Os Grandes Aldrabões (Duck Soup) [1933]


O pantomineiro Harpo, o engenhoso Chico, o sarcástico Groucho e o mais sério e menos extrovertido Zeppo: estes são os irmãos Marx, um dos mais famosos grupos de comédia da cultura popular do século passado e, sem dúvida, o mais marcante dos anos de ouro desse género cinematográfico do Cinema Americano. São, sem dúvida, uma das minhas maiores influências humorísticas. E apesar das novas gerações quererem constantemente "apagar" o fantástico legado que o passado nos deixou (e que é tão importante para percebermos e construirmos o presente), é indiscutível a influência do grupo nos media atuais e nas maiores referências da comédia do século XXI que comandam agora o Mundo (uma das mais evidentes é a série «Family Guy», cujo criador, Seth Macfarlane, assume-se um grande fã da comédia "slapstick" e irreverente de Laurel e Hardy e dos Marx, entre outros - veja-se o episódio "Road to Germany", em que se faz uma paródia, em circunstâncias completamente anormais, da famosa cena do espelho de «Duck Soup», que, não sendo totalmente original do grupo, não deixou de a eles ser associada). O poder dos Marx não envolvia os argumentos dos filmes em que participavam: bastavam aparecerem e fazerem as patetices a que estamos habituados a neles ver. O filme poderia não ter mais do que, como conteúdo, uma constante improvisação por parte dos quatro irmãos, envolvendo as maiores maluqueiras e excentricidades que tão bem caracterizam o estilo cómico do grupo - e é esse o poder das grandes estrelas, dos grandes artistas da História da Humanidade - mas em «Duck Soup», somos brindados também com um argumento hilariante, uma sátira irónica e grotesca à política, às suas idiossincrasias e à(s) idiotice(s) que levam a que se sucedam muitas das guerras que o Homem criou. Este é o filme mais aclamado dos Marx, e um dos muitos que se renovou ao longo dos anos (tal como, por exemplo, «Uma Noite na Ópera» e «Um Dia nas Corridas», só para citar outras duas fitas tão emblemáticas - e cujo revisionamento é para mim urgente), sem perder um toque da sua genialidade. Ah, e «Duck Soup» tem também uma parte musical, completamente parva (o que, num filme dos Marx, é algo ótimo), acabando por fazer outra paródia, mas a esse género de filmes que, à época (estamos no princípio dos anos 30), eram um dos mais apreciados pelas audiências americanas (crescendo mais graças ao nascimento dos "talkies", as fitas faladas, que queriam aproveitar todas as potencialidades desta "nova" tecnologia - acabando os estúdios por cometer, por vezes - e tal como hoje - as maiores excentricidades em troco de grandes receitas de bilheteira). «Duck Soup» é uma grande e hilariante comédia, que foi preparada ao detalhe e onde cada cena, cada segundo e cada frame, foi composto de uma maneira engenhosa e deliciosa (existem partes do filme que custam a acreditar que tenham sido feitas com tanta facilidade como os Marx nos mostram, sempre tão divertidos e tão elétricos - é o fruto de muito trabalho árduo e uma grande dose de talento por parte dos quatro irmãos mais engraçados do Cinema Americano).


De «Duck Soup» e de todas as obras dos irmãos Marx, é indissociável o estilo inconfundível de Groucho, tão célebre pelas suas grandes "tiradas" humorísticas, que reuniu tanto em muitos livros que escreveu ao longo da sua carreira, como nas suas presenças nos inúmeros filmes protagonizados pelo grupo (com as suas imparáveis - e impagáveis - "punchlines" que profere ao longo desta comédia, com a sua escalada pateticamente engraçada para o topo do poder de Freedonia, uma cidade fictícia da qual a sua personagem torna-se no seu líder, ou por outras palavras, no seu ditador). Groucho é a figura mais icónica dos Marx, mas não é só dele (que eu adoro) que se faz a comicidade e a invulgaridade deste grupo. E ainda bem: cada um dos quatro tem as suas engraçadas caracterísitcas, que no final, formam um conjunto muito improvável, mas impossível que não conseguisse bater certo. E a grande lição que «Duck Soup» acaba por ensinar aos espectadores, tal como em todas as outras variadas incursões dos irmãos Marx no mundo do Cinema, é que tudo o que nos rodeia é risível. Podemos, aliás, devemos soltar gargalhadas das coisas aparentemente sérias, porque afinal, e independentemente das nossas opiniões e crenças, tudo pode ser alvo de piadas e ser apelativo para a inspiração cómica de certas mentes brilhantes e inteligentes, como eles, que souberam explorar isso como ninguém, antes ou depois, soube voltar a fazer. E apesar de poder apelar a um estilo de humor que, hoje em dia, muitas pessoas querem distanciar-se, por se tratar de um filme a "preto e branco"  (não percebo a alergia de muitos à ausência de cor nos filmes, muito sinceramente) ou por ser já muito velhinho - e, segundo este raciocínio extremamente lógico, datado (mas a "data" só se revela pelo facto de ter sido feita numa época muito distante da nossa) -, «Duck Soup» é um daqueles filmes intemporais e geniais que continuarão a cativar as pessoas que o descobrirem e que ficarem, tal como eu, radiantes com o seu visionamento. Se hoje ainda se continuam a ler e a comprovar a genialidade de obras literárias com vários séculos de existência, o Cinema não é exceção. E mesmo com a comédia, podemos perceber como era uma época e os gostos da mesma, como também a forma como as gerações têm características que se repetem: muitas piadas de «Duck Soup» são ainda o que muita gente gosta de ver para se rir à grande e à francesa, sem qualquer tipo de moderação...

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