Aguenta-te Canalha! (Giù La Testa) [1971]


«Aguenta-te Canalha!», que nas Américas do Norte tanto é conhecido como «Duck, You Sucker!» (o seu título original, que referencia uma catch-phrase de um dos protagonistas do filme), como por «A Fistfull Of Dynamite» (um título engendrado para fins de marketing - talvez a semelhança de título com o primeiro tomo da Trilogia dos Dólares, que foi tão lucrativa, pudesse dar um impulso importante às receitas de bilheteira desta fita), como ainda por «Once Upon A Time... The Revolution» (este título publicitário até faz mais sentido, visto que, antes de «Aguenta-te Canalha!», o seu realizador tinha feito, alguns anos antes, essa obra prima que dá pelo nome de «Once Upon a Time In the West»), é o filme intermédio da segunda trilogia elaborada por Sergio Leone, o senhor dos westerns spaghetti e possuidor de uma visão cinematográfica épica, poderosa e completamente genial. Após o enorme sucesso das aventuras de Clint Eastwood pelas mãos do cineasta italiano, Leone decidiu, nas suas próprias palavras, criar uma nova trilogia, que falasse mais da evolução da América desde o final do século XIX (no fim da época do "far-west", onde os novos meios de comunicação, como o comboio, e a evolução dos povos americanos fecharam todos os mitos e lendas criados pela "era dos cobóis"), passando ainda pela revolução mexicana de 1913 (neste «Aguenta-te Canalha!) e culminando naquela que é, para mim, a obra maior de todas: «Era Uma Vez na América». Duas grandes personagens, interpretadas pelo mítico James Coburn e pelo surpreendente Rod Steiger (sim, surpreendente se tiverem visto, antes desta fita, uma outra em que este ator participou: «Há Lodo No Cais» - não parece mesmo ser uma só pessoa a fazer estes dois papéis tão distintos!) numa história de explosões, tiros e política, onde o centro de tudo é a amizade entre  John (Coburn), um terrorista irlandês especialista na arte de explodir, e Juan (Steiger), um revolucionário mexicano, e tudo isto bem polvilhado por mais uma fantástica e inesquecível banda sonora do Grande Ennio Morricone, num western "zapata" onde tudo pode acontecer a qualquer momento. Apesar da política ser uma forte componente do filme, não é ela que o sustenta, mas sim a incrível química entre os dois protagonistas e todas as aventuras que eles vivem durante as turbulências durante aquela época, onde estão acentuadas as diferenças entre os estratos sociais e onde o atraso social e comunicacional (os meios para tal são escassos).


«Aguenta-te Canalha!» abre com uma citação de Mao Tsé-Tung (retirada das versões "retalhadas" pelas distribuidoras, para conseguirem angariar mais dinheiro com a fita) que termina com a afirmação "A Revolução é um ato de violência". E é tudo isso que testemunhamos no filme. OK, sabemos que, talvez, o contexto em que Mao quis dizer isso de uma outra maneira, enquadrando-a na situação da China, mas se a soubermos enquadrar na obra cinematográfica, a frase tem o seu significado. As personagens questionam muito o valor das Revoluções para a alteração das coisas. Será que todas as conspirações, atentados e sacrifícios humanos que são feitos em prol da pátria servirão para alguma coisa, ou o ciclo manter-se-á igual e impossível de ser alguma vez alterado? E será que o egoísmo humano suplanta sempre o interesse comum? Porque, no início, a relação de John e Juan cimenta-se por uma mera questão interesseira de ambos: ganharem dinheiro. Mas no fundo, acaba por formar-se uma amizade entre estes dois homens tão diferentes, em termos de cultura e de estrato social. E sim, isto é um cliché, e talvez um dos modelos narrativos mais utilizados na História de todas as Artes. Mas há as formas plásticas e as formas tocantes e inigualáveis de se retratar um certo tema que podem fazer com que este ganhe novos contornos. Para mim, é o que sucede em «Aguenta-te Canalha!», e mais tarde, de uma forma ainda mais profunda e dramática, em «Era Uma Vez na América». Mas felizmente, cada um destes filmes de Sergio Leone valem por si e, como são completamente distintos uns dos outros, são injustas quaisquer comparações que se possam fazer entre essas peças de Grande Cinema. Mas em todos temos características comuns, que são o espírito da cinematografia leoniana: os obsessivos close-ups, a ânsia de criar cenas que possuam muito de épico e de grandioso mesmo nos mais pequenos pormenores de cada situação, a fabulosa inspiração/concretização musical de Ennio Morricone... há tantos pormenores e tantas ideias de um génio do Cinema a jorrarem em «Aguenta-te Canalha!» que o filme tem de ser visto com uma atenção especial ao detalhe e à feitura de cada cena. Porque, mesmo com a cobertura de ser uma história que envolve política, ela não torna a fita num panfleto ideológico, já que Leone aproveita para criticar ambos os lados da medalha do caso mexicano: o povo pobre e inculto e a elite abastada e autoritária. E mesmo assim, Leone só queria, mais uma vez, aproveitar esta história para dar largas à sua imaginação e torna-la completamente sua (não consigo imaginar esta narrativa nas mãos de outro realizador - seria completamente distinta), fornecendo-lhe o seu espírito e a sua visão cinematográfica, que conseguia a qualquer história (mesmo que fosse a mais banal possível) um "cheirinho" especial.


«Aguenta-te Canalha!» é talvez o filme mais "porcalhão" de Leone, onde a repugnância dada pela veracidade do estado dos personagens (algo que não acontecia muito nos westerns americanos) é levada quase a um nível extremo... exceto, talvez, o facto de lavarem todos muito bem os dentes naquela época (estão tão branquinhos!). Mas não é isso que interessa para esta análise, mas serve mais como "fun fact" sobre este filme, onde a comédia ganha novas proporções no estilo de Leone, no meio de algumas situações bizarras e muito ruidosas (por causa, lá está, dos tiros e das explosões) onde a hipocrisia governa em todas as atribulações presenciadas por John e Juan, que põem em causa os seus ideais e aquilo que querem para as suas vidas. Em flashback contam-nos as origens de John, mais enigmática e complexa que a de Juan, num filme de grande e glorioso entretenimento e divertimento. Talvez «Aguenta-te Canalha!» esteja entre o lirismo de «Aconteceu no Oeste» e a ação e a aventura de «O Bom, o Mau e o Vilão», e ainda bem, porque resulta de uma forma muito satisfatória e cinematograficamente sensacional e que, felizmente, começa a ser valorizado e a ser posto ao lado das grandes obras de Sergio Leone, que nos deixou tão poucos filmes, mas que têm tanto para dizer e para sentir.

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