? - a eterna questão) e acabam por ser amigos, muito improváveis, é certo. Porque ao passo que Lionel é uma pessoa descontraída, bem-disposta e que acredita no poder do Riso e do Humor (como diz o "outro", a rir é que a gente se entende) para um melhor entendimento entre as pessoas (aliás, o título do filme - não querendo revelar muito - advém de um exemplo que, para ele, comprova a sua teoria, que tanto pode ter de lógica como de patética, depende dos gostos), Max é resmungão, por vezes violento (sendo essa a razão da sua estadia na prisão) e pouco aberto às pessoas que lhe são desconhecidas. Duas maneiras de ser diferentes aproximam e afastam estes dois homens desde o princípio ao fim de «O Espantalho», culminando a fita num desfecho trágico e que poderá, para alguns, tornar esta dupla ainda mais humana. E se Al Pacino tem tanto de hilariante como de tocante, Gene Hackman não lhe fica atrás, por mostrar tão bem a psicologia da sua personagem nas diferentes fases por que esta passa (e sim, em certas alturas ele rende-se ao entusiasmo de Lionel), nesta história sobre o preço que pagamos pelas atitudes que temos, tanto para o bem como para o mal. Porque por vezes as nossas boas intenções podem não corresponder aos desejos de outros, «O Espantalho» é um bonito filme, agradável, sobre atitudes e a alegria que faz a vida, apesar da mesma ter coisas tristes que nem a boa disposição, ao que parece, não consegue suprimir. Mesmo sendo simples em quase todas as suas "secções", além das já citadas (e destaque também para a fotografia, muito bem trabalhada - mas por vezes dá um certo estilo ao filme que parece não lhe pertencer), «O Espantalho» é um achado raro do Cinema Americano, cheio de boas intenções para transmitir aos espectadores. E consegue concretizá-las, por possuir esse toque tão especial e tão humano.

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