Anatomia de um Crime [1959]


«Anatomia de um Crime», uma obra realizada por Otto Preminger e protagonizada pelo inigualável e inesquecível James Stewart, é um clássico dos filmes de tribunais (ou "courtroom dramas") e uma boa amostra dos bastidores da advocacia, bem manuseados na arte cinematográfica, tal como as "mexidelas" que se podem fazer na Lei, em benefício de uma ou outra pessoa. Com créditos iniciais de Saul Bass (que deu o seu toque a tantos filmes de Alfred Hitchcock - entre os quais as obras primas «Vertigo» e «Psycho») e com a música de Duke Ellington (um dos maiores nomes do jazz, e que faz também uma pequena aparição no filme, onde as suas sonoridades ficam indissociáveis da trama e do ambiente, com um uso de sombras e de luz muito especial, criado por Preminger), «Anatomia de um Crime» é a história de Paul Biegler, um ex-promotor público que está meio "decadente" por se ter reduzido a casos insignificantes e que não dão muito trabalho a serem resolvidos. Mas ao aceitar um grande desafio (que será o mote de todo o filme: um julgamento que envolve violação e assassínio), Biegler volta às luzes da ribalta, proporcionando um "show" jurídico através da análise detalhada de um caso que parece muito simples e que tem tudo resolvido, mas que vai dar mais trabalho (nomeadamente, em termos de pormenores do Direito e de certas pontas soltas de uma história da qual sabemos quem são os culpados) do que se poderia pensar.
 
 
As melhores cenas de «Anatomia de um Crime», e porventura as mais icónicas da fita de Otto Preminger, são as que envolvem o longo e competitivo julgamento onde Frederick Manion (Ben Gazzarra, numa interpretação que nos deixa duvidosos das suas verdadeiras intenções em grande parte do filme - aquela cara de mau do seu personagem não ajuda a que os espectadores simpatizem com ele, o que é interessante) é o arguido e principal acusado do crime em jogo nas barras do tribunal. E além disso, há a guerra de advogados, moderada por um juiz que tem algumas reservas em relação a um caso que levanta alguns temas tabu da plateia presente na audiência (e que eram também - e continuam, em parte, a ser - os temas controversos de uma sociedade americana mais atual): Paul Biegler, da defesa, e Claude Dancer (George C. Scott numa performance digna de Oscar - e por acaso foi uma das nomeações para o Prémio da Academia de sete que a obra recebeu, mas não ganhou: o épico «Ben-Hur» foi o gigante vencedor dessa temporada). Este segundo está mais interessado em ganhar o caso propriamente dito (e, assim, melhorar a sua reputação social e profissional) do que chegar à Verdade dos factos, uma característica muito comum de advogados de "courtroom dramas", mas que infelizmente, não deixam de ser muito verdadeiras, enquanto que Biegler tenta ele próprio perceber, afinal, onde toda aquela história intrincada e suspeita vai acabar por fazer sentido para além da sua própria cabeça e dos juramento a ele prestado pelo acusado. E afinal, onde está o bem? Na Lei ou na realidade que, em muitos casos, não pode ser provada segundo os termos da Lei? E mais, onde está a verdadeira Justiça em casos não tão vulgares (como é o caso do deste filme) onde o crime gera outro(s) crime(s)? O resultado do julgamento só se saberá no final do filme mas acho que em «Anatomia de um Crime» é muito mais interessante o percurso para a meta, tão bem elaborado e tão cinematograficamente cativante, do que o fim propriamente dito. Este é um filme que não pede só para o vermos até ao fim na necessidade de sabermos como esta história tão curiosa acaba, mas para o espectador poder acompanhar toda a escalada e os acontecimentos que condicionam o desfecho da fita.
 
 
«Anatomia de um Crime» é um filme notável, por além de ser extremamente longo mas, e apesar de um assunto que poderia tornar-se monótono, nunca cansa e está sempre "vivo" durante o seu visionamento, constituiu um marco forte na representação da América no seu próprio Cinema, sempre mais tradicionalista e defensor de fortes (e na maior parte dos casos, exagerados) conservadorismos. No filme são postos temas então delicados na discussão do julgamento (e que, quando são mencionados, é de notar as estranhas reações dos espectadores da sessão de Justiça - e argumentação, a base essencial do Direito -, que se riem das palavras constrangedoras de uma forma ridícula e muito ingénua) e, em parte, isso ajudou a afetar, para o bem, o espírito do Cinema dos "states" e para um contínuo progresso de abertura e liberdade de expressão na Sétima Arte do país (que viria a culminar, em grande, com o espantoso "boom" trazido pela geração da Nova Hollywood, com nomes como Martin Scorsese, Brian de Palma e Francis Ford Coppola). Mas razões históricas e culturais à parte, «Anatomia de um Crime» permanece um grande filme e vê, felizmente, a sua reputação crescer cada vez mais com o passar dos anos. Além de ser entretenimento inteligente e socialmente importante, esta é uma boa lição para todos os que queiram ser advogados: é mais importante fazer bem o trabalho que nos compete e que achamos que tem de ser feito, do que lutar, através de métodos superficiais e hipócritas, por coisas que não acreditamos e que só utilizamos para nosso próprio proveito. E não é preciso um curso para se saber uma coisa destas...
 
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P.S - Para os interessados, o filme está disponível para visionamento gratuito no YouTube com legendas em inglês.

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