quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Adeus, Rapazes (Au Revoir Les Enfants) [1987]


Vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza em 1987, «Adeus Rapazes» é um filme belíssimo, uma obra prima do Cinema mundial realizada por Louis Malle (e que fala, nesta película, de uma experiência que tem muito de autobiografia e de realidade) e que nos fala da amizade entre dois rapazes durante a II Guerra Mundial. Por alguns visto como uma espécie de sequência de «Os Quatrocentos Golpes» pela maneira como filma o ambiente escolar em que giram todas as personagens. «Adeus, Rapazes» não é uma história de um rapaz que, tal como Antoine Doinel, se quer ver livre de tudo e de todos, escapando à escola, aos Pais e à autoridade. Esta é a história de Julien Quentin (Gaspard Manesse), um garoto que vai passar mais um ano de aulas num colégio católico interno francês (instalado - dado curioso - dentro de um antigo Convento), em pleno conflito e com o país já ocupado pelas forças nazis, comandadas pelo implacável Adolf Hitler. Aí conhecerá Jean Bonnet (Raphael Fejtö), um rapaz com origens desconhecidas e obscuras, que é protegido pelos professores e superiores do estabelecimento escolar, arriscando as suas próprias vidas por uma causa humana maior do que toda e qualquer guerra, e que muitos apoiam de uma maneira fervorosa (dentro do Clero professoral do colégio, há quem faça parte da Resistência e tudo!). Perante os conservadorismos da época e os perigos causados pela ameaça do nazismo e da ocupação da França pela Alemanha, Jean e Julien, e todos os seus colegas de escola, são o mote para um filme triste e engraçado em certas partes, e é curioso que «Adeus, Rapazes» não seja uma das obras mais frequentemente citadas quando se fala no Holocausto no Cinema... porque é um Grande filme, sobre o tema e sobre a humanidade e, ainda, sobre o próprio Cinema e o seu valor em tempos mais difíceis (uma cena em que se faz uma projeção para a rapaziada, com o filme «O Emigrante», de Charles Chaplin, é muito reveladora disto, tal como a larga importância e influência que o genial cómico teve na época, provocando sorrisos e gargalhadas a todos os seus milhões de admiradores, que se identificavam com o pobre vagabundo Charlot). Não é a sequela do filme de Truffaut, uma ideia proposta por teóricos da Sétima Arte que mais nada sabem fazer do que inventar, lá está, teorias, mas algo muito mais profundo do que isso: sim, tem como protagonista um rapaz, numa escola que não lhe chama muito a atenção e onde se mete, tal como muitos dos seus colegas, em valentes sarilhos e complicações estudantis. Mas «Adeus, Rapazes» é muito mais uma obra sobre a força do ser humano, o medo (que pode tocar a todos, independentemente da crença) e a maneira como o Bem e o Mal se confundem constantemente na nossa vida, e do quão difícil é perceber a Verdade das coisas em diversos momentos da nossa existência.


Uma faceta curiosa, e quase "documental", diria, que «Adeus, Rapazes» nos proporciona, é toda a vida escolar e recriativa que os alunos têm naquele colégio, que apesar de ser tão lastimoso e duvidoso (em termos domésticos e das fracas condições que dispõe para os seus usuários - Julien e companhia queixam-se constantemente da comida, por exemplo) e conservador e retrógrado em certas coisas (um pouco a fazer lembrar o Estado Novo e os seus métodos de educação/religião - mas o nosso país foi neutro na II Guerra, e por isso este caso é outro), "obrigando" os alunos a cumprirem certos atos religiosos excessivos muito contra a sua vontade, os seus mentores e professores não conseguem esquecer as máximas do Cristianismo puro (e que estão muito esquecidas hoje em dia, infelizmente...), tão bem passadas por Louis Malle que nos dá uma visão objetiva e múltipla sobre as opiniões e as características daqueles moços tão distintos que habitam aquele local todos os dias. Há uma cena, que é uma das minhas favoritas do filme (além da narrativa que vai envolver a personagem de Jean Bonnet - e mais não digo) que nos mostra esta preocupação pela defesa dos valores cristãos e, mais importante ainda, dos direitos humanos: o discurso/a homilia de um dos padres do colégio, numa missa especial feita para os Pais dos meninos (que, na opinião de um deles, é o único dia no ano letivo em que a escola se aperalta toda para causar uma boa e falsa impressão junto dos visitantes, nada correspondente à realidade), num dia especial para todos eles porque vão rever finalmente os familiares, e que acaba por "chocar" muitas mentes parentais que assistem a essa dita missa, pela sinceridade tão forte das palavras do sacerdote. Mas distante de querer ser um filme de religião, «Adeus, Rapazes» é uma fita de atitude e de atitudes. É uma magnífica peça de Cinema, de uma rara sensibilidade, que toca a todos por ser tão humana e por nos fazer lembrar, de uma forma tão simples, outros tempos, mais conturbados e difíceis, onde o futuro de muita gente ficou incerto por causa de uma guerra sem pés nem cabeça. Louis Malle recontou a sua vida, ou melhor, uma parte dela, através destes seus personagens, tão interessantes e encantadores, que nos mostram a intemporalidade do ser humano, e das "aventuras" que vive, para qualquer geração. «Adeus, Rapazes» nunca perderá o seu tom de comédia, nem muito menos a inacreditável tragédia social que aborda nos seus fotogramas... É uma obra que tem de ficar para sempre bem guardada, por ser um grande tesouro das fitas.

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2 comentários:

  1. É um filme que gostei muito de ver e que tenho de rever um dia destes. Curiosa a comparação com o 400 Golpes do Truffaut.

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    1. Vale mesmo a pena voltares a ele Ricardo! :) A comparação não veio da minha pessoa, foi das pesquisas que fiz sobre o filme antes de escrever sobre ele. Uma opinião que segui foi a do Roger Ebert, que estabelece algumas semelhanças entre o filme de Truffaut e este.

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