Capote [2005]


On the night of November 14th, two men broke into a quiet farmhouse in Kansas and murdered an entire family. Why did they do that? Two worlds exist in this country: the quiet conservative life, and and the life of those two men - the underbelly, the criminally violent. Those two worlds converged that bloody night. 

Truman Capote é, inquestionavelmente, uma das figuras mais marcantes e controversas do século XX na Literatura e na sociedade americanas. A personalidade extravagante e desequilibrada do autor de «Breakfast at Tiffany's», repleta de manias e características pouco comuns no ser humano, foi muito bem transposta para o ecrã nesta fita biográfica de Bennett Miller (que realizou em 2011 «Moneyball - Jogada de Risco», um filme recomendável), e protagonizada por Philip Seymour Hoffman (num papel irreconhecível que lhe valeu o Oscar, bem merecido, nesse ano) que se centra nas peripécias vividas pelo escritor, e testemunhadas em grande parte pela sua grande amiga Harper Lee (que, de um momento para o outro, encontrou a fama ao publicar o seu livro «To Kill a Mockingbird», vencedor do prémio Pulitzer nesse ano, e que já foi editado com variadíssimas traduções em português e que originou a igualmente famosa adaptação cinematográfica protagonizada por Gregory Peck - que levou o Oscar para casa, graças ao advogado sulista Atticus Finch), que o levaram a escrever a obra que, para muitos estudiosos, é a sua obra-prima, «A Sangue Frio», sobre um caso real do assassínio impiedoso de uma família do Kansas por dois homens, e que o mudou para sempre. Capote interessou-se pelo estranho acontecimento e, ao querer saber as razões dos acontecimentos daquele dia 14 de Novembro de 1959, acabou por mudar a sua vida para sempre. Aliás, foi por causa da experiência algo traumática e frágil que Capote vivenciou nas investigações que fez para este livro, e a relação de proximidade que estabeleceu com um dos criminosos, Perry Edward Smith, que o autor nunca mais conseguiu acabar nenhum outro romance. Capote entrevista também testemunhas do incidente e pessoas próximas das vítimas daquele horroroso massacre, mas é em Perry que ele acaba por se interessar mais por se identificar tanto com ele, apesar de querer manter uma certa distância, já que Truman tem uma imagem social e literária para manter (e espera conseguir isso com a sua visão do homicídio em «A Sangue Frio»), e isso vê-se bem na forma como esconde do condenado à morte tudo o que está a escrever no livro e as suas intenções com o mesmo. Quer Capote salvar aquelas duas pobres almas ou, simplesmente, continuar a alimentar o seu crescente e planetário sucesso?


Truman Capote levou a sua pesquisa, e a sua escrita, ao extremo para «A Sangue Frio», e é isso que o filme nos mostra, à medida que aprofunda cada vez melhor esta personagem e a sua importância para a época em que viveu. Com um romance que, pelo que dizem, mudou a literatura americana, e que com o qual Capote inventou um nome género literário (a "non-fiction novel"), pelo que ele próprio afirma nesta obra. Ele aproveita-se de Perry para concretizar a sua "pepita" de ouro que tanto quis alcançar em toda a sua carreira literária e profissional, mas também mostra alguma da sua intimidade, parte das características que, pensa ele, a sua "capa" social consegue esconder, graças à fragilidade que encontra em Perry e na sua história de vida, tão parecida com a sua. «Capote» é a história do criador que fica afetado pela história que o leva a criar algo de novo, e que faz com que toda a hipocrisia, o fingimento e a cobardia perante os outros que Capote emanava, e que faziam parte da sua "persona" literária muito vincada (e quase de fachada - basta ver os maneirismos e as conversas superficiais e a parecerem que são muito interessantes que Capote tem com os seus convivas ou com as pessoas que conhece por causa deste caso), se desvaneçam pelo choque profundo que o escritor sentiu ao tomar contacto com esta curiosa, e provocadora situação. Com uma ótima fotografia e uma reconstituição invejável de uma época tão deliciosamente interessante, a nível cultural, nos Estados Unidos da América, e acompanhado por um sólido argumento, inteligente, sensível e engraçado em doses certas, salpicado também por bonitos momentos de banda sonora, de performances e de "estilo" cinematográfico, «Capote» constituiu uma nomeação curiosa e interessante da Academia, no ano em que «Colisão», de Paul Haggis, foi o grande vencedor da cerimónia. Não é um filme para ganhar prémios, mas sim para ser visto e para se entender melhor uma personalidade tão curiosa do panorama artístico americano, e que utiliza para isso o melhor que o Cinema tem para oferecer na técnica, na arte e na narrativa. «Capote» é uma película essencial para os admiradores de «A Sangue Frio» ou de qualquer outra obra do autor, sendo uma fita que nos ajuda a entender como a escrita, e a própria arte no geral, são muito condicionadas pelo autor que a quer pôr em prática.

* * * * 1/2

Comentários

  1. Um grande character study com um dos melhores actores da actualidade, Philip Seymour Hoffman. Gosto como descreves que Capote tira benefícios de se aproximar do criminoso, mas também se sente genuinamente tocado e vulnerável, cai-lhe a máscara. Já agora, recomendo também o In Cold Blood do Richard Brooks (1967).

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    1. Obrigado! :) Vou ver o filme mas primeiro quero ler o livro, comprei-o há uns tempos numa feira do livro das estações de metro por 1,50€! :)

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  2. Gostei muito deste filme. Mas o livro... o livro é qualquer coisa de extraordinário. Embora eu goste do Capote, parece-me que este livro é um caso à parte, muitíssimo superior aos outros.

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    1. Obrigado pelo comentário Pedro! Tenho de ler o livro... :)

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