segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Lenny [1974]

 
«Lenny», o filme biográfico sobre a vida e a carreira de Lenny Bruce, um dos comediantes mais irreverentes e provocadores da escola americana da arte de fazer rir, é o retrato de uma geração. É a ascensão, a queda e o reconhecimento de um comediante que ousou ser ousado - e que, por isso, sofreu muitas graves consequências dos seus atos (e dos seus ditos) provocatórios e, em muitos casos, constrangedores e polémicos. Filmado a preto e branco, o que realça muito a história dramática e muito urbana que foi a vida de Lenny Bruce e dos seus espetáculos noturnos e corrosivos, tem Dustin Hoffman numa das suas melhores e mais surpreendentes interpretações, contando algumas partes significativas da vida do stand up comedian inimigo público n.º 1 da moral e dos bons costumes, a partir de uma peça que mistura o real e o ficcional na personalidade de Lenny, não deixando por isso o realizador Bob Fosse (o homem do espetáculo na Sétima Arte, que dois anos antes fez o filme «Cabaret: Adeus Berlim») de executar um filme de grande qualidade. Porque o Cinema nunca pode ser "a" realidade, mesmo que se inspire nela (e nisto lembro-me de uma certa crítica da Time Out ao «Lawrence da Arábia» - é alarvidades daquelas que me fazem pensar que eu até escrevo alguma coisa de jeito), «Lenny» tenta dar aos espectadores, e com muito mérito, uma lição que a Humanidade já nos mostrou tantas e tantas vezes, mas que continua a ser importante estar na nossa mente: a fama e as suas consequências. Contudo, é hoje em dia que Lenny Bruce está mais popular do que nunca, mesmo tantos anos após a sua morte - as gravações dos seus espetáculos (ou das suas reflexões existenciais cómicas, por outras palavras) circulam em dezenas de vídeos no YouTube e noutros sites de coisas que se tornam virais de um momento para o outro - e o seu espírito de provocação e de questionar os códigos de conduta da sociedade (o que o tornou um pseudo-guru da sua época) continua a suscitar debates e polémicas acesas, onde o valor da liberdade de expressão é sempre questionado pelas mais diversas correntes de opinião. E é dessa liberdade que se fala também em «Lenny», da luta do comediante pela divulgação da sua comédia, num país onde reinam muitos conservadorismos "ditatoriais" (porque só quem quer ver Lenny, ou ouvi-lo, é que o faz - ninguém que se oponha a isso é obrigado a fazê-lo). E descobrimos mais coisas sobre ele (ou pelo menos, sobre o seu "eu" do retrato cinematográfico) pelas entrevistas feitas por um jornalista às pessoas que com ele conviveram (a mulher, o manager, a Mãe, etc), intercaladas por vários momentos das suas atuações e de momentos da sua atribulada vida privada (que foram uma grande inspiração para as suas ideias cómicas extravagantes). «Lenny» tornou-se um filme um pouco esquecido nos últimos anos, e talvez, não muito justamente avaliado pela crítica da sua época. Porque hoje permanece como um retrato muito interessante e perturbador de uma figura ímpar da comédia americana da contemporaneidade.
 
 
Se se notar nas partes dos espetáculos de Lenny Bruce que são apresentados no filme, as reações das diferentes pessoas que a eles vão assistir. Quão diferentes seriam hoje em dia, se o comediante estivesse agora a começar a sua escalada para a fama? Muito pouco, porque a sua irreverência continuaria a chocar Hoje. E bem. «Lenny» fala de um homem que só queria afirmar-se no meio dos "zés-ninguém" que abundam no Mundo, mas a vida atribulada e o início de uma relação de "amor" com as drogas tornam-no decadente, devendo uma parte da sua popularidade da época pelos múltiplos escândalos em que se envolveu. Ganhou um grande culto e foi preso, por diversas vezes, pelas obscenidades ou provocações dos seus espetáculos. Mas ao arriscar, pela liberdade de expressão, a sua pele em sucessivos julgamentos (que também ocupam umas boas cenas desta fita), Lenny adquiriu mais e mais fama e publicidade - que é o que, sejamos sinceros, todo o artista ambiciona (mesmo os mais desconhecidos do público e que afirmam gostar dessa posição). «Lenny» é a queda de uma estrela, que estragou a sua vida e viu arruinar-se psicologicamente de um momento para o outro, e este não é um "biopic" normal: apesar de uma estética de realização algo ultrapassada e demasiado metida nos 70's, o filme possui uma montagem extraordinária e uma estrutura narrativa não-linear (com algumas pequenas - e insignificantes - falhas) e é impressionante e, dependendo dos gostos, chocante, e cria-nos uma proximidade muito palpável da ação cinematográfica. «Lenny» é um filme notável, subestimado, e recomendado para todos os fãs de Lenny Bruce e para quem gosta do bom Cinema Americano que quer arriscar e fazer-se ouvir sem precisar de ser altamente dispendioso e vazio de ideias. Dustin Hoffman esteve nomeado para o Oscar para este filme, mas não ganhou o prémio. Mas este papel vale muito bem pelas duas interpretações pelas quais o ator arrecadou as estatuetas da Academia...
 
* * * * 1/2

2 comentários:

  1. Este é daqueles filmes que eu ando há uma data de anos para ver.

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